terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um alô para José Antar

Novamente provocado pelo pitoniso José Antar, aquele que “previu” em abril passado as vitórias “estrondantes” de José Serra e Paulo Souto, sinto-me no dever de pôr alguns pontos nos “is” soltos à sarjeta, lançados pelo digníssimo amigo. Revoltado com a corrupção no Brasil, bem ao estilo Carlos Lacerda, Antar utilizou como exemplo do delito o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “São uns corruptos que só querem invadir as terras dos outros”. E ao segundo plano foram jogadas situações bem mais convincentes. Ou seria a memória seletivíssima do nosso amigo responsável por ofuscar tais lembretes? Será? Talvez sua leitura assídua da Revista Veja, maior baluarte editorial da extrema-direita tupiniquim, não o ajude avivar as idéias, talvez empastá-las, apenas. Mas é o MST o bode expiatório do nosso “bem informado” Antar, que vez em quando fica com vontade de reeditar a Marcha com Deus, pela Família e a Propriedade. Segundo ele, o movimento sem-terra “só invade terras produtivas”. Outra vez pergunto, será? Aos fatos. Num meio rural marcado pelo recente processo escravocrata - sociogênese da brutal violência e origem da grande propriedade privada da terra no Brasil - 60% dos imóveis rurais não possuem titulação de fato. A prática é cercar a terra e começar (ou não) a produzir para depois se anunciar como dono. Muitos proprietários fazem contratos de compra e venda não reconhecidos em cartórios e, por vezes, estão ocupando terras da União. Este é o caso da Cutrale, a empresa situada no noroeste paulista que Antar apontou como “vítima” de uma invasão. Outra quimera defendida pelo nobre “debatedor” é quanto à produtividade. É preciso lembrar que se somar toda a área com plantio agrícola ela não chega a 70 milhões de hectares. O Brasil tem 850 milhões de hectares! Na Amazônia, por exemplo, há o caso de uma pessoa que é proprietária de cinco milhões de hectares. É pouco? Então, quem invadiu quem, Antar? São os movimentos sociais ou a ação historicamente comprovada da grilagem armada e corrupta? Certo, tudo bem, nas páginas amarelas da Veja não há matérias falando disso, ok. Mas para quem se informa apenas numa fonte...Os movimentos sociais nascem desta contradição, nobre Antar. Talvez o que o amigo não saiba é fazer um bom arrazoado histórico do próprio processo de colonização do país onde vive. Quando se afirma algo tem que se balizar a fonte pesquisada, lógico. E é assim que se deve proceder: apurando, pesquisando, lendo e, finalmente, conhecendo a realidade. Aliás, esta era uma iniciativa preconizada por aqueles filósofos do século XVIII, os enciclopedistas, ou iluministas, entre eles Rousseau, Voltaire, Diderot etc. Eles achavam que se as pessoas conhecessem, de fato, a realidade os problemas ficariam mais fáceis de serem resolvidos na sociedade. Mas sabiam também que as ideologias dominantes usariam de subterfúgios para esconder esta mesma realidade, como Karl Marx comprovou posteriormente. Seria este o caso, Antar? Por isso as ilações e os gritos bafejados na mesa? Ficam as perguntas. No próximo comentário, falo sobre o Regime Militar e as torturas, outro tema que o amigo desconhece, mas teima em discutir a partir das próprias concepções, ou aquelas tiradas pelos vaticínios da famiglia Civita, dona da Veja, o manual que orna a cabeceira do grande José Antar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um alô para Fernando Souza


Radical. Assim fui taxado pelo amigo Fernando Souza durante mesas drinqueiras da passagem do ano. Radical por que, Fernando? Aqui estou eu a meditar com meus translúcidos botões. Da palavra não se pode, e não se deve, denotar preconceitos ou sentidos senão aqueles que de fato o termo remeta. Ou mereça. Radical vem de raiz, que é radical da mesma palavra. Mas serve também como significado para significantes diversos. O menu é vasto. No meu caso, por conotação ideológica, penso. Tá bom, então eu sou radical e sua posição é destendida, flexível e capaz de absorver vasta gama de idéias, certo Fernando? Ok. Há, sim, também fui rotulado de “stalinista” pelo mesmo interlocutor, portanto sou um “stalinista radical”. Não é isso mesmo, Fernando?
Aos fatos. O que me impressiona sobremaneira nas argumentações do meu amigo é a possibilidade do rótulo a mim imputado servir muito mais àquele que me imputa. Explico. Um dos pomos da discórdia é o fato do caríssimo Fernando martelar teclas tão antigas quanto à passagem da Guerra Fria. O georgiano Josef Vissarionovitch Stalin morreu em março de 1953 e realmente fora perpetrador de um regime assassino, o que não é negado por ninguém, nem tão pouco por pensadores de esquerda que a este se opuseram tenazmente. A lista é vasta, a começar por Trotsky, incluindo também Lucaks, Marcuse, Walter Benjamin, Gramsci, Theodor Adorno e tantos e tantos. Mas para saber desses intercursos da história é preciso conhecê-la, o que acho ser uma grande lacuna do caro Fernando.
Não, Fernando, não sou stalinista. Nunca fui, saiba. Ao contrário, sempre cultivei sentimentos libertários e que extrapolam linhas de condutas ideológicas. E ajo assim pelo fato de buscar entender a história como processo, mantendo distância de paixões. Não sou monge e a mim não cabem camisas-de-força discursivas ou partidarizadas. No entanto, sempre procurei ser coerente com minhas inclinações existenciais e políticas. Coerência é importante, viu Fernando? Se deixar levar por ladainhas orquestradas pelas famíglias Civita, Marinho, Mesquita, Frias e outras pode ser danoso ao raciocínio.
Sabe, Fernando, quando vi a campanha do seu candidato José Serra fazer aliança com a Opus Dei, TFP, grupos fascistas e sites nazistas passei a pensar o que seria, de fato, radicalismo. Foi um debate tão “suave”, não foi? Enquanto Mônica Serra afirmava que Dilma Rousseff “mataria criancinhas”, bispos católicos e pastores fundamentalistas reeditavam em 2010 a marcha de Deus com a família e pela propriedade. Saudades da quartelada de 1964? Talvez. E, friso, era tudo tão “suave”, não é mesmo? Aqueles discursos homofóbicos, a reunião com os milicos de pijama no Clube das Forças Armadas, no Rio, a vociferação contra a união civil de pessoas do mesmo sexo, o ódio contra os sem-terra e os sem-teto, a hipocrisia com o tema do aborto, e, depois das eleições, o preconceito contra os nordestinos. Que bela campanha “light”, hein Fernando? Chego a imaginar que Torquemada, aquele inquisidor espanhol que queimou milhares na fogueira, tenha virado fichinha junto à entourage de Serra.
E você, hein Fernando, que tanto argumenta sobre a aliança com Sarney, já pensou como ficariam as florestas e o meio rural do Brasil sob a batuta de Kátia Abreu, a ruralista escravocrata aliada de Serra? E quantos aquilatados “democratas” marcharam com seu candidato? Creio que vários, não é mesmo? Indio da Costa então, que belo e invejável exemplar de democrata!
Sabe qual o problema da informação, Fernando? É que quando não é bem feita e dosada ela passa a ser deformação. A propósito, sobre isso me lembro de um dos últimos pronunciamentos de um brilhante escritor o qual você lia na paradisíaca Praia do Guaibim, José Saramago. Comunista histórico, não stalinista, Saramago mostrava-se bastante inquieto com a desinformação das pessoas neste alvorecer do século XXI, momento que ele taxou de “traição do iluminismo”. Para o escritor, o bombardeio midiático intermitente sob o controle das corporações estava levando substantivas parcelas da população a pensar e agir conforme seus padrões ideológicos. Será? Ou você passou a aprender diferente com Saramago? Tomara.