quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Depois da Chuva é filme para o mundo assistir


Caio (Pedro Maia) busca o colo materno. A mãe (Aícha Marques), impávida, nem mesmo olha para o filho que, carente, disputa espaço para se debruçar no seu ventre. Ela mantém atenção fixa na televisão, que reporta a posse de José Sarney, primeiro presidente civil após o regime militar e que conduz o início da Nova República. Ele desiste do intento.
A cena é forte e traduz o recado que Depois da Chuva passa: a desilusão que contrasta com o clima de euforia decorrente da redemocratização do país, em 1984, quando os militares entregaram o poder após 20 anos de ditadura.
O estado de exceção se fora, mas não os conflitos que envolvem gerações. Caio é um adolescente que estuda num colégio particular e conservador. Está envolvido com um grupo de ativistas anarquistas, descrentes da política partidária tradicional. Atuam num espaço no Centro Histórico onde funciona uma rádio pirata. Eles fumam, atacam o sistema, tocam música experimental e debocham dos militantes da esquerda ortodoxa, inclusos os colegas que tentam reorganizar o grêmio estudantil. Trazem o embate na veia.
Rescaldos da crítica dos “engajados” sobre os “desbundados”, que marcou os anos de chumbo nos 70. Neste aspecto, o filme sugere o início da atuação do combativo jornal anarquista de Salvador, O Inimigo do Rei, alvo de críticas à direita e à esquerda no período em tela. 
Dirigido por Cláudio Marques e Marília Hughes, Depois da Chuva, que estreou neste mês de Janeiro no Brasil, tem o mérito de apresentar alguns aspectos pouco conhecidos da Salvador dos meados dos 80. Situações que muitos jamais perceberam.
Os diretores se distanciaram dos estereótipos que carimbam a Soterópolis festeira. A capital baiana figura apenas como um acaso. Os apelos de baianidades e sentimentos pueris de pertencimento à terra, dão lugar à cidade com espaços tomados por bandas de punk rock, como Cracr! e Dever de Classe, onde reuniam jovens em shows artesanais, como os que ocorriam na fábrica abandonada da Ribeira.
A fotografia, outro ponto forte do filme, dá o diapasão estético da película mediante enquadramentos e luz que emolduram diálogos densos e inteligentes. O som do Dead Kennedys, sim, compõe bem com imagens de locais recônditos da capital baiana, que vivia a gênese da chamada axé music.
Destaque para a atuação de Pedro Maia, protagonista principal, jovem e excelente ator que interpreta Caio. O garoto não é promessa. É ator. E atua junto com um elenco competente e preparado. Elenco que esteve sob os cuidados do cineasta Reinofy Duarte, que certamente teve função determinante no desempenho do grupo.
Depois da Chuva é filme para o mundo assistir e debater. Feito do cinema baiano que só Glauber Rocha havia conseguido. Cláudio Marques e Marília Hughes foram ousados. E conseguiram. Que bom!

Ficha técnica:

Companhia produtora: Coisa de Cinema
Produção Executiva: Cláudio Marques e Marília Hughes
Roteiro: Cláudio Marques
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Som: Guile Martins, Edson Secco
Direção de Arte, Figurino: Anita Dominoni
Preparação de atores: Reinofy Duarte
Montagem: Cláudio Marques Edição de Som: Edson Secco
Trilha Musical: Mateus Dantas, Nancy Viegas, Bandas Crac! e Dever de Classe Com: Pedro Maia, Sophia Corral, Aícha Marques e Talis Castro.




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Quando o público define o que se propaga. Ou o nó górdio da mídia contemporânea


Rever os conceitos de propagabilidade numa economia da mídia forjada pela intensa participação dos usuários como condutores de ideias e atuantes na remodelagem dos produtos veiculados. Mais do que o valor agregado a partir de uma escala puramente econômica, a Internet tem proporcionado aos membros da audiência, também produtores, novas percepções do sentido de lucro.
Na economia da dádiva, ou do dom, mais vale a opinião e a catapulta midiática nas mãos dos usuários do que 1000 banners “flashando” a linha do tempo de alguém. Doravante, o jornalismo, a propaganda e a publicidade, da forma que o capitalismo desenhou até o momento, em breve serão peças arqueológicas. Diria Marx: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”.
O vaticínio é dos estadunidenses e estudiosos da mídia Henry Jenkins, Joshua Green e Sam Ford, três pesquisadores ligados ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Em Cultura da Conexão, lançado no Brasil pela Editora Aleph, o compartilhamento nas redes sociais não tem apenas papel fundamental à visibilidade de um novo produto, tangível ou intangível, mas, sobretudo, à manutenção e sobrevivência deste produto.
Os modelos de veiculação tradicionais, conforme os autores, só sobrevivem, da mesma forma, em compasso cadenciado com as inquietações dos internautas. São eles que têm definido a biruta das tendências.
A cantora inglesa Susan Boyle é um bom exemplo. As performances da artista na rede renderam 77 milhões de visualizações no Youtube, enquanto o final da temporada do American Idol atraiu 32 milhões de telespectadores nos EUA. O programa foi veiculado na TV aberta.      
Jenkins, Green e Ford partem da desconstrução do conceito de “virial”. Optam pelo entendimento de “propagabilidade”. Há diferenças. Neste quesito, o público tem papel ativo na “propagação” e não se limita a ser portador da imagem ou texto sobre o que seja. Mais: estes mesmos produtos são factíveis de remodelagens, remixagens e outros recursos midiáticos. Transmutam-se. Ganham resignificações.
Nesta nova linha de montagem, os usuários das redes sociais são “commodities”. Isso mesmo, mercadoria. Os autores coadunam com outros pesquisadores da mídia, a exemplo do ciberativista Eli Pariser (2012).
“O público cria, conscientemente ou não, valor de economia por interesses comerciais, por meio de geração de conteúdo para atrair a atenção e transformar essa atenção em commodity, e através das informações valiosas que eles lançam, as quais podem ser vendidas pelo lance mais alto”, sustentam os autores.
O trabalho dos pesquisadores não fecha questão do que poderá vir a se concretizar na nova economia política da mídia. No entanto, não é difícil constatar que os interesses sociais que movem os públicos é fator determinante nos processos de propagação de quaisquer produtos, com o ônus ou o bônus que estes movimentos possam representar.