domingo, 6 de julho de 2008

Uribe e o jogo do império. Ou porque Ingrid Bettancourt demorou ser libertada



No último dia dois de julho o mundo foi surpreendido com a libertação de Ingrid Betancourt, que estava havia seis anos encarcerada na selva colombiana pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Bettancourt foi seqüestrada pela guerrilha em 2002 quando se lançava candidata à presidência pelo Partido Verde Oxigênio. Tinha 0,2% das intenções de votos. Com ela, outros 14 reféns também foram libertados, entre eles três norte-americanos agentes da CIA. O resgate da ex-senadora foi marcado pela histeria conservadora e dos seus representantes na mídia. No entanto, nenhuma palavra que questionasse porque Bettancourt não foi libertada meses antes. Prevaleceu a estratégia de Washington e a do seu aliado na América do Sul, o presidente colombiano Álvaro Uribe. Um estratagema fácil de desmontar. No final do ano passado o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, iniciou a intermediação para a soltura de diversos reféns das Farc, inclusive Bettancourt. A iniciativa de Chávez fora acompanhada pelo presidente do equador, Rafael Correa, outro desafeto de George W. Bush. Alguns reféns foram soltos, mas não a ex-senadora. Todavia, as negociações prosseguiram e já se aproximava de um desfecho favorável. Ingrid Bettancourt estava a um passo da liberdade no final de fevereiro passado, quando uma ação conjunta do exército colombiano e instrutores militares estadunidenses bombardeou um acampamento das Farc em solo equatoriano. O ataque matou Raúl Reyes, porta-voz do grupo e considerado o número dois da guerrilha. Justamente o homem que negociava a libertação de Bettancourt. Washington evitou um desfecho favorável que fortalecesse Chávez e Correa. No final desta semana foi anunciado o resgate. Setores da mídia brasileira, parceiros incontestes dos interesses estadunidenses, anunciaram a “fantástica” operação do exército da Colômbia. A manobra, guiada pelos Estados Unidos com a participação de instrutores israelenses, teria libertado os cativos “sem disparar um tiro”. Os guerrilheiros das Farc teriam sido enganados durante um encontro com integrantes de uma ONG fantasma. Dois dias depois uma rádio suíça assegurou que tudo não passou de uma farsa, já que, segundo a emissora, o governo de Uribe teria pago 20 milhões de dólares pelo resgate.

Interesses do império - Há fortes indícios de que essa informação seja verídica. É bastante inverossímil que não tenha corrido dinheiro nesse enredo. Uribe enfrenta uma situação complicada em seus país. Envolvido com escândalos de corrupção e relacionamentos políticos explícitos com grupos paramilitares e assassinatos, o presidente colombiano estava sem chances de marchar para um terceiro mandato presidencial. A libertação de Ingrid pode agora reverter esse quadro. Em suas primeiras palavras, a ex-prisioneira sinalizou simpatias à continuidade de Uribe no poder. É tudo que a atual política externa norte-americana deseja. A permanência do aliado à frente da Colômbia coaduna com as ações militares estadunidenses no continente. Já navega pelos mares da América do Sul a VI Frota, comandada por um porta-aviões que carrega 90 aviões de combate e é dotado de imenso poder de fogo. A descoberta de petróleo e outras riquezas minerais no continente, aliada à guinada mais à esquerda por parte da maioria dos governos sul-americanos, tem deixado o império em alerta.

Um terceiro mandato que não incomoda a Globo



Enquanto isso, aqui no Brasil, o provável terceiro mandato de Álvaro Uribe não desperta a repulsa dos articulistas das grandes redes e cadeias de televisão, jornais e rádios. Dois dias depois de anunciada a libertação de Bettancourt, o âncora do Jornal da Manhã da TV Globo Renato Machado afirmou: “Ingrid Bettancourt defende o terceiro mandato para Álvaro Uribe”. Não houve nenhum questionamento na Vênus Platinada. Uribe não foi classificado de ditador por Renato Machado, Miriam Leitão, William Waack ou qualquer outro pau mandado de Ali Kamel, diretor de Jornalismo da emissora. Quando se trata do presidente da Colômbia a informação recai com aura de legitimidade. Diferente do tratamento dispensado a Hugo Chávez quando assumiu seu terceiro mandato com o endosso das urnas, ou a Lula quando para este se levanta a hipótese, ainda que remota, de um terceiro mandato. A tese da alternância democrática da Rede Globo é seletiva e, sobretudo, comprometida com seus patrões norte-americanos. Não é de estranhar para uma emissora que apoiou o regime militar com todos os seus infortúnios.