segunda-feira, 30 de junho de 2014

A centrífuga do manguebeat


“Pernambuco tem uma música que nenhum outro lugar tem”. A assertiva utilizada pelo jornalista José Teles não se pretende bairrista como a princípio possa parecer. Não é. Em “Do frevo ao manguebeat”, lançado pela editora 34, 367 páginas e orelhas assinadas pelo crítico Tarik de Souza, Teles desvela o histórico das manifestações estético-musicais de Pernambuco sem perder a perspectiva dos entrelaces desses movimentos com outros que ocorrem no país e no mundo.
Embora o carnaval pernambucano se apresente como o fio que conduz o autor às explicações do maracatu e do frevo, a origem desses ritmos só faz sentido se entendida no contexto socioeconômico do então estado mais pujante do Nordeste nos anos 50, e sua capital, Recife. A outrora maior metrópole da região abrigou a primeira grande gravadora fora do eixo Rio-São Paulo. Pela iniciativa do empresário José Rozenblit a produção musical do estado encontra canais para acessar o sul maravilha.     
A capoeira, o frevo, o maracatu e seus principais compositores e intérpretes. As guitarras de Alceu Valença e Robertinho do Recife eletrificando Capiba, relendo Luiz Gonzaga e a sacação cósmica de Zé Ramalho. Sim, as contribuições também vinham do estado vizinho, a Paraíba. E nada foge à porralouquice dos 70. Egressos do beatnik que assumem a sanfona em duetos com o heavy metal. 
O resultado é o som que desemboca nos mangues de Recife e Olinda, onde as parabólicas captam o emergente rock Brasil e o punk inglês.
É tudo trama. Centrífuga que forja o movimento manguebeat e a iniciativa do Abril pro Rock, evento que traz à cena nacional Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e outras bandas de Pernambuco. Rebuliço estético-político que também se manifesta no cinema e noutros campos da arte.
É o punk-caranguejo afirmando raízes sem se deixar levar por nenhum tipo de preconceito com o que rola mundo afora. Os pés cravados na lama e as cabeças antenadas com Nova York e Londres.   
O livro de José Teles é resultado de apurada pesquisa e não se limita apenas a explicar o contexto pop recifense. Vai além. O jornalista conhece bem a cena musical brazuca, embora ensaie algumas críticas desnecessárias a nomes da MPB. É leitura obrigatória àqueles que se interessam pela história da música brasileira. Vale conferir. 

sábado, 22 de março de 2014

Ilegal deve ser o crime organizado

A canabis | Foto: Alexodus/Flickr

Lembrança viva da infância. 1972. Tacão do regime militar implacável. Conversas aos sussurros dentro de casa. Choro. O irmão de um parente paterno fora preso, não por estar militando numa organização clandestina. Era “desbundado”. Assim a esquerda ortodoxa e a direita taxavam os que preferiam pôr o bloco na rua de outro modo.
“Os policiais o pegaram no Relógio de São Pedro fumando maconha”. A irmã relatava o sofrimento moral do rapaz com lágrimas nos olhos.
Certa senhora presente àquele velório sui generis, angustiada, tentava consolar a amiga. “Tudo se resolve e haverá um meio de tirá-lo desse vício. Não ficará drogado a vida toda”.
Vaticinara aquela que no futuro negociaria as córneas por uma receita azul prescrevendo Rivotril.
O irmão do preso, que anos depois teve o fígado e outros órgãos comprometidos por excesso de álcool, arrotava moral pelos poros. “Hippie, maconheiro descarado, tinha que levar uma sova também!”
Maconheiro. Chincheiro. Vagabundo. Não faltavam adjetivos aos apreciadores da cannabis sativa. Monstros mal vistos pela sociedade.
Quarenta e dois anos se passaram desde aquele bizarro episódio.
Não dá para dizer que muita coisa mudou, mas placas tectônicas que sustentam certos valores começam a se mover.
Na América do Sul, o governo do ex-guerrilheiro tupamaro José Mujica aprovou Lei que regula e estatiza o mercado da erva, liberando o plantio caseiro e o uso com normas. O objetivo, sustenta Mujica, é pôr fim ao narcotráfico.
Os estados de Washington e Colorado, nos EUA, também aprovaram leis liberando a venda e o consumo. E a Casa Branca não pretende se intrometer na decisão dos outros estados do país.
Na Europa, a Holanda já se antecipara há muito criando áreas para fumar. Em Portugal já não é crime plantar e usar maconha.
No Brasil, ser pego pela polícia com uma quantidade pequena, destinada ao consumo pessoal, pode gerar três tipos de penas: advertência sobre os efeitos, prestação de serviços à comunidade e submissão a programas educativos. Todavia, tais sanções dependerão do humor do delegado, do juiz e do promotor.
Nesta semana, a ONU levará documento à reunião em Viena admitindo que os objetivos na luta mundial contra as drogas não foram cumpridos. O organismo sugere, pela primeira vez, a descriminalização do consumo.
Vai se fechando, aos poucos, o consenso de que o proibicionismo e a guerra às drogas é apenas um delírio moral que tem ceifado milhões de vidas e rendido muito dinheiro ao crime organizado e à corrupção policial e judicial.
Se a maconha faz algum mal ao organismo? Sim, não sejamos hipócritas, embora infinitamente menos que o álcool, cigarro e outras drogas lícitas. As prateleiras das farmácias estão abarrotadas para o deleite de quem quer consumir analgésicos, ansiolíticos e afins.
Na contramão, centenas de estudos também apontam benefícios do uso da maconha. Se a questão for entendida e debatida por este prisma, fica mais fácil compreender o problema, até mesmo para executar políticas públicas de saúde que auxiliem o controle do consumo e atendam, se for o caso, aos usuários.
O que não dá mais é alimentar crenças milenares de que um dia a comunidade mundial encontrará a caneleta da boa conduta e excluirá o uso de drogas para todo e sempre.
É bom acordar para realidade. Não há e nunca haverá “purificação” universal. Pura lenda.
Registros indicam que o contato do homem com a maconha e outros alucinógenos ocorre há mais de 10 mil anos. E, ao que parece, permanecerá até que perdure a humanidade.
É debate duro. A sociedade brasileira é bastante conservadora. Dificilmente projetos de lei propostos no parlamento, incluso o do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que descriminaliza e regulamenta o uso, serão aprovados nesta legislatura.
Falta lucidez e racionalidade na discussão.
Neste caso, é dever do Estado ocupar o espaço de protagonista na condução desse impasse.
Às favas com a hipocrisia religiosa, cultural e social que só favorece o crime organizado. Lamentavelmente, enquanto escrevo este artigo muitos estão morrendo em decorrência de uma miopia social estúpida. Ilegal deve ser a violência cotidiana por conta de uma legislação atrasada. E careta.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sonhos e pesadelos de uma era


Ponto Final, do jornalista Mikal Gilmore, renomado crítico de música estadunidense, não se propõe avaliar conceitos e valores do turbilhão de eventos que ocorreu nas décadas de 60 e 70. Apenas os apresenta como um Forest Gump que transitou entre as celebridades. Para Gilmore, o legado do imaginário marcado por sexo, drogas e rock´n´roll não é dos melhores. Ele mesmo se confessa sobrevivente de uma era marcada por overdoses e devaneios com finais nem sempre felizes. E relata sem pruridos moralistas.
O livro é uma coletânea de ensaios que permeiam histórias do beatnik, da contracultura e do movimento hippie. Trajetórias de personagens como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Timoty Leary, Jim Morisson, Bob Marley, Bob Dylan e bandas como Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, entre outras, são reveladas em detalhes muitos deles desconhecidos por boa parte dos fãs.
Contestação, rebeldia, radicalismo e, também, a beleza, o lúdico e a utopia. Sonhos e pesadelos se mesclam. Assim se dá a fulminante poesia Uivo, de Ginsberg; a associação de Leary, o psicólogo e papa do ácido, com o movimento Panteras Negras, de quem Gilmore ouviu os últimos relatos no leito de morte; o amor cantado por Marley e correspondido à bala por gangs de Kingston; o esoterismo presente em muitas das composições do Zeppelin. Fatos que o crítico detalha com o distanciamento necessário.
O jornalista, atualmente editor da revista Rolling Stone, não se porta como fã. Longe disso. É observador das cenas expondo seus júbilos e infortúnios. E o faz com texto visceral, traduzindo o clima lisérgico, seja na Califórnia, Jamaica ou Inglaterra.
Lançado no Brasil pela Companhia das Letras há alguns anos, o livro de Gilmore, 439 páginas, é leitura obrigatória àqueles que se interessam e pesquisam cultura pop. E antes de se pretender um veredicto para estancar um tempo de loucuras e comportamentos sem limites, se propõe a entender e retratar estes momentos. Mas não explicá-los. Até mesmo porque não há um ponto final nisso tudo, vide Axl Rose e Amy Winehouse.




terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Espaços de indignação. E de alguma esperança



O que esperar das redes sociais para as transformações políticas? Para Manuel Castells, a premissa é de que a mudança do ambiente comunicacional afeta diretamente as normas de construção de significado e, portanto, a produção de relação de poder. O sociólogo espanhol avalia que os levantes populares da Primavera Árabe, a Revolução das Panelas na Islândia, o Occupy Wall Street, a rebelião dos Indignados da Espanha e as chamadas Jornadas de Junho no Brasil decorreram, entre outros fatores, da emergência do que entende como “autocomunicação“. Guardando diferenças econômicas, políticas e sociais, Castells observa que estes levantes tiveram como característica comum duas situações: a existência concomitante de redes mediadas por computador e dispositivos móveis e ocupação de espaços públicos, fenômenos os quais classifica de “híbridos”. Em Redes de Indignação e Esperança - Movimentos sociais na era da internet (faça o download aqui), o pesquisador analisa estas mobilizações atentando ao fato de que fagulhas de insatisfações, em alguns aspectos, ganham potência a partir das redes sociais. Para ele, “sensação de empoderamento coletivo”. Tem autoridade para sustentar. Desde os anos 90 que o acadêmico já punha a lupa no surgimento da Sociedade em Rede, analisando suas interações, a contracultura, os movimentos urbanos e a questão das identidades. Neste trabalho, Castells observa que novas vias de mudança social estão sendo catapultadas pelo que entende como “capacidade autônoma de comunicar-se e organizar-se”, estratégias, segundo ele, que têm sido descobertas por uma nova geração de ativistas “para além do alcance dos métodos usuais de controle empresarial e político”. No caso da Espanha, um levante perpetrado a partir de pessoas que se interligaram com suportes de comunicação virtual e também offline, perfazendo rizomas de interação de grupos. As mobilizações na Tunísia e Islândia são dois marcos neste novo cenário. A despeito de observar traços de “expansão do não-capitalismo” no conjunto destas situações, com a emergência de culturas econômicas alternativas, o sociólogo acredita que o sistema capitalista não entrará em colapso por si mesmo. Os movimentos sociais em rede continuarão suas experiências de luta e debate, mas tendem a se dissolver “nas suas atuais condições de existência (...)”. Não é um balde de água fria nos entusiastas do ciberativismo. Castells é pragmático e não abdica da sociologia política para dar lugar ao sonhador hacker. Para ele, “(...) a única questão relevante para se avaliar o significado de um movimento social é a produtividade histórica e social de sua prática e seu efeito sobre os participantes como pessoas e sobre a sociedade que ele tentou transformar”. Traduzindo: ninguém pode pressupor, ainda e de fato, os efeitos que as novas tecnologias de comunicação podem operar nas sociedades no que confere às mudanças políticas de curto e médio prazos.

Redes de Indignação e Esperança
Zahar Editora, 2013

sábado, 11 de janeiro de 2014

Acasos, destinos e amores



Acasos, destinos e amores que se trançam em meio a lembranças que unem passado e presente. Há filmes que são feitos para eternidade. Trem noturno para Lisboa, adaptação do livro do francês Pascal Mercier, é um deles.
Um professor suíço, magistralmente interpretado por Jeremy Irons, é movido pela curiosidade quando se depara, em situação inusitada, com um livro-relato de um autor português. Lisboa é o seu destino. É lá que resolve desencavar episódios que o levam aos primeiros anos dos 70 em meio à ditadura de Salazar.
Mais do que ilustrar a violência de um regime cruel e fascista, o filme do diretor dinamarquês Bille August discute relações humanas. Ser bom ou mal, amar e trair são posturas e sentimentos que passam à margem de posicionamentos políticos e ideológicos.
O tempo se encarrega de explicar os destinos e escolhas dos personagens. A Revolução dos Cravos, em 1974, que libertou Portugal, também aprisiona ressentimentos e mágoas.
A produção alemã de 2013, que traz também as participações de Charlotte Rampling, Bruno Ganz e a ponta luxuosa de Lena Olin, se pretende um filme político, sem, no entanto, se deixar levar pelo panfleto. Com narrativa sustentada por roteiro marcante, a película constata que no trem da vida o inesperado é que dá o leme do itinerário. É filme pra ver e rever.