segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Snowden. Ou o fim da utopia cibernética


O subtítulo é uma díade que caprichosamente deixa a resposta com a audiência. Herói ou traidor. Snowden, mais uma obra do cinema político do diretor Oliver Stone, conta a saga do ex-técnico da CIA e da NSA, o analista de sistemas Edward Snowden, que hoje vive exilado na Rússia. Aos 29 anos, o caçador de hackers da Agência Nacional de Segurança estadunidense entendeu que o trabalho que realizava integrava um grande panóptico internacional promovido pela maior potência econômica e militar do planeta.
O jovem programador resolveu vazar a trama para dois grandes veículos internacionais de imprensa, o jornal norte-americano Whashington Post e o diário londrino The Guardian. A atitude provocou grave crise diplomática envolvendo nações de quase todos os continentes. E pôs a diplomacia dos EUA em xeque diante de denúncias que provocaram ainda mais fissuras nas placas tectônicas da geopolítica mundial.     
Ninguém esta a salvo da treta owerlliana. O filme demonstra que não há limites para a bisbilhotagem perpetrada pelos EUA. De um simples executivo do Paquistão a chefes de estado, a exemplo de Hugo Chávez, Dilma Rousseff, Evo Morales, entre outros, os sistemas de espionagem do império desenvolvem tecnologias digitais capazes de invadir contas de e-mails e acessar dados sigilosos de líderes e organizações mundiais. Informações estratégicas à segurança interna de muitos países. Para tal, contam com a parcimônia e colaboração de empresas como a Google, Yahoo, Facebook e outros players. Velhas táticas em novas mídias.
O filme mergulha em pormenores da ciberguerra em curso. Uma tampa aberta de um laptop, mesmo que desligado, é o bastante para transformar a câmera num olho dos agentes da NSA, onde eles estejam. 
Com 2h14 de duração, o longa é estrelado pelos atores Joseph Gordon-Levitt, que interpreta Snowden, e Shailene Woodley, que assume o papel da sua namorada, Lindsay Mills.
Os fatos narrados ocorreram antes da disputa à Casa Branca, no ano passado. Todavia, expõem a postura tragicômica do governo dos EUA ao tentar retaliar a Rússia, culpando-a pelos ataques hackers desferidos à campanha de Hilary Clinton. Bisbilhotar a quem bisbilhota deve incomodar bastante.
Com muitas passagens em narrativa documental e roteiro bem amarrado, o filme também apresenta personagens que têm desempenhado papel relevante no jogo da mídia internacional. Dois deles: o jornalista Glenn Greenwald, interpretado por Zachary Quinto, e a documentarista Laura Poitras, vivida pela atriz Melissa Leo.
Greenwald reside atualmente no Rio de Janeiro e foi o fundador do site noticioso The Intercept Brasil, um dos canais mais atuantes da contra-narrativa midiática ao golpe parlamentar de 2016, que desmantelou a jovem e incipiente democracia brasileira.
Snowden é mais um filme que denuncia o sepultamento do sonho de um amanhecer mundial no qual a Internet teria papel fundamental na construção de sociedades livres e colaborativas.
Não há utopia. A guerra digital é a ante-sala onde tanques e mísseis do século XXI têm se acomodado. A destruição das privacidades antecede a imolação física. Tomando emprestado a Walter Benjamin, a barbárie está ganhando das utopias.      

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Malabarismo narrativo para passar recibo


Mais uma vez a Rede Globo disponibilizou sua artilharia de mídia a serviço do recrudescimento do golpe de abril deste ano. Tanto o canal aberto quanto a Globo News se constituíram em panfletos de convocação à patuscada fascista registrada em diversas capitais que, ao fim e ao cabo, ficou aquém do previsto. 
 Onde se esperava multidões, não foi registrado. 
A estratégia de propaganda consistiu em câmeras postadas em torno de 10 a 15 metros de altura para enquadrar aglomerados de pessoas com o fito de dar grande dimensão ao espetáculo circense-fascista.
Assim se procedeu em São Paulo e Curitiba. 
Em outros locais, os registros foram no chão. Enquadramentos estrategicamente dimensionados para captar faixas e bonecos inflados que remetiam aos clichês de patuscadas passadas. "Fora Dilma"; "Prisão para Lula"; "Viva Moro" etc. 
Nenhum registro de desagravo ao ilegítimo e corrupto Temer. Até mesmo porque este não era o intento das hordas fascistóides convocadas por organizações de extrema-direita, a exemplo do Vem pra Rua e MBL. 
No golpe dentro do golpe Temer já é carta descartada. 
A "sinceridade" do apelo sobrou para outra peça terminal do golpe, o presidente do Senado Renan Calheiros, de quem foi pedida a cabeça. 
Agora marcha-se rapidamente para reduzir direitos sociais e sufocar as liberdades. O PSDB deve encontrar o terreno devidamente capinado. 
Neste 2016 os fuzis e as botas deram lugar às togas e ternos dos juízes e promotores, as vedetes das turbas. Eles querem poder irrestrito para barbarizar ao bel prazer. E a Globo apóia. Assim como apoiou o regime militar. 
O jogral da Vênus Platinada com os players do Judiciário teve seus momentos de "ardor patriótico" com o discurso do patético Faustão e a edição do Fantástico. Obra de fazer inveja a Leni Riefenstahl, a cineasta que encantava Adolf Hitler. 
"Manifestações em várias cidades do país em apoio à Operação Lava Jato", disparou o ridículo apresentador sob o olhar sério do padre-pop Fábio de Melo, que canta e escreve para o mesmo público que se encontrava na Avenida Paulista no domingo, 04/12. 
No "Show da Vida" as imagens da propaganda devem ter sido cortadas a dedo por Ali Kamel, o mago. 
Na abertura, a bandeira do Brasil desfraldada e, num rápido enquadramento mas bem direcionado, os segundos dedicados ao cartaz "Prisão para Lula". Logo em seguida, o corte recaiu nas cenas de senhores e senhoras, todos brancos, vestidos com suas camisas da CBF, portando cornetas e adereços verde e amarelo. 
Empacotamento perfeito para a aliança protofascista da casta judiciária com as corporações de mídia. Globo à frente. 
É a continuidade ao desmonte do estado e a imersão do país num modelo neoliberal radical com violenta repressão às vozes dissonantes. 
E o que restar do estado brasileiro é para servir aos interesses dos taciturnos senhores do Poder Judiciário com seus salários e privilégios nababescos. 
Não é de se estranhar que na quarta passada a manifestação contra a PEC 55, em Brasília, foi tratada como "baderna promovida por desordeiros". E a deste domingo narrada como um movimento "pacífico e patriótico". 
A dose letal de narcótico midiático vai se avolumando num gradiente imperceptível para muitos. Mas os que têm antenas para captar já observam as cenas que hão de ser projetadas adiante. 
E não serão nada sublimes, bom avisar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

kristallnacht à brasileira?


Não fico triste.
Não fico perplexo.
Sim, confesso que tenho vontade de uma gargalhada recôndita.
Mas o faria se o quadro não fosse por demais preocupante. Sociológica e psicologicamente.
Nos anos 20 do século passado o psicanalista alemão William Reich escreveu "Psicologia de Massas do Fascismo".
Ele buscava entender como a ideologia nazista ganhou boa parte da população da Alemanha, sobretudo os jovens e, sim, o operariado germânico.
Quase 100 anos se passaram desde que a obra foi publicada. E nunca esteve tão atual, no Brasil e no mundo.
Vi algumas postagens de pessoas jovens, que tiveram acesso à educação privada e cursaram mais de uma faculdade.
Elas comemoravam a notícia (de uma fonte que não me é familiar) de que caso Lula venha a ser preso os parlamentares do PT renunciariam em bloco.
Co-me-mo-ra-vam!
Isso mesmo.
Reitero, não me tomo triste nem perplexo. Para mim, casos a serem estudados como fenômeno.
Parto da premissa de que o consórcio golpista jurídico-policial-midiático está atingindo a contento seu plano. A meta é exterminar o PT e, à frente, todos os partidos de esquerda.
Mais: eliminar quaisquer pensamentos de esquerda no Brasil.
O imaginário já está cristalizado: todos os males do país decorrem das ações dos petralhas e aliados.
Cunha, Serra, Aécio, Temer etc estão soltos. Mas isso não convém, não é mesmo?
O importante é se balizar pela manchete escandalosa acerca das não menos escandalosas ações de milícia da PF para teleguiar interesses, como foi o caso da invasão à sede do PT na Bahia. Não havia nenhum motivo para o procedimento a não ser alimentar os abutres da imprensa.
O Brasil, lamentavelmente, está muito próximo a vivenciar sua kristallnacht. Na noite de 09 de novembro de 1938, turbas instigadas pelos nazistas, quando não suas próprias milícias, depredaram lojas e estabelecimentos de judeus e atacaram militantes de esquerda que ainda existiam naquela Alemanha já envolta pelo nazismo. Adolf Hitler já era chanceler, bom lembrar.
E no último domingo, 02/10/16, os partidos conservadores e à direita do espectro político foram amplamente majoritários.
O Brasil já é tomado pelo ódio político irracional numa composição com as correntes religiosas do neopentencostalismo de direita. E marcha célere para a extrema-direita.
E este obsceno constructo tem encantado jovens capazes de rir, de sentir prazer, de pousar em grupos nas redes sociais apoiando o fascista Jair Bolsonaro, e de se regozijar com o extermínio de uma legenda de esquerda.
Conformam uma psicopatia coletiva sem se dar conta do que estão promovendo, embora alguns tenham percepção do nefasto processo que movem.
Reitero: não me causa perplexidade, tristeza e nem desconforto. Talvez um pouco de pena.
É a Idiotia coletiva que sustenta um projeto político que nada tem de idiota. Muito pelo contrário.
Quem sabe à frente, uns 50 anos à frente, esta juventude será estudada à semelhança da juventude nazista, aquela que se engajou no extermínio de mais de 30 milhões de seres humanos?
E que também se doava com a melhor das intenções em nome da pátria?
Se isto ocorrer, as gerações futuras nada terão a agradecer. Elas terão vergonha.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Cuba dezessete anos depois

Foto: Jorge Nascimento


Por Safira Caldas

“Para examinar a verdade é necessário, uma vez na vida, colocar todas as coisas em dúvida tanto quanto se possa.” René Descartes (1596-1650)

Havana 1996-1997

Anos dificílimos para os cubanos. A URSS, seu grande parceiro, havia “desmoronado” e os EUA exerciam o seu poder ditatorial, multando qualquer navio que ancorasse na ilha. Isto impedia até a chegada de remédios e marca-passos. Havia apagões e muitas e muitas necessidades. Muitos partiram e outros morreram tragicamente. Metaforicamente, era como um filho que perdera o “pai” que lhe sustentava financeiramente e psicologicamente. Cuba vivia o seu luto.
Entretanto, a prioridade da educação e da saúde foi mantida.. Visitei escolas e hospitais e vi, que mesmo de uma forma despojada, a dignidade do atendimento nestes setores fora mantida. A SOLIDARIEDADE de alguns não faltou e doações chegaram de várias partes do planeta.


Havana 2015
Foto: Carmen Medeiros

A surpresa começa no aeroporto José Martí. Profundas reformas foram feitas e já há lojas vendendo rum, “artesania” cubana, charutos, etc. Esperando o turbilhão de turistas que chegam de diversas partes do mundo, ônibus e micro-ônibus de fabricação chinesa os esperam.
O centro de Havana é um verdadeiro canteiro de obras. Dia e noite britadeiras sulcam velhos calçamentos, alargando e embelezando as ruas. Velhos hotéis são recuperados e novos estão sendo construídos a todo vapor. Não vivenciei nenhum apagão, apenas, houve falta de água no hotel uma manhã. O câmbio foi fácil !
Nas ruas a liberdade é visível. Segundo uma pessoa do meu grupo, havia uma pequena passeata com umas 20 pessoas, algumas com a camisa da CIA que pediam a queda do regime. Não foram incomodadas, porém foram solenemente ignoradas.
Apesar da proibição, muitos cubanos oferecem no câmbio negro venda de rum e charutos, o que não é aconselhável, pois, segundo o aviso dos guias da CUBANATUR (Empresa de turismo do governo cubano) esta compra é passível de criar problemas com a polícia, além de serem falsificados.
Até junho, está acontecendo uma Feira Internacional de Artes, o que coloriu mais ainda a cidade. Muitos eventos, muitas performances!
Não se vê nenhuma criança desacompanhada pelas ruas e algumas uniformizadas estão acompanhadas por adultos. Vi uma escola de Jardim de Infância muito bem conservada. A educação, a saúde, o enterro são gratuitos.
Foto: Carmen Medeiros
A prioridade do acesso à internet é dada para os que mais necessitam dela, como por exemplo, jornalistas. Sobre a famosa blogueira (por aqui) muitos não sabem quem ela é!
Muitos falam com orgulho dos seus médicos que partem para a África e outros lugares para ajudar outros países. Outros temem perder suas conquistas pós revolução.
A produção dos famosos charutos já não é monopólio totalmente do Estado. Muitos pequenos campesinos já podem ter parceria com o governo. Pequenas lojas de marcas famosas, começam a despontar na Rua O Bispo e até Coca-Cola fabricada no México, aparece timidamente em alguns restaurantes
A velha e bonita “Guayabera” (linda camisa de algodão bordada) que era quase um uniforme dos cubanos já está sendo substituída por camisetas. Vi , pelo menos, duas já com a inscrição “MIAMI”.
O jogo é proibido, entretanto, há um “jogo de bicho” clandestino que segue o resultado da loteria de Miami.

Alguns cubanos nos falam das novelas brasileiras e acreditam que elas reproduzem fielmente a nossa realidade. Muitas vezes aproveitam este momento para pedir um “regalo”.
Parecem muito saudáveis e mostram dentes muitos bem cuidados. Quando elogiamos, falam que o serviço odontológico (gratuito) é de ótima qualidade.
O Malecon que possui 7 km de extensão está revitalizado e no final das tardes ensolaradas de Havana, assistir o por do sol é uma festa compartilhada por turistas e cubanos.
Alguns se queixam que desejam viajar e ter mais pares de tênis. Enfim, lutar contra o consumismo é difícil. Sempre citam os que partiram para o Canadá ou Miami e dizem que estes, hoje, estão ricos. Parece que o canto da sereia engana alguns.
Viajamos pelo interior: Santa Clara (O memorial do Che é emocionante), Trindade, Cayo das Brujas (praia belíssima). As estradas estão ótimas.
Enfim, vale a pena ir a Cuba e caminhar a qualquer hora da noite sem medo de ser assaltado e sem engarrafamento. E não esquecer de comer um "chivirico" vendido nas ruas (parece cavaco). Torço para que Cuba se torne uma adulta sensata e não esqueça suas conquistas.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pequeno irmão. Quando o ativismo hacker juvenil subverte os EUA


Os Estados Unidos estão sob estado de sítio após um atentado terrorista. Na cidade de São Francisco, Califórnia, um grupo de adolescentes hakers luta contra os atos arbitrários perpetrados pelo Departamento de Segurança Nacional. As liberdades civis são suprimidas e a ação na Internet é a última fronteira de resistência de jovens colegiais que não se submetem à paranóica vigilância das autoridades.
Este é o cenário que ambienta a ficção Pequeno Irmão, do jornalista, escritor e ciberativista canadense Cory Doctorow, que no Brasil foi publicado pela Galera Record. O livro tem pose de literatura juvenil, mas o que de fato propõe vai além. Ao longo da narrativa, Doctorow estabelece pontes ideológicas entre as militâncias libertárias que sacudiram a Califórnia e boa parte do mundo nos anos 60 e 70 e os movimentos hakers e a cultura digital. Seriam ciclos sociais dialeticamente sucedâneos.
Marcus Yallow, o personagem central, ou simplesmente M1k3y, é um garoto de 17 anos, amante e conhecedor profundo das novas tecnologias de comunicação, que pauta seu dia-a-dia entre as “existências” real e virtual. Numa situação digna dos nebulosos roteiros de Kafka, é preso pelas autoridades estadunidenses e acusado de envolvimento com terrorismo junto com outros companheiros.
Autogestão, colaboração e opções alternativas de vida são o contraponto político a uma sociedade panóptica e sufocante. Ter à mão um console Xbox e o acesso a uma rede wi-fi paralela e criptografada é a retaguarda tecnológica necessária para transformar os games virtuais em estratégias precisas na luta contra as forças opressoras do Estado. O resultado é a militância na “vida real” a partir de convocações e provocações para mobs flashs de resistência. 
Ecoa então a palavra de ordem “Não confie em ninguém com mais de 25 anos”. Um revival ainda mais radical que o libelo de 1968, encurtando em cinco anos a desconfiança nas gerações mais velhas. “Nós sempre fomos um pouco mais politizados do que o resto da nação”, afirma uma professora amiga que dá argumentos à galera numa lembrança nostálgica da Califórnia convulsionada por hippies, yippies, panteras negras etc.
A história imaginada por Doctorow salpica fortes doses de realismo à medida que põe o leitor diante de situações e fatos concretos, que nada têm de ficcionais. Ele apenas muda locais e nomes, não como forma de dissimular, mas de apontar e protestar. A prisão de Guantánamo está logo ali na Baía de São Francisco, para onde dissidentes e presos são encaminhados após violentas manifestações de rua, ou mesmo após serem pegos pela ostensiva vigilância do Patriotic Act – lei patriótica. Se o autor não chega a vaticinar os EUA vivendo num futuro estado de exceção, ao menos deixa um alerta para tal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Depois da Chuva é filme para o mundo assistir


Caio (Pedro Maia) busca o colo materno. A mãe (Aícha Marques), impávida, nem mesmo olha para o filho que, carente, disputa espaço para se debruçar no seu ventre. Ela mantém atenção fixa na televisão, que reporta a posse de José Sarney, primeiro presidente civil após o regime militar e que conduz o início da Nova República. Ele desiste do intento.
A cena é forte e traduz o recado que Depois da Chuva passa: a desilusão que contrasta com o clima de euforia decorrente da redemocratização do país, em 1984, quando os militares entregaram o poder após 20 anos de ditadura.
O estado de exceção se fora, mas não os conflitos que envolvem gerações. Caio é um adolescente que estuda num colégio particular e conservador. Está envolvido com um grupo de ativistas anarquistas, descrentes da política partidária tradicional. Atuam num espaço no Centro Histórico onde funciona uma rádio pirata. Eles fumam, atacam o sistema, tocam música experimental e debocham dos militantes da esquerda ortodoxa, inclusos os colegas que tentam reorganizar o grêmio estudantil. Trazem o embate na veia.
Rescaldos da crítica dos “engajados” sobre os “desbundados”, que marcou os anos de chumbo nos 70. Neste aspecto, o filme sugere o início da atuação do combativo jornal anarquista de Salvador, O Inimigo do Rei, alvo de críticas à direita e à esquerda no período em tela. 
Dirigido por Cláudio Marques e Marília Hughes, Depois da Chuva, que estreou neste mês de Janeiro no Brasil, tem o mérito de apresentar alguns aspectos pouco conhecidos da Salvador dos meados dos 80. Situações que muitos jamais perceberam.
Os diretores se distanciaram dos estereótipos que carimbam a Soterópolis festeira. A capital baiana figura apenas como um acaso. Os apelos de baianidades e sentimentos pueris de pertencimento à terra, dão lugar à cidade com espaços tomados por bandas de punk rock, como Cracr! e Dever de Classe, onde reuniam jovens em shows artesanais, como os que ocorriam na fábrica abandonada da Ribeira.
A fotografia, outro ponto forte do filme, dá o diapasão estético da película mediante enquadramentos e luz que emolduram diálogos densos e inteligentes. O som do Dead Kennedys, sim, compõe bem com imagens de locais recônditos da capital baiana, que vivia a gênese da chamada axé music.
Destaque para a atuação de Pedro Maia, protagonista principal, jovem e excelente ator que interpreta Caio. O garoto não é promessa. É ator. E atua junto com um elenco competente e preparado. Elenco que esteve sob os cuidados do cineasta Reinofy Duarte, que certamente teve função determinante no desempenho do grupo.
Depois da Chuva é filme para o mundo assistir e debater. Feito do cinema baiano que só Glauber Rocha havia conseguido. Cláudio Marques e Marília Hughes foram ousados. E conseguiram. Que bom!

Ficha técnica:

Companhia produtora: Coisa de Cinema
Produção Executiva: Cláudio Marques e Marília Hughes
Roteiro: Cláudio Marques
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Som: Guile Martins, Edson Secco
Direção de Arte, Figurino: Anita Dominoni
Preparação de atores: Reinofy Duarte
Montagem: Cláudio Marques Edição de Som: Edson Secco
Trilha Musical: Mateus Dantas, Nancy Viegas, Bandas Crac! e Dever de Classe Com: Pedro Maia, Sophia Corral, Aícha Marques e Talis Castro.




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Quando o público define o que se propaga. Ou o nó górdio da mídia contemporânea


Rever os conceitos de propagabilidade numa economia da mídia forjada pela intensa participação dos usuários como condutores de ideias e atuantes na remodelagem dos produtos veiculados. Mais do que o valor agregado a partir de uma escala puramente econômica, a Internet tem proporcionado aos membros da audiência, também produtores, novas percepções do sentido de lucro.
Na economia da dádiva, ou do dom, mais vale a opinião e a catapulta midiática nas mãos dos usuários do que 1000 banners “flashando” a linha do tempo de alguém. Doravante, o jornalismo, a propaganda e a publicidade, da forma que o capitalismo desenhou até o momento, em breve serão peças arqueológicas. Diria Marx: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”.
O vaticínio é dos estadunidenses e estudiosos da mídia Henry Jenkins, Joshua Green e Sam Ford, três pesquisadores ligados ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Em Cultura da Conexão, lançado no Brasil pela Editora Aleph, o compartilhamento nas redes sociais não tem apenas papel fundamental à visibilidade de um novo produto, tangível ou intangível, mas, sobretudo, à manutenção e sobrevivência deste produto.
Os modelos de veiculação tradicionais, conforme os autores, só sobrevivem, da mesma forma, em compasso cadenciado com as inquietações dos internautas. São eles que têm definido a biruta das tendências.
A cantora inglesa Susan Boyle é um bom exemplo. As performances da artista na rede renderam 77 milhões de visualizações no Youtube, enquanto o final da temporada do American Idol atraiu 32 milhões de telespectadores nos EUA. O programa foi veiculado na TV aberta.      
Jenkins, Green e Ford partem da desconstrução do conceito de “virial”. Optam pelo entendimento de “propagabilidade”. Há diferenças. Neste quesito, o público tem papel ativo na “propagação” e não se limita a ser portador da imagem ou texto sobre o que seja. Mais: estes mesmos produtos são factíveis de remodelagens, remixagens e outros recursos midiáticos. Transmutam-se. Ganham resignificações.
Nesta nova linha de montagem, os usuários das redes sociais são “commodities”. Isso mesmo, mercadoria. Os autores coadunam com outros pesquisadores da mídia, a exemplo do ciberativista Eli Pariser (2012).
“O público cria, conscientemente ou não, valor de economia por interesses comerciais, por meio de geração de conteúdo para atrair a atenção e transformar essa atenção em commodity, e através das informações valiosas que eles lançam, as quais podem ser vendidas pelo lance mais alto”, sustentam os autores.
O trabalho dos pesquisadores não fecha questão do que poderá vir a se concretizar na nova economia política da mídia. No entanto, não é difícil constatar que os interesses sociais que movem os públicos é fator determinante nos processos de propagação de quaisquer produtos, com o ônus ou o bônus que estes movimentos possam representar.