Um alô para José Antar

Novamente provocado pelo pitoniso José Antar, aquele que “previu” em abril passado as vitórias “estrondantes” de José Serra e Paulo Souto, sinto-me no dever de pôr alguns pontos nos “is” soltos à sarjeta, lançados pelo digníssimo amigo. Revoltado com a corrupção no Brasil, bem ao estilo Carlos Lacerda, Antar utilizou como exemplo do delito o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “São uns corruptos que só querem invadir as terras dos outros”. E ao segundo plano foram jogadas situações bem mais convincentes. Ou seria a memória seletivíssima do nosso amigo responsável por ofuscar tais lembretes? Será? Talvez sua leitura assídua da Revista Veja, maior baluarte editorial da extrema-direita tupiniquim, não o ajude avivar as idéias, talvez empastá-las, apenas. Mas é o MST o bode expiatório do nosso “bem informado” Antar, que vez em quando fica com vontade de reeditar a Marcha com Deus, pela Família e a Propriedade. Segundo ele, o movimento sem-terra “só invade terras produtivas”. Outra vez pergunto, será? Aos fatos. Num meio rural marcado pelo recente processo escravocrata - sociogênese da brutal violência e origem da grande propriedade privada da terra no Brasil - 60% dos imóveis rurais não possuem titulação de fato. A prática é cercar a terra e começar (ou não) a produzir para depois se anunciar como dono. Muitos proprietários fazem contratos de compra e venda não reconhecidos em cartórios e, por vezes, estão ocupando terras da União. Este é o caso da Cutrale, a empresa situada no noroeste paulista que Antar apontou como “vítima” de uma invasão. Outra quimera defendida pelo nobre “debatedor” é quanto à produtividade. É preciso lembrar que se somar toda a área com plantio agrícola ela não chega a 70 milhões de hectares. O Brasil tem 850 milhões de hectares! Na Amazônia, por exemplo, há o caso de uma pessoa que é proprietária de cinco milhões de hectares. É pouco? Então, quem invadiu quem, Antar? São os movimentos sociais ou a ação historicamente comprovada da grilagem armada e corrupta? Certo, tudo bem, nas páginas amarelas da Veja não há matérias falando disso, ok. Mas para quem se informa apenas numa fonte...Os movimentos sociais nascem desta contradição, nobre Antar. Talvez o que o amigo não saiba é fazer um bom arrazoado histórico do próprio processo de colonização do país onde vive. Quando se afirma algo tem que se balizar a fonte pesquisada, lógico. E é assim que se deve proceder: apurando, pesquisando, lendo e, finalmente, conhecendo a realidade. Aliás, esta era uma iniciativa preconizada por aqueles filósofos do século XVIII, os enciclopedistas, ou iluministas, entre eles Rousseau, Voltaire, Diderot etc. Eles achavam que se as pessoas conhecessem, de fato, a realidade os problemas ficariam mais fáceis de serem resolvidos na sociedade. Mas sabiam também que as ideologias dominantes usariam de subterfúgios para esconder esta mesma realidade, como Karl Marx comprovou posteriormente. Seria este o caso, Antar? Por isso as ilações e os gritos bafejados na mesa? Ficam as perguntas. No próximo comentário, falo sobre o Regime Militar e as torturas, outro tema que o amigo desconhece, mas teima em discutir a partir das próprias concepções, ou aquelas tiradas pelos vaticínios da famiglia Civita, dona da Veja, o manual que orna a cabeceira do grande José Antar.

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