sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A deblaquê



O capitalismo americano treme, e o mundo com ele. O governo Bush anunciou um pacote de medidas que prevê isenções fiscais em torno de US$ 145 bi, que corresponde a 1% do PIB do país, para tentar reanimar a economia norte-americana, evitando um processo recessivo que pode levar a uma crise mundial sem precedentes. E as primeiras vítimas são as economias dependentes, o Brasil incluso, ainda que o país tenha reservas abundantes para segurar o baque, de início. A déblaquê já era anunciada. Há, no mínimo, três anos especialistas já apontavam os riscos que a bolha imobiliária norte-americana representava para a economia global. Simples: bancos financiaram à granel aquisições de imóveis nos últimos dez anos e milhares de unidades foram compradas sem que seus proprietários pudessem honrar seus compromissos, os chamados empréstimos subprime (concedidos em larga escala a setores das classes-médias). Mas não só, a crise norte-americana é também estrutural. O desemprego nos Estados Unidos atingiu 5% em dezembro do ano passado, a maior taxa em dois anos, e a alta do petróleo, a inflação e a queda no consumo têm comprometido as margens de lucro das empresas. Nesta semana, instituições financeiras, que outrora se notabilizavam como sólidas no mercado, apresentaram perdas estratosféricas. O banco Merrill Lynch perdeu US$ 9,83 bilhões no quarto trimestre de 2007. O JP Morgan Chase & Co. fechou o quarto trimestre de 2007 com lucro líquido 34% menor, US$ 2,971 bilhões, ante os US$ 4,526 bilhões somados em mesmo período de 2006. O Citigroup, um dos maiores bancos do mundo, anunciou prejuízo de US$ 9,83 bilhões no quarto trimestre e teve que receber injeções de recursos de investidores asiáticos e árabes para não fechar as portas. As crises cíclicas do capital põem em alerta os entusiastas do neoliberalismo. O corte de impostos anunciado por Bush Jr. certamente resultará na redução dos programas sociais nos EUA. Menos investimentos públicos para que famílias possam consumir mais e abasteçam um mercado ávido em lucros incessantes. Porquanto, a economia brasileira mantém-se blindada, já que o país, além de contar com robustas reservas, aumentou consideravelmente sua inserção em outros mercados mundiais. Mas a situação mantém-se em alerta, e máximo. Os Estados Unidos ainda são os primeiros parceiros comerciais do Brasil e um refluxo de investimentos abrupto da parte deles certamente refletirá numa economia ainda dependente, como é o nosso caso. O capitalismo financeiro globalizado já dá sinais de cansaço, já que os bancos são responsáveis pelo garroteamento da maior parte da economia internacional. Não se descarta, portanto, que ondas de desemprego possam figurar num futuro próximo em escala mundial. Não se pretende aqui apocalíptico, mas a diminuição das ilhas de inclusão social ante o aumento considerável da exclusão representará um quadro sombrio para a conjuntura internacional. Isso porque a defesa do capitalismo assenta-se na natureza acumulativa e não distributiva da riqueza produzida que, com o ralo aberto pela economia norte-americana levará os capitais aos inevitáveis “colchões” para assegurar seus lucros. Não é preciso recorrer a manuais de marxismo para explicar a crise americana. O economista John Maynard Keynes já alertava na década de 30 do século passado os resultados deletérios de economias desreguladas. Reproduz-se agora a crise de 1929 com o agravante de que os fluxos de capitais não mais se sustentam em recursos provenientes do trabalho, mas, sobretudo, da especulação financeira. É o mundo onde os poucos que jogam na bolsa lucram milhões, sozinhos, e quando estes perdem, arrastam consigo o infortúnio de milhões, não de dólares, mas de seres humanos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Não tão brother assim



O ano começou e com ele o pior espetáculo midiático que uma rede de televisão pode exibir: o Big Brother. Há alguns dias fui interpelado por um amigo inteligente e culto de Vitória da Conquista, na Bahia: “Você é radical”. Interpretei a assertiva como uma boa provocação, no melhor dos sentidos. Retruquei-lhe que o ato radical conformava-se em ir à raiz do problema, portanto radical, e que tal atitude não poderia se confundir com o ato da intransigência. Então, este que escreve não está sendo intransigente com o programa global, mas radical, ou melhor, radicalmente contrário. Originário da Holanda, da produtora Endemol, que detém os direitos de exibição, o quadro reproduz sutilmente a fagocitose social mediante o conceito de controle de George Orwell, autor do livro 1984, escrito em 1949, que inspira-se nos regimes totalitários dos anos 30 e 40. Nele, os habitantes da Oceania, país submetido a uma democracia de mentira, vivem um regime totalitário desde que o IngSoc (o Partido) chegou ao poder sob a batuta do onipresente Grande Irmão (Big Brother). É a história de Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade. A função de Winston é reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do IngSoc. Nessa ficção, se alguém pensasse diferente cometia crimidéia (crime de idéia em novilíngua) e fatalmente seria capturado pela Polícia do Pensamento e era vaporizado. Desaparecia. Não é novidade que a Vênus Platinada sempre buscou o pensamento comum a partir do controle ideológico do Jardim Botânico. Toneladas de estudos e teses sobre a história recente do país comprovam sua vontade de vaporizar projetos políticos desafetos aos seus interesses e os de quem a emissora representa. Mas a estratégia do programa Big Brother supera quaisquer outras iniciativas da Globo no exercício do controle social e político. E o faz com maestria de fazer inveja a Josef Goebbles. Da primeira edição à atual, a oitava, o quadro sofisticou-se, a casa dos ratos-em-laboratório ficou mais luxuosa e prazerosa. Concomitantemente, os personagens do programa também foram paulatinamente mudados. Os padrões físicos tidos como “feios”, destoantes da maioria dos participantes, tipos atléticos de rostos fotogênicos, foram limados. Os “feios” e folclorizados freqüentaram a casa até a sexta edição depois que estes passaram a ser potenciais candidatos ao prêmio de um milhão de reais por uma questão de empatia popular. Apresentado pelo mix de jornalista e animador de auditório Pedro Bial, o Big Brother coloca o público telespectador como o júri dos destinos dos candidatos à celebridade. E nesse jogo, vale tudo. A esperteza vil é elevada ao grau de virtude dos integrantes da peleja, já que o passar a perna com “elã” torna-se um dado positivo dos “jogadores”. Conchava-se, agrupa-se, reagrupa-se, trai-se e é traído. Detalhe: aqueles que perpetram tais ações como “bons” ganham os louros do público sobre os “maus”, e, claro, tudo dosado a partir da intervenção editorial da Globo, quem de fato aponta quem é quem. Poucos desconfiam que as supostas batalhas entre os “bons” e os “maus” na verdade dissolve o próprio caráter violento da casa, onde a competição pelo dinheiro deve justificar tudo, “vaporizando” aqueles que desviem da “verdade” construída pelo grande irmão global. “Repórteres” são colocados nas ruas do Rio de Janeiro para aferir a aceitação popular dos participantes, organizando torcidas que encarnam o veredicto de uma suposta vontade geral (que Jacques Rousseau não se revire no túmulo). E para ganhar a bagatela de R$ 1 milhão desfilam-se corpos sarados e músculos com recheios de conversas torpes e sentimentalismos baratos. É o vazio que espelha o mundo de fora, onde o debate sobre o fulgás, o descartável, deve prevalecer sobre questões sérias da sociedade. Dentro da casa-show experimenta-se a liberdade de Oceania, com direito ao sono cronometrado e participações em festas exibicionistas, nas quais a luxúria fantasiosa ganha destaque para atiçar a estratégia mais bem elaborada do programa: o voyerismo em larga escala. É a medida da violência simbólica que coloca cerca de 65 milhões de telespectadores como protagonistas de um enredo que reproduz a violência social na forma de competição sob a batuta do Grande Irmão Global. É como a emissora entende a vida em sociedade.

Retomando o blog....

Após um período de afastamento, o blog Textos ao Vento inicia 2008 com muita disposição e vontade na retomada das atividades. Aqui continuaremos a realizar o trabalho de observação crítica da mídia e novos produtos estarão figurando neste espaço, aguardem! No mais, o ano começou como terminou, até mesmo porque as forças simbólicas que representam os inícios de ano novo, em todas as culturas da humanidade, deparam-se com a dura realidade: transformações não ocorrem por definição de data, sem querer tirar a esperança de ninguém. Continuam os mesmos embates, problemas e buscas de soluções para tais, apenas se “refresca” em um dia que fora eleito para ser cartático, redentor, e assim puder levar embora os maus momentos. Antes fosse. Todavia, limpemos os ciscos, vestígios dos momentos passados, e pensemos maior: que 2008 seja efetivamente melhor que 2007 para toda humanidade. Salute!!!