Tudo que é sólido se desintegra

Um cartaz me chamou atenção ao adentrar o prédio dois das Faculdades Jorge Amado - uma das instituições que leciono - na manhã da última quinta-feira. A peça publicitária comunicava a confecção de carteiras estudantis da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em tom apelativo, o anúncio informava que o estudante que fizesse a carteirinha seria contemplado, além dos descontos previstos em lei, com diversos convênios. Até aí, tudo bem. Todavia, de quase uma dezena de convênios expostos, nenhum, absolutamente nenhum, se referia à livraria ou consumos de livros. As benesses se referiam a bares, lanchonetes – como o McDonald’s – e outros espaços de lazer. No mesmo dia deparei-me com outro cartaz que anunciava um certo Encontro Regional de Estudantes de Comunicação, Administração e Direito. A programação era o ponto “alto”: chopadas, festas e uma palestra, apenas uma, com o ex-jogador de basquete Oscar Schmidt. O recado que ele iria dar? Bem, isso pouco importava, já que nem mesmo constava no anúncio. O que está acontecendo com a outrora aguerrida classe estudantil brasileira? Melhor inverter a pergunta: O que não está ocorrendo à mesma?
Até o século XIX se pensava que o esclarecimento libertaria o homem. Mas a era da informação, a chamada Idade Mídia, não se traduziu em esclarecimento. Pelo contrário. Como bem afirmou Theodor Adorno, a iluminação foi traída pela massificação da informação e o que era sólido se diluiu, fragmentou-se, e se tornou munição para a dominação. A informação se converteu em arma de alienação.
Bom frisar que este que aqui escreve não intenta, nem nunca alimentou, discursos conservadores, moralistas e taciturnos. A festa, a alegria e as posturas libertárias sempre fizeram e farão parte da juventude. E assim tem que ser, pois, de modo contrário, perder-se-ia o natural vigor de um tempo que não retorna.
Mas o problema é quando o jovem se torna vítima da ignorância que lhes impõem. Não gosto do jargão: “No meu tempo”. É muita pretensão achar que sua vivência foi melhor do que a dos que hoje estão entre os 20 e 30 anos. Soa como inveja e não é isso. Mas é lamentável ver a juventude ser utilizada como “rebanho” sem que a mesma não se dê conta disso.
Triste é ver representações estudantis conveniando, apenas, com bares da moda e coisas fortuitas. Muito triste mesmo para um grupo da sociedade que um dia enfrentou o Estado Novo, o Regime Militar e pôs um presidente corrupto para correr. É triste também observar uma juventude apática, despolitizada, inesclarecida, massa de manobra que se submete aos desígnios de uma sociedade excludente e injusta. E não adianta reafirmarmos o batido clichê: “Onde foi que erramos?” O buraco é mais embaixo.
O quadro reflete a lógica (se é que se pode chamar isso de lógica) de um sistema educacional que funciona como máquina de moer carne. Ano passado, um outdoor que “vendia” cursos superiores de uma faculdade particular estampava a foto de dois rapazes que competiam no mercado. A imagem era emblemática: um dos rapazes tapava agressivamente o rosto do outro, passando à frente do mesmo em corrida desenfreada. A foto sugeria a lei do mais forte, aquele que pode superar o próximo – digamos que não tão próximo assim, pois se trata do “rival” no mercado – não importando o meio. Não à toa que a instituição que promovia tal peça publicitária prega o ensino “integral”. Ou seja, uma sociedade integralizada pela dinâmica da competição despudorada pelo “sucesso” e não uma sociedade onde cidadãos construam juntos ambientes sociais mais humanos e fraternos. Herbert Marcuse entendia que a “técnica” levada a cabo como forma de racionalizar a indústria do controle capitalista é resultante de uma acentuada visão de mundo fascista, na qual os fortes vencem e os fracos são superados. É o próprio outdoor em questão.
É a imagem que estampa os atuais ambientes acadêmicos das instituições de ensino superior privadas, e até mesmo algumas públicas. É o prosseguimento tardio do ambiente colegial, de forma propositada. Não há reflexão, nem tão pouco discussão da realidade. A realidade é o inverso de si própria que se espelha em convívios acadêmicos fortuitos, rarefeitos. Um ambiente marcado por taxis-teachers e taxi-students, onde o ápice da sociabilidade se resume numa praça de alimentação, seja na faculdade ou no shopping. Tudo é passageiro, alunos e professores. Acúmulo de conhecimento? Para quê? O que vale é um diploma que lhe possibilite alguma chance no mercado, quando isso ocorre.
Perde-se o papel primordial do ato de facultar, indagar, questionar. Matéria-prima indispensável à construção do conhecimento para transformar a sociedade e levá-la ao progresso, sobretudo o social. Todavia, o que importa realmente? Como afirma o sociólogo e ensaísta polonês Zygmunt Bauman, numa sociedade globalizada e líquida, as relações de sociabilidade se desfazem num mundo marcado pela visão unilateral do lucro. Conhecimento e progresso social não geram lucro imediato, e o sistema tem pressa em lucrar.

Comentários

MuriloAlves disse…
Pois é, professor!
Há um recado de Renato Russo bem coerente para intertextualizar com os teus escritos:
"Até um tempo atrás, podíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?"
Em relação a faculdade, escrevo com o intuito de inflamar a capacidade de indignação dos colegas. Nos reunimos, falamos da importância de nos organizarmos politicamente, mas a escassez de tempo dos estudantes que estudam à noite somada ao desinteresse e descrédito prevalecem.
De qualquer forma, o Centro Estudantil Acadêmico, organização criada por estudantes de Comunicação das FJA irá sair, graças a mobilização dos colegas do matutino e noturno.
No meu blog: http:// ventanias.blog.terra.com.br e no blog da turma: http://jornalistas4fja.blogspot.com estarei informando sobre as ações do movimento que acaba de ser semeado.
Parabéns pelos textos que escreve!
Anônimo disse…
Pois é caro primo!!!O que será do futuro deste país!!!!!Os ideiais que nós cultuavamos ontem parece que foram esquecidos....
O que poderemos esperar desses jovens??? Veja aí envolvimento dos grandes em crimes e outras bandalheiras afins!!!
Dá nojo só de pensar....
Desculpe pelo desabafo.
Grande abraços,
Guto.
Alena disse…
Nada interessa tanto assim aos alunos. Zeca, me deprime ver a idiotização dos jovens. A falta de mobilização. A juventude "TÔ nem aí". O discurso vazio. Os achólogos sem fundamentação alguma. Os professores que só pensam em terrorismo com provas decorebas que a nenhum raciocínio crítico levam. As bibliotecas depreciadas de nossa cidade. A vida cultural resumida ao Parangolé ou ao "Xandy". O vazio dos debates. O desinteresse mórbido. A morte cerebral. Ou melhor, a ingerência cerebral.

...

E eu? E eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar.

E cadê a sombra do disco voador?

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