quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Segundo Carlos Saura: "Cria Cuervos"




A genética não nega. Para entender a querela levada a cabo pelo ex-governador da Bahia Paulo Ganem Souto - presidente do Dem no Estado - em torno da blindagem do carro oficial que serve ao governador Jacques Wagner, fato repercutido na Assembléia pelo deputado estadual Gildásio Penedo (Dem), é preciso conhecer, um pouco que seja, sobre as aves da família dos corvídeos. E porque o governador tem que se blindar contra elas. Os corvídeos formam uma grande família e têm o costume de se postarem à espreita no alto de árvores isoladas, de onde podem observar o que ocorre nos arredores para desfechar violentos ataques. São aves traiçoeiras. A irritação de Paulo Souto traz à baila a história dos corvos que povoam a República do Brasil. É uma questão hereditária. Os corvos sempre freqüentaram a esfera política da terra brasilis, mas foi a partir da década de 50 que suas asas se abriram com mais esplendor no cenário nacional. Corvídeos oriundos do coronelato rural, em aliança com outros corvídeos ligados ao grande capital internacional, se aglutinaram num partido, a União Democrática Nacional (UDN). Em agosto de 1954 estes perpetraram a queda do presidente Getúlio Dorneles Vargas. O corvo-mor desse momento era o jornalista e deputado federal Carlos Lacerda, patrono da Confraria dos Corvos (UDN) e dono do jornal Tribuna da Imprensa. Posteriormente, Lacerda continuou tentando espinhaçar, sem êxito, o ninho do novo presidente, Juscelino Kubitschek. Em 1961 os corvos chegaram a eleger um representante, o presidente Jânio da Silva Quadros, que não podendo levar a cabo uma tentativa de golpe civil, renunciou ao cargo em agosto do mesmo ano. Com a ascensão de João Goulart ao poder, a confraria dos corvídeos voltou à carga, desta vez contando com aves do porte de Antônio Carlos Magalhães – um corvo robusto e ainda jovem que queria dominar seu território. Em primeiro de abril de 1964, os corvos conseguiram fazer o que vinham tentando desde 1954: implantar uma ditadura militar no Brasil. No desenrolar do episódio do golpe, um dos representantes da confraria, o corvo Juracy Montenegro Magalhães, chegou a afirmar: “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Com o novo regime, mudaram de plumagem e passaram a se chamar Aliança Renovadora Nacional (Arena). Ao longo de 22 anos, tendo os militares como testas de ferro, comandaram o país impondo a censura, a tortura, a supressão das liberdades políticas e individuais e trabalhando em benefício de meia dúzia de afortunados. Foi a festa dos corvos. A miséria aumentou e o Brasil se tornou refém dos interesses externos. Com o desgaste do regime, os corvos mudaram novamente de plumagem e passaram a se chamar Partido Democrático Social (PDS). Não mais conseguindo segurar os militares no poder, resolveram participar de um regime republicano com um novo disfarce, agora de nome Partido da Frente Liberal (PFL). Foi a continuidade da festa. Se aliançaram com os tucanos e venderam quase todo o patrimônio público, provocando o aumento da miséria e o desemprego. Passados oito anos, foram expulsos do poder pelo voto, mas continuaram a fabricar crises. Mudaram novamente de nome e tornaram-se Democratas – Haja cara de pau! Todavia, num estado do país, a Bahia, estes se sentiam imbatíveis por força de ACM, que já assumira a posição de maior corvo-mor à baiana, subjugando a tudo e a todos. Era um corvo bem perverso. Mas este também foi expulso pelo voto do povo e, desgostoso, bateu as asas e morreu. Todavia, deixou alguns seguidores, a exemplo do corvo-neto ACM, do corvo-mor Paulo Ganem Souto e dos corvinídeos Gildásio Penedo e Heraldo Rocha. Estes não perdem a verve golpista e continuam a fabricar crises. Neto que ser prefeito de Salvador e Souto, Penedo e Heraldo ficam nos galhos da mídia e da assembléia à espreita, esperando o momento de mais um ataque. Conselho: governador, mantenha-se realmente blindado contra picadas de corvos.