terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Daniel Blake é a representação do drama de milhões de pessoas


Após sofrer enfarte, um homem quase sexagenário tenta desesperadamente conseguir o benefício do governo inglês porque está impedido de trabalhar. O carpinteiro viúvo Daniel Blake é um número a mais no registro da pesada burocracia do Estado. Luta contra os micropoderes constituídos para provar o óbvio.
O desafio é adentrar na labiríntica máquina estatal que terceiriza à iniciativa privada o poder de decidir sobre a sobrevivência de seres humanos. No decorrer da sua jornada inglória, Blake conhece Katie, desempregada de 35 anos e mãe de Dylan e Dayse.
Ela busca desesperadamente uma alternativa à sobrevivência com seus filhos. Prestes a irem para um albergue de desabrigados em Londres, a família opta por residir num alojamento a 480 quilômetros da capital. O carpinteiro os socorre e oferece apoio enquanto gasta as parcas economias para quitar as contas que se acumulam. Dores e dramas se juntam.
Na trilha kafkaniana que percorre, Blake se depara com sua inabilidade em procedimentos que exigem conhecimentos para lidar com portais de serviços públicos na Internet, tão labirínticos e burocráticos quanto os atendimentos presenciais. Quando não, enfrenta o calvário de intermináveis ligações para atendentes de telemarketing que agem como blocos de gelo frente ao desespero alheio. Fardo pesado para um operário do Nordeste da Inglaterra. 
O drama britânico-franco-belga, 100 minutos, dirigido por Ken Loach e escrito por Paul Paul Laverty, é o retrato sombrio do neoliberalismo: prestar contas às demandas de ajustes fiscais que fomentam sociedades cada vez mais desiguais e pobres, nas quais as populações menos favorecidas é que arcam com o sacrifício de manter a estabilidade econômica das minorias.
Não sem razão que o filme tem sido avaliado como oportuno intertexto face à situação política e econômica do Brasil pós golpe, onde a conta da crise do capitalismo está gradativamente sendo debitada nas costas dos trabalhadores, condenados a trabalhar velhice adentro para manter o status quo das elites brasileiras. Em algumas salas, o final de exibição tem sido precedido por sonoras palavras de ordem “Fora Temer”. Sobra nexo.      
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado, onde o filme estreou, a produção teve os apoios do British Film Institute e da BBC Films. O ator Dave Johns interpreta o personagem principal, Daniel Blake, e a atriz Hayley Squires vive Katie, a mãe desempregada.

Pigs, do disco Animals, uma dos marcos históricos do rock progressivo. Pink Floyd para sempre

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Snowden. Ou o fim da utopia cibernética


O subtítulo é uma díade que caprichosamente deixa a resposta com a audiência, Herói ou traidor. Snowden, mais uma obra do cinema político do diretor Oliver Stone, conta a saga do ex-técnico da CIA e da NSA, o analista de sistemas Edward Snowden, que hoje vive exilado na Rússia. Aos 29 anos, o caçador de hackers da Agência Nacional de Segurança estadunidense entendeu que o trabalho que realizava integrava um grande panóptico internacional promovido pela maior potência econômica e militar do planeta.
O jovem programador resolveu vazar a trama para dois grandes veículos internacionais de imprensa, o jornal norte-americano Whashington Post e o diário londrino The Guardian. A atitude provocou grave crise diplomática envolvendo nações de quase todos os continentes. E pôs a diplomacia dos EUA em xeque diante de denúncias que provocaram ainda mais fissuras nas placas tectônicas da geopolítica mundial.     
Ninguém esta a salvo da treta owerlliana. O filme demonstra que não há limites para a bisbilhotagem perpetrada pelos EUA. De um simples executivo do Paquistão a chefes de estado, a exemplo de Hugo Chávez, Dilma Rousseff, Evo Morales, entre outros, os sistemas de espionagem do império desenvolvem tecnologias digitais capazes de invadir contas de e-mails e acessar dados sigilosos de líderes e organizações mundiais. Informações estratégicas à segurança interna de muitos países. Para tal, contam com a parcimônia e colaboração de empresas como a Google, Yahoo, Facebook e outros players. Velhas táticas em novas mídias.
O filme mergulha em pormenores da ciberguerra em curso. Uma tampa aberta de um laptop, mesmo que desligado, é o bastante para transformar a câmera num olho dos agentes da NSA, onde eles estejam. 
Com 2h14 de duração, o longa é estrelado pelos atores Joseph Gordon-Levitt, que interpreta Snowden, e Shailene Woodley, que assume o papel da sua namorada, Lindsay Mills.
Os fatos narrados ocorreram antes da disputa à Casa Branca, no ano passado. Todavia, expõem a postura tragicômica do governo dos EUA ao tentar retaliar a Rússia, culpando-a pelos ataques hackers desferidos à campanha de Hilary Clinton. Bisbilhotar a quem bisbilhota deve incomodar bastante.
Com muitas passagens em narrativa documental e roteiro bem amarrado, o filme também apresenta personagens que têm desempenhado papel relevante no jogo da mídia internacional. Dois deles: o jornalista Glenn Greenwald, interpretado por Zachary Quinto, e a documentarista Laura Poitras, vivida pela atriz Melissa Leo.
Greenwald reside atualmente no Rio de Janeiro e foi o fundador do site noticioso The Intercept Brasil, um dos canais mais atuantes da contra-narrativa midiática ao golpe parlamentar de 2016, que desmantelou a jovem e incipiente democracia brasileira.
Snowden é mais um filme que denuncia o sepultamento do sonho de um amanhecer mundial no qual a Internet teria papel fundamental na construção de sociedades livres e colaborativas.
Não há utopia. A guerra digital é a ante-sala onde tanques e mísseis do século XXI têm se acomodado. A destruição das privacidades antecede a imolação física. Tomando emprestado a Walter Benjamin, a barbárie está ganhando das utopias.      

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Malabarismo narrativo para passar recibo


Mais uma vez a Rede Globo disponibilizou sua artilharia de mídia a serviço do recrudescimento do golpe de abril deste ano. Tanto o canal aberto quanto a Globo News se constituíram em panfletos de convocação à patuscada fascista registrada em diversas capitais que, ao fim e ao cabo, ficou aquém do previsto. 
 Onde se esperava multidões, não foi registrado. 
A estratégia de propaganda consistiu em câmeras postadas em torno de 10 a 15 metros de altura para enquadrar aglomerados de pessoas com o fito de dar grande dimensão ao espetáculo circense-fascista.
Assim se procedeu em São Paulo e Curitiba. 
Em outros locais, os registros foram no chão. Enquadramentos estrategicamente dimensionados para captar faixas e bonecos inflados que remetiam aos clichês de patuscadas passadas. "Fora Dilma"; "Prisão para Lula"; "Viva Moro" etc. 
Nenhum registro de desagravo ao ilegítimo e corrupto Temer. Até mesmo porque este não era o intento das hordas fascistóides convocadas por organizações de extrema-direita, a exemplo do Vem pra Rua e MBL. 
No golpe dentro do golpe Temer já é carta descartada. 
A "sinceridade" do apelo sobrou para outra peça terminal do golpe, o presidente do Senado Renan Calheiros, de quem foi pedida a cabeça. 
Agora marcha-se rapidamente para reduzir direitos sociais e sufocar as liberdades. O PSDB deve encontrar o terreno devidamente capinado. 
Neste 2016 os fuzis e as botas deram lugar às togas e ternos dos juízes e promotores, as vedetes das turbas. Eles querem poder irrestrito para barbarizar ao bel prazer. E a Globo apóia. Assim como apoiou o regime militar. 
O jogral da Vênus Platinada com os players do Judiciário teve seus momentos de "ardor patriótico" com o discurso do patético Faustão e a edição do Fantástico. Obra de fazer inveja a Leni Riefenstahl, a cineasta que encantava Adolf Hitler. 
"Manifestações em várias cidades do país em apoio à Operação Lava Jato", disparou o ridículo apresentador sob o olhar sério do padre-pop Fábio de Melo, que canta e escreve para o mesmo público que se encontrava na Avenida Paulista no domingo, 04/12. 
No "Show da Vida" as imagens da propaganda devem ter sido cortadas a dedo por Ali Kamel, o mago. 
Na abertura, a bandeira do Brasil desfraldada e, num rápido enquadramento mas bem direcionado, os segundos dedicados ao cartaz "Prisão para Lula". Logo em seguida, o corte recaiu nas cenas de senhores e senhoras, todos brancos, vestidos com suas camisas da CBF, portando cornetas e adereços verde e amarelo. 
Empacotamento perfeito para a aliança protofascista da casta judiciária com as corporações de mídia. Globo à frente. 
É a continuidade ao desmonte do estado e a imersão do país num modelo neoliberal radical com violenta repressão às vozes dissonantes. 
E o que restar do estado brasileiro é para servir aos interesses dos taciturnos senhores do Poder Judiciário com seus salários e privilégios nababescos. 
Não é de se estranhar que na quarta passada a manifestação contra a PEC 55, em Brasília, foi tratada como "baderna promovida por desordeiros". E a deste domingo narrada como um movimento "pacífico e patriótico". 
A dose letal de narcótico midiático vai se avolumando num gradiente imperceptível para muitos. Mas os que têm antenas para captar já observam as cenas que hão de ser projetadas adiante. 
E não serão nada sublimes, bom avisar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

kristallnacht à brasileira?


Não fico triste.
Não fico perplexo.
Sim, confesso que tenho vontade de uma gargalhada recôndita.
Mas o faria se o quadro não fosse por demais preocupante. Sociológica e psicologicamente.
Nos anos 20 do século passado o psicanalista alemão William Reich escreveu "Psicologia de Massas do Fascismo".
Ele buscava entender como a ideologia nazista ganhou boa parte da população da Alemanha, sobretudo os jovens e, sim, o operariado germânico.
Quase 100 anos se passaram desde que a obra foi publicada. E nunca esteve tão atual, no Brasil e no mundo.
Vi algumas postagens de pessoas jovens, que tiveram acesso à educação privada e cursaram mais de uma faculdade.
Elas comemoravam a notícia (de uma fonte que não me é familiar) de que caso Lula venha a ser preso os parlamentares do PT renunciariam em bloco.
Co-me-mo-ra-vam!
Isso mesmo.
Reitero, não me tomo triste nem perplexo. Para mim, casos a serem estudados como fenômeno.
Parto da premissa de que o consórcio golpista jurídico-policial-midiático está atingindo a contento seu plano. A meta é exterminar o PT e, à frente, todos os partidos de esquerda.
Mais: eliminar quaisquer pensamentos de esquerda no Brasil.
O imaginário já está cristalizado: todos os males do país decorrem das ações dos petralhas e aliados.
Cunha, Serra, Aécio, Temer etc estão soltos. Mas isso não convém, não é mesmo?
O importante é se balizar pela manchete escandalosa acerca das não menos escandalosas ações de milícia da PF para teleguiar interesses, como foi o caso da invasão à sede do PT na Bahia. Não havia nenhum motivo para o procedimento a não ser alimentar os abutres da imprensa.
O Brasil, lamentavelmente, está muito próximo a vivenciar sua kristallnacht. Na noite de 09 de novembro de 1938, turbas instigadas pelos nazistas, quando não suas próprias milícias, depredaram lojas e estabelecimentos de judeus e atacaram militantes de esquerda que ainda existiam naquela Alemanha já envolta pelo nazismo. Adolf Hitler já era chanceler, bom lembrar.
E no último domingo, 02/10/16, os partidos conservadores e à direita do espectro político foram amplamente majoritários.
O Brasil já é tomado pelo ódio político irracional numa composição com as correntes religiosas do neopentencostalismo de direita. E marcha célere para a extrema-direita.
E este obsceno constructo tem encantado jovens capazes de rir, de sentir prazer, de pousar em grupos nas redes sociais apoiando o fascista Jair Bolsonaro, e de se regozijar com o extermínio de uma legenda de esquerda.
Conformam uma psicopatia coletiva sem se dar conta do que estão promovendo, embora alguns tenham percepção do nefasto processo que movem.
Reitero: não me causa perplexidade, tristeza e nem desconforto. Talvez um pouco de pena.
É a Idiotia coletiva que sustenta um projeto político que nada tem de idiota. Muito pelo contrário.
Quem sabe à frente, uns 50 anos à frente, esta juventude será estudada à semelhança da juventude nazista, aquela que se engajou no extermínio de mais de 30 milhões de seres humanos?
E que também se doava com a melhor das intenções em nome da pátria?
Se isto ocorrer, as gerações futuras nada terão a agradecer. Elas terão vergonha.