quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

O mundo Amanhã - Julian Assange entrevista os Criptopunks - parte 1


O oitavo episódio da serie 'O Mundo Amanhã', entrevistas realizadas por Julian Assange, fruto da parceria entre a Agência Pública com produção da série realizada pelo WikiLeaks com parceria com o canal RT, da Rússia, tem como convidados seus companheiros de armas, os criptopunks, virtuosos cyberativistas que lutam pela paz na internet. E avisam: não haverá paz sem liberdade. 



Assista a entrevista e abaixo, leia o texto escrito pela Agência Pública, veja as datas dos próximos lançamentos e o que já foi divulgado.

O mundo Amanhã - Julian Assange entrevista os Criptopunks - parte 2


Na segunda parte da conversa com os criptopunks (parte 1), da serie 'O Mundo Amanhã'Julian Assange continua a conversa com os virtuosos cyberativistas que lutam pela paz na internet. A arquitetura das redes e suas influências na sociedade moderna é amplamente discutida com diversos pontos a se observar. Política, economia, poder e influências dão o tom para essa gostosa e proveitosa conversa. 

Assista a entrevista e abaixo, leia o texto escrito pela Agência Pública, veja as datas dos próximos lançamentos e o que já foi divulgado.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Um ensaio sobre a cegueira no estacionamento



Fechava os olhos quando era criança, pra experimentar a sensação de não enxergar. Mas era por pouco tempo, por alguns passos, talvez até em função mesmo da dificuldade de lidar com essa limitação tão contrária a nossa ansiedade por olhar pras coisas. Nós, os que enxergam as coisas. Não tinha nem um centésimo do desamparo que vivenciei na exposição "Diálogo na Escuridão", no estacionamento do Salvador Shopping. Um ambiente de completo breu, onde por uma hora usamos bengala e somos guiados ... por guias cegos.

Tatear o mundo é muito diferente, sim. As coisas viram texturas, a gente quase se perde na falta de referências visuais, como se estivesse flutuando, mas acaba se conectando à realidade graças aos outros sentidos. Não saquei direito os cheiros. Me agarrei ao tato. A audição é que foi um espanto: como o ambiente simula uma caminhada por uma cidade real, há muitos sons em volta, o que pra mim virou uma verdadeira cacofonia. Sou dado a labirintices, então acabei ficando meio tonto. É estranho: como se o cérebro associasse ao silêncio a ausência de imagens, e, confrontado com os sons, amplificasse e misturasse tudo.

E não é licença poética: você fica de fato inseguro... na hora de atravessar a rua. A guia disse que essa é a coisa mais difícil pra ela. Tem autonomia, até anda sem bengala dentro do prédio e em casa - e na exposição -, ambientes já mapeados em sua cabeça. Mas pra atravessar a rua precisa pedir ajuda porque os sons confundem. E Salvador não tem sinaleiras com alertas auditivos, não tem calçadas sinalizadas. Ela deu uma dica: ao ajudar um cego a atravessar, jamais vá puxando. Dê o braço pra que ele pouse a mão, assim saberá se você desceu a calçada, se tem uma depressão ou um obstáculo no chão, e irá se ajustando a esses sinais.

Ela se vira, está aprendendo a trabalhar com programas de computador que têm aquele dispositivo de traduzir em audio o que está na tela. No mercado de trabalho, há possibilidade de atuar por exemplo como operadora de call center. Ela parece tranquila e vivaz. O mais genial na exposição é que não faz você ficar com pena dos 'deficientes visuais'. Só faz você se colocar no lugar deles, entender como é difícil ser cego em terra de 'eficientes visuais', mas sobretudo que é absolutamente possível viver assim - ainda mais se a gente se preocupar em não dificultar a vida de quem precisa atravessar as nossas ruas tão cheias de som e fúria...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

De internautas a peixes de aquários virtuais?



Quando o porta-voz do WikiLeaks, Julian Assange, declarou que o Google sabia mais sobre nós do que nossas próprias mães, o ciberativista australiano lançava um alerta para o processo em curso de garroteamento da Internet pelas novas corporações da mídia. Estaríamos cada vez mais navegando em aquários-fazendas virtuais sem nos dar conta dessa condição de confinamento?
Em O Filtro Invisível, o que a Internet está escondendo de você, o norte-americano Eli Pariser, presidente do conselho diretor do portal MoveOn.org e cofundador da Avaaz.org, disseca o enredo. Personalizar. Essa é a palavra-chave para entender como o Google, Facebook, Yahoo, YouTube e outros agem na web para utilizar dados de milhões de pessoas com o fito que foge ao ideário inicial da web.
Adotada por libertários ainda ressaquiados pela maré dos movimentos da contracultura, Pariser aponta uma Internet 3.0 que hoje caminha para colocar seus usuários como presas fáceis das bolhas de filtro. “(…) Quando deixamos por conta própria, os filtros de personalização servem como uma espécie de autopropaganda invisível, doutrinando-nos com as nossas próprias ideias, amplificando nosso desejo por coisas conhecidas e nos deixando alheios aos perigos ocultos no obscuro território do desconhecido”, afirma.
Buscar a relevância num oceano de milhões de informações disponíveis levou os programadores a trabalharem algoritmos capazes de empurrar os usuários para lugares-comuns amoldados aos seus perfis e predileções. Os sinais de comportamento, inclinação e preferências resultam em milhões de dados que, após filtrados e analisados, direcionam os internautas para nichos de supostas identificações sociais, culturais e políticas.
Uma pesquisa no Google sobre o aborto trará um elenco de resultados para alguém que se posta filosófica e ideologicamente contra a prática e outro para um militante favorável à causa. Por quê? Porque o mais importante não é ofertar informações capazes de apresentar o problema num leque de visões e opiniões que mostrem os contraditórios do assunto ou tema buscado. Isso é secundário. O objetivo é manter guetos de afins para facilitar a publicidade direcionada.
“A empresa que tiver maior quantidade de informações e souber usá-las melhor ganhará os dólares da publicidade”. Segundo o Wall Street Journal, os cinquenta sites mais visitados da Internet, sejam eles a CNN, o Yahoo ou o MSN, instalam cada um, em média, 64 cookies repletos de dados e beacons de rastreamento pessoal.
“Se buscarmos uma palavra como ‘depressão’ no Dictionary.com, o site irá instalar 223 cookies e beacons de rastreamento em nosso computador, para que outros sites possam nos apresentar anúncios de antidepressivos”, alerta Pariser.
O comportamento das pessoas na rede é a mercadoria. Estratégia que não atinge apenas a publicidade, mas também o jornalismo como efeito-catraca. Notícias que trazem assuntos recentes, pouco aprofundados, com ênfase nos escândalos virais ganham importância. “Os repórteres já não procuram mais furos – eles apenas botam lenha na fogueira das matérias que ganham mais cliques”, alfineta o ativista.
A economia da atenção tem imposto à web uma espécie de mais do mesmo a milhões de usuários. A dica despretensiosa, tipo se você gosta disso gostará também daquilo; ou as sugestões de amizade de perfis próximos às suas tribos e grupos de referência, operam como poderosos filtros para manter focos de atenção pontuais.
Dinâmica que dilui e até mesmo elimina a serindipidade, ou a possibilidade de achar o que não procuramos, inibindo a criatividade que possa resultar em descobertas que fujam ao que as “bolhas” possam dispor. Ameaça à promoção da diversidade de ideias, culturas e o sadio contato com o inusitado.
Na sua análise, o autor apresenta as diferenças entre o Twitter e o Facebook. A despeito dos aspectos semelhantes das duas redes sociais, Pariser classifica as regras do Facebook como “incrivelmente turvas e que parecem mudar quase todo dia”.
Na opinião do ativista, a rede criada por Mark Zuckerberg atua conforme suas bolhas de filtro e, muitas vezes, não respeita a publicação de postagens dos seus participantes, “pois diferentes tipos de conteúdos têm diferentes chances de ser mostrados”. Em relação ao Twitter, Pariser entende essa rede como bastante transparente e com poucas regras rigorosamente respeitadas pela empresa, não enganando os usuários.
O Filtro Invisível não é apenas um libelo solto contra a tentativa de domínio aético de empresas na Internet por intermédio de panópticos de monitoramento social. O trabalho é embasado em razoável base teórica que reúne opiniões e citações de psicólogos, pedagogos, cientistas sociais e estudiosos do comportamento humano de diversas áreas do conhecimento. O livro serve como importante alerta do porvir sobre os efeitos da web no futuro das relações humanas.   

Serviço:
Eli Pariser
O Filtro Invisível, o que a Internet está escondendo de você
Jorge Zahar Editor, 2012, Rio de Janeiro
Tradução – Diego Alfaro

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A nota do PSDB de apoio ao golpe no Paraguai. Questão de instinto.


O PSDB divulgou nota de apoio ao golpe de estado no Paraguai. Não causa surpresa a postura do partido de Sérgio Guerra, que classificou o episódio como “substituição da Presidência”. Patético, o texto afirma “que a despeito da velocidade do processo, não houve rompimento das leis no país”. Tudo dito como se um rito que durou apenas duas horas, sem a mínima chance de defesa ao presidente Lugo, não representasse um ato de força. À postura dos tucanos recorro a um pensamento de Slavoj Zizek: “(...) A era contemporânea volta e meia se proclama pós-ideológica, mas essa negação da ideologia só representa a prova suprema de que, mais do que nunca, estamos imbuídos na ideologia (...)”. Perfeito. Despolitiza-se o fato. Seria uma simples “substituição” no poder. Um trâmite parlamentar, apenas. No mesmo diapasão, condena a postura do governo brasileiro ancorando-se no discurso de “autodeterminação dos povos”. Tergiversa o necessário para que a alegoria da retórica lhe caia como máscara ideal à inversão dos valores. Por “autodeterminação” leia-se um golpe cujo constructo foi iniciado ainda em 2008, em Washington. O estratagema exigia uma faceta “democrática”. E entre seus partícipes, além dos parlamentares, estava o general Lino Oviedo, representante do agronegócio do Brasil no Paraguai, conforme denunciou o site WikiLeaks. Pontas de um único novelo que se encontram. Zizek, ao comentar a estratégia de “humanização” ideológica das Forças de Defesa de Israel na mídia israelense, lembra os enquadramentos suavizados das destruições de casas de palestinos. Soldados israelenses ajudavam as famílias a esvaziar os imóveis antes dos tanques triturarem tudo. É a boia de argumentação do PSDB. Legitimando o golpe no Paraguai, o partido de Serra acena precedentes a quaisquer posturas de itinerário semelhante, como se tentou em 2005 à época do escândalo carimbado com a alcunha de mensalão. Suaviza-se a violência com o auxílio luxuoso de instituições como o Judiciário e o Legislativo. E clamam às famílias para marchar com Deus. É preparo de terreno futuro com o retrovisor do passado. Sonho recôndito, camuflado, à espreita para qualquer encaixe. Desde a UDN é assim. Em 1954 e 1964 não foi diferente. Por que seria agora? Questão de instinto.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Merlino X Ustra: Memória de um tempo não vivido

 Por Tatiana Merlino, da Pública


Na ação movida pela família do jornalista Luís Eduardo Merlino, o coronel Carlos Alberto Bilhante Ustra é responsabilizado pela morte, ocorrida em julho de 71.


Sobre a cômoda, ao lado do vaso onde quase sempre há uma flor, há um porta-retrato prateado. Na foto, um jovem de perfil: cabelos negros, pele clara, olhos grandes, óculos de aro escuro. Quando eu ainda olhava o porta-retrato de baixo para cima, com uns sete anos, já sabia que ele era alguém muito importante para a família.
Os anos se passaram, o porta-retrato mudou de casa, mas seguiu junto com a cômoda e o vaso. O homem da foto continuava jovem, olhando insistentemente para o infinito. Outros anos se seguiram, e a dona do porta-retrato e da cômoda morreu. Hoje, o porta-retrato mudou de casa e de dona. E eu o olho de cima para baixo.
O jovem é meu tio, o jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, torturado e assassinado aos 23 anos, em São Paulo, em 19 de julho de 1971, nas dependências do DOI-Codi, centro de tortura comandado pelo coronel reformado do Exército brasileiro, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Sua mãe, Iracema da Rocha Merlino, dona do porta-retrato, faleceu em 1995 sem que o Estado tivesse reconhecido a responsabilidade pela morte do filho.
Não poderá ver, por exemplo, que no mês em que se completam 40 anos do assassinato do jovem, ocorrerá a audiência das testemunhas de uma ação por danos morais movida contra Ustra por sua ex-companheira, Angela Mendes de Almeida, e sua irmã, Regina Maria Merlino Dias de Almeida, que dão continuidade à luta de Iracema.
Na próxima quarta-feira, 27 de julho, a Justiça de São Paulo ouvirá os testemunhos dos que presenciaram a tortura e morte de Merlino, como os ex-militantes do POC (Partido Operário Comunista), organização na qual ele militava, Otacílio Cecchini, Eleonora Menicucci de Oliveira, Laurindo Junqueira Filho, Leane de Almeida e Ricardo Prata Soares; o ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vanucchi; e o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos.
Já Ustra arrolou como suas testemunhas o ex-ministro Jarbas Passarinho; um coronel e três generais da reserva, Gélio Augusto Barbosa Fregapani Paulo Chagas, Raymundo Maximiano Negrão Torres e Valter Bischoff; além do atual presidente do Senado e ex-presidente da República, José Sarney (PMDB-AP), que recentemente defendeu a manutenção do sigilo eterno de documentos oficiais ultrassecretos, com o argumento de que a divulgação desses dados pode motivar a abertura de “feridas”.
A audiência está marcada para às 14h30, no Fórum João Mendes, centro de São Paulo. Na ocasião, serão ouvidas as testemunhas de acusação. As de defesa serão ouvidas por carta precatória.
Torturador declarado
Para chegar à audiência das testemunhas, a família percorreu um longo caminho. Subscrita pelos advogados Fábio Konder Comparato, Claudineu de Melo e Aníbal Castro de Souza, esse é o segundo processo movido pela família de Merlino contra o coronel da reserva. Em 2008, Regina e Angela moveram uma ação civil declaratória na qual requeriam apenas o reconhecimento da Justiça sobre a responsabilidade de Ustra nas torturas e assassinato de Merlino. Porém, o ex-militar conseguiu paralisar e extinguir o processo por meio de artifício jurídico acatado pelo Tribunal de Justiça paulista. Assim, ambas entraram com uma segunda ação em 2010, também na área cível, que prevê uma indenização por danos morais.
Ustra já foi declarado torturador pela Justiça de São Paulo, em ação movida pela família Teles: Maria Amélia de Almeida Teles, César Teles e Criméia de Almeida. Conhecido como “major Tibiriçá”, ele comandou o DOI-Codi entre setembro de 1970 e janeiro de 1974. Em relação a esse período, houve 502 denúncias de torturas praticadas por homens sob o seu comando e por ele diretamente, além de 40 assassinatos decorrentes da violência utilizada nos interrogatórios. “Apanhei muito e apanhei do comandante. Ele foi o primeiro a me torturar e me espancou até eu perder a consciência, sendo que era uma gestante bem barriguda. Eu estava no sétimo mês de gravidez”, afirmou Criméia em dezembro de 2010.
Prisão e morte
Em 15 de julho de 1971, Merlino foi preso por três homens na casa de sua mãe, em Santos, no litoral de São Paulo. “Logo estarei de volta”, disse à mãe, irmã e tia. Foi a última vez que o viram. Jornalista e militante do POC, ele tinha recém-chegado de uma viagem à França, onde havia aderido à Quarta Internacional. O jornalista havia viajado com passaporte legal, já que contra ele não constava nenhuma acusação dos órgãos repressivos.
Da casa de sua mãe, foi levado ao DOI-Codi de São Paulo, localizado à rua Tutóia, no bairro do Paraíso, onde “foi barbaramente torturado por 24 horas ininterruptas e abandonado numa solitária, a chamada cela forte, ou x-zero”, de acordo com o livro Direito à memória e à verdade, editado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.
Muitos presos políticos testemunharam as torturas às quais o jornalista foi submetido, entre eles Guido Rocha, escultor que também estava preso no DOI-Codi na época e esteve com Merlino na “cela forte”. Guido estava há alguns dias na cela, quando o militante do POC foi trazido. “Ele estava muito machucado. Trouxeram ele carregado, ficou deitado, imobilizado. Mas muito tranquilo. Me impressionei muito com a segurança e tranquilidade dele”, disse Guido, em 1979, em entrevista ao jornalista Bernardo Kucinski.
Apesar da serenidade, seu estado de saúde piorava. As pernas estavam dormentes por conta do tempo que passara pendurado no “pau-de-arara” e, mesmo queixando-se de dor, não recebeu assistência médica. No dia seguinte, foi retirado da solitária e colocado sobre uma mesa, no pátio em frente às celas, fato que foi presenciado por diversos presos, que puderam ver seu estado. Ele queixava-se de dormência nas pernas, que não mais obedeciam. “À noite, começou a se sentir mal, estava bem pior. Ele falou: ‘chama o enfermeiro rápido que eu estou muito mal, a dormência está subindo, está nas duas pernas e nos braços também’. Aí eu bati na porta com força e gritei. Vieram o enfermeiro e alguns torturadores, policiais, os mesmos que já haviam me torturado e torturado a ele também. Vieram e o levaram. Nunca mais eu vi ele”, relatou Guido, falecido há dois anos.
Versão falsa
Em 20 de julho, cinco dias após a prisão, a família recebeu a notícia de que ele teria cometido suicídio, jogando-se embaixo de um caminhão na BR-116, na altura de Jacupiranga, em São Paulo, quando estaria sendo conduzido para o Rio Grande do Sul para “reconhecer” militantes. A família, porém, não acreditou na versão oficial da morte.
Como o corpo não foi entregue, dois tios e o cunhado do jornalista, Adalberto Dias de Almeida, que era delegado de polícia, foram ao Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo, mas o diretor do órgão negou que o corpo ali estivesse. Adalberto burlou as regras do IML e, alegando procurar o cadáver de um bandido, foi em busca do corpo do cunhado. Encontrou-o ali, numa gaveta, com torturas e sem identificação. Só assim a família pôde enterrar o jornalista, que teve o corpo entregue em caixão fechado. O laudo necroscópico atestando aversão do suicídio e que vinha grafado com a letra “T” (de terrorista), escrita a mão, foi assinado pelos médicos legistas Isaac Abramovich e Abeylard de Queiroz Orsini.
Jornalistas amigos de Merlino estiveram no local onde ele supostamente teria se suicidado e não encontraram nenhum sinal de atropelamento ou outro acidente de trânsito ocorrido nas redondezas no dia indicado. Pouco mais de um mês depois do assassinato, o jornal o Estado de S. Paulo anunciou a missa de trigésimo dia de seu falecimento, ocorrida em 28 de agosto. Cerca de 770 jornalistas compareceram à celebração, e os mesmos três homens que buscaram o jornalista em Santos foram ao local e deram os “pêsames” à sua mãe e irmã.
Nascido em Santos, em 1948, Merlino participou, como secundarista, do movimento do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE). Mudou-se para São Paulo, onde completou o ensino médio e, em 1966, com 17 anos, ingressaria como “foca” na primeira equipe de jornalistas do recém-fundado Jornal da Tarde, do grupo o Estado de S. Paulo. Ali escreveu reportagens de repercussão, como a que denunciava as atividades do “mau patrão” Abdala, da Fábrica de Cimento Perus-SP.
Também trabalhou na publicação Folha da Tarde, para onde cobriu o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna, ocorrido em setembro de 1968, época em que já havia ingressado no POC. Detido e transferido para o presídio Tiradentes, depois de solto Merlino reportou os fatos e levou mensagens dos militantes que permaneceram presos. Estudante de história da Universidade de São Paulo (USP), também trabalhou no Jornal do Bairro e participou da fundação do jornal alternativo Amanhã.
Fundado em 1968, o POC foi resultado da fusão entre a Política Operária (Polop), fundada em 1961, e a Dissidência Leninista do Partido Comunista Brasileiro (PCB), no Rio Grande do Sul. Um pouco antes de morrer, Merlino havia aderido à Quarta Internacional.
A companheira Angela e os amigos, como Tonico Ferreira e Joel Rufino dos Santos, costumam imaginar o que ele estaria fazendo hoje, pelo que lutaria, como estaria. A mim, a sobrinha nascida seis anos após sua morte, não cabem tais pensamentos. O que serve de alento é pensar que, quarenta depois, o coronel Ustra poderá ser reconhecido como o responsável pela morte do jovem da foto do porta-retrato prateado.
(Texto originalmente publicado na Revista Caros Amigos)

domingo, 8 de abril de 2012

Serra do Queimadão, uma comunidade quilombola



O documentário Serra do Queimadão, uma comunidade quilombola, é mais um trabalho do 
‬jornalista e documentarista José Carlos Torres, que também é autor do livro e do filme A caminho do Evesrest e diretor do doc O samba de Roda na Palma da Mão. Torres 
também esteve no Cairo, Egito, durante a revolução 
ocorrida naquele País, onde cobriu aquele evento histórico como jornalista independente. Neste documentário, aqui exibido na versão para TV, José Carlos Torres realiza um trabalho etnográfico sobre a comunidade quilombola localizada no município de Seabra, na Chapada Diamantia, Bahia. O documentário conta a história da comunidade e suas tradições culturais a partir da história de vida de seus moradores.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O caro, o barato e o tecnocrata


“O estado de bem-estar social era muito caro”, afirmou um técnico do setor público quando discutíamos a crise da Europa, e em particular a da Grécia. Não me tomei surpreso. Naquele momento imaginei como Margaret Thatcher e a Escola de Chicago conseguiram difundir tão bem seus valores mundo afora entre cabeças de tecnocratas engomadinhos. A sociedade se resume a uma planilha onde cabe apenas o cálculo racionalizado. Mas este não é um pensamento solto ou um discurso deslocado de certo engajamento ideológico. Não, não é. Políticas públicas de educação, saúde, segurança e lazer ganharam ares de heresia nos tempos da euforia neoliberal. Em nome da eficiência, o sacrossanto mercado responderia muito bem às demandas sociais, desafogando impostos dos setores privados, que agora poderiam efetivamente canalizar recursos em maior volume para o setor produtivo, gerar pleno emprego em abundância e prestar serviços públicos com eficiência e competitividade, superando a inércia do Estado. O ciclo do capitalismo estaria perfeito e o pensamento liberal finalmente triunfaria para todo e sempre. Mas, como diria o velho barba no século XIX, a história se repete como farsa e depois como tragédia. Bingo! Capitais de todas as matizes e credos ganharam um fenomenal play groud  para brincar de fazer dinheiro fácil. Tudo virou aposta no que poderia ser. E não foi. A farsa novamente veio à baila. O mesmo Estado, outrora vilão, é chamado a socorrer os cirandeiros que, sem dinheiro, fecharam as torneiras do crédito e levaram milhares de empresas à falência. Saiu “barato” então o Banco Central Europeu ofertar grana dos suados impostos dos cidadãos para 523 bancos do velho continente com juros de 1% ao ano, e com três de prazo para pagamento! Neste mês de fevereiro foram 530 bilhões de euros para que a garotada da ciranda que se estrepou na brincadeira se recuperasse do tombo. Isso depois deles torrarem o dinheiro da previdência de milhões de pessoas e passarem o porrete em outros milhões de correntistas e pequenos investidores. O estado de bem-estar social das elites do planeta é realmente muito caro. Mas esta não é uma conta a ser feita pelo nosso técnico. Agora são milhões a vagar pelas ruas das cidades européias à busca dos empregos e dos sonhos roubados. E a “reorganização” do sistema traz consigo uma saraivada de retóricas amplificadas pelas corporações de mídia para garantir legitimidade “técnica” às medidas fiscais salvacionistas. Estão aí para não me deixar mentir a moçada da CNN, do Financial Times e da Globo, como Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg e cia. Essa turma é boa nesse negócio de enganar trouxa. E no lombo da população européia cairá o chicote do aumento dos impostos, da redução dos salários e do aniquilamento da blindagem social que ainda restava. Adeus escola e saúde públicas. E o Estado passa a ser reduzido a um mero gerente do clube do bolinha da ciranda, que ficará de “castigo” um tempinho pela traquinagem enquanto aguarda que o parque seja rearrumado para a brincadeira prosseguir com mais segurança. Realmente, o estado de bem-estar social do capital é muito caro, não é mesmo meu caro técnico?