quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Luta pela neutralidade da Internet no Brasil é parte da ciberguerra política internacional


Acendeu a luz laranja. Talvez a vermelha. "O governo defende a neutralidade, mantém a sua posição, mas acredito que é possível superar alguns entraves com questões redacionais". A afirmação é do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que acompanha pelo governo a tramitação do PL 2126/11, que dispõe sobre o Marco Civil da Internet. A fala de Cardozo deixa dúvidas se o Planalto resistirá, de fato, à pressão das operadoras de telefonia na legislação que determinará o funcionamento da web no Brasil.
O relator do PL, Alessandro Molon (PT-RJ), manteve no texto original a neutralidade da rede. No entanto, o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), tem dado declarações manifestando atender os interesses da indústria da telecom. As operadoras de telefonia se opõem ao conceito de neutralidade conforme disposto no relatório de Molon. Entendem que limita seus negócios.
O conceito de neutralidade previsto no PL determina que não se pode depreciar o acesso a um site ou determinado tipo de conteúdo. Ou seja, a aquisição por parte do consumidor de 10 megabytes, por exemplo, significa que ele não pode ter esta velocidade reduzida para acessar um site que não seja parceiro do provedor; ou mesmo ter de pagar mais para acessar um vídeo ou usar aplicações em streaming. O texto também deixa claro que a depreciação só poderá ocorrer por razões técnicas.
As empresas da área temem que, caso aprovado na íntegra, o PL possa impedir a venda de pacotes com diferentes velocidades ou franquia de dados. A Vivo, Claro, TIM, GVT, Oi etc. pretendem pôr “cercas” na web, que passaria a funcionar à semelhança da TV paga. O usuário navegaria na net conforme o tipo de pacote adquirido. Esta seria a primeira camada do problema.
A questão é, sobretudo, política. Esta é a segunda camada. As corporações da indústria da telecom intentam acessar os dados dos usuários para diversos fins. Vale lembrar que a bisbilhotagem internacional perpetrada pelos EUA e denunciada pelo ex-espião Edward Snowden teve o suporte logístico deste setor transnacional. E foi o fato que motivou a decisão da presidenta Dilma Rousseff em pedir a aceleração do PL no Congresso.
Não se faz mais espionagem apenas com agências de Estado. Grupos de telecomunicações foram, e são, partícipes determinantes dos crimes cibernéticos praticados pela Casa Branca.
Controle político e mercado se imbricam. Internautas têm sido presas fáceis neste enredo. Seus dados viram mercadoria para o Facebook, Google e outros parceiros dos panópticos sistemas de observação mundial. O ciberativista estadunidense Eli Parriser apontou o problema em seu trabalho O filtro invisível (leia aqui a resenha).
Parriser sustenta que a economia da atenção tem imposto à web uma espécie de mais do mesmo a milhões de usuários. E este quadro pode piorar consideravelmente caso as corporações de telefonia retalhem a rede em “fazendinhas” para os usuários-clientes. É quebrar com o ideário da Internet como galáxia de informação e de livre busca de conteúdos. Estratégia que também atinge em cheio a produção e difusão de plataformas e softwares livres, uma vez que os pacotes tecnológicos certamente virão amarrados às tecnologias associadas e difundidas pelas operadoras.                                         
Bom lembrar que durante o levante da população do Egito contra o ditador Hosni Mubarak, o mesmo Facebook acionado como plataforma para arregimentação de ativistas serviu também ao monitoramento do levante por parte do serviço secreto estadunidense.   
“A vigilância patrocinada pelo Estado é de fato um grande problema, que põe em risco a própria estrutura de todas as democracias e seu funcionamento, mas também há a vigilância privada e a potencial coleta de dados em massa por parte do setor privado. Basta dar uma olhada no Google. Se você for um usuário-padrão, o Google sabe com quem você se comunica, quem você conhece, o que está pesquisando e, possivelmente, sua preferência sexual, sua religião e suas crenças filosóficas”.
O alerta do O ciberativista Jérémie Zimmermann está no livro Cypherpunks: a liberdade e o futuro da Internet, de Julian Assange, editor-chefe do site WikiLeaks (leia aqui a resenha).
A denúncia de Zimmermann corrobora com a luta em curso no Brasil, como de resto no mundo, acerca do futuro da Internet. Os interesses escusos das operadoras de telefonia no país integram-se, portanto, a uma disputa de ordem global. O lobby montado no Congresso Nacional para pôr fim à neutralidade na web não está dissociado desse projeto maior, que une estratégias econômicas e políticas num só pacote.
A Internet ainda representa a última fronteira da mídia não garroteada, na sua lógica de funcionamento, pelo neoliberalismo e seus desmembramentos políticos. A liberdade de atuação na web sem censura do Estado e de corporações de mídia é o que tem garantido canais de manifestação e voz a inúmeros segmentos da sociedade. Antes da Internet não tinham por onde escoar conteúdos produzidos fora dos filtros das corporações de mídia.  
A ciberguerra que se põe em curso é que norteará a consolidação ou não da radicalização da democracia, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo. E a aprovação do Marco Civil contemplando a neutralidade é o nó górdio dessa disputa na seara brasileira, que terá expressivo impacto no round internacional.     


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Membro da Coordenação Nacional do Movimento da População de Rua acusa Prefeitura de Salvador de praticar ação higienista

Maria Lucia: "Cerca de 4 mil pessoas vivem nas ruas em Salvador"

Estima-se que em Salvador cerca de 4 mil pessoas vivem nas ruas. Cidadãos que são alvo diário de toda sorte de violências. Quem informa é Maria Lucia Santos Pereira da Silva, membro da Coordenação Nacional do Movimento da População de Rua (MNPR). Segundo ela, o déficit habitacional no Brasil é de 23 milhões de residências. Maria Lucia, que concedeu entrevista exclusiva ao blog Textos ao Vento, aproveitou para fazer a seguinte denúncia: “À época da Copa das Confederações, em junho deste ano, 600 pessoas foram retiradas das ruas de Salvador e alojadas de forma desumana no prédio onde funcionava o Hospital Ana Néri, na Lapinha. A ação foi feita por uma entidade de nome Federação Brasileira de Direitos Humanos, mas sabemos que é a Prefeitura que está por trás desta iniciativa. O Ministério Público está apurando o caso”. A conversa foi intermediada pelo jornalista e ciberativsita Antonio Nelson, que desenvolve intenso trabalho de colaboração com este canal de informação.
Textos ao Vento - Como se articula o Movimento Nacional da População de Rua, há quanto tempo existe e em quantas cidades atua no Brasil?

Maria Lucia - O Movimento Nacional da População de Rua existe desde 2004 e estamos no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Paraná, Salvador, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Fortaleza. Estamos participando de diversos seminários e articulações em outros estados e municípios para identificar lideranças e fortalecer o movimento

TV - Em Salvador, qual a plataforma de luta do MNPR? Quais as reivindicações mais urgentes?

ML - A inclusão da População em Situação de Rua nas politicas públicas, a adesão dos estados e municípios ao Decreto 7053/2009. A nossa reinvindicação mais urgente são a implantação dos equipamentos do Município. Exemplo: casas de acolhimento, consultórios na rua, casa de cuidados e, principalmente, a não higienização, ou seja, o recolhimento por jatos d’água e abordagens truculentas

TV – E já ocorreu alguma atitude higienista violenta de recolhimento de moradores de rua em Salvador?

ML – Sim. Temos a questão de 600 pessoas que foram retiradas das ruas e colocadas no prédio onde era o Hospital Ana Néri, na Lapinha. Ação foi feita por uma entidade de nome Federação Brasileira de Direitos Humanos, mas nós sabemos que é a Prefeitura de Salvador que está por detrás disso. Puseram centenas de pessoas para se abrigarem em condições desumanas. O Ministério Público está apurando o caso. Essas pessoas foram retiradas das ruas à época da Copa das Confederações.

TV - O MNPR calcula quantas pessoas vivem nas ruas no Brasil e, especificamente, em Salvador?

ML - Infelizmente, a população em situação de rua não consta dentro da estatística do IBGE, estamos a nível nacional discutindo com o IBGE o censo da População em Situação de Rua. No próximo ano teremos pesquisas pilotos no Recife e no Rio de Janeiro. Tivemos em 2008/2009 uma contagem feita pelo Ministério da Assistência Social onde contabilizaram em 71 municípios 50.000 moradores em situação de rua - que sabemos que é muito mais - e que contou aqui em Salvador perto de 4.000 pessoas.

TV - Como sobrevive um morador de rua?

ML - Você falou certo. Nós sobrevivemos nas ruas, é muito difícil pois existe um preconceito muito grande, diversas violações de direitos, falta de equipamentos dignos e, principalmente, a falta de uma intersetorialidade por parte das diversas Politicas Públicas. Existe também a falta de desejo político. Infelizmente as pessoas imaginam que a População em Situação de Rua se encontra nessa situação por desejo, como se fosse normal as pessoas desejarem estar nas ruas, no frio, no abandono, sofrendo assassinatos, espancamentos, sendo acordados com violência e truculência. Somos frutos e filhos de um sistema capitalista injusto e desumano.

TV - Há entidades ou poder público que atendam esse morador?

ML - Sim, temos as Defensorias Publicas, os Ministérios Públicos, o Disk 100, o Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População de Rua e Catadores de Materiais Recicláveis e seus Núcleos Estaduais Têm as Sedes do Movimento em diversos Estados, temos a Rede Rua, a Pastoral Nacional do Povo de Rua e diversos outras entidades.

TV - Como tem sido a relação do MNPR com a atual gestão da Prefeitura de Salvador?

ML - Infelizmente não conseguimos avançar em quase nada, apenas na política municipal, que foi preparada na outra gestão e assinada nessa. Conseguimos o Comitê de Acompanhamento da Politicas que ainda não se reuniu. Precisamos realmente tirar as políticas do papel e fazer acontecer. Temos tido diversas denúncias de violação de direitos, espancamentos, assassinatos, preconceito, não somente aqui em Salvador mais em diversos municípios da Bahia.

TV - O MNPR se articula com outros movimentos sociais? Quais?

Sim, com o Movimento Nacional do Catadores de Materiais Recicláveis, Movimento de Moradia, LGBT, Movimentos voltados para os Direitos Humanos, Movimento Sem Teto, entre outros.

TV - Qual o déficit de moradia hoje em Salvador e no Brasil?

Existem estudos que relatam em torno 23 milhões no Brasil. Porém, nós vemos tantos prédios abandonados que poderiam ser moradias de interesse social. Para mim, além do déficit existente, se tivessem pessoas que realmente fossem comprometidas poderíamos não acabar com a falta de habitação, mais reduziríamos em muito a desigualdade.

TV - Quais as conquistas do MNPR nos últimos anos?

ML - Foram muitas. O Decreto 7053, que é a Politica Nacional da População de Rua, o Comitê Interministerial de Acompanhamento e Monitoramento das Politicas, diversos decretos e portarias, a visibilidade do fenômeno da População em situação de rua, tema que anos atrás era tabu se falar. Conquistamos diversos espaços de controle social, somos titulares do Conselho Nacional de Assistência Social, Suplentes do Conselho Nacional da Saúde, participamos de diversos conselhos estaduais e municipais. Temos anualmente, desde o ex-presidente Lula, um encontro presidencial em dezembro. Estamos nos capacitando cada vez mais para lutarmos por nossos direitos. Realizamos em 2010 o I Congresso Nacional do Movimento da População de Rua e realizaremos o II em março de 2014. Conseguimos o Programa Bahia Acolhe e várias outras conquistas.

TV - Como é a atuação do MNPR nas redes sociais?

ML - Procuramos nos manter bastante atualizados e informados. Diversos de nós têm páginas nas redes sociais, quando algum estado está em dificuldade é a forma mais rápida de nos mobilizarmos. Temos blogs, cada vez mais encontramos pessoas dispostas nas redes a nos ajudarem e serem solidários a nossa causa. Aqueles companheiros que não acessam a internet procuramos incentivá-los e ajudá-los.   

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Nádia Lapa e sua antropofagia militante




Militância feminista por afirmação sexual e libelo existencial. Advogada, jornalista e blogueira, Nádia Lapa narra suas aventuras e desventuras sexuais e amorosas sem apelos. E também sem pudores. Cem homens em um ano não se limita à literatura erótica. É punho cerrado adocicado por gozos e sussurros que usa as mesmas armas de uma sociedade falocentrica para contrapô-la. Se for legítima a vontade de variar parceiros, que assim seja. O recado é direto. A contestação também. 
Transas pra lá de gostosas, sexo mecânico e sem graça, despedidas insólitas, paixonites desconcertantes, amores não vingados, detalhes de posições e corpos, ménages, tórridas atrações fatais, que se encerram no ato, a “pegada” perfeita, alegrias e frustrações.
É como se Nádia estivesse numa roda de amigas e amigos papeando. E o faz com narrativa e textos primorosos. Dirige-se a todos que queiram entender o comportamento de uma mulher madura que não se furta de viver plenamente sua sexualidade. Em tempos de ficções banais de variados tons de cinza, Nádia Lapa, ou Letícia Fernandez, pseudônimo assumido no seu blog Cem homens, desconcerta e derruba tabus. E pôr dar a face ao público, também sofre as consequências.
O livro, lançamento da Matrix, edição em 141 páginas, não narra encontros com os ditos 100 homens. São 35 aventuras, 38 homens contando situações onde mais de um foi partícipe. Foram estes os escolhidos por Nádia para figurarem nas suas narrativas, todas transpostas do blog.
“Transei e narrei porque gosto de fazer ambos. E, afinal de contas, eram decisões sobre meu corpo e o meu tempo. Por qual razão isso deveria incomodar pessoas que nunca me viram? Fui boba de achar que tudo era tão fácil de entender. O que o outro faz com o próprio corpo não deve ser problema da coletividade. Mas muita, muita gente pensa o contrário”. 
O desabafo da escritora serve como catarse à avalanche de ofensas que recebe, seja pelo seu físico de gordinha ou mesmo porque assume sua opção libertária. Como ela afirma, “eu era a Geni”. E para muitos, ainda é.
Bom seria ver um papo entre Nádia Lapa e William Reich, o psicanalista alemão que ela cita no final do livro. O autor de Psicologia de massas do fascismo, profundo estudo sobre a repressão à energia sexual na Alemanha nazista, poderia estar diante de um depoimento que o deixaria feliz. 
“Traçar” 100 mancebos num ano serve como símbolo de afirmação. Nádia Lapa faz antropafogia simbólica. Devora e mastiga machos, por vontade e prazer. E, de alguma forma, por opção política.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Mal filmado e mal editado. Sim. Este vídeo não é uma reportagem, nem um doc. Aqui o repórter se desnudou das suas funções e deu boas vindas aos 50 médicos e médicas cubanos que vieram para o Brasil colaborar com o Programa Mais Médicos, do Governo Federal. Essas imagens buscam passar a emoção de um momento histórico. Noite de domingo, dia 25/08/2013. Bem-vindos companheiras e companheiros de Cuba!

domingo, 25 de agosto de 2013

O mal não se explica num homem apenas, mas na decadência de uma sociedade. Hanna Arendt, o filme, é uma bela aula de filosofia



Entender o comportamento de um ser humano comum, funcionário público correto, mas que não reflete a realidade, pensa burocraticamente e comete crimes abedecendo às leis do seu país. O filme Hannah Arendt, que tem a atriz Barbara Sukowa em magistral interpretação da filósofa alemã, conta a polêmica história que envolveu a pensadora, em 1961, quando foi cobrir o julgamento do Adolf Eichmann, em Jersulém, pela revista estadunidense The New Yorker. Eichmann, um dos arquitetos da Solução Final, fora sequestrado na Argentina pelo serviço secreto israelense, o Mossad, para ser julgado em Israel.
O filme retrata uma Hanna Arendt que não se limita ao papel de simples repórter. Vai além. Se propõe pensar filosoficamente sobre a dantesca indústria da morte construída pelo nazismo. Não busca culpas individuais. Observa a engrenagem do terror atropelando valores humanos e éticos. Sua cobertura resultou numa série de cinco artigos publicados pela New Yorker, que deu origem ao livro Eichmann em Jerusalém - Uma reportagem sobre a banalidade do mal.
Dirigido por Margarethe Von Trotta, o filme apresenta a autora de As origens do totalitarismo e a A condição humana como uma mulher do seu tempo. Fumante inveterada, é casada com o poeta, filósofo comunista e teórico marxista alemão Heinrich Blutcher. Judeus, chegaram aos Estados Unidos como refugiados de um campo de concentração nazista na França. Nos EUA, onde adquiriu cidadania, ela lecionou no New School of Social Research. 
A publicação dos artigos é o começo do drama de Hannah. A filósofa assume real papel de jornalista. Vê os fatos num contexto que foge ao linchamento moral. Nem todos que praticaram os crimes de guerra eram monstros, fossem alemães a serviço do III Reich ou judeus envolvidos na colaboração da matança. É a civilização européia que vive histórica crise de valores, o que leva à banalização do mal. 
Esta é a mostruosa realidade não compreendida por muitos dos seus colegas intelectuais, alguns inclusive judeus sionistas militantes. Exigiam uma reportagem condenatória. E Hanna revolveu feridas abertas. O episódio leva ao fim da amizade com Kurt Blumenfeld, diretor e porta-voz do movimento sionista alemão 
O roteiro da película também lembra a jovem e bela Hanna Arendt aos 17 anos, aluna de Martin Heidegger (1889-1976), seu mestre à época com 35 anos com quem teve intenso caso de amor. E também decepção. Heidegger simpatizara com o Partido Nazista e assumira a reitoria da Universidade de Freiburg. 
No entanto, as digitais do mestre a acompanhariam ao longo da sua vida acadêmica. Pensar é o que faz um ser humano interagir como membro de uma sociedade. Hanna conduz seus artigos sobre o julgamento de Eichmann entendendo que abrir mão das habilidades de pensamento crítico aos outros é central às suas conclusões acerca daquele júri. 
Conforme a filósofa, Eichmann era apenas uma peça decorrente “da totalidade do colapso moral que os nazistas causaram na respeitável sociedade europeia". É o bastante para provocar a ira da sociedade estadunidense e da comunidade judaica internacional. À ela e à New Yorker. Num determinado momento, um amigo judeu à beira da morte lhe pergunta se não ama o Estado de Israel. “Não amo nenhum país”, responde.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Os partidos políticos perderam a interlocução com a sociedade" - Entrevista: Frei Betto


Foto/ www.freibetto.org


Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto, ex-frade dominicano, foi preso duas vezes à época da ditadura militar. Em 1964, por 15 dias; e entre os anos 1969 e 1973. Militante de movimentos pastorais e sociais, é adepto da Teologia da Libertação, corrente política da Igreja que atuou com bastante força na América Latina nos anos 80 e 90. Frei Betto foi assessor especial do primeiro governo de Lula, entre 2003 e 2004, quando coordenou a Mobilização Social do programa Fome Zero. Escritor com 53 livros publicados, estudou Jornalismo, Filosofia, Antropologia e Teologia. Ainda que afirme que os governos Lula e Dilma “foram os melhores da história republicana do Brasil”, o escritor faz duras críticas ao atual projeto político. De passagem por Salvador, onde cumpriu agenda de trabalho, ele conversou com o blog Textos ao Vento. Falou das manifestações que varrem o Brasil, da igreja Católica, dos direitos das minorias e do coletivo Mídia Ninja. 

Zeca Peixoto – Como o senhor observa os panoramas nacional e internacional e o papel do Estado no atual contexto?

Frei Beto - Nós estamos vivendo hoje o início da pós-modernidade hegemonizada pelo capitalismo neoliberal. E isso leva à crise das quatro instituições-pilares da modernidade, que são o Estado, a família, a escola e a Igreja. De modo que o Estado sofre uma crise de identidade, porque o neoliberalismo o transformou num agente privatizado em função da iniciativa privada, com o perdão da redundância. Isso fez com que o Estado passasse a ser mero gestor de conflitos sociais, em geral favorecendo as classes dominantes. Com isso houve uma perda da confiança do Estado, no Estado e dos sustentáculos que são os partidos e os políticos. Nós estamos numa crise de identidade política que as manifestações de junho bem refletiram com a indignação. Daí é preciso haver uma reforma política, urgente no caso do Brasil, mas em geral no mundo inteiro para resgatar o papel do Estado como provedor dos direitos sociais.

Zeca Peixoto – No caso do Brasil, nessas manifestações havia deliberada repulsa contra as agremiações políticas, os políticos e toda e qualquer forma de poder. Os partidos políticos perderam a interlocução com a sociedade?

Frei Beto - Sim, perderam. Houve uma perda da confiança do Estado, no Estado e dos sustentáculos que são os partidos e os políticos. Nós estamos numa crise de identidade política que as manifestações de junho bem refletiram com a indignação. Os partidos se afastaram. Acreditaram que a mera aliança ou o toma lá da cá entre eles, seria suficiente para que se mantivessem sem serem questionados pela opinião pública. Esse divórcio levou a um abismo refletido nessas manifestações.

Zeca Peixoto – Mas em muitas situações essas manifestações foram tomadas por grupos conservadores e de direita...

Frei Beto – Na verdade há um aspecto muito positivo e outro muito negativo nas manifestações. O positivo é que elas são apartidárias ou suprapartidárias, embora sejam políticas... 

Zeca Peixoto – E o senhor vê um lado positivo nisso?

Frei Betto - Muito. É preciso que a sociedade civil tenha outros mecanismos de democracia direta além dos partidos, e um deles são os movimentos sociais. E essas manifestações foram convocadas pelos movimentos sociais através das redes sociais.

Zeca Peixoto – E quanto ao negativo?

Frei Betto - O que há de negativo é o incremento de um rechaço, de uma rejeição da política. Eu sempre digo aos jovens, quem tem nojo de política é governado por quem não tem, e tudo que os maus políticos querem é infundir bastante nojo da política para que eles fiquem à vontade com a rapadura na mão.

Zeca Peixoto – Esta última situação não denotaria uma inclinação mais fascista?

Frei Betto - Se houver uma rejeição, sim. Se leva ao fascismo, a um vácuo em termos de mecanismos e instrumentos políticos e pode esse vácuo amanhã convergir para o poder cair no colo de uma liderança aparentemente messiânica, como aconteceu na Alemanha de Hitler ou na Itália de Mussolini.

Zeca Peixoto – E quanto à perspectiva do atual projeto político, tendo PT à frente, tentar construir uma alternativa nesse momento para dar continuidade? Não teria que se inclinar mais a essas demandas?

Frei Betto - Teria que fazer a reforma política, que foi a primeira resposta que o Executivo deu quando a presidente Dilma disse que convocaria uma assembleia exclusiva constituinte para a reforma política. Depois voltou atrás dizendo que convocaria um plebiscito válido para eleições de 2014, e mais uma vez voltou atrás e agora já não se fala mais nisso. 

Zeca Peixoto – Enquanto isso a credibilidade... 

Frei Betto - Pois é, ou seja, o governo está entrando numa zona de risco, de perda cada vez maior da credibilidade e, portanto, com a possibilidade de reforçar cada vez mais os grupos e partidos mais conservadores da sociedade brasileira, que buscam uma alternância de poder.

Zeca Peixoto – Mudando um pouco o eixo, como o senhor observa esse novo momento da Igreja Católica com o Papa Francisco? É apenas uma mera ação de marketing e propaganda política para tentar ocupar o espaço perdido nos últimos anos?

Frei Betto – Por enquanto, o que a gente viu foi uma transformação do papado, com a promessa de que haverá também uma transformação da Cúria Romana. Eu tenho muita fé, muita esperança no Papa Francisco, por ser latinoamericano, por ser um homem aberto ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso e, sobretudo, por ter muito claro que a linha pastoral dele é de opção pelos pobres. Então eu espero que essa reforma que começou de cima pra baixo, através do papado, venha se refletir nas bases da Igreja, desbloqueando uma série de temas atuais que hoje estão vetados à discussão dentro da Igreja, como a questão da moral sexual.

Zeca Peixoto – Quando o senhor fala na questão da moral sexual, o que inclui?

Frei Betto – Eu incluo a homossexualidade, a volta dos padres casados podendo celebrar missas, ordenação de mulheres, fim do celibato obrigatório, tudo isso.

Zeca Peixoto – A morte do Papa João Paulo I contribuiu para a inclinação à direita do Vaticano?

Frei Betto – Evidente. Com a morte de João Paulo I favoreceu a eleição de João Paulo II, que era um homem do leste europeu, da Polônia, anti-comunista visceral, eurocentrado como Bento XVI. Embora João Paulo II tenha tido atitudes muito positivas na linha social, do ponto de doutrinário era um homem profundamente conservador. E isso levou a uma “vaticanização” da Igreja brasileira e latino-americana, o que não foi bom para a Igreja.

Zeca Peixoto – O senhor atuou nas comunidades eclesiais de base, na pastoral operária e nos movimentos sociais ligados à Igreja. A atuação desses segmentos refluiu nos últimos 10 anos.

Frei Betto – Houve um refluxo por duas razões: primeira por essa vaticanização promovida desde Roma pelos dois pontificados anteriores, João Paulo II e Bento XVI; e segundo, a vaticanização. Ou seja, a escolha de padres mais conservadores para serem bispos. Essa situação levou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, a perder seu caráter profético. A CNBB era a voz dos que não tinham voz no Brasil. Hoje essa entidade pouco se mobiliza com as questões sociais, o que espero que volte a acontecer com o Papa Francisco.

Zeca Peixoto – E o senhor tem esperança que a Igreja venha a se transformar a médio prazo?

Frei Betto – Espero que sim. Acho que o Papa Francisco, só nessa viagem ao Rio, já deu passos muito importantes, como defender a dignidades dos homossexuais, falar que a Igreja precisa de uma teologia da mulher, insistir na opção pelos pobres, insistir que os bispos não devem se considerar príncipes. Enfim, acho que foram sinalizações fundamentais para a renovação da Igreja.

Zeca Peixoto – Como o senhor observa a atuação do coletivo Mídia Ninja?

Frei Betto - tenho admiração e aplaudo o Ninja. É preciso a gente caminhar para a democratização dos meios de comunicação. Nunca entendi como membro do Governo Federal nos anos 2003 e 2004, porque os sistemas de rádio e televisão no Brasil pertencentes à União e sendo concessão pública estão permanentemente como os mesmos proprietários. E ainda mais porque os governos municipal, estadual e federal pagam publicidade nesses veículos se eles são propriedades públicas. Isso para mim é uma incronguência e precisa de ser revertido.

Zeca Peixoto – Diante de todas as discordâncias que o senhor teve dos encaminhamentos tomados pelo governo federal após a ascensão de Lula ao poder, qual foi o pomo da discórdia que o levou à decisão de deixar o governo?

Frei Betto - eu falo em dois livros publicados pela editora Rocco. A Mosca Azul, que é uma reflexão sobre o poder, e O Calendário do poder, que é o meu diário em dois anos de Planalto. Fui chamado para ajudar a montar o programa Fome Zero, que era um programa de caráter emancipatório. A família que entrasse no programa, dentro de três quatro anos sairia em condições de produzir a sua própria renda. E por razões políticas, que eu explico no Calendário do poder, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Programa Bolsa Família, que é um programa bom, porém de caráter compensatório, pois quem entra não sai mais e fica na dependência da União permanentemente. Essa foi a minha discordância.

Zeca Peixoto – Os movimentos sociais do campo, em particular o MST, arguem que pouco se avançou na reforma agrária no Brasil.

Frei Betto - muito pouco. Há períodos que você compara e o Fernando Henrique avançou muito mais (na reforma agrária. Então, de fato, o governo é refém do agronegócio, do latifúndio, e vai pagar, já está pagando, um preço muito alto por isso. Qualquer crise nas exportações, se houver um decrescimento do PIB chinês, isso vai ter um profundo reflexo nessa dependência que o Brasil criou no agronegócio através das exportações de commodities.

Zeca Peixoto – Sem dinamizar possibilidades no mercado interno...

Frei Betto - Exatamente. Nem valorizou os pequenos e médios produtores que abastecem a mesa do brasileiro.

Zeca Peixoto – E quais são as perspectivas? Dilma tem condição de ser reeleita? Lula seria um plano B?

Frei Betto - Tenho impressão que sim. Se Dilma não crescer nas pesquisas até o período eleitoral, Lula é o candidato. Fato que fora disso as alternativas são conservadoras, e isso seria um grande retrocesso. Apesar de todas as críticas que eu faço ao atual governo, considero os governos Lula e Dilma os melhores da nossa história republicana.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Libelo juvenil em cena. Eduktors retorna a Salvador em novembro



Em tempos de Black Blok, Marcha das Vadias, Fora do Eixo, Mídia Ninja e outras hashtags da rede, a versão inédita para o teatro do longa “Edukators”, de Hans Weingartner, contextualiza com o momento que o Brasil e o mundo vivenciam. Dirigido por João Fonseca com dramaturgia de Rafael Gomes, o espetáculo tem no elenco Edmilson Barros, Fabrício Belsoff, Natália Lage e Pablo Sanábio.
Em Salvador, a peça foi exibida nos dias 10 e 11 de agosto no Teatro Sesc, Casa do Comércio. Segundo a produtora Marlucia Sie, o espetáculo retorna à capital baiana em novembro para circuitos em colégios e faculdades. 
Numa Alemanha sob a égide do neoliberalismo, três jovens de Berlim buscam transformar o mundo invadindo mansões como atos-símbolos de protesto contra o sistema capitalista. Uma dessas invasões ocorre na residência de um arquimilionário, que passa a ser refém dos “educadores”.
É o momento que a história ganha destino surpreendente, expondo fraquezas, contradições e revelações dos quatro personagens. O roteiro não chega a ser o mesmo do filme. É uma adaptação, mas mantêm o argumento central do longa, indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2004.
Eduktors é catarse de libelos juvenis liquidificados. Espécie de síntese das experiências libertárias egressas dos 60. Contestações e até mesmo conformações com a realidade sufocante.
Ambientada em arranjos de cenários simples, a peça tem elenco à altura para interpretar o texto de Weingartner. Os jovens atores Fabrício Belsoff e Pablo Sanábio respondem satisfatoriamente às contracenas com os experientes Natália Lage e Edmilson Barros. O grupo dá conta do recado. 
Rodrigo Penna, criador da seleção musical e trilha original, veste a caráter as cenas num espectro que vai de Sinatra, passando por Bob Dylan à música eletrônica do Chemical Brothers.
Quanto ao retorno da peça, Marlucia adianta que trabalhará com duas empresas da capital baiana para viabilizar as apresentações. A ideia é excelente e já passa do momento de ofertar um cardápio cultural mais inteligente aos teens da Soterópolis. Que venha Eduktors, mais uma vez.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

História da campanha do NO, case da propaganda política que pôs fim a ditadura de Pinochet



René Saavedra (Gael García Bernal) é um publiscitário descolado que vai para o trabalho de skate e adora se divertir com brinquedos infantis. Bem de vida, atua numa agência em Santiago e está às voltas com uma campanha para lançar um produto inovador, o microndas, sonho de consumo da classe média chinela. É o ano de 1988. O Chile vive sufocante ditadura do general Augusto Pinochet, um dos mais violentos ditadores do planeta e responsável por milhares de assassinatos e torturas desde que assumira o governo, em 11 de Setembro de 1973, quando derrubou o presidente socialista Salvador Allende por intermédio de um sangrento golpe militar.
Pressionado pela comunidade internacional, o governo é coagido a aceitar um plebiscito para que a população decida pela continuidade ou não do regime militar. Filho de exilado político, Saavedra assumi a coordenação da campanha do “NO”, fato histórico relevante transformado em filme com pinta de case propagandístico. Dirigido por Pablo Larraín, 1h55 de duração, a película utiliza tonalidade magenta para recriar a plástica da imagem veiculada na televisão à época. Não como apelo estético, mas como recurso semiótico calibrado à ambientação da mídia televisiva.
Como convencer uma sociedade narcotizada pelo consumo e aboletada no sofá à frente da TV que um país livre e democrático seria melhor às gerações futuras? Era o nó górdio da campanha.
Para os oposicionistas de esquerda, a comunicação deveria seguir o velho clichê dos anos 70, denunciando as arbitrariedades de Pinochet com filmes de propaganda duros e panfletários. Saavedra pensava diferente. Entendia que a população chinela já não era a mesma dos idos de 1973.
Por um lado, uma nova geração crescera ambientanda por códigos e fluxos de comunicação que não mais respondiam aos apelos de um discurso tradicional da esquerda; do outro, uma classe média temerosa de mudanças que pusessem em risco suas parcas conquistas materiais e um proletariado amedrontado e ainda traumatizado. Falar a todos esses segmentos com uma só linguagem constituía tarefa imediata. E difícil.
Cores, humor, brincadeiras e jingle de fácil assimilação. De início, o conceito de comunicação proposto pela equipe do NO é duramente criticado por políticos comunistas e socialistas. Se sentiam ofendidos por tudo que tinham passado. Para eles, um tipo de propaganda despretenciosa. Na verdade, não acreditavam no plebiscito, davam-no como vitória certa do general que controlava os meios de comunicação privados. O importante seria ocupar bem o espaço conquistado, fruto da pressão popular.
Aos poucos a equipe de Saavedra convence-os da possibilidade concreta de vitória. Vence a tese da comunicação política ornada com elementos do cotidiano das pessoas e o apelo à linguagem dos jovens. O NO não deveria remeter à tristeza ou à nostalgia do que quer que fosse e sim olhar o futuro. Votar contra o regime de Pinochet era ter alegria. A vida poderia ser colorida e melhor sem ele.
A ideia foi comprada. E incomodou o regime. Artifícios de sabotagem e repressão foram utilizados para inibir a campanha do NO, que se espalhou como viral na sociedade chilena, resultando na apoteótica vitória que pôs fim à nefasta ditadura de Augusto Pinochet. Para quem não assistiu, vale a pena conferir esse interessante case de propaganda política.




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sábado, 4 de maio de 2013

Quando o rock no Brasil era atitude



Em tempos de jovens roqueiros engomadinhos e alguns antigos com atitudes reacionárias e caquéticas, assistir Somos tão jovens, de Antônio Carlos da Fontoura, é balsâmico, nostálgico e catártico. Não esperem aqui uma crítica. Não é. No máximo, um depoimento de quem viu o filme e vivenciou aqueles momentos em Brasília. Sem pretensões estéticas, tô fora.
Fontoura amarra bem o roteiro que propõe. O início da trajetória do cantor e compositor Renato Russo, falecido em outubro de 1996 e interpretado por Thiago Mendonça, é a âncora que explica a sociogênese do chamado Rock Brasília. Do Aborto Elétrico à Legião Urbana e a capital federal como berço do punk tupiniquim.
Entre 1976 e 1982, enquanto o regime militar, já convalescente, continuava mostrando seus dentes numa Brasília sufocada pela repressão política, jovens da classe média se reuniam para driblar o ócio. A cidade, à época, não oferecia entretenimento para rapazes e moças que afloravam hormônios e rebeldia a granel. O jeito era o it your self. Rock de garagem e festinhas sob forte influência do punk inglês, no ritmo e atitude.
Não precisavam de rigor técnico. Bastava empunhar a guitarra e arriscar três acordes. Era o suficiente para eletrizar e descarregar. Tédio com um T bem grande para quem os questionasse.
Renato Manfredini, mais tarde Russo, é fruto dessa atmosfera. Filho de um funcionário do Banco do Brasil e de uma típica dona-de-casa, o jovem professor de inglês e estudante de Jornalismo desagua paixões por meninas e meninos e fúrias contra o sistema político vigente. Tabus bem caros àquele momento.
A película ganha verossimilhança com a magistral interpretação de Thiago Mendonça. O ator incorpora o ídolo de várias gerações reeditando jeitos e trajeitos do roqueiro. Em depoimento em vídeo ao portal G1, o guitarrista Dado Villa-Lobos, interpretado no filme pelo seu filho Nicolau, confirma: "eu acho que a história desse filme é essa história (…) Está ali o Renato Russo”.
E não só Renato como a primeira leva da cena rocker brasiliense, permeada pelo troca-troca de músicos que passavam de uma banda à outra como se mudassem de roupa. Plebe Rude, Capital Inicial e outros grupos figuram no filme. Tudo é tão adolescente e poético... A Brasília jovem era uma babel punk e sonhadora. A ordem era se divertir e deixar a dança do pogo celebrar.
Para além do punk, o poeta é também o místico-intelectual que devora livros de Allen Ginsgberg, poesias de Luís de Camões e faz referências ao Budismo e o Tao te King. Suas letras e músicas são centrífugas desses emaranhados de inspirações.
Momentos sublimes do filme, as belas canções Por enquanto, dedicada ao fim do Aborto Elétrico, Ainda é cedo, que Renato compôs para reatar a amizade da sua eterna amiga-amante-confidente Aninha, e Que país é esse, pedrada de engajamento político, resumem a veia poética do band leader que, seguramente, mais influenciou comportamentos e atitudes na cena pop nacional. O trabalho de Fontoura só confirma que a Legião é a banda extinta mais ativa do país e Renato Russo é a alma dela.