domingo, 15 de abril de 2007

Boa tacada!


Bola dentro do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do Governo, o jornalista Franklin Martins. Durante debate realizado pelo programa Ver TV, exibido pela TV Câmara e que discutia a implantação da Rede Pública de Televisão, o ministro foi questionado pelo presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), José Inácio Pisani, sobre o “risco” de uma rede pública de televisão vir a fazer proselitismo político para o Governo. Martins não se fez de rogado e respondeu: “Concordo, acho que nenhuma rede de televisão, seja pública ou privada, tem o direito de fazer proselitismo político”. Um tapa bem dado na cara dos patrões da mídia que entendem que só eles podem manobrar a vida nacional e pautar os fatos à maneira que melhor beneficie seus intentos políticos e econômicos. A hipocrisia de Pisani foi bem rebatida.

Tudo que é sólido se desintegra

Um cartaz me chamou atenção ao adentrar o prédio dois das Faculdades Jorge Amado - uma das instituições que leciono - na manhã da última quinta-feira. A peça publicitária comunicava a confecção de carteiras estudantis da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em tom apelativo, o anúncio informava que o estudante que fizesse a carteirinha seria contemplado, além dos descontos previstos em lei, com diversos convênios. Até aí, tudo bem. Todavia, de quase uma dezena de convênios expostos, nenhum, absolutamente nenhum, se referia à livraria ou consumos de livros. As benesses se referiam a bares, lanchonetes – como o McDonald’s – e outros espaços de lazer. No mesmo dia deparei-me com outro cartaz que anunciava um certo Encontro Regional de Estudantes de Comunicação, Administração e Direito. A programação era o ponto “alto”: chopadas, festas e uma palestra, apenas uma, com o ex-jogador de basquete Oscar Schmidt. O recado que ele iria dar? Bem, isso pouco importava, já que nem mesmo constava no anúncio. O que está acontecendo com a outrora aguerrida classe estudantil brasileira? Melhor inverter a pergunta: O que não está ocorrendo à mesma?
Até o século XIX se pensava que o esclarecimento libertaria o homem. Mas a era da informação, a chamada Idade Mídia, não se traduziu em esclarecimento. Pelo contrário. Como bem afirmou Theodor Adorno, a iluminação foi traída pela massificação da informação e o que era sólido se diluiu, fragmentou-se, e se tornou munição para a dominação. A informação se converteu em arma de alienação.
Bom frisar que este que aqui escreve não intenta, nem nunca alimentou, discursos conservadores, moralistas e taciturnos. A festa, a alegria e as posturas libertárias sempre fizeram e farão parte da juventude. E assim tem que ser, pois, de modo contrário, perder-se-ia o natural vigor de um tempo que não retorna.
Mas o problema é quando o jovem se torna vítima da ignorância que lhes impõem. Não gosto do jargão: “No meu tempo”. É muita pretensão achar que sua vivência foi melhor do que a dos que hoje estão entre os 20 e 30 anos. Soa como inveja e não é isso. Mas é lamentável ver a juventude ser utilizada como “rebanho” sem que a mesma não se dê conta disso.
Triste é ver representações estudantis conveniando, apenas, com bares da moda e coisas fortuitas. Muito triste mesmo para um grupo da sociedade que um dia enfrentou o Estado Novo, o Regime Militar e pôs um presidente corrupto para correr. É triste também observar uma juventude apática, despolitizada, inesclarecida, massa de manobra que se submete aos desígnios de uma sociedade excludente e injusta. E não adianta reafirmarmos o batido clichê: “Onde foi que erramos?” O buraco é mais embaixo.
O quadro reflete a lógica (se é que se pode chamar isso de lógica) de um sistema educacional que funciona como máquina de moer carne. Ano passado, um outdoor que “vendia” cursos superiores de uma faculdade particular estampava a foto de dois rapazes que competiam no mercado. A imagem era emblemática: um dos rapazes tapava agressivamente o rosto do outro, passando à frente do mesmo em corrida desenfreada. A foto sugeria a lei do mais forte, aquele que pode superar o próximo – digamos que não tão próximo assim, pois se trata do “rival” no mercado – não importando o meio. Não à toa que a instituição que promovia tal peça publicitária prega o ensino “integral”. Ou seja, uma sociedade integralizada pela dinâmica da competição despudorada pelo “sucesso” e não uma sociedade onde cidadãos construam juntos ambientes sociais mais humanos e fraternos. Herbert Marcuse entendia que a “técnica” levada a cabo como forma de racionalizar a indústria do controle capitalista é resultante de uma acentuada visão de mundo fascista, na qual os fortes vencem e os fracos são superados. É o próprio outdoor em questão.
É a imagem que estampa os atuais ambientes acadêmicos das instituições de ensino superior privadas, e até mesmo algumas públicas. É o prosseguimento tardio do ambiente colegial, de forma propositada. Não há reflexão, nem tão pouco discussão da realidade. A realidade é o inverso de si própria que se espelha em convívios acadêmicos fortuitos, rarefeitos. Um ambiente marcado por taxis-teachers e taxi-students, onde o ápice da sociabilidade se resume numa praça de alimentação, seja na faculdade ou no shopping. Tudo é passageiro, alunos e professores. Acúmulo de conhecimento? Para quê? O que vale é um diploma que lhe possibilite alguma chance no mercado, quando isso ocorre.
Perde-se o papel primordial do ato de facultar, indagar, questionar. Matéria-prima indispensável à construção do conhecimento para transformar a sociedade e levá-la ao progresso, sobretudo o social. Todavia, o que importa realmente? Como afirma o sociólogo e ensaísta polonês Zygmunt Bauman, numa sociedade globalizada e líquida, as relações de sociabilidade se desfazem num mundo marcado pela visão unilateral do lucro. Conhecimento e progresso social não geram lucro imediato, e o sistema tem pressa em lucrar.

sábado, 7 de abril de 2007

O privilégio num mar de exclusão


É com razão que o sociólogo francês Löic Wacquant entende o neoliberalismo como um “Estado penal”. Autor de dois livros sobre o tema, As Prisões da Miséria e Punir os Pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos, Wacquant aponta o Estado neoliberal, globalizado, como agenciador do repúdio da classe dominante pelos miseráveis, o que ocasiona uma política de isolamento e repressão a esses indesejados. É quando o individualismo surge próspero neste meio, atitude que promove o distanciamento entre os indivíduos. O eu ocupa o lugar do nós, conduta responsável por promover, também, a competição ferrenha pelo "sucesso". Afinal de contas, o relevante na contemporaneidade é a aparência "limpa" e o “espetáculo”. No caso do Brasil, a busca dessa “assepsia” social toma conta da agenda nacional à medida que cresce a marginalização na sociedade, já que a mesma é vista pela grande mídia e pela maioria dos operadores jurídicos de forma atomizada e deslocada do seu contexto original. A violência seria alguma coisa de “anormal” numa sociedade de “normais”, formada por pacatos, honestos e éticos cidadãos pagadores de impostos. Um elemento perturbador num ambiente supostamente sem contradições gritantes e abismais diferenças sociais. Em matéria publicada em setembro do ano passado, a revista Exame, uma das publicações mais cortejadas pela elite econômica nacional, perguntava: Privatizar resolve? A matéria sugeria que “Para enfrentar a situação caótica das penitenciárias, a saída é diminuir o papel do Estado no sistema”. Com texto sofrível em termos de fonte e tendenciosa ao extremo, a matéria fazia malabarismos com estatísticas para apontar a necessidade do sistema penitencial ser privatizado. Lucros. Isso mesmo, a exclusão social e seus efeitos como geradores de lucro para pequenas e abastadas parcelas da população, como bem tematiza o filme de Sérgio Bianchi, Quanto vale ou é por quilo? Nesse caso, o lucro com a carceragem segue a mesma lógica que leva à explicação “racional” da educação e saúde privadas. E lucra-se justamente à custa daqueles que não são contemplados devidamente com políticas públicas nas áreas de educação e saúde. Um ciclo contínuo de reificação da exclusão. Não à toa a insistência na tese “salvacionista” da diminuição da maioridade penal levada a cabo pelos grandes meios de comunicação do país. Isso significaria o aumento do contingente das comunidades carcerárias, o que resultaria num grande mercado para aqueles interessados na privatização da segurança pública. Sai o Estado e entram as empresas de segurança privadas. Sabe-se que a maioria dos presos sentenciados no país está atrás das grades por pequenos delitos. O roubo de um quilo de açúcar, um sabonete, uma barra de cereal, uma fruta, um shampoo etc. E à medida que essa massa de encarcerados cresce, crescem também as organizações criminosas. Estamos diante do retorno à Idade Média na chamada pós-modernidade. Sociedades com Estados diminutos e ineficazes protegidas por seguranças particulares, verdadeiros feudos em meio a mares de exclusão social que almejam e planejam ataques para saquear os pequenos paraísos “civilizatórios”. Uma neobarbarização do processo social e econômico com o arranjo político de uma perversa atmosfera de vigilância contínua sobre todos. É o Estado sem estado que se esvai na submissão de vontades particulares em detrimento dos interesses coletivos. Um jogo marcado pela corrosão dos direitos sociais e trabalhistas onde impera a “ordem” a partir dos interesses imediatos do capital. Quem tiver a boca maior que morda a maior fatia, não importando o restante. E em caso de insubordinação, a prisão e a conseqüente punição. Como diria Michel Foucault, Vigiar e punir.

domingo, 1 de abril de 2007

Um recado de Cazuza e Arnaldo Brandão em 1985



O Tempo Não Pára

Cazuza/Arnaldo Brandão


Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou o cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára
Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha no palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

UDN, Arena, PDS, PFL e agora "Democrata", a continuação da velha saga direitista e golpista





O PFL de roupa nova agora é Democrata. Como assim? Isso mesmo: DE-MO-CRA-TA. Nas palavras do senador Jorge Bornhausen (DEM-SC), “o nome foi pesquisado, o que nos dá a virtude se sermos chamados de democratas”. E logo a piada surge, pois a abreviação da legenda na mídia é DEM e já está sendo chamada sugestivamente de Deixa Eu Mandar. Borracha devidamente passada na história, os novos “democratas” foram acometidos de surto proposital de amnésia, ou melhor, memória seletiva. Como queiram. Se formos à genética do novo partido encontraremos uma “bela” herança da “causa democrata”. Vejamos então: após a Ditadura do Estado Novo, foi fundada em 1947 a União Democrática Nacional, a UDN. Contradições e rachas marcaram a trajetória udenista. A UDN era um mosaico de teses liberais, autoritárias e conservadoras. O partido que pressionou para apear Getúlio Vargas do poder em 1954 ficou marcado pela vinculação com os militares e as aspirações das camadas médias urbanas. O udenismo caracterizou-se pela defesa do liberalismo clássico, o apego ao bacharelismo e ao moralismo e o horror às teses de esquerda e populares, que eles chamam de “populismo”. No que diz respeito à representação da imagem pública, a UDN e o udenismo foram useiros e vezeiros em provocar polêmicas. Foi um dos marcos do reacionarismo nos anos 50 e 60 e tentou golpes de Estado em 1954, 1955, 1956 e 1961. O tacape dos ataques era o jornal carioca Tribuna da Imprensa, que pertenceu ao jornalista e deputado federal Carlos Lacerda, apelidado de “o Corvo”. Em primeiro de abril de 1964, na ocasião do triunfo do golpe civil-militar, estava lá a UDN cerrando fileira como golpista de primeira hora. Udenistas e golpistas foram também Roberto Marinho, dono do jornal O Globo e da Rádio Globo, a família Mesquita, proprietária do jornal O Estado de São Paulo, e Herbert Levy, maior acionista do jornal econômico Gazeta Mercantil, entre outros.
Novo regime, nova roupagem. A UDN, assim como os demais partidos do país, foi extinta pelo Regime Militar. O velho mandonismo egresso da Casa Grande passou a se chamar Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Tratava-se da UDN devidamente “renovada” para apoiar a ditadura e suas mazelas, desde a Junta Militar passando pelos generais Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e João Batista Figueiredo, o último general-presidente, aquele que dizia gostar mais de cavalos do que de povo.
À medida que o Regime Militar ia enfraquecendo a ARENA buscava uma saída para dar continuidade de poder àquele grupo de senhores que desde o processo de colonização do país estava acostumado a mandar. Daí vem o racha do regime, e decisivo. Antes, a ARENA trocara de nome e a “nova” legenda passara a se chamar Partido Democrático Social (PDS). Os militares, já tremendamente desgastados pela opinião pública, não vêem saída para o regime prosseguir. Era necessária uma solução interna e civil, dado que a pressão popular se mostrara ativa com a campanha das Diretas Já, ocorrida em 1984 e que buscara reestabelecer eleições diretas para presidente, mas que não logrou êxito.
Foi sacada da cartola a solução: o deputado federal Paulo Salim Maluf, integrante do PDS e da base de apoio do regime, foi lançado candidato a presidente nas eleições indiretas dentro do Colégio Eleitoral que se restringia à Câmara e ao Senado. Mas a escolha de Maluf não agradou a setores que também se acantonavam historicamente na sustentação dos militares, a exemplo de Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, o coronel Mário Andreaza, Aureliano Chaves, Jorge Bornhausen entre outros. Esse grupo forma então a Frente Liberal, que decide apoiar a candidatura de Tancredo de Almeida Neves pela oposição parlamentar moderada, aglutinada na ocasião pelo PMDB, partido que herdou a trajetória do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Maluf foi derrotado por Tancredo Neves no Congresso Nacional e tal fato se constituiu no marco do fim do regime militar. Mas Tancredo morreu e não assumiu o cargo, quem o fez foi o vice da chapa dele, José Sarney, ex-ARENA.
Inaugurava-se a Nova República com os velhos senhores. Tendo a imagem também pra lá de desgastada o PDS se transformou então em Partido da Frente Liberal, o PFL, legenda que abrigou os remanescentes do Regime Militar e os novos próceres ideológicos do neoliberalismo. O “novo” partido deu continuidade também às velhas políticas tocadas pelas oligarquias no Norte e Nordeste do país. O voto controlado e comprado, o clientelismo político, a violência político-policial, a repressão aos movimentos sociais, o desrespeito aos Direitos Humanos e o compadrio marcaram as gestões do PFL nessas regiões.
Nas últimas eleições essas práticas foram quase que completamente varridas do mapa. O PFL, por sua vez, viu amargar seu crescente desfibramento. Um partido que outrora detinha grandes bancadas na Câmara e no Senado, chegando a ter cinco governadores, viu-se minguado nas eleições do ano passado. O partido elegeu apenas 65 deputados federais e perdeu oito com a migração de parlamentares para partidos de base de apoio do governo. Todavia, manteve-se ainda com maioria no Senado, com 18 senadores. Em governos de Estado, conta apenas com José Roberto Arruda no Distrito Federal, não conseguindo eleger mais ninguém. Da UDN ao “Democrata” pouco se mudou no perfil ideológico dessa corrente política. Vale registrar como curiosidade que o mesmo nunca conseguiu eleger um presidente, desde 1947. Por sua vez, sempre teve gosto em estar ao lado do poder, pois a característica fisiológica o acompanha. Foi fiel a Fernando Henrique Cardoso durante oito anos e marchou junto com o PSDB nas duas últimas eleições, ambas sofrendo derrotas.

Direita raivosa

No âmago dos seus intentos, está a luta pela manutenção e radical ampliação do modelo de gestão neoliberal, como a redução do papel do Estado, corte de verbas públicas e de investimentos sociais, além da total desregulamentação das leis trabalhistas. É a direita mais nociva e atrasada. Deseja transformr o país num Estado penal onde a construção de penitenciárias se torna mais importante do que a edificação de escolas e hospitais. É aquela que tem vergonha de se assumir como tal, ou seja, direita. Se vestem como preocupados com causas sociais e se dizem democratas. Mas, acreditem, em caso de “emergência”, estarão esses “democratas” prontos a apoiar um novo golpe de Estado, como fez ACM no primeiro semestre do ano passado. Veja aqui.