sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Editorial cretino

Certo editorialista de um jornal soteropolitano afirmou que a crise econômica mundial foi um fato “inesperado”. Sem comentários. A ignorância do problema por parte do nobre escriba não me surpreende, como de resto de boa parte do sistema midiocrático brasileiro. É aquela história, o dono da bola não pode ficar fora da pelada, mesmo que seja um jogador sofrível. E este é o caso. Quem se surpreende com a deblaquê econômica mundial denota, sobretudo, pouca leitura do cenário internacional dos últimos anos. Talvez empolgados, como estavam, com a tal da globalização financeira e as opiniões do historiador nipo-americano Francis Fukuyama, aquele que disse que a história havia encerrado com a queda do Muro de Berlim. Ao pensarem que o consenso de Washington seria a pedra filosofal do futuro da humanidade, estes escribas se lambuzaram com a idéia dos paraísos fabricados pelo neoliberalismo. Fim dos estados nacionais; desregulação dos sistemas produtivos, da saúde, da mídia e o fim das legislações trabalhistas. Agora o mercado seria o gestor, e senhor de tudo. E aí daqueles que fossem contra, logo taxados de dinossauros, jurássicos e afins. Invertiam valores e moldavam de “novo” velhos receituários de um capitalismo selvagem e depedrador. Empreenderam nos meios de comunicação a “tese” da privatização absoluta . Diuturnamente, os “comentaristas” exigiam que os governos “fizessem o dever de casa”. A mesma ladainha de sempre: “cortar gastos”; “autonomia do banco central”; “derrubar impostos”; “flexibilizar a legislação trabalhista”; “reformar a previdência”; “vender estatais”. Em boa medida, este receituário foi seguido à risca em diversas partes do planeta. Resultado: quebraram o mundo e estão levando milhões de pessoas à rua da amargura. E a tropa de choque dessa verborréia era constituída, e ainda se constitui, num leque de arrogância que ia de comentaristas econômicos – Miriam Leitão e cia – passando por professores universitários medíocres e palestrantes de auto-ajuda empresarial – a exemplo de picaretas do tipo “vendedor Pit Bull” -, chegando à tecnocracia da máquina pública e seus conselheiros com status de “consultores”. Dia desses assisti a palestra de um deles, que iniciou a exposição com o mesmo clichê: “vivemos num mundo em pleno processo de mudança”. Risível. Desde quando o mundo tem deixado de mudar? Papo pra encantar platéias desprevenidas ou fazer boi dormir. E o pior, havia cobrado R$ 200 pela palestra – a quem queira saber, não paguei, fui convidado. Foi todo esse caldo que ferveu a sopa do neoliberalismo nos últimos anos. O argumento raso aliado à total falta de conteúdo para a análise histórica e econômica. Talvez agora entendam que a queda de Wall Street, assim como a do Muro de Berlim, é história, história que não se acaba e que se explica pelo dialético movimento das forças sociais e políticas que permeiam a humanidade.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Com medo da popularidade do presidente?

Os critérios de noticiabilidade têm passado à margem da mídia nativa, principalmente do maior partido midiático do Brasil, a FSP – Força Serra Presidente. A última pesquisa CNT/Sensus deixou mudo os principais “articulistas” dos jornalões e TVs do país. Com a aprovação record de 84% - se somadas as avaliações ótimo e bom - o governo Lula chega a mais da metade do segundo mandato com nível altíssimo de aceitação popular. Mas não foi apenas por isso que a pesquisa deixou de ser noticiada, e sim pelo fato da mesma também contemplar os indicadores de intenção de voto para as eleições de 2010. O candidato da FSP aparece com 42% das intenções e Dilma Rousseff, presumível candidata do presidente, atinge 13%. Os números não causariam problema, a princípio. No entanto, o salto de 1% para 13% de Dilma em menos de dois meses acendeu a luz laranja nas oposições e na sua maior representação política, a FSP. Melhor então, calar.

Quem quer se vingar de Battisti?



Muito tem se falado sobre o caso Cesare Battisti. Mas pouco tem sido explicitado acerca dos fatos que o cercam. Notícias lâminas d´água e comentários sem pé nem cabeça, mas açodados politicamente com o intuito de defenestrar o ministro Tarso Genro têm pairado a granel. Virou questão de honra para a mídia nativa a extradição do ex-militante comunista e romancista italiano. Políticos conservadores da Itália têm ganhado espaço nos meios de comunicação do Brasil, arrotando um moralismo mambembe, com a anuência de alguns não menos conservadores jornalistas e políticos locais. O ministro está certo! Não se pode entregar Battisti à vendeta de governantes que até pouco tempo atrás estavam ombrados com a Máfia e banqueiros corruptos. Acusam Battisti de quatro homicídios. Ele nega. Na Itália, não lhe foi dado o direito à ampla defesa. Trata-se de um processo viciado e permeado por interesses ideológicos. É verdade que o escritor militou na organização clandestina Proletários Armados pelo Comunismo. Porém, poucos sabem, de fato, sobre o papel que esse grupo, entre outros, desempenhou na Itália nos anos 70 e 80. O libelo de jovens militantes, mesmo optando, por vezes, por estratégias inconseqüentes, foi determinante para começar a minar a aliança formada desde 1945 entre a Democracia Cristã e a máfia italiana. Eles enfrentaram a máfia, que até então nunca tinha sido encurralada e atingida. Enquanto juízes e promotores eram eliminados, um a um, pelos mafiosos, Battisti e outros jovens militantes não arrefeceram na guerra a esses grupos sanguinários. Realmente, ocorreram muitas baixas, de ambos os lados. E foi a partir desses episódios que foi desfechada a Operação Mãos Limpas, a maior iniciativa policial e política contra os grupos mafiosos na Itália. Leiam o livro "Poteri Forti" ("Fortes Poderes"), do jornalista italiano Ferruccio Pinotti. Trata-se de uma reportagem de fôlego, que abre as entranhas do poder de corrupção do sistema financeiro, de braços dados com governos, partidos, empresários, maçonaria e a mafia. É a aliança entre a máfia e o Banco Ambrosiano, ligado ao Vaticano. O presidente Lula e o ministro Tarso Genro estão corretos. Não se curvaram ao alarido demagógico perpetrado pela mídia nacional e seus partners políticos. Ceder à extradição de Battisti é ceder à sanha de vingança da direita italiana, corrupta e mafiosa.