terça-feira, 27 de agosto de 2013

Mal filmado e mal editado. Sim. Este vídeo não é uma reportagem, nem um doc. Aqui o repórter se desnudou das suas funções e deu boas vindas aos 50 médicos e médicas cubanos que vieram para o Brasil colaborar com o Programa Mais Médicos, do Governo Federal. Essas imagens buscam passar a emoção de um momento histórico. Noite de domingo, dia 25/08/2013. Bem-vindos companheiras e companheiros de Cuba!

domingo, 25 de agosto de 2013

O mal não se explica num homem apenas, mas na decadência de uma sociedade. Hanna Arendt, o filme, é uma bela aula de filosofia



Entender o comportamento de um ser humano comum, funcionário público correto, mas que não reflete a realidade, pensa burocraticamente e comete crimes abedecendo às leis do seu país. O filme Hannah Arendt, que tem a atriz Barbara Sukowa em magistral interpretação da filósofa alemã, conta a polêmica história que envolveu a pensadora, em 1961, quando foi cobrir o julgamento do Adolf Eichmann, em Jersulém, pela revista estadunidense The New Yorker. Eichmann, um dos arquitetos da Solução Final, fora sequestrado na Argentina pelo serviço secreto israelense, o Mossad, para ser julgado em Israel.
O filme retrata uma Hanna Arendt que não se limita ao papel de simples repórter. Vai além. Se propõe pensar filosoficamente sobre a dantesca indústria da morte construída pelo nazismo. Não busca culpas individuais. Observa a engrenagem do terror atropelando valores humanos e éticos. Sua cobertura resultou numa série de cinco artigos publicados pela New Yorker, que deu origem ao livro Eichmann em Jerusalém - Uma reportagem sobre a banalidade do mal.
Dirigido por Margarethe Von Trotta, o filme apresenta a autora de As origens do totalitarismo e a A condição humana como uma mulher do seu tempo. Fumante inveterada, é casada com o poeta, filósofo comunista e teórico marxista alemão Heinrich Blutcher. Judeus, chegaram aos Estados Unidos como refugiados de um campo de concentração nazista na França. Nos EUA, onde adquiriu cidadania, ela lecionou no New School of Social Research. 
A publicação dos artigos é o começo do drama de Hannah. A filósofa assume real papel de jornalista. Vê os fatos num contexto que foge ao linchamento moral. Nem todos que praticaram os crimes de guerra eram monstros, fossem alemães a serviço do III Reich ou judeus envolvidos na colaboração da matança. É a civilização européia que vive histórica crise de valores, o que leva à banalização do mal. 
Esta é a mostruosa realidade não compreendida por muitos dos seus colegas intelectuais, alguns inclusive judeus sionistas militantes. Exigiam uma reportagem condenatória. E Hanna revolveu feridas abertas. O episódio leva ao fim da amizade com Kurt Blumenfeld, diretor e porta-voz do movimento sionista alemão 
O roteiro da película também lembra a jovem e bela Hanna Arendt aos 17 anos, aluna de Martin Heidegger (1889-1976), seu mestre à época com 35 anos com quem teve intenso caso de amor. E também decepção. Heidegger simpatizara com o Partido Nazista e assumira a reitoria da Universidade de Freiburg. 
No entanto, as digitais do mestre a acompanhariam ao longo da sua vida acadêmica. Pensar é o que faz um ser humano interagir como membro de uma sociedade. Hanna conduz seus artigos sobre o julgamento de Eichmann entendendo que abrir mão das habilidades de pensamento crítico aos outros é central às suas conclusões acerca daquele júri. 
Conforme a filósofa, Eichmann era apenas uma peça decorrente “da totalidade do colapso moral que os nazistas causaram na respeitável sociedade europeia". É o bastante para provocar a ira da sociedade estadunidense e da comunidade judaica internacional. À ela e à New Yorker. Num determinado momento, um amigo judeu à beira da morte lhe pergunta se não ama o Estado de Israel. “Não amo nenhum país”, responde.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Os partidos políticos perderam a interlocução com a sociedade" - Entrevista: Frei Betto


Foto/ www.freibetto.org


Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto, ex-frade dominicano, foi preso duas vezes à época da ditadura militar. Em 1964, por 15 dias; e entre os anos 1969 e 1973. Militante de movimentos pastorais e sociais, é adepto da Teologia da Libertação, corrente política da Igreja que atuou com bastante força na América Latina nos anos 80 e 90. Frei Betto foi assessor especial do primeiro governo de Lula, entre 2003 e 2004, quando coordenou a Mobilização Social do programa Fome Zero. Escritor com 53 livros publicados, estudou Jornalismo, Filosofia, Antropologia e Teologia. Ainda que afirme que os governos Lula e Dilma “foram os melhores da história republicana do Brasil”, o escritor faz duras críticas ao atual projeto político. De passagem por Salvador, onde cumpriu agenda de trabalho, ele conversou com o blog Textos ao Vento. Falou das manifestações que varrem o Brasil, da igreja Católica, dos direitos das minorias e do coletivo Mídia Ninja. 

Zeca Peixoto – Como o senhor observa os panoramas nacional e internacional e o papel do Estado no atual contexto?

Frei Beto - Nós estamos vivendo hoje o início da pós-modernidade hegemonizada pelo capitalismo neoliberal. E isso leva à crise das quatro instituições-pilares da modernidade, que são o Estado, a família, a escola e a Igreja. De modo que o Estado sofre uma crise de identidade, porque o neoliberalismo o transformou num agente privatizado em função da iniciativa privada, com o perdão da redundância. Isso fez com que o Estado passasse a ser mero gestor de conflitos sociais, em geral favorecendo as classes dominantes. Com isso houve uma perda da confiança do Estado, no Estado e dos sustentáculos que são os partidos e os políticos. Nós estamos numa crise de identidade política que as manifestações de junho bem refletiram com a indignação. Daí é preciso haver uma reforma política, urgente no caso do Brasil, mas em geral no mundo inteiro para resgatar o papel do Estado como provedor dos direitos sociais.

Zeca Peixoto – No caso do Brasil, nessas manifestações havia deliberada repulsa contra as agremiações políticas, os políticos e toda e qualquer forma de poder. Os partidos políticos perderam a interlocução com a sociedade?

Frei Beto - Sim, perderam. Houve uma perda da confiança do Estado, no Estado e dos sustentáculos que são os partidos e os políticos. Nós estamos numa crise de identidade política que as manifestações de junho bem refletiram com a indignação. Os partidos se afastaram. Acreditaram que a mera aliança ou o toma lá da cá entre eles, seria suficiente para que se mantivessem sem serem questionados pela opinião pública. Esse divórcio levou a um abismo refletido nessas manifestações.

Zeca Peixoto – Mas em muitas situações essas manifestações foram tomadas por grupos conservadores e de direita...

Frei Beto – Na verdade há um aspecto muito positivo e outro muito negativo nas manifestações. O positivo é que elas são apartidárias ou suprapartidárias, embora sejam políticas... 

Zeca Peixoto – E o senhor vê um lado positivo nisso?

Frei Betto - Muito. É preciso que a sociedade civil tenha outros mecanismos de democracia direta além dos partidos, e um deles são os movimentos sociais. E essas manifestações foram convocadas pelos movimentos sociais através das redes sociais.

Zeca Peixoto – E quanto ao negativo?

Frei Betto - O que há de negativo é o incremento de um rechaço, de uma rejeição da política. Eu sempre digo aos jovens, quem tem nojo de política é governado por quem não tem, e tudo que os maus políticos querem é infundir bastante nojo da política para que eles fiquem à vontade com a rapadura na mão.

Zeca Peixoto – Esta última situação não denotaria uma inclinação mais fascista?

Frei Betto - Se houver uma rejeição, sim. Se leva ao fascismo, a um vácuo em termos de mecanismos e instrumentos políticos e pode esse vácuo amanhã convergir para o poder cair no colo de uma liderança aparentemente messiânica, como aconteceu na Alemanha de Hitler ou na Itália de Mussolini.

Zeca Peixoto – E quanto à perspectiva do atual projeto político, tendo PT à frente, tentar construir uma alternativa nesse momento para dar continuidade? Não teria que se inclinar mais a essas demandas?

Frei Betto - Teria que fazer a reforma política, que foi a primeira resposta que o Executivo deu quando a presidente Dilma disse que convocaria uma assembleia exclusiva constituinte para a reforma política. Depois voltou atrás dizendo que convocaria um plebiscito válido para eleições de 2014, e mais uma vez voltou atrás e agora já não se fala mais nisso. 

Zeca Peixoto – Enquanto isso a credibilidade... 

Frei Betto - Pois é, ou seja, o governo está entrando numa zona de risco, de perda cada vez maior da credibilidade e, portanto, com a possibilidade de reforçar cada vez mais os grupos e partidos mais conservadores da sociedade brasileira, que buscam uma alternância de poder.

Zeca Peixoto – Mudando um pouco o eixo, como o senhor observa esse novo momento da Igreja Católica com o Papa Francisco? É apenas uma mera ação de marketing e propaganda política para tentar ocupar o espaço perdido nos últimos anos?

Frei Betto – Por enquanto, o que a gente viu foi uma transformação do papado, com a promessa de que haverá também uma transformação da Cúria Romana. Eu tenho muita fé, muita esperança no Papa Francisco, por ser latinoamericano, por ser um homem aberto ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso e, sobretudo, por ter muito claro que a linha pastoral dele é de opção pelos pobres. Então eu espero que essa reforma que começou de cima pra baixo, através do papado, venha se refletir nas bases da Igreja, desbloqueando uma série de temas atuais que hoje estão vetados à discussão dentro da Igreja, como a questão da moral sexual.

Zeca Peixoto – Quando o senhor fala na questão da moral sexual, o que inclui?

Frei Betto – Eu incluo a homossexualidade, a volta dos padres casados podendo celebrar missas, ordenação de mulheres, fim do celibato obrigatório, tudo isso.

Zeca Peixoto – A morte do Papa João Paulo I contribuiu para a inclinação à direita do Vaticano?

Frei Betto – Evidente. Com a morte de João Paulo I favoreceu a eleição de João Paulo II, que era um homem do leste europeu, da Polônia, anti-comunista visceral, eurocentrado como Bento XVI. Embora João Paulo II tenha tido atitudes muito positivas na linha social, do ponto de doutrinário era um homem profundamente conservador. E isso levou a uma “vaticanização” da Igreja brasileira e latino-americana, o que não foi bom para a Igreja.

Zeca Peixoto – O senhor atuou nas comunidades eclesiais de base, na pastoral operária e nos movimentos sociais ligados à Igreja. A atuação desses segmentos refluiu nos últimos 10 anos.

Frei Betto – Houve um refluxo por duas razões: primeira por essa vaticanização promovida desde Roma pelos dois pontificados anteriores, João Paulo II e Bento XVI; e segundo, a vaticanização. Ou seja, a escolha de padres mais conservadores para serem bispos. Essa situação levou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, a perder seu caráter profético. A CNBB era a voz dos que não tinham voz no Brasil. Hoje essa entidade pouco se mobiliza com as questões sociais, o que espero que volte a acontecer com o Papa Francisco.

Zeca Peixoto – E o senhor tem esperança que a Igreja venha a se transformar a médio prazo?

Frei Betto – Espero que sim. Acho que o Papa Francisco, só nessa viagem ao Rio, já deu passos muito importantes, como defender a dignidades dos homossexuais, falar que a Igreja precisa de uma teologia da mulher, insistir na opção pelos pobres, insistir que os bispos não devem se considerar príncipes. Enfim, acho que foram sinalizações fundamentais para a renovação da Igreja.

Zeca Peixoto – Como o senhor observa a atuação do coletivo Mídia Ninja?

Frei Betto - tenho admiração e aplaudo o Ninja. É preciso a gente caminhar para a democratização dos meios de comunicação. Nunca entendi como membro do Governo Federal nos anos 2003 e 2004, porque os sistemas de rádio e televisão no Brasil pertencentes à União e sendo concessão pública estão permanentemente como os mesmos proprietários. E ainda mais porque os governos municipal, estadual e federal pagam publicidade nesses veículos se eles são propriedades públicas. Isso para mim é uma incronguência e precisa de ser revertido.

Zeca Peixoto – Diante de todas as discordâncias que o senhor teve dos encaminhamentos tomados pelo governo federal após a ascensão de Lula ao poder, qual foi o pomo da discórdia que o levou à decisão de deixar o governo?

Frei Betto - eu falo em dois livros publicados pela editora Rocco. A Mosca Azul, que é uma reflexão sobre o poder, e O Calendário do poder, que é o meu diário em dois anos de Planalto. Fui chamado para ajudar a montar o programa Fome Zero, que era um programa de caráter emancipatório. A família que entrasse no programa, dentro de três quatro anos sairia em condições de produzir a sua própria renda. E por razões políticas, que eu explico no Calendário do poder, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Programa Bolsa Família, que é um programa bom, porém de caráter compensatório, pois quem entra não sai mais e fica na dependência da União permanentemente. Essa foi a minha discordância.

Zeca Peixoto – Os movimentos sociais do campo, em particular o MST, arguem que pouco se avançou na reforma agrária no Brasil.

Frei Betto - muito pouco. Há períodos que você compara e o Fernando Henrique avançou muito mais (na reforma agrária. Então, de fato, o governo é refém do agronegócio, do latifúndio, e vai pagar, já está pagando, um preço muito alto por isso. Qualquer crise nas exportações, se houver um decrescimento do PIB chinês, isso vai ter um profundo reflexo nessa dependência que o Brasil criou no agronegócio através das exportações de commodities.

Zeca Peixoto – Sem dinamizar possibilidades no mercado interno...

Frei Betto - Exatamente. Nem valorizou os pequenos e médios produtores que abastecem a mesa do brasileiro.

Zeca Peixoto – E quais são as perspectivas? Dilma tem condição de ser reeleita? Lula seria um plano B?

Frei Betto - Tenho impressão que sim. Se Dilma não crescer nas pesquisas até o período eleitoral, Lula é o candidato. Fato que fora disso as alternativas são conservadoras, e isso seria um grande retrocesso. Apesar de todas as críticas que eu faço ao atual governo, considero os governos Lula e Dilma os melhores da nossa história republicana.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Libelo juvenil em cena. Eduktors retorna a Salvador em novembro



Em tempos de Black Blok, Marcha das Vadias, Fora do Eixo, Mídia Ninja e outras hashtags da rede, a versão inédita para o teatro do longa “Edukators”, de Hans Weingartner, contextualiza com o momento que o Brasil e o mundo vivenciam. Dirigido por João Fonseca com dramaturgia de Rafael Gomes, o espetáculo tem no elenco Edmilson Barros, Fabrício Belsoff, Natália Lage e Pablo Sanábio.
Em Salvador, a peça foi exibida nos dias 10 e 11 de agosto no Teatro Sesc, Casa do Comércio. Segundo a produtora Marlucia Sie, o espetáculo retorna à capital baiana em novembro para circuitos em colégios e faculdades. 
Numa Alemanha sob a égide do neoliberalismo, três jovens de Berlim buscam transformar o mundo invadindo mansões como atos-símbolos de protesto contra o sistema capitalista. Uma dessas invasões ocorre na residência de um arquimilionário, que passa a ser refém dos “educadores”.
É o momento que a história ganha destino surpreendente, expondo fraquezas, contradições e revelações dos quatro personagens. O roteiro não chega a ser o mesmo do filme. É uma adaptação, mas mantêm o argumento central do longa, indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2004.
Eduktors é catarse de libelos juvenis liquidificados. Espécie de síntese das experiências libertárias egressas dos 60. Contestações e até mesmo conformações com a realidade sufocante.
Ambientada em arranjos de cenários simples, a peça tem elenco à altura para interpretar o texto de Weingartner. Os jovens atores Fabrício Belsoff e Pablo Sanábio respondem satisfatoriamente às contracenas com os experientes Natália Lage e Edmilson Barros. O grupo dá conta do recado. 
Rodrigo Penna, criador da seleção musical e trilha original, veste a caráter as cenas num espectro que vai de Sinatra, passando por Bob Dylan à música eletrônica do Chemical Brothers.
Quanto ao retorno da peça, Marlucia adianta que trabalhará com duas empresas da capital baiana para viabilizar as apresentações. A ideia é excelente e já passa do momento de ofertar um cardápio cultural mais inteligente aos teens da Soterópolis. Que venha Eduktors, mais uma vez.