sábado, 4 de maio de 2013

Quando o rock no Brasil era atitude



Em tempos de jovens roqueiros engomadinhos e alguns antigos com atitudes reacionárias e caquéticas, assistir Somos tão jovens, de Antônio Carlos da Fontoura, é balsâmico, nostálgico e catártico. Não esperem aqui uma crítica. Não é. No máximo, um depoimento de quem viu o filme e vivenciou aqueles momentos em Brasília. Sem pretensões estéticas, tô fora.
Fontoura amarra bem o roteiro que propõe. O início da trajetória do cantor e compositor Renato Russo, falecido em outubro de 1996 e interpretado por Thiago Mendonça, é a âncora que explica a sociogênese do chamado Rock Brasília. Do Aborto Elétrico à Legião Urbana e a capital federal como berço do punk tupiniquim.
Entre 1976 e 1982, enquanto o regime militar, já convalescente, continuava mostrando seus dentes numa Brasília sufocada pela repressão política, jovens da classe média se reuniam para driblar o ócio. A cidade, à época, não oferecia entretenimento para rapazes e moças que afloravam hormônios e rebeldia a granel. O jeito era o it your self. Rock de garagem e festinhas sob forte influência do punk inglês, no ritmo e atitude.
Não precisavam de rigor técnico. Bastava empunhar a guitarra e arriscar três acordes. Era o suficiente para eletrizar e descarregar. Tédio com um T bem grande para quem os questionasse.
Renato Manfredini, mais tarde Russo, é fruto dessa atmosfera. Filho de um funcionário do Banco do Brasil e de uma típica dona-de-casa, o jovem professor de inglês e estudante de Jornalismo desagua paixões por meninas e meninos e fúrias contra o sistema político vigente. Tabus bem caros àquele momento.
A película ganha verossimilhança com a magistral interpretação de Thiago Mendonça. O ator incorpora o ídolo de várias gerações reeditando jeitos e trajeitos do roqueiro. Em depoimento em vídeo ao portal G1, o guitarrista Dado Villa-Lobos, interpretado no filme pelo seu filho Nicolau, confirma: "eu acho que a história desse filme é essa história (…) Está ali o Renato Russo”.
E não só Renato como a primeira leva da cena rocker brasiliense, permeada pelo troca-troca de músicos que passavam de uma banda à outra como se mudassem de roupa. Plebe Rude, Capital Inicial e outros grupos figuram no filme. Tudo é tão adolescente e poético... A Brasília jovem era uma babel punk e sonhadora. A ordem era se divertir e deixar a dança do pogo celebrar.
Para além do punk, o poeta é também o místico-intelectual que devora livros de Allen Ginsgberg, poesias de Luís de Camões e faz referências ao Budismo e o Tao te King. Suas letras e músicas são centrífugas desses emaranhados de inspirações.
Momentos sublimes do filme, as belas canções Por enquanto, dedicada ao fim do Aborto Elétrico, Ainda é cedo, que Renato compôs para reatar a amizade da sua eterna amiga-amante-confidente Aninha, e Que país é esse, pedrada de engajamento político, resumem a veia poética do band leader que, seguramente, mais influenciou comportamentos e atitudes na cena pop nacional. O trabalho de Fontoura só confirma que a Legião é a banda extinta mais ativa do país e Renato Russo é a alma dela.     

domingo, 14 de abril de 2013

A "arte" de fomentar um golpe: O dia que durou 21 anos


Terrorismo econômico e escândalo político seletivo e oportunista. A mídia corporativa nativa cria a agenda com o auxílio luxuoso do Departamento de Estado dos Estados Unidos para levar à instabilidade institucional. Não, não estamos falando da conjuntura atual do país e sim do Brasil de 1964. A fórmula é velha, sabe-se, mas foi este o enredo que levou ao golpe militar naquele ano. E não é coincidência.
O dia que durou 21 anos, documentário dirigido por Camilo Tavares, com produção do seu pai, o jornalista Flávio Tavares, ex-preso político torturado pelo regime, reúne documentos inéditos sobre o episódio que retardou em, pelo menos, 40 anos o desenvolvimento brasileiro. O trabalho, de 117 minutos, é uma co-produção da Pequi Filmes e TV Brasil.
O filme expõe as vísceras do envolvimento do governo estadunidense no episódio. Processo iniciado ainda em 1962 com o presidente John Kennedy e levado a cabo pelo seu sucessor, Lyndon Johnson. A ordem era tirar o presidente João Goulart do poder, desde que ele assumira o comando do país, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros.
O documentário é didático. Explica com riqueza de detalhes a crise para o retorno de Goulart, a emenda parlamentarista que lhe tirou força política, o plebiscito que reconduziu o Brasil ao sistema presidencialista e o desfecho golpista, ocorrido na madrugada de 31 de março para 1 de abril de 1964.
Nos bastidores, a atuação de autoridades dos EUA, como o embaixador Lincoln Gordon e o adido militar, general Vernon Walters. São provas cabais. Documentos e gravações em áudio são apresentados e trazem à baila diálogos entre Gordon e o primeiro escalão estadunidense. As conversas incluem o presidente Johnson, o secretário de Estado Dean Rusk e o secretário da Defesa, Robert McNamara, entre outros personagens.
Enquanto isso, no Brasil, entidades estadunidenses atuam na conspiração. O Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Insituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), grupos teleguiados pela CIA, se encarregam de despejar milhões de dólares na imprensa e na compra de apoio parlamentar à conspirata.
Na agenda política do governo, as chamadas reformas de base - reforma agrária, política e tributária, junto a outras medidas - deixam as elites e setores expressivos da classe média apreensivos ante o perigo da implantação de um “governo sindicalista de inclinação de esquerda”.
A paranóia anti-comunista cai como uma luva no imaginário desses setores. A direita sai às ruas e leva milhares para a “Marcha com Deus, pela família e pela propriedade”. Empresários, imprensa e políticos inclinados ao golpe alimentam a iminência de uma revolução comunista. Sentimento que serve como amálgama aos intentos estadunidenses, que vêem seus interesses econômicos ameaçados.
Também figuram depoimentos interessantes, como de oficiais legalistas que foram cassados pela quartelada, sendo que um deles lamenta a ausência de resistência por parte das forças do governo. “Foi tudo muito pacífico”, lembra. 
A Operação Brother Sam também é citada. Washington autoriza o envio de forças militares para pressionar a queda de Goulart. A decisão é demonstrada em áudio. “Tudo o que precisarmos fazer. Vamos pôr nosso pescoço para fora (nos arriscar)”.
O golpe é dado e o país mergulha em 21 anos de trevas. Cassações, torturas, assassinatos e toda tipo de violência são cometidos pelas forças de repressão. E o pior é que essas mesmas ameaças continuam a pairar sobre o país. O filme dos Tavares serve como vacina e alerta. Imperdível.

Vejam trailer

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Alguns minutos com o MST. Emoção e luta!

No dia 11 de abril de 2013 militantes do MST chegam ao Centro Administrativo da Bahia para reivindicar mais rapidez nas ações da Reforma Agrária. A manifestação integrou as ações do Abril Vermelho. Entrevista, imagens e edição: Zeca Peixoto.

domingo, 7 de abril de 2013

Dores, sofrimentos e comédias. Ou quando a juíza abre o coração



Foi um acaso. Serendipidades que não presumimos vir ocorrer. Encontro fortuito no ambiente de trabalho com uma colega. Papo rápido em frente ao cafezinho, mas suficiente para destilar angústias e incômodos que a vida traz. “Estou lendo um livro fantástico, escrito por uma juíza e que narra algumas situações ao longo dos seus 15 anos de atuação nas varas de família do Rio de Janeiro”. No dia seguinte chegava às minhas mãos A vida não é justa, de Andréa Pachá.    
Foi um presente. Nos últimos anos dedicado à leitura de livros e textos acadêmicos, afundado em toneladas de ensaios, artigos e publicações especializadas, abri um hiato para ler aquelas histórias. Emocionei, chorei, ri e, também, de alguma forma, me vi. Para quem já passou por duas separações…  
Quem imagina um texto duro, juridiquês pesado, se engana com Pachá. A juíza retira a toga e abre o coração. Com refinado estilo e uma narrativa suave, inteligente, perpicaz e doce, a magistrada descreve sucintamente dramas e desencontros de casais, pais e filhos. A tormenta dos desenlaces conjugais nivela ricos, pobres, classe média e favelados. O sofrimento transcende as condições sociais daqueles que o atravessam.
Andréa divide o livro em quatro eixos temáticos. Amores líquidos; Pais e filhos; Realidade ampliada; e Recomeços. Seja a separação de um jovem casal abastado para o qual o casamento foi só uma festa que durou três meses; a decisão consensual de pedir o divórcio e sair de mãos dadas do fórum aos prantos; disputas por heranças e pensões; as duas famílias de Zé Pernambuco; a senhora de 64 anos que assumiu o avatar de “Molhadinha25” na Internet e deixou o marido pocesso; exames de paternidade; lamentos de crianças e adolescentes cujos pais tomam rumos diferentes, entre outras.
Ainda que em todas as situações descritas a juíza não decline de expôr suas decisões, ela intervem na mediação dos processos observando as relações humanas. A letra fria da lei é o que menos importa. Sua percepção e, sobretudo, interpretação e aplicação das sentenças decorrem do entendimento da vida num aspecto mais elevado. Andréa aconselha, conversa, escuta, opina e, por vezes, se deixa levar por recônditas emoções que procura enjaular. Sim, a juíza também sente. E respeita a todos.
Não há certos nem errados. A condição humana, por si, já é factível de erros. São os designos da existência que levam homens e mulheres a buscar o Estado para desenrolar novelos que movem paixões, desamores, rancores, frustrações ou disputas meramente materiais. Com passagem na área de produção teatral, Andréa Pachá se coloca na condição de arbitrar destinos nesse grande palco que é a vida. E que não é justa.
O livro tem 190 páginas e foi publicado pela editora Agir. Conta com as apresentações dos escritores Zuenir Ventura – capa – e Alcione Araújo.


domingo, 31 de março de 2013

Trincheiras e rock’in’roll. Ou uma passagem da vida de Zito



Os raios de sol vazaram as frestas da janela. Os olhos se abriram tentando resistir à luz já forte daquele mês de novembro de 1980. A ordem era ficar de pé às 6h. Disciplina e determinação. Preparo para enfrentar um possível acirramento do Regime Militar. A extrema-direita estava à espreita. O acampamento no distrito de Lamarão, Camaçari, Região Metropolitana de Salvador, contava com dezenas de militantes que preparavam faixas, cartazes e bombas de coquetel molotov para a manifestação de rua que ocorreria nos próximos dias. Militante do movimento Novação, desdobramento estudantil da Ação Popular, aos 17 anos e iniciando o curso de Sociologia na Universidade Federal da Bahia, Zito Filho partira pra luta. Nos anos anteriores fora dirigente do grêmio do Colégio Ipiranga, situado no largo Dois de Julho, bairro histórico e fronteiriço a um dos baixos meretrícios de Salvador. Local de imemoráveis farras nas suas ruelas e botecos, onde litros de cervejas foram consumidos em calorosos debates políticos. Jamais se subjugou à autoridade ideológica de quem quer que fosse. Sua cabeça era livre. Concebia que a revolução tinha que ser total, sem amarras. Lera algumas coisas de Marx e Lukács. Posteriormente, se encantaria com Herbert Marcuse e William Reich. Psicologia de Massas do Fascismo, de Reich, ocuparia sua cabeceira por um bom tempo. Sem vontade e tesão não haveria transformação, assim entendia. 
- Hô, Zito, pega mais garrafas pra gente terminar os coquetéis. Tem muita coisa pra fazer ainda.
Quem chamou atenção foi Joaquim Caravina, dirigente nacional da organização e que viera do Rio de Janeiro para coordenar as ações da AP na Bahia. 
- Você vai dar ordem na puta que o pariu! Passei a tarde toda enchendo garrafa de gasolina e álcool e o bonitão aí discutindo teoria e estratégia. Tá me achando com cara de Mané, porra?
- Calma aí, Zito, precisa esquentar não, a gente chama outro companheiro pra finalizar o serviço.
- É bom mesmo, tô cansado pra caralho!
Entediado, pegou a última garrafa, encheu de gasolina, amarrou a bucha na boca do vidro, lacrou e pôs o artefato junto a outras centenas deles. Fazia o serviço rápido e com maestria. Conhecia como ninguém o preparo de um molotov. O enfrentamento era certeza. A milicada viria para reprimir a manifestação dos estudantes e líderes sindicais. Lutavam pela anistia ampla, geral e irrestrita e pela redemocratização do país. Zito queria mais. Não dissociava a disputa política das questões existenciais. Defendia os “desbundados”, hippies e afins. Para ele, comportamentos legítimos de resistência àquela situação. Chocava-se com os discursos envelopados da esquerda tradicional.
- Vou dar um tempo ali, tomar uma água de côco. Avisou aos companheiros.
Chamou dois deles para fazer companhia, Helena Shaun, estudante de Engenharia da Universidade Federal da Bahia, e Paulo Birilo, seu colega no curso de Sociologia. Distanciaram-se cerca de 40 metros do acampamento. Zito puxou da sacola um pacote, retirou algumas berlotas e passou a dechavá-las até formar um bolinho de mato oleoso. Preencheu uma canoa de papel com as folhas, enrolou e fechou as pontas. Acenderam o baseado.
- Zito, você está ansioso pra essa passeata? Sei não, mas eu acho que os macacos vêm pra cima, não acha? A pergunta de Helena só fez empolgá-lo.
- É bom que venham. Afinal, pra que a gente está há três dias aqui enchendo coquetéis molotov? Se não vierem não tem graça, vamos jogá-los em quem?
A resposta de Zito valeu uma gargalhada a três. E muito mais risadas rolaram naquele fim de tarde. Birilo pegou um aparelho de fita cassete e pôs Paranoid, do Black Sabbath. Descontraíram-se e dançaram ao som precário do pequeno gravador. Revolução.
Bombas, paz e amor
A estratégia foi armada numa pequena assembleia que reuniu lideranças de colégios públicos e particulares. Dois grupos se destacavam: os alunos do Colégio Central e da escola Técnica Federal da Bahia, cujos grêmios eram dominados pela AP e PCdoB, respectivamente. Dois partidos fortes no movimento. Decidiam quase que sozinhos os roteiros das passeatas e manifestações dos secundaristas. Definiram que três grandes aglomerados sairiam de locais diferentes com o propósito de baratinar a repressão. Um partiria do Garcia em direção ao Campo Grande; o segundo, vindo do Canela, seguiria o mesmo destino; e o terceiro iniciaria a marcha a partir da Praça Castro Alves. 19 de novembro de 1980, quarta-feira.
Os universitários também bolaram seus planos. O pessoal da AP, com Zito e outros à frente, ficou encarregado da “retaguarda”. Ou seja, a missão era surpreender a repressão pelas costas atacando com coquetéis molotovs. Sabiam que seriam lançadas bombas de gás e disparados tiros de borracha na estudantada. Não teriam como se defender de imediato, estariam de costas. A ordem era confundi-los.
Às 14hs as concentrações foram iniciadas nos locais combinados. Faixas e cartazes chegaram primeiro. Zito e alguns colegas se deslocaram de carros particulares para armazenar molotovs. Alguns agrupados num espaço escondido próximo à Reitoria da UFBA; outros num prédio em construção no Corredor da Vitória, esconderijo arranjado pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Enquanto isso, o pessoal da agitprop – agitação e propaganda – se encarregava de espalhar folhetos entre a população denunciando as arbitrariedades do regime e divulgando a pauta de reivindicações dos movimentos. Parlamentares de oposição também se apresentariam à manifestação.
Aos poucos, as marchas foram se deslocando. “Abaixo a ditadura, anistia ampla, geral e irrestrita”; “por um governo democrático e popular”; “vai acabar, vai acabar, a ditadura militar”. As palavras de ordem variavam de acordo com a orientação política de cada grupo. Uma miscelânea de orientações de esquerda que se aglutinava com objetivo comum. Até os anarquistas se faziam presentes com seus gritos de guerra: “pão, tesão e liberdade”. Zito simpatizava com eles, ao contrário dos seus companheiros, que os classificava de “alienados”.
Meia hora depois de iniciadas as mobilizações, o barulho das pisadas dos coturnos e das patas dos cavalos ficou mais forte. Caminhões da Polícia Militar e das tropas da Companhia de Guarda do Exército chegavam às dezenas. Clima tenso. A ordem era desmanchar qualquer aglomeração. Soldados desciam dos blindados com escudos, cassetetes e cinturões carregados de bombas de gás. Um primeiro aglomerado de capacetes partiu em direção aos secundaristas que chegavam do Garcia, nas imediações do Teatro Castro Alves.
- Fudeu! Os caras vão imprensar a gente aqui.
Betão, conhecido dirigente do grêmio do colégio Dois de Julho, temeu pelo pior.
Tinha razão.
Em menos de cinco minutos o grupo foi disperso. Correria e perseguição para todos os lados. A repressão atacou com cães pastores. Cercaram os garotos distribuindo fantadas. Uma estudante do Colégio Central foi atingida na cabeça e desmaiou na rua. O sangue lhe encharcou a farda. Um outro colega derrapou na calçada caindo sobre o tacho fervente de uma baiana de acarajé. Queimaduras por todo o corpo. O Campo Grande se transformou numa praça de guerra nublada pelos gases e a poeira levantada.
- Cadê o material, porra? Gritou um jovem na esquina do teatro. Referia-se aos coquetéis molotovs. 
Rapidamente, um grupo de universitários surgiu com sacolas carregadas de garrafas. De forma ágil, Iniciaram a distribuição entre alguns deles. Zito pegou duas, uma em cada mão. E amarrou uma terceira na cintura. Depois escondeu esta última num canto do interior de um bar que funcionava em frente à Reitoria. Correu e juntou-se a mais dois colegas, entre eles Adriana Zhitherman. Judia, cabelos avermelhados, era estudante de Arquitetura. A garota nem mesmo sabia porque estava ali. Sempre se posicionara como pacifista. Aversa a mobilizações violentas, era meio hippie e alternativa.
- Adriana, ajuda aí, pega uma garrafa dessas! Gritou Zito.
- É pra fazer o que com isso? Queimar pessoas? Vai resolver?
- Mas os caras estão baixando o pau na gente, não tá vendo?
- O melhor seria entregar flores a eles.
- Você tá maluca, pirou?
- Zito, violência só vai gerar mais violência, entendeu? Vocês não vão a lugar nenhum assim, querendo fazer guerra.
- Porra, Adriana, mas são eles que estão vindo pra cima da gente.
- O melhor é se estivéssemos todos sentados na praça vestidos de branco, seria mais bonito, mais simbólico e mais forte.
Por um instante Zito parou, olhou para o semblante de Adriana, e pela primeira vez refletiu de forma diferente. Ainda assim, empunhou uma garrafa, acendeu a tocha e arremeçou em direção a um grupo de militares que arregaçavam pra cima de uns poucos garotos. O artefato não chegou a atingi-los, caiu próximo. Mas as chamas da explosão e os estilhaços de vidro dispersou-os, dando oportunidade aos estudantes de fugirem do cerco.
- Vumbora daqui, Zito! Pediu Adriana.
Ele ficou parado, pensativo, até que estendeu a mão à garota. Abraçou-a. Resolveram se retirar rapidamente do campo de batalha. Desceram a passos rápidos em direção ao Vale do Canela. Tomaram um táxi rumo ao Porto da Barra.
- Não sei se fiz certo. Deixei os companheiros apanhando daquele monte de gorilas. Eu sou de luta!
- Zito, existem várias formas de luta e a maior delas é contra seus gorilas internos. Se eles cultivam isso e todo mundo resolver cultivar também como se chegará à paz?
- Como podemos ser pacíficos diante desse regime?
- Ghandy venceu os ingleses meditando. Respondeu a garota.
Zito deu uma gargalhada e retrucou. - A Índia hoje é uma miséria total com essa paz toda de Ghandy. Pra que serviu essa luta do seu guru então?
- Existe a miséria material e a miséria espiritual. Qual o conceito de felicidade pra você, Zito?
- Socialismo, uma sociedade mais justa e com renda melhor distribuída.
- E até hoje onde se construiu isso com violência? Questionou a garota.
- Vocês querem o socialismo, eu acho justo uma sociedade fraterna, mas para isso pretendem usar das mesmas armas daqueles que os oprimem. É um ciclo de ódio, de desamor. Não haverá sistema perfeito se o homem não buscar sua perfeição interior, seu equilíbrio. Continuará o caos, como essa hora deve está ocorrendo lá no Campo Grande.
Zito ficou meio perturbado com a conversa. Tentou tergiversar com alguns argumentos, todos prontamente rebatidos por Adriana. Após uma pausa, trocaram alguns olhares e se beijaram. A noite findou com a paz e o amor que Zito não presumiria existir naquele dia. As palavras de Adriana ficaram marcadas. Um primeiro insight. Mas ainda levaria muito tempo para ele repensar seus modos e maneiras de entender a sociedade e seus conflitos. Muitas lutas o acompanhariam ao longo da sua jornada.

sábado, 23 de março de 2013

A Internet como último front



Batalha digital em curso. Garantir a livre circulação de ideias ante a opressão de estados e corporações econômicas sobre os cidadãos de todos os países. Em Cypherpunks[1]: a liberdade e o futuro da Internet, Julian Assange, editor-chefe do WikiLeaks, e os ciberativistas Jacob Applebaum, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmermann discutem detalhes dessa guerra silenciosa e crucial para o destino da humanidade.
Os debates travados ao longo das 163 páginas do livro alertam: está em jogo o ideário pensado pelos ativistas californianos nos anos 80 que suergueram a rede. A utopia na comunhão global de ideias e culturas tem se transformando numa arapuca para milhões de pessoas. Presas fáceis que estão tendo seus dados pessoais monitorados pelos serviços secretos de governos e utilizados como mercadoria pelo Facebook, Google e outros, parceiros e partícipes dos panópticos sistemas de controle mundial. 
“Muitos escritores já refletiram sobre o que a Internet significa para a civilização global, mas eles enganaram-se. Enganaram-se porque não têm a perspectiva da experiência direta. Enganaram-se porque nunca se viram cara a cara com o inimigo”, afirma Assange.
A maior parte do livro, na verdade, decorre da decupação de alguns vídeos veiculados na série de programas O mundo amanhã, entrevistas conduzidas por Julian Assange dentro da Embaixada do Equador, em Londres, onde vive exílio sui generis para não ser preso pelas autoridades inglesas e extraditado para a Suécia (veja aqui o caso).
Sob a bandeira cypherpunk, “Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos”, a conversa gira em torno dos modelos de perseguições, censura, monitoramento e as perspectivas de enfrentamento.
No Egito, por exemplo, muitos deram loas ao Facebook como um dos protagonistas de destaque do levante civil no Cairo, em 2008; mas poucos sabem que as pessoas que usaram o site para protestar foram rastreadas.
Empresas de cartões de crédito, companhias telefônicas, sites de relacionamento e grupos de segurança privada constituem a base desse controle. Não só monitoram para aferir dividendos econômicos, mas, sobretudo, no intuito de tabelar com regimes políticos pouco transparentes.
“A vigilância patrocinada pelo Estado é de fato um grande problema, que põe em risco a própria estrutura de todas as democracias e seu funcionamento, mas também há a vigilância privada e a potencial coleta de dados em massa por parte do setor privado. Basta dar uma olhada no Google. Se você for um usuário-padrão, o Google sabe com quem você se comunica, quem você conhece, o que está pesquisando e, possivelmente, sua preferência sexual, sua religião e suas crenças filosóficas”, denuncia Jérémie Zimmermann.
Sim, o Google e o Facebbok são capazes de identificar a busca feita por determinado usuário há dois anos, três dias e quatro horas. E a fronteira entre esses mastodontes da Internet e o setor público é cada vez mais rarefeita. A Agência de Segurança Nacional dos EUA atua em sintonia com essas empresas.
Assange e companheiros afirmam estar diante de uma arquitetura jurídico-política-financeira-tecnológica que atinge diretamente a liberdade dos usuários. “Duas companhias de crédito, ambas com uma infraestrutura eletrônica de autorização centralizada nos Estados Unidos – o que implica acesso aos dados na jurisdição norte-americana -, controlam a maioria dos pagamentos em cartão de crédito no planeta”, explica Andy Müller Maguhn. A sangria financeira contra o WikiLeaks ilustra bem essa situação.
Os relatos dos ciberguerrilheiros, no entanto, não são apenas lamentos e impotência. É guerra. E a munição mais poderosa é a matemática. “É preciso reconhecer que, com a criptografia, nem toda violência do mundo poderá resolver uma equação”, desafia Jacob Applebaum. Eles apostam nas camadas criptográficas como escudo invisível contra a bisbilhotagem.
Numa outra frente, o combate político a projetos de leis como o Stop Online Piracy Act (SOPA) – Lei de Combate à Pirataria on Line – e o Protect IP Ac (PIPA) – Ato para Proteção de Propriedade Intelectual. Propostas que chegaram a tramitar no Congresso dos EUA mas foram rechaçadas por intensa mobilização da sociedade civil nacional e internacional. Caso aprovadas, o download ou compartilhamento de uma música se constituiria em crime e encarceramento. No Brasil, um projeto de lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) trilha percurso semelhante.
No campo econômico, a ideia é buscar se desvencilhar dos ditames impostos pelos corporações financeiras mediante a adoção de uma moeda voltada à Internet. O “bitcoin” se encarregaria de atuar de forma descentralizada, angariando adesões. “(…) Então, em vez de ter um Banco Central, temos um bando de pessoas no mundo inteiro que decidem em conscenso qual é a realidade e qual o câmbio atual”, defende Appelbaum.
Na opinião de Julian Assange, a Internet traz o elemento da universalidade e as entidades que a ocupam, a exemplo do WikiLeaks, constituem organizações pós-Estado em função da falta de controle geográfico.




Cypherpunks é mais um trabalho que aponta vetores futuros para a rede e expõe o embate entre a distopia e a utopia. A edição brasileira do livro, lançado pela Boitempo Editorial, ganha apresentação da jornalista Natália Viana, coeditora da Agência Pública, e um prefácio para a América Latina do próprio Julian Assange.


[1] Criado nos anos 90, o movimento se ampliou no auge das chamadas “criptoguerras” e após a censura da Internet em 2011, na Primavera Árabe. O termo deriva das palavras chiper (escrita cifrada) e punk. Foi incluído no Oxford English Dictionary em 2006.