segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

José Serra queria entregar o pré-sal aos Estados Unidos, afirma WikiLeaks


“A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?”. Este é o título de um extenso telegrama enviado pelo consulado americano no Rio de Janeiro a Washington em 2 de dezembro do ano passado.
Como ele, outros cinco telegramas a serem publicados hoje pelo WikiLeaks mostram como a missão americana no Brasil tem acompanhado desde os primeiros rumores até a elaboração das regras para a exploração do pré-sal – e como fazem lobby pelos interesses das petroleiras.
Os documentos revelam a insatisfação das pretroleiras com a lei de exploração aprovada pelo Congresso – em especial, com o fato de que a Petrobras será a única operadora – e como elas atuaram fortemente no Senado para mudar a lei.
“Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria afirmado Patrícia Padral, diretora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo . Segundo ela, o tucano José Serra teria prometido mudar as regras se fosse eleito presidente.
Partilha
Pouco depois das primeiras propostas para a regulação do pré-sal, o consulado do Rio de Janeiro enviou um telegrama confidencial reunindo as impressões de executivos das petroleiras.
O telegrama de  27 de agosto de 2009 mostra que a exclusividade da Petrobras na exploração é vista como um “anátema” pela indústria.
É que, para o pré-sal, o governo brasileiro mudou o sistema de exploração. As exploradoras não terão, como em outros locais, a concessão dos campos de petróleo, sendo “donas” do petróleo por um deteminado tempo. No pré-sal elas terão que seguir um modelo de partilha, entregando pelo menos 30% à União. Além disso, a Petrobras será a operadora exclusiva.
Para a diretora de relações internacionais da Exxon Mobile, Carla Lacerda, a Petrobras terá todo controle sobre  a compra  de equipamentos, tecnologia e a contratação de pessoal, o que poderia prejudicar os fornecedores americanos.
A diretora de relações governamentais da Chevron, Patrícia Padral, vai mais longe, acusando o governo de fazer uso “político” do modelo.
Outra decisão bastante criticada é a criação da estatal PetroSal para administrar as novas reservas.
Fernando José Cunha, diretor-geral da Petrobras para África, Ásia, e Eurásia,  chega a dizer ao representante econômico do consulado que a nova empresa iria acabar minando recursos da Petrobrás. O único fim, para ele, seria político: “O PMDB precisa da sua própria empresa”.
Mesmo com tanta reclamação, o telegrama deixa claro que as empresas americanas querem ficar no Brasil para explorar o pré-sal.
Para a Exxon Mobile, o mercado brasileiro é atraente em especial considerando o acesso cada vez mais limitado às reservas no mundo todo. “As regras sempre podem mudar depois”, teria afirmado Patrícia Padral, da Chevron.
Combatendo a lei
Essa mesma a postura teria sido transmitida pelo pré-candidtao do PSDB a presidência José Serra, segundo outro telegrama enviado a Washington em 2 de dezembro de 2009.
O telegrama intitulado “A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?” detalha a estratégia de lobby adotada pela indústria no Congresso.
Uma das maiores preocupações dos americanos era que o modelo favorecesse a competição chinesa, já que a empresa estatal da China, poderia oferecer mais lucros ao governo brasileiro.
Patrícia Padral teria reclamado da apatia da oposição: “O PSDB não apareceu neste debate”.
Segundo ela, José Serra se opunha à lei, mas não demonstrava “senso de urgência”. “Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta”, teria dito o pré-candidato.
O jeito, segundo Padral, era se resignar. “Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria dito sobre o assessor da presidência Marco Aurelio Garcia e o secretário de comunicação Franklin Martins, grandes articuladores da legislação.
“Com a indústria resignada com a aprovação da lei na Câmara dos Deputados, a estratégia agora é recrutar novos parceiros para trabalhar no Senado, buscando aprovar emendas essenciais na lei, assim como empurrar a decisão para depois das eleições de outubro”, conclui o telegrama do consulado.
Entre os parceiros, o OGX, do empresário Eike Batista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a Confederação Naiconal das Indústrias (CNI).
“Lacerda, da Exxon, disse que a indústria planeja fazer um ‘marcação cerrada’ no Senado, mas, em todos os casos, a Exxon também iria trabalhar por conta própria para fazer lobby”.
Já a Chevron afirmou que o futuro embaixador, Thomas Shannon, poderia ter grande influência nesse debate – e pressionou pela confirmação do seu nome no Congresso americano.
“As empresas vão ter que ser cuidadosas”, conclui o documento. “Diversos contatos no Congresso (brasileiro) avaliam que, ao falar mais abertamente sobre o assunto, as empresas de petróleo estrangeiras correm o risco de galvanizar o sentimento nacionalista sobre o tema e prejudicar a sua causa”.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Disposição para enfrentamentos

Ícones populares estampam camisetas, bandeiras, cartazes e cristalizam-se no imaginário social como totens intocáveis. Quando não, ombram-se à condição de sagrados. Defeitos e fraquezas quase sempre ficam sepultos ante a ode às mitificações. E poucos assumem a própria desconstrução da imagem para se apresentar com suas virtudes, vícios, dramas e opiniões sobre fatos singelos ou de grande monta. É o que parece propor Rolihlhala Mandela, ou Nelson Mandela, líder maior da luta contra o regime racista (apartheid) da África do Sul e ex-presidente do país, ao publicar sua autobigrafia Conversas que tive comigo.
Prefaciado pelo presidente norte-americano Barack Obama, o livro, de 415 páginas, lançado no Brasil pela editora Rocco, reúne cartas, comentários, diálogos e entrevistas de Mandela com companheiros de militância contra o apartheid. Os documentos revelam situações vivenciadas pelo líder do Congreso Nacional Africano (CNA) ao longo dos 27 anos de cárcere, desde que foi detido em 1962 sob a acusação de alta traição.
É difícil acreditar num Nelson Mandela que se define como “homem medíocre”, como procura fazer crer em correspondência a uma companheira, em 1971. É o momento de abatimento. Sente-se impotente diante da grande tarefa histórica que o convoca. Sete anos se passaram desde que fora condenado à prisão perpétua e enviado à Ilha de Robben para cumprir a pena. A situação lhe era desfavorável.
O desabafo, no entanto, apresenta-se como uma névoa que aos poucos vai se dissipando. Os depoimentos descortinam um homem decidido e que encara com firmeza as agruras de um sistema político covarde e assassino.  Entre as narrativas que permeiam a obra, destacam-se conversas e entrevistas com o editor Richard Stengel e o companheiro de prisão Ahmed Kathrada. Os relatos expõem os vários enfrentamentos que se interpuseram à trajetória do líder.
A adesão à luta armada, por exemplo, é justificada como necessidade histórica de reação à violência institucionalizada pela supremacia branca nos campos político e militar. “Eles (o povo sul-africano) precisavam saber porque iriam pegar em armas e lutar (...) revolução não era só uma questão de puxar o gatilho e atirar – era uma organização montada para tomar o poder político. Isso foi bem definido”. Mandela refere-se à fundação do MK, a Umkhonto we Siswe (lança de uma nação), braço armado do Congresso Nacional Africano do qual foi um dos propositores.
Pegar ou não em armas, no entanto, não se constituia em questão central da luta política que travava. Mandela sabia negociar. Para ele, mais importante “era fazer ranger e se mover a roda da história”, a ponto de não se sentir desconfortável em rever posições sobre nacionalizações. “Tínhamos que dissipar temores da comunidade internacional”, justifica, com a mesma habilidade que montou poderosa artilharia de propaganda política para desestabilizar o governo sul-africano.                                       
Outros embates não foram menos dolorosos. Ser pai a distância e preso atormentava um chefe de família cônscio das suas obrigações. Em 1969, quando sua segunda mulher, Winie Mandela, foi colocada na solitária por 17 meses sob a acusação de atividades subversivas, ele escreveu às filhas Zeni e Zindzi, à época com nove e oito anos, respectivamente. “Mais uma vez sua querida mãe foi presa e agora ela e papai estão na cadeia (...) vinte e quatro horas por dia sentindo a falta de suas filhinhas. Meses e até mesmo anos poderão se passar até que vocês a vejam de novo. Vocês poderão viver muitos anos como órfãs sem lar e sem pais”.
O tom meigo e ao mesmo tempo duro com que apresenta a realidade às filhas não denota conformismo. Ao contrário, o faz como uma espécie de vacina psicológica para fortalecê-las diante das adversidades que acompanharão suas vidas até a fase adulta. O mesmo ocorre quando é informado da morte do filho mais velho, Thembekile, de 24 anos, vitimado por um acidente de carro. O governo sul-africano lhe negara autorização para estar presente no enterro. Mandela procura não só consolar-se, como à mãe do rapaz, Evelyn, sua primeira mulher: “Sei mais que qualquer pessoa viva o quanto este golpe cruel deve ter sido devastador para você, pois Thembi era seu primeiro filho (...) O golpe foi igualmente doloroso para mim (...) e nunca mais iremos vê-lo”.
Não é que Nelson Mandela procure abafar seus sentimentos com doses demasiadas de racionalidade, como muitas cartas deixam transparecer. O que se percebe é um homem politicamente engajado e que entende a luta de libertação do seu povo como causa prioritária.
Em certo momento, instigado por Stengel sobre a paixão por Winnie Mandela e a possibilidade de ela o trair enquanto se encontrava encarcerado, ele é enfático: “essas questões para mim não eram materiais e era preciso aceitar o fato humano, a realidade de que há ocasiões em que uma pessoa quer relaxar e não se deve ser inquisitivo”.
Ser racional, portanto, é uma estratégia à sobrevivencia emocional. Sublimar inseguranças faz parte.
Diante de tantos infortúnios, o saldo dos relatos não desenha um homem pautado pelo rancor. Ao contrário. Já liberto, é o próprio Nelson Mandela que sugere a Ahmed Kathrada “comer um churrasco” com antigos carcereiros, a quem alguns deles o líder sul-africano devota respeito e admiração.
Não se trata de incoerência. Mandela tinha clara noção do que era o cumprimento do dever com balizas na ética. Ao se referir a um certo policial de nome Kruger, por exemplo, ele afirma querer revê-lo, pois o tinha como um “homem muito decente”. 
Conversas que tive Comigo é uma colcha de retalhos que, em boa medida, resume a trajetória política e pessoal de Nelson Mandela. Os textos emolduram um homem singular, capaz de limpar o vaso sanitário de um companheiro que não conseguia fazê-lo porque tinha nojo. “Isso não significava nada para mim”, confessa o líder que doou a vida para limpar uma das maiores excrecências do planeta, o apartheid.