sábado, 13 de setembro de 2008

Outros setembros não interessam

O golpe no Chile foi sangrento, e esquecido

Na quinta-feira passada a apresentadora Ana Maria Braga – aquela que diverte madames e comenta sobre tudo acerca do nada – iniciou seu programa às 8h da manhã com cenas do atentado às torres gêmeas do wtc, em Nova York, em 2001. Com olhar consternado, a beldade global suspirou e falou: “faz sete anos”. O “sentimento” da apresentadora pode ser entendido como a visão amálgama que conduz boa parte dos meios de comunicação do país sobre o fato. A maioria do aparato midiocrático tupiniquim ainda repercute o episódio no clima “United States under attack” – Estados Unidos sob ataque -, à semelhança da CNN e outros mídias estadunidenses. Mas nada se falou de outro 11 de setembro, o que ocorreu em Santiago do Chile em 1973, o sangrento golpe de estado patrocinado pelo governo norte-americano que depôs o presidente socialista Salvador Allende. Só nas primeiras horas subseqüentes ao golpe mais de cinco mil pessoas morreram. A ditadura no Chile, tendo à frente o ditador-fantoche dos EUA Augusto Pinochet, fez centenas de milhares de vítimas. Também quase nada se noticia sobre a atual empreitada fascista que visa desestabilizar o governo popular-democrático da Bolívia. O país está à beira de um banho de sangue. A normalidade constitucional se encontra ameaçada e o principal “provedor” dos insurgentes, pra variar, é o governo dos Estados Unidos. Na sexta-feira passada 14 camponeses que participavam de uma marcha de apoio ao presidente Evo Morales foram assassinados por grupos paramilitares no departamento de Pando - fronteiriço ao Estado do Acre -, governado pelo direitista linha-dura Leopoldo Fernández. Pando integra a ''Meia Lua'', região do leste boliviano, a mais rica do país, que inclui os departamentos insurgentes de Santa Cruz, Tarija e Beni. La Paz expulsou o embaixador norte-americano Philip Goldberg, o artífice do separatismo. Sua ficha o denuncia. Entre 1994 e 1996, foi chefe da secretaria do Departamento de Estado para assuntos da Bósnia (durante a guerra separatista dos Bálcãs). Entre 2004 e 2006, Goldberg chefiou a missão dos EUA em Pristina (Kosovo), onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, marcada por uma luta que deixou milhares de mortos. São outros setembros, cujos critérios de noticiabilidade a midiocracia brasileira passa à margem. Enquanto isso, a “loura da manhã” continua mantendo-se chocada com os episódios do único 11 de setembro que ela conhece. Assim como a emissora para a qual trabalha.

Crime premeditado



Crônica de uma vilania anunciada. Para quem teve olhos críticos pra ver a edição da revista Veja de nº 2076, identificou um sofisticado estratagema. Com título “Vingança”, a matéria de capa trouxe uma vazia reportagem sobre o tema. Era uma senha. Decodificando-a com atenção, um aviso para o que viria no recheio: a vingança engendrada pelo mix de financista, chefe de quadrilha e espião Daniel Dantas contra as autoridades de segurança da República. Haviam o “incomodado” com a operação Satiagara. A mira de Dantas, por intermédio da Veja, foi Paulo Lacerda, diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ex-diretor-geral da Polícia Federal. Lacerda há tempos andava no calcanhar de Dantas. Apresentando uma suposta gravação envolvendo dois personagens, o senador Demóstenes Torres (Dem-GO) e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, a “matéria” afirmava no enunciado: “Diálogo comprova que espiões do governo grampearam o presidente do Supremo Tribunal Federal. Autoridades federais e do Congresso também foram vigiadas”. O texto não aponta nenhuma linha de investigação e não traz qualquer elemento que indique a Abin como perpetradora da escuta. Sugere ilações, apenas. O delegado afastado da Satiagara, Protógenes Queiroz – a primeira vitória de Dantas -, desafiou a revista dos Civita a provar as supostas escutas. Nenhuma resposta. Mesmo assim, o impacto da matéria foi capaz de catapultar Lacerda do cargo. Foi a segunda vitória de Daniel Dantas. Jornalistas e órgãos de imprensa sérios já se encarregaram de desvendar a trama à exaustão. Vale é entender à luz de alguma análise teórica o estratagema semiótico da Veja. Trata-se de uma obra de “arte” de fazer inveja a Josef Goebbles, ministro da Propaganda de Adolf Hitler. O diretor sueco Peter Cohen, autor do filme Arquitetura da Destruição - que discorre sobre o “enredo artístico” de Hitler para justificar as barbáries por ele praticadas - teria argumentos de sobra para estabelecer uma ponte entre os dois episódios. Parodiando Paulo Henrique Amorim, a “última flor do fascio” agiu com raro senso de engenharia midiática. Cálculo racional. Talvez caso único de crime que se torna perfeito porque assumido e premeditado publicamente. A “arte” de tão bem feita hipnotizou o Palácio do Planalto que despachou Lacerda pra geladeira. E foi capaz também de turbinar a senha arbitrário-golpista de Gilmar Mendes, a ponto de o magistrado querer “chamar o presidente às falas”. Ele mesmo, o Gilmar que presenteou o quadrilheiro Dantas com dois hábeas corpus em menos de 48 horas. Dantas é branco e rico, ele pode. É esperar pra ver quais os próximos nós desse dantesco novelo. Dantas mira Lula, tenham certeza. Queiramos a República não seja incendiada e a culpa recaia nos bodes da ocasião. Esse filme já foi exibido na Alemanha em 1936.