sábado, 22 de novembro de 2008

A mea culpa meia boca de Jabor



E Arnaldo Jabor, hein? Depois de anos defendendo a supremacia do “senhor” mercado, ele se rendeu aos fatos. Em depoimento no programa Jogo Aberto, da Globo News, o dublê de cineasta e arremedo de comentarista reconheceu sua empolgação quando no início dos anos 90 agarrou entusiasmado as teses do neoliberalismo. Depois da deblaquê das bolsas, os templos sagrados que permearam durante anos seu imaginário, Jabor disparou: “estávamos todos empolgados com a globalização depois que o Muro de Berlim caiu. Eu mesmo fui um deles”. O depoimento do articulista da Globo revela o senso comum, pensamento único, na quase inabalável crença na desregulamentação dos mercados e no aniquilamento dos estados nacionais.

sábado, 13 de setembro de 2008

Outros setembros não interessam

O golpe no Chile foi sangrento, e esquecido

Na quinta-feira passada a apresentadora Ana Maria Braga – aquela que diverte madames e comenta sobre tudo acerca do nada – iniciou seu programa às 8h da manhã com cenas do atentado às torres gêmeas do wtc, em Nova York, em 2001. Com olhar consternado, a beldade global suspirou e falou: “faz sete anos”. O “sentimento” da apresentadora pode ser entendido como a visão amálgama que conduz boa parte dos meios de comunicação do país sobre o fato. A maioria do aparato midiocrático tupiniquim ainda repercute o episódio no clima “United States under attack” – Estados Unidos sob ataque -, à semelhança da CNN e outros mídias estadunidenses. Mas nada se falou de outro 11 de setembro, o que ocorreu em Santiago do Chile em 1973, o sangrento golpe de estado patrocinado pelo governo norte-americano que depôs o presidente socialista Salvador Allende. Só nas primeiras horas subseqüentes ao golpe mais de cinco mil pessoas morreram. A ditadura no Chile, tendo à frente o ditador-fantoche dos EUA Augusto Pinochet, fez centenas de milhares de vítimas. Também quase nada se noticia sobre a atual empreitada fascista que visa desestabilizar o governo popular-democrático da Bolívia. O país está à beira de um banho de sangue. A normalidade constitucional se encontra ameaçada e o principal “provedor” dos insurgentes, pra variar, é o governo dos Estados Unidos. Na sexta-feira passada 14 camponeses que participavam de uma marcha de apoio ao presidente Evo Morales foram assassinados por grupos paramilitares no departamento de Pando - fronteiriço ao Estado do Acre -, governado pelo direitista linha-dura Leopoldo Fernández. Pando integra a ''Meia Lua'', região do leste boliviano, a mais rica do país, que inclui os departamentos insurgentes de Santa Cruz, Tarija e Beni. La Paz expulsou o embaixador norte-americano Philip Goldberg, o artífice do separatismo. Sua ficha o denuncia. Entre 1994 e 1996, foi chefe da secretaria do Departamento de Estado para assuntos da Bósnia (durante a guerra separatista dos Bálcãs). Entre 2004 e 2006, Goldberg chefiou a missão dos EUA em Pristina (Kosovo), onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, marcada por uma luta que deixou milhares de mortos. São outros setembros, cujos critérios de noticiabilidade a midiocracia brasileira passa à margem. Enquanto isso, a “loura da manhã” continua mantendo-se chocada com os episódios do único 11 de setembro que ela conhece. Assim como a emissora para a qual trabalha.

Crime premeditado



Crônica de uma vilania anunciada. Para quem teve olhos críticos pra ver a edição da revista Veja de nº 2076, identificou um sofisticado estratagema. Com título “Vingança”, a matéria de capa trouxe uma vazia reportagem sobre o tema. Era uma senha. Decodificando-a com atenção, um aviso para o que viria no recheio: a vingança engendrada pelo mix de financista, chefe de quadrilha e espião Daniel Dantas contra as autoridades de segurança da República. Haviam o “incomodado” com a operação Satiagara. A mira de Dantas, por intermédio da Veja, foi Paulo Lacerda, diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ex-diretor-geral da Polícia Federal. Lacerda há tempos andava no calcanhar de Dantas. Apresentando uma suposta gravação envolvendo dois personagens, o senador Demóstenes Torres (Dem-GO) e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, a “matéria” afirmava no enunciado: “Diálogo comprova que espiões do governo grampearam o presidente do Supremo Tribunal Federal. Autoridades federais e do Congresso também foram vigiadas”. O texto não aponta nenhuma linha de investigação e não traz qualquer elemento que indique a Abin como perpetradora da escuta. Sugere ilações, apenas. O delegado afastado da Satiagara, Protógenes Queiroz – a primeira vitória de Dantas -, desafiou a revista dos Civita a provar as supostas escutas. Nenhuma resposta. Mesmo assim, o impacto da matéria foi capaz de catapultar Lacerda do cargo. Foi a segunda vitória de Daniel Dantas. Jornalistas e órgãos de imprensa sérios já se encarregaram de desvendar a trama à exaustão. Vale é entender à luz de alguma análise teórica o estratagema semiótico da Veja. Trata-se de uma obra de “arte” de fazer inveja a Josef Goebbles, ministro da Propaganda de Adolf Hitler. O diretor sueco Peter Cohen, autor do filme Arquitetura da Destruição - que discorre sobre o “enredo artístico” de Hitler para justificar as barbáries por ele praticadas - teria argumentos de sobra para estabelecer uma ponte entre os dois episódios. Parodiando Paulo Henrique Amorim, a “última flor do fascio” agiu com raro senso de engenharia midiática. Cálculo racional. Talvez caso único de crime que se torna perfeito porque assumido e premeditado publicamente. A “arte” de tão bem feita hipnotizou o Palácio do Planalto que despachou Lacerda pra geladeira. E foi capaz também de turbinar a senha arbitrário-golpista de Gilmar Mendes, a ponto de o magistrado querer “chamar o presidente às falas”. Ele mesmo, o Gilmar que presenteou o quadrilheiro Dantas com dois hábeas corpus em menos de 48 horas. Dantas é branco e rico, ele pode. É esperar pra ver quais os próximos nós desse dantesco novelo. Dantas mira Lula, tenham certeza. Queiramos a República não seja incendiada e a culpa recaia nos bodes da ocasião. Esse filme já foi exibido na Alemanha em 1936.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Segundo Carlos Saura: "Cria Cuervos"




A genética não nega. Para entender a querela levada a cabo pelo ex-governador da Bahia Paulo Ganem Souto - presidente do Dem no Estado - em torno da blindagem do carro oficial que serve ao governador Jacques Wagner, fato repercutido na Assembléia pelo deputado estadual Gildásio Penedo (Dem), é preciso conhecer, um pouco que seja, sobre as aves da família dos corvídeos. E porque o governador tem que se blindar contra elas. Os corvídeos formam uma grande família e têm o costume de se postarem à espreita no alto de árvores isoladas, de onde podem observar o que ocorre nos arredores para desfechar violentos ataques. São aves traiçoeiras. A irritação de Paulo Souto traz à baila a história dos corvos que povoam a República do Brasil. É uma questão hereditária. Os corvos sempre freqüentaram a esfera política da terra brasilis, mas foi a partir da década de 50 que suas asas se abriram com mais esplendor no cenário nacional. Corvídeos oriundos do coronelato rural, em aliança com outros corvídeos ligados ao grande capital internacional, se aglutinaram num partido, a União Democrática Nacional (UDN). Em agosto de 1954 estes perpetraram a queda do presidente Getúlio Dorneles Vargas. O corvo-mor desse momento era o jornalista e deputado federal Carlos Lacerda, patrono da Confraria dos Corvos (UDN) e dono do jornal Tribuna da Imprensa. Posteriormente, Lacerda continuou tentando espinhaçar, sem êxito, o ninho do novo presidente, Juscelino Kubitschek. Em 1961 os corvos chegaram a eleger um representante, o presidente Jânio da Silva Quadros, que não podendo levar a cabo uma tentativa de golpe civil, renunciou ao cargo em agosto do mesmo ano. Com a ascensão de João Goulart ao poder, a confraria dos corvídeos voltou à carga, desta vez contando com aves do porte de Antônio Carlos Magalhães – um corvo robusto e ainda jovem que queria dominar seu território. Em primeiro de abril de 1964, os corvos conseguiram fazer o que vinham tentando desde 1954: implantar uma ditadura militar no Brasil. No desenrolar do episódio do golpe, um dos representantes da confraria, o corvo Juracy Montenegro Magalhães, chegou a afirmar: “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Com o novo regime, mudaram de plumagem e passaram a se chamar Aliança Renovadora Nacional (Arena). Ao longo de 22 anos, tendo os militares como testas de ferro, comandaram o país impondo a censura, a tortura, a supressão das liberdades políticas e individuais e trabalhando em benefício de meia dúzia de afortunados. Foi a festa dos corvos. A miséria aumentou e o Brasil se tornou refém dos interesses externos. Com o desgaste do regime, os corvos mudaram novamente de plumagem e passaram a se chamar Partido Democrático Social (PDS). Não mais conseguindo segurar os militares no poder, resolveram participar de um regime republicano com um novo disfarce, agora de nome Partido da Frente Liberal (PFL). Foi a continuidade da festa. Se aliançaram com os tucanos e venderam quase todo o patrimônio público, provocando o aumento da miséria e o desemprego. Passados oito anos, foram expulsos do poder pelo voto, mas continuaram a fabricar crises. Mudaram novamente de nome e tornaram-se Democratas – Haja cara de pau! Todavia, num estado do país, a Bahia, estes se sentiam imbatíveis por força de ACM, que já assumira a posição de maior corvo-mor à baiana, subjugando a tudo e a todos. Era um corvo bem perverso. Mas este também foi expulso pelo voto do povo e, desgostoso, bateu as asas e morreu. Todavia, deixou alguns seguidores, a exemplo do corvo-neto ACM, do corvo-mor Paulo Ganem Souto e dos corvinídeos Gildásio Penedo e Heraldo Rocha. Estes não perdem a verve golpista e continuam a fabricar crises. Neto que ser prefeito de Salvador e Souto, Penedo e Heraldo ficam nos galhos da mídia e da assembléia à espreita, esperando o momento de mais um ataque. Conselho: governador, mantenha-se realmente blindado contra picadas de corvos.

domingo, 6 de julho de 2008

Uribe e o jogo do império. Ou porque Ingrid Bettancourt demorou ser libertada



No último dia dois de julho o mundo foi surpreendido com a libertação de Ingrid Betancourt, que estava havia seis anos encarcerada na selva colombiana pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Bettancourt foi seqüestrada pela guerrilha em 2002 quando se lançava candidata à presidência pelo Partido Verde Oxigênio. Tinha 0,2% das intenções de votos. Com ela, outros 14 reféns também foram libertados, entre eles três norte-americanos agentes da CIA. O resgate da ex-senadora foi marcado pela histeria conservadora e dos seus representantes na mídia. No entanto, nenhuma palavra que questionasse porque Bettancourt não foi libertada meses antes. Prevaleceu a estratégia de Washington e a do seu aliado na América do Sul, o presidente colombiano Álvaro Uribe. Um estratagema fácil de desmontar. No final do ano passado o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, iniciou a intermediação para a soltura de diversos reféns das Farc, inclusive Bettancourt. A iniciativa de Chávez fora acompanhada pelo presidente do equador, Rafael Correa, outro desafeto de George W. Bush. Alguns reféns foram soltos, mas não a ex-senadora. Todavia, as negociações prosseguiram e já se aproximava de um desfecho favorável. Ingrid Bettancourt estava a um passo da liberdade no final de fevereiro passado, quando uma ação conjunta do exército colombiano e instrutores militares estadunidenses bombardeou um acampamento das Farc em solo equatoriano. O ataque matou Raúl Reyes, porta-voz do grupo e considerado o número dois da guerrilha. Justamente o homem que negociava a libertação de Bettancourt. Washington evitou um desfecho favorável que fortalecesse Chávez e Correa. No final desta semana foi anunciado o resgate. Setores da mídia brasileira, parceiros incontestes dos interesses estadunidenses, anunciaram a “fantástica” operação do exército da Colômbia. A manobra, guiada pelos Estados Unidos com a participação de instrutores israelenses, teria libertado os cativos “sem disparar um tiro”. Os guerrilheiros das Farc teriam sido enganados durante um encontro com integrantes de uma ONG fantasma. Dois dias depois uma rádio suíça assegurou que tudo não passou de uma farsa, já que, segundo a emissora, o governo de Uribe teria pago 20 milhões de dólares pelo resgate.

Interesses do império - Há fortes indícios de que essa informação seja verídica. É bastante inverossímil que não tenha corrido dinheiro nesse enredo. Uribe enfrenta uma situação complicada em seus país. Envolvido com escândalos de corrupção e relacionamentos políticos explícitos com grupos paramilitares e assassinatos, o presidente colombiano estava sem chances de marchar para um terceiro mandato presidencial. A libertação de Ingrid pode agora reverter esse quadro. Em suas primeiras palavras, a ex-prisioneira sinalizou simpatias à continuidade de Uribe no poder. É tudo que a atual política externa norte-americana deseja. A permanência do aliado à frente da Colômbia coaduna com as ações militares estadunidenses no continente. Já navega pelos mares da América do Sul a VI Frota, comandada por um porta-aviões que carrega 90 aviões de combate e é dotado de imenso poder de fogo. A descoberta de petróleo e outras riquezas minerais no continente, aliada à guinada mais à esquerda por parte da maioria dos governos sul-americanos, tem deixado o império em alerta.

Um terceiro mandato que não incomoda a Globo



Enquanto isso, aqui no Brasil, o provável terceiro mandato de Álvaro Uribe não desperta a repulsa dos articulistas das grandes redes e cadeias de televisão, jornais e rádios. Dois dias depois de anunciada a libertação de Bettancourt, o âncora do Jornal da Manhã da TV Globo Renato Machado afirmou: “Ingrid Bettancourt defende o terceiro mandato para Álvaro Uribe”. Não houve nenhum questionamento na Vênus Platinada. Uribe não foi classificado de ditador por Renato Machado, Miriam Leitão, William Waack ou qualquer outro pau mandado de Ali Kamel, diretor de Jornalismo da emissora. Quando se trata do presidente da Colômbia a informação recai com aura de legitimidade. Diferente do tratamento dispensado a Hugo Chávez quando assumiu seu terceiro mandato com o endosso das urnas, ou a Lula quando para este se levanta a hipótese, ainda que remota, de um terceiro mandato. A tese da alternância democrática da Rede Globo é seletiva e, sobretudo, comprometida com seus patrões norte-americanos. Não é de estranhar para uma emissora que apoiou o regime militar com todos os seus infortúnios.


domingo, 25 de maio de 2008

O adeus do doce anarquista



Um maravilhoso anarquista. Todas as trincheiras da luta pela liberdade perderam, na última sexta-feira, dia 23, o médico, terapeuta, escritor, dramaturgo e roteirista Roberto Freire. Autor de 25 livros, entre eles Cléo e Daniel, Sem Tesão Não Há Solução, Ame e dê Vexame, Coiote e Eu e um outro, Roberto Freire, o bigode, foi seguramente um dos maiores intelectuais desse país. Para a televisão, escreveu a Grande Família e TV Mulher. Certamente que a repercussão da sua morte não teve o destaque merecido. Freire era uma espécie de bad boy entre os círculos mais letrados do país, à direita e à esquerda. Ainda lembro quando tive o primeiro e único contato com o terapeuta aqui em Salvador. O ano era 1989. Fui convidado a conhecer um bar diferente, o Tesão e Cia, nas imediações da Praia de Jaguaribe. Era, na verdade, uma cooperativa de jovens que nos finais de semana trabalhava com o bar e no restante dos dias oferecia terapias de grupo. Encantei-me pelo trabalho, ainda que polemizando. Para um militante à época da esquerda ortodoxa, aquilo tudo poderia ser uma grande blasfêmia. Mas assumo que capitulei diante dos argumentos daquele “coroa”. Roberto Freire me apontou caminhos de transformação social que eu jamais vislumbrara. E quem foi ele? Livre militante das suas idéias, o médico Roberto Freire realizou sua formação em Psicanálise através da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Posteriormente, ele rompeu com a prática psicanalítica e se aproximou da obra do terapeuta alemão William Reich (A Análise do Caráter e Psicologia de Massas do Fascismo, entre outras obras), que trabalhou com a bioenergética nos anos 20 e 30 e morreu nos cárceres nazistas na década de 40. A partir da teoria reichiniana, Roberto Freire desenvolveu a proposta da terapia anarquista, a somaterapia, uma prática que buscasse liberar as potencialidades do ser humano. Diz o terapeuta: “A pessoa saudável é aquela que vive sua originalidade, se auto-regulando e buscando sua unicidade. Essa seria a finalidade biológica de cada vida. Toda vez que alguém não consegue expressar sua originalidade, a nossa espécie e o ecossistema em que vivemos perdem uma contribuição ao seu desenvolvimento, tornando-se, então, essa vida uma experiência inútil”. A partir dos meados dos anos 80, como uma espécie de lanterna na ressaca do regime militar, Roberto Freire iniciou a construção da rede somateráptica país afora. Dezenas de núcleos de terapias da soma foram implantados em diversas cidades. De acordo com o site oficial da somaterapia, o trabalho desenvolvido por Freire se dá, “através de exercícios teatrais, jogos lúdicos e de sensibilização (...) criando uma série de vivências que possibilitam uma rica descoberta sobre o comportamento, suas infinitas e singulares diferenças”. A preocupação da somaterapia é perceber como o corpo reage diante de situações comuns no cotidiano das relações humanas, como a agressividade, a comunicação, a sensualidade e sua associação com os sentimentos e emoções. O objetivo é criar um contraponto à massificação. A Soma passou a se constituir então como um processo terapêutico com conteúdo ideológico explícito, o Anarquismo. Vida longa a Roberto Freire, que seus frutos proliferem.

sábado, 24 de maio de 2008

Nardi Suxo, vice-ministra da Transparência e Luta Contra a Corrupção da Bolívia, fala sobre seu país

Passou despercebida por parte dos meios de comunicação de Salvador a visita da vice-ministra da Transparência e Luta Contra a Corrupção da Bolívia, Nardi Suxo, que esteve na capital baiana entre os dias 14 e 15 de maio. Suxo veio à Bahia por recomendação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O objetivo foi conhecer tecnologias de gestão pública que estão sendo implementadas pelo governo baiano. Durante sua estada, em meio a uma agenda repleta de compromissos, a vice-ministra concedeu entrevista exclusiva ao blog Textos ao Vento na qual comentou sobre a situação atual do seu país. Nardi Suxo falou sobre a luta para dotar a Bolívia de melhores serviços públicos à população; a sanha separatista perpetrada pelas elites da região de Santa Cruz; a discriminação que estas praticam com as populações indígenas nativas, inclusive com o próprio presidente e auxiliares indígenas; e a certeza de que a Embaixada dos EUA está financiando a desestabilização do país. Sempre se referindo ao presidente Evo Morales como “hermano”, Nardi Suxo deixou claro que o governo boliviano é a representação da vontade dos movimentos sociais indígenas, “um país com muitos recursos naturais que estão sendo recuperados para a população”, enfatizou. Segue o vídeo.


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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Guarda Compartilhada. Agora é lei! Um basta à maternocracia



Foram dez anos de luta. Na última terça-feira foi aprovado pelo plenário da Câmara Federal, em Brasília, o projeto de lei no 6.350/02, a Lei José Lucas (ver Boxe abaixo), que institui no país a Guarda Compartilhada de filhos de pais separados ou divorciados. A nova lei pode se constituir num basta ao arbítrio praticado por muitas mães detentoras das custódias dos filhos. A lei estabelece, entre outros pontos, a divisão de responsabilidades de ambos os pais na criação dos filhos, o que também inclui livre acesso e, o mais importante, determina o rateamento das despesas entre pai e mãe. Trata-se, efetivamente, do compartilhamento. É o início da consolidação da Igualdade parental. Na verdade, a nova lei já nasce sustentada por ampla jurisprudência no assunto. Se inicia a derrubada de um muro ideológico construído pelo imaginário judaico-cristão que sublimou o papel da maternidade em detrimento da paternidade. E a herança disso foram as errôneas interpretações feitas por operadores jurídicos quando a questão era decidir sobre guarda de filhos. Não se mensurava quase nada, apenas o “consenso”, à fórceps, de que o pai pagava a pensão e a mãe detinha a guarda. Tal situação resultou em ônus para pais e filhos. Milhares de laços parentais foram decapitados com decisões esdrúxulas que reduziam a paternidade a “visitas quinzenais”. A necessária convivência entre pais e filhos se limitava a dois encontros mensais. É interessante notar que na linguagem do Direito de Família convivência é sinônimo de “visita”, o que denota o nível do atraso de boa parte dos operadores jurídicos no que diz respeito ao problema. Por outro lado, se desenvolvia uma poderosa indústria: a pensão alimentícia. Entendendo que poderiam se utilizar dos filhos para angariar benesses pessoais, muitas mulheres se esbaldavam com polpudas quantias. O quê, a princípio, deveria ser aplicado no sustento da criança, se transformava em salários para o exercício da maternidade. Ficava fácil. Trabalhando, “mães” delegavam os cuidados dos filhos a babás e afins – o quê os pais também poderiam perfeitamente fazer –, conseguindo auferir renda extra apenas pela diferenciação dos hormônios. Concomitante a essa violenta distorção, outra passou também a ocorrer, a Síndrome de Alienação Parental (SAP). Detentoras da guarda e com convívio diário, as “guardiãs” desconstruíam a imagem dos pais perante os filhos para forçar ainda mais o distanciamento entre estes. A nova lei buscará estancar essa violência. É o que explica a juíza Maria Aglaé Vilardo, juíza titular da 15ª Vara de Família da Comarca do Rio de Janeiro, em entrevista concedida à TV Educativa: “O Estado tem o dever de dar o impulso para o pai conviver com o filho”, afirma a magistrada, que considera “indispensável o convívio entre pais e filhos para o sadio desenvolvimento mental da criança”. Uma terceira maneira de se tentar afastar pais e filhos é o expediente da falsa acusação por abuso sexual. Talvez milhares de casos se enquadrem nessa criminosa e engenhosa artimanha. Um pai acusado, mesmo que injustamente, já está condenado a passar meses, quiçá anos, longe do filho dada a morosidade da justiça em avaliar concretamente a situação. Até provar a inocência, laços parentais de convivência já foram mutilados com o legado de sérios traumas para ambos. Um novo projeto de lei já está em elaboração e prevê rigorosa punição para esse tipo de crime, assim como para a prática da alienação parental. Com a aprovação da Lei José Lucas, muitas mulheres já se encontram inquietas. Ao longo desta semana uma das matérias veiculadas numa emissora de televisão de Salvador abriu o debate para o público. A maior parte dos telefonemas e e-mails endereçados aos apresentadores era de mulheres que se mostravam preocupadas em relação às perdas financeiras. Amor de mãe ou pânico com o início do fim da maternocracia? É sabido que a Lei José Lucas não resultará em transformações imediatas, já que sua devida interpretação, particularmente por parte dos juízes, levará algum tempo para ser assimilada, é bom lembrar. Todavia, esta já impulsiona uma expressiva mudança em curso nos costumes e mentalidades. A Lei José Lucas é fruto do esforço de diversas entidades – www.paisparasemprebrasil.org , www.participais.com.br , www.apase.org.br – e, em especial, da ação de alguns homens que enfrentaram toda sorte de dificuldades para conviver com os filhos após a separação e se lançaram na obstinada tarefa de mudar a legislação. Um deles é o jornalista Rodrigo Dias, pai de José Lucas, que propôs ao deputado Thilden Santiago (PT-MG) a elaboração do projeto de lei, participando inclusive da sua discussão. O próximo passo das organizações que lutam pela igualdade parental é uma ampla campanha de esclarecimento para que a Lei José Lucas seja amplamente aplicada e se faça garantir o direito das crianças que estão condenadas a serem órfãs de pais vivos. Igualdade parental, já!

O caso José Lucas, símbolo de luta

O garoto José Lucas Delmondes Dias, hoje com 12 anos, filho de Rodrigo Dias, ficou separado do seu pai por quase seis meses a partir de um expediente escuso utilizado pela ex-mulher de Rodrigo. Contando com os “serviços” de uma psicóloga, sob orientação de advogados, foi demandado um laudo o qual indicava que a convivência do pai seria nefasta para José Lucas. Rodrigo lutou na Justiça, provou que o documento não tinha fundamentação e reverteu a situação ganhando a guarda do filho, que era da mãe. Mesmo assim, Rodrigo estendeu à ex-esposa o direito de compartilhar com ele as decisões e responsabilidades na criação de José Lucas. Atualmente, pai e filho são obstinados militantes da Guarda Compartilhada e da luta pela Igualdade Parental.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O último recado de Milton Santos - O vídeo

Assista o trailer do documentário, leia a resenha e, claro, opine.

O último recado de Milton Santos - o texto




As cenas são fortes e reveladoras. Imigrantes latinos tentando atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos; pobreza no Brasil, na Bolívia, na Índia; Protestos e reivindicações dos movimentos sociais. A cada denúncia à globalização, sólidos argumentos. Irrefutáveis. E as imagens marcantes vão se entrelaçando com um doce personagem, que também é firme, duro. O entrevistado é o geógrafo Milton Santos, intelectual reconhecido internacionalmente. O entrevistador é o cineasta Silvio Tendler (Jango, Os anos JK, entre outros). E o filme: Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá. Dirigido por Tendler e premiado no Festival de Cinema de Brasília de 2006, o documentário - já em exibição em diversos circuitos culturais - é um tapa na consciência de quem assiste. Com roteiro bem estruturado, consegue construir cada idéia extraída de Milton Santos veiculando cenas de situações vivenciadas em diversas partes do mundo. Crítico mordaz da globalização neoliberal, o geógrafo sustenta uma inteligente oposição ao fenômeno, que apenas beneficia os países mais ricos em detrimento dos mais pobres. Ainda que considere a globalização inevitável, Milton Santos acredita que é possível mudar a forma como esta se processa, transformando-a a partir das suas próprias dinâmicas. Ele é categórico e deixa transbordar sua inteligência: “Até hoje nunca tivemos humanidade, apenas alguns ensaios. Talvez estejamos vivenciando mais um grande ensaio”. E, quando provocado, o intelectual é enfático: “Não milito em nenhum partido, não pertenço a nenhuma organização política, não sou ligado a nenhum grupo”, diz, contundente, deixando clara sua posição de franco atirador que troca o adjetivo de marxista por marxisisante. Pura dialética. Negro, olhos semicerrados e gestos simples, o Prof. Dr. Milton de Almeida Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no dia 03 de Maio de 1926. Em 1948 formou-se em Direito pela UFBA e em 1958 fez doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo, na França. Como livre pensador, foi doutor honoris causa em vários países, ganhando o prêmio Vautrin Lud - o prêmio Nobel da geografia - em 1994. Quando esteve exilado por conta do Golpe Militar de 1964, Milton Santos atuou como professor em diversos países e publicou cerca de 40 livros. Um currículo que Silvio Tendler teve a maestria de dissecar, não por previsíveis arrolagens de titulação, mas, sobretudo, pela sagacidade dos questionamentos. E um dos momentos mais fortes é quando o cineasta dispara: “É difícil ser um intelectual negro?”. O resultado é uma resposta seca e direta: “É difícil ser negro”. O documentário tem clima de despedida, talvez pela passagem de um momento a outro da sociedade humana, ou mesmo do entrevistado, que sugere querer deixar suas últimas mensagens. Na derradeira cena, Santos levanta-se apoiado numa bengala, abre um sorriso e ausenta-se da sala de entrevista. Seis meses depois da gravação ele morreu. Um último ato de quem parece antever o início dos próximos passos da humanidade.

domingo, 11 de maio de 2008

Dúbias posições

A absolvição do mandante do assassino da irmã Dorothy Stang (foto) não preocupou os editorialistas dos grandes jornais e demais meios de comunicação


O país ficou perplexo na semana passada com a absolvição do fazendeiro Vitalmiro Bastos Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do assassinado da missionária Dorothy Stang em 2005. Conhecida por seu trabalho em defesa da reforma agrária, pelo reflorestamento de áreas degradadas e pelo esforço em minimizar os conflitos do campo no estado do Pará, a irmã Dorothy foi vítima de empresários ligados ao agronegócio. Vitalmiro havia sido condenado a 30 anos de prisão no primeiro júri. No segundo, apenas o seu capanga, o pistoleiro Rayfran das Neves, o Fogoió, foi condenado a 28 anos. Fogoió mudou seu depoimento 14 vezes ao longo do processo. Ainda que os meios de comunicação tenham dado ampla cobertura à decisão da “Justiça”, o caso requer uma análise mais profunda. As empresas jornalísticas e o Poder Judiciário são historicamente instituições conservadoras que reforçam a desigualdade social no país quando deveriam ser árbitros para garantir a igualdade e a justiça. A estranha decisão do tribunal paraense não mereceu nenhum editorial que questionasse o ato por parte dos grandes meios de comunicação. Todos se esconderam numa nítida demonstração de solidariedade de classe. Vozes que por vezes se apresentam veementes quando se trata ou se tratou de dar eco a factoídes, calaram-se perante a um flagrante desrespeito aos direitos humanos, ainda que se mostrem extremamente contundentes quando é para criminalizar e demonizar as ações dos movimentos sociais. E mesmo na cobertura do julgamento, as matérias veiculadas se limitaram a apresentar o fato sem o devido registro dos antecedentes que os norteia. Pautas evasivas. Numa certa emissora de televisão, a irmã Dorothy foi apresentada apenas como uma “defensora da floresta”, não informando os pormenores da luta que ela travava e os motivos reais do seu assassinato. Sumiram também os “analistas”, aqueles “especialistas” que sabem tudo do nada e nenhuma repercussão com as autoridades do Vaticano. O Estado Papal não se pronunciou e era mais do que lógico saber os porquês dessa indiferença. É como se quisessem dissolver o episódio com uma névoa de desinformação. Quanto à cobertura do Judiciário, totalmente sem base. O que sobrou de alarde ante a decisão, faltou em questionamento. Algum advogado ligado aos movimentos sociais foi convidado a opinar? Sindicalistas da região foram ouvidos? Nada. Restou apenas a velha enunciação do problema como índice. E a cobertura mais densa ficou então dedicada à CPI dos cartões corporativos e ao caso Isabella Nardoni. Compreensível, pelo menos para quem tem olhos mais críticos.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O tacape de Dilma e a vergonha de Agripino Maia




A ministra Dilma Rousseff desfechou um belo contra-ataque ao senador Agripino Maia (DEM-RN) quando este tentou ofendê-la com argumentos que só um beócio poderia utilizar


Tudo fora programado pela oposição - parlamentar e midiática - para ser mais um palco no qual o Governo, na pessoa da ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, seria devidamente defenestrado. Dilma havia sido convidada para falar na semana passada na Comissão de Infra-estrutura do Senado sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas o verdadeiro interesse das oposições – parlamentar e midiática – era constranger a ministra com perguntas sobre o dossiê dos cartões corporativos que teria sido vazado da Casa Civil e revelado gastos do ex-presidente FHC. Assanhados, os parlamentares oposicionistas apostavam no fracasso do depoimento de Dilma como se fosse um time comemorando a vitória antecipadamente. Talvez imaginassem belas manchetes nas quais diversos “arautos da modalidade” se sobressairiam como salvadores da pátria. E um deles, o senador Agripino Maia (DEM-RN), resolveu ir com tanta sede ao pote que, pensando em provocar um factóide bem ao estilo do seu partido golpista, acabou caindo no ridículo. No início dos trabalhos, Maia – que apoiou de corpo e alma a Ditadura Militar – lembrou que nos anos 70 a ministra, então militante que combatia o regime, mentiu ao ser torturada pelos órgãos de repressão. Dilma havia dito numa entrevista, concedida há mais e um ano, que, quando torturada, realmente mentiu para não colocar em risco a vida de companheiros. O senador quis insinuar que ela estaria fazendo o mesmo agora, em relação ao suposto dossiê com informações sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Tal comparação só poderia ter sido feita por um beócio. E o tiro saiu pela culatra. Ao rememorar a entrevista na comissão, Agripino Maia foi rebatido com tanta veemência por Dilma Rousseff que terminou por desarmar os argumentos dele e dos demais colegas oposicionistas: “O que acontece ao longo dos anos 70 é a impossibilidade de se dizer a verdade em qualquer circunstância. No pau de arara, com o choque elétrico e a morte, não há diálogo", disse a ministra. E prosseguiu: "Eu fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores, entrega os seus iguais. Eu me orgulho muito de ter mentido na tortura, senador", enfatizou. Na época da prisão Dilma tinha 19 anos e passou três anos presa. Não houve como esconder o fato por parte dos grandes jornalões e TV’s do país, ainda que uns tenham dado mais destaque do que outros. O vexame que Maia foi submetido sob o tacape de Dilma Rousseff se tornou público. Todavia, uns dos braços mais articulados da oposição, a TV Globo, retomou a carga da pauta no dia seguinte para tentar ofuscar o vexame do aliado Agripino Maia. O Jornal Nacional de ontem, 08/05, veiculou matéria informando que o suposto dossiê havia saído da Casa Civil por intermédio de email transmitido por um funcionário do órgão a um assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR). Mas a fonte não foi a Polícia Federal, convocada pelo próprio Palácio do Planalto para investigar o episódio, e sim uma empresa de tecnologia que teria feito o rastreamento dos computadores da Casa Civil. Nenhum laudo oficial foi apresentado. E o pior, a matéria só confirmou o que a própria ministra havia antecipado no depoimento dado no dia anterior, que a Casa Civil abrira sindicância interna e apontaria quem teria vazado informações do banco de dados do órgão. É o desespero de diversos setores do país que não aceitam e fingem não entender a avaliação positiva da gestão do Governo Federal por amplos segmentos da população. Diante de tal quadro, e com a ineficiência das pífias oposições parlamentares, resta o front armado das empresas jornalísticas na esperança de que algum factóide novo possa desestabilizar o governo. É o sentimento golpista de sempre do fantasma de Carlos Lacerda encarnado nos Marinhos, Civitas, Frias e Mesquitas.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Mais uma grande "matéria" do JB



Foi a pérola da semana. A edição do dia 29/04 do Jornal do Brasil fez alquimia lingüística com uma matéria que foi chamada de capa. Com título Tráfico infiltra-se no PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal -, o texto informa que a polícia havia prendido um certo Adauto do Nascimento Gonçalves, o Pitbull, que, segundo a matéria, “fazia expediente nas obras do PAC”. Prossegue o texto: “Para as autoridades, a captura comprova a infiltração (do narcotráfico) no programa”. Detalhe: a foto apresentada do traficante foi tirada de um crachá da construtora OAS, empreiteira que presta serviço ao Governo. Portanto, Adauto, se for o caso, é empregado da referida empresa, já que não existem empregados do PAC, a não ser na cabeça dos editores do JB. O restante da matéria, publicada na página 10 do Caderno A, atêm-se apenas às movimentações das policias Civil e Militar nos morros do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, e Cantagalo, em Ipanema. Realmente, uma “apuração” digna do prêmio Politzer.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Eternamente agradecido


Blogs não devem ser ferramentas de mídia para falar do próprio autor, penso. Aqui, abro uma exceção. Na última sexta-feira, dia 18/04, fui homenageado pelos formandos de Jornalismo das Faculdades Jorge Amado. O ato muito me alegrou, não simplesmente pela homenagem em si, mas, sobretudo, pelo reconhecimento daqueles a quem dedicamos nossas melhores energias ao longo do convívio acadêmico. Sou-lhes grato e gostaria de dividir essa homenagem com vários colegas, pessoas que também atuaram com dedicação para que este aguerrido grupo pudesse atingir esse intento. São eles os colegas: Walter Takemoto, Tatiana Loureiro, Hudson Marambaia, Eliezer César, Marcos Dias e Maurício Matos. Brilhantes profissionais que tiveram suas trajetórias ceifadas nas FJA por conta de uma postura autoritária da instituição. Nesse mesmo diapasão, aqui lembro o fato de ter sido chamado de louco e doente pela diretora geral, feito presenciado por dezenas de alunos. Não adentrarei nesta seara, já que quem melhor avaliará o inconseqüente ato é a Justiça, já devidamente acionada. Retomando, se ontem estive na presumível condição daquele que poderia saber algo a mais para transmitir, devo lhes confessar que muito mais aprendi do que ensinei. Do pensador Michel Foucault extrai-se um dos conceitos mais bem aplicados à escola: para ele, o sistema educacional ocidental é uma herança de duas instituições, o sistema manicomial e o sistema penitencial. E durante quatro anos de convívio nos corredores, sendo um diretamente em sala de aula, vocês, eu, nós todos, pudemos experimentar a doçura dos momentos mais suaves às agruras das cobranças mútuas. Missão difícil: ajudar a formar jornalistas. Fala-se muito da mídia, ou melhor, da idade mídia, e sobre nós, professores de cursos de Jornalismo, recai a grande responsabilidade de filtrar aos nossos alunos os pormenores - seja do ponto de vista prático quanto teórico - de uma atividade essencial à sociedade. Jornalismo é um serviço de utilidade pública, mas que historicamente, no Brasil e na maioria dos países, se constituiu numa rentável máquina de construção de poderes. Procurei debater todas essas questões e jamais me refutei à análise crítica acerca desses temas. E é assim que tem que ser. Fica a saudade de uma fase, inaugura-se o convívio em outra, a profissional. Agora somos todos colegas, sem nunca deixarmos de ser aprendizes, sempre. Um beijo no coração de vocês desse que os terá, acima de tudo, como amigos. E, novamente, eternamente grato!

domingo, 30 de março de 2008

Partido da Imprensa Golpista esperneia e ataca



Já era esperado. Com a divulgação dos últimos resultados da pesquisa CNT/Sensus, os quais indicam que a popularidade do presidente Lula atingiu a maior aceitação desde seu primeiro mandato – 58% acham sua administração boa e ótima - o Partido da Imprensa Golpista - o Pig, no dizer do jornalista Paulo Henrique Amorim - abriu uma nova bateria de escândalo político. Agora, as cargas são despejadas com força pra cima da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a chamada mãe do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. Os índices sociais e econômicos alcançados, ainda que estejam longe do ideal, já assustam a oposição, que teme por uma provável transferência de votos do presidente para a possível candidata Dilma Rousseff em 2010. Foi preciso agir. Os jornalões e Tv’s do Brasil procuram achar um jeito de como barrunfar a névoa certa para despistar a opinião pública, o que há algum tempo não têm conseguido, dada a desidratação do número de leitores e telespectadores que estes têm registrado. Lendo, vendo e ouvindo os panfletos das famílias Frias, Mesquita, Civita e Marinho se pode ter uma idéia, entrelinhas, do discurso que eles pretendem conduzir e qual o motivo das suas estratégias. O sociólogo e teórico da Comunicação J.B. Thompson afirma que é importante cultivar a mídia, ou mesmo tê-la à mão, dominado-a ou adquirindo-a. Segundo ele, no campo político da democracia liberal, “um estoque sadio de capital simbólico não é apenas um recurso útil, é uma condição necessária de eficiência política, tão importante como uma boa organização partidária e um forte apoio financeiro”. Postado neste final de semana no site do Estadão, o comentário do “analista” político Marco Antonio Villa procura explicar a popularidade do presidente por um viés economicista, afirmando que esta decorre do fato da economia está indo bem. Depois Villa afirma que com a “crise” do suposto dossiê montado na Casa Civil para atingir FHC, que teria sido forjado pela secretária-executiva de Dilma Rousseff, Erenice Guerra, a candidatura da ministra estaria natimorta. Penso que pela vontade única e exclusiva do porta-voz da família Mesquita. Segundo a “análise”, o Brasil vive um bom momento econômico apenas pelo efeito, diria ele em palavras subentendidas, da pujança econômica mundial. Contraditório, não? Lá fora o caos brotado a partir dos Estados Unidos está devastando os ativos no mundo inteiro e o Brasil, até o momento, sente pouco o efeito da crise norte-americana. No entanto, nenhuma palavra, nenhuma efetiva análise sobre a gestão do governo. Puro estrategismo opinativo. Por outro lado, dar-se-á prosseguimento à velha tática do rolo compressor, à semelhança do que já ocorreu no passado recente, quando a crise do mensalão foi emendada com as crises área e dos cartões corporativos. E a cultura noticiosa dominante prossegue escandalizando a política, desconstruindo-a, transformando-a em factoides diários. A oposição midiática talvez não se dê conta que cada vez mais tem falado para menos receptores. É um esperneio quase que isolado. E por detrás dele, a angústia de diversos setores da sociedade que temem a evolução dos programas de transferência de renda. Não aceitam um estado que fomente o desenvolvimento econômico a partir de políticas mais distributivas. São os 13% da população que, de acordo com a pesquisa do Instituto Sensus, rejeitam o presidente Lula, talvez os mesmos que lêem a Veja, o Estadão, a Folha e o Globo.

domingo, 23 de março de 2008

Michael Moore ataca novamente

O cineasta Michael Moore (foto) bate novamente no estabeleshiment norte-americano e põe a nu o sistema de saúde dos Estados Unidos, totalmente privatizado e custeado com o dinheiro público


Cortar na própria carne talvez seja o propósito do novo documentário do cineasta Michael Moore, Sicko ($O$ Saúde), já em exibição no país. Agulha e linha à mão, um cidadão estadunidense tenta costurar um ferimento na perna, a seco. Ele afirma não ter seguro-saúde para ser atendido por um serviço médico. É a primeira cena, o primeiro momento de uma denúncia que põe a nu o sistema de saúde no império do capitalismo internacional. Alguns críticos têm dito que Moore retorna à mesma estratégia de descortinar as contradições da sociedade norte-americana. Mas se elas existem? Comparando os serviços de saúde do seu país com os oferecidos no Canadá, Inglaterra, França e Cuba, o documentarista revela uma faceta cruel: os Estados Unidos não são dotados de atendimento universal para todos os seus cidadãos. Alguns depoimentos beiram ao macabro. Um trabalhador que teve que optar pelo implante de um dos dois dedos ceifados num acidente de trabalho, pois não tinha recursos para a cirurgia de ambos; um casal de idade provecta que foi obrigado a vender a casa para custear o tratamento de um câncer na mulher; uma mãe que viu a filha morrer nos braços por falta de atendimento; pessoas em pleno gozo de saúde rejeitadas por seguradoras por terem uma herpes banal; e uma paciente com cerca de 60 anos que foi deixada no meio da rua por um hospital porque seu “seguro” não permitiu que ela continuasse internada. O documentário traz também denúncias de corretores e médicos que relatam ordens e “metas” exigidas por empresas que exploram o segmento, a exemplo da poderosa Aetna. Mas o que pode ter deixado mais possesso o estabileshment estadunidense é a maneira como o documentário revela as relações das empresas seguradoras de saúde e a classe política local. Parlamentares, democratas e republicanos, citados por receberem milionárias doações de campanhas das seguradoras e o histórico que facilitou a entrada do grande capital na exploração da saúde pública dos Estados Unidos, desde a era Nixon até o momento George Bush Jr. Lucros é o que interessa, sempre! Respondendo ao repórter Michel Guerrin, do jornal francês Le Monde, o documentarista afirma: "Os Estados Unidos são o único país ocidental a não dispor de cobertura social universal, e o único onde as operadoras de planos de saúde recebem dinheiro público. O objetivo delas não é curar as pessoas, mas maximizar os lucros". O cineasta se refere a uma sociedade onde 1/3 da população não conta com nenhum serviço de saúde. E Moore não deixa por menos, aplicando o golpe final numa provocação que afronta os brios do conservadorismo norte-americano. O cineasta resgata 11 pessoas que trabalharam como voluntárias no episódio do 11 de setembro e que se encontram doentes em decorrência dos efeitos colaterais do desabamento das torres gêmeas. Os chamados heróis nacionais, como foram ovacionados à época, não têm como se tratar dignamente, já que o Estado norte-americano não os ampara. Moore os coloca num iate e os leva para Havana, Cuba, onde são atendidos por um serviço público de saúde melhor do que no país de origem. É o gran finale com tapa de luva de pelica, mas que mais se assemelha a um toque de proctologista. Com roteiro bem amarrado e boa produção, trata-se de um grande filme, brilhante!


domingo, 16 de março de 2008

Condolezza Rice na Bahia, o rescaldo



O grande evento midiático da semana passada na capital dos baianos foi, sem sombra de dúvida, a visita da secretária de Estado dos Estados Unidos Condolezza Rice. A justificativa da visita a Salvador foi conhecer projetos educacionais de uma concessionária local de distribuição de energia em parceria com entidades do seu país. Durante a estadia de menos de dois dias, a porta-voz dos interesses de Washington usou fitinhas do Bomfim, tocou pandeiro com o ministro Gilberto Gil e assistiu a rodas de capoeiras enquanto distribuía sorrisos e seus seguranças safanões em quem se atrevesse chegar a menos de quinze metros dela. Uma testemunha que se encontrava na empresa visitada – também funcionária da mesma - relatou a agressão de um agente da Casa Branca a um cinegrafista de uma emissora local. Segundo o relato, o gringo brutamontes desfechou uma braçada no profissional que chamou atenção de uma agente da Polícia Federal que se encontrava próxima. De forma altiva, a agente partiu pra cima do gorila de Condolezza e lhe disse, em português claro e tom elevado: “Aqui é o Brasil e aqui mando eu, não vocês! Nós é que decidimos sobre os métodos de segurança”. Na mesma empresa, a assessoria de comunicação vibrava com a mídia espontânea patrocinada pela ilustre presença, já que imagens da secretária estavam chegando aos quatro cantos do mundo figurando na retaguarda a logomarca da concessionária. Mas o ponto alto da visita foi a entrevista concedida com exclusividade à Rede Globo por intermédio do seu repórter, William Waack. Sempre levantando a bola de Condolezza, Waack não escondia a missão dada pelo chefe Ali Kamel em aproveitar o momento para, a partir do conflito recente na fronteira entre Equador e Venezuela, reforçar a posição dos setores republicanos dos Estados Unidos. Elogiando o Brasil e definindo o país como uma liderança do continente, a secretária de Estado de George Bush armou o biombo perfeito para defenestrar o governo Venezuelano e enaltecer o apoio a Álvaro Uribe, presidente da Colômbia e títere dos interesses estadunidenses. Uma dessas levantadas de bola se deu quando o jornalista da Globo perguntou a Condolezza a respeito das “ações dos narcotraficantes das Farcs”. E a resposta, a previsível: “O nosso governo é contrário às forças terroristas que seqüestram pessoas inocentes”. Como William Wack não atuava como repórter e sim como levantador de bolas, faltou a tensão necessária caso à frente da secretária se encontrasse, de fato, a atuação de um jornalista. E sobre os grupos paramilitares assassinos ligados a Uribe, senhor Wack, nenhuma pergunta? E quanto às graves acusações que também pesam sobre ele acerca de envolvimento com narcotraficantes, que inclusive exercem cargos no seu governo? Nada, nobre Wack? Depois das bolas terem sido devidamente rebatidas por Condolezza, à semelhança de um logral ensaiado, a entrevista findou no belo cenário da orla do bairro do Rio Vermelho. Por do sol às costas, vieram as amenidades: a nova paixão da secretária, a cidade do Salvador, e o desejo da mesma de retornar para passear. E o “tema” foi a chamada do Jornal nacional daquele dia. Belo Jornalismo.

Os latifundiários da web

A fome desvairada por lucros pode acabar com a liberdade de expressão e conteúdos na Internet. Bill Gates (foto) é um dos "latifundiários" da rede que exerce irresponsável controle sobre softwares e hardwares

A violenta luta mercadológica das grandes corporações de mídia que operam na Internet está colocando os usuários da rede como reféns de suas disputas. Diz um provérbio indu que quando dois ou mais elefantes brigam quem sofre é a grama. Usuários que instalam novos sistemas operacionais da Microsoft, a exemplo do Windows Vista e suas diversas plataformas de apoio, estão quase que sendo impedidos de navegar livremente por sites que a empresa de Bill Gates entende como “ameaças” ao sistema. E os bloqueios vêm em forma de avisos sobre plausíveis inseguranças para quem acessar, por exemplo, sites da Google ou da Yahoo. É fácil imaginar que as duas últimas buscarão agir da mesma forma que a gigante concorrente num futuro próximo. A questão é o dinheiro e o garroteamento de usuários na web significa enormes bancos de dados para atuais e futuras conversões destes em consumidores. Com a eminente unificação das mídias por intermédio da digitalização, volumosos recursos de investimentos publicitários, outrora destinados a canais de televisão, rádios e impressos, estão sendo reorientados para a Internet e suas derivações, como a telefonia móvel. O pesquisador Hervé Le Crosnier, da Universidade de Caen, França, chama atenção em artigo publicado no jornal Le Monde Diplomatique que o investimento em publicidade na rede consumiu cerca de 40 bilhões de dólares em 2007. Ainda segundo Crosnier, estimativas da própria Microsoft prevêem que esse número deverá dobrar até 2010. No ano passado, a Google teve 588 milhões de acessos, a Microsoft 540 milhões e a Yahoo 485 milhões. A briga está feroz e se tornará ainda mais ácida. E nessa disputa os usuários da web ficam vulneráveis às adequações das “necessidades” publicitárias das megacorporações. Questiona-se então a própria condição da Internet, uma ferramenta de mídia que presumivelmente pode democratizar a divisão do bolo informacional no mundo. O controle desse espaço por um pequeno clube de investidores poderá ameaçar o acesso livre e, o mais grave, restringir paulatinamente a liberdade de conteúdo na web. Em meados do século XX, um grupo de intelectuais do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, denominando posteriormente de Escola de Frankfurt, antecipou essa fagocitose midiática a partir de estratégias nas quais os bens culturais simbólicos estariam suscetíveis às demandas do mercado e sua lógica. E a “profecia” poderá ser cumprida à risca na atual idade mídia. Tal controle, na verdade, destila-se em controle ideológico, já que a Internet ainda é um espaço presumivelmente democrático. Segundo o sociólogo Sérgio Amadeu, pesquisador e militante do software livre, “a tecnologia digital permite uma grande transformação sócio-comunicativa, e se, anteriormente a população só recebia informações pela mídia, agora passa também a poder produzir seu próprio conteúdo e disponibilizá-lo na Internet”, conclui. Então as disputas pelos consumidores na web traduzem-se também em ameaças à qualidade dos conteúdos e suas orientações de discursos. Quando um programa do Windows Vista “trava” o download de um software livre, a exemplo de um executor de mídias como o Miro ou um navegador do tipo Mozila, não está apenas restringindo ao usuário o acesso às ferramentas, mas muito mais à diversidade de conteúdos e espaços que não queiram se dobrar à lógica das megacorporações. O próprio conceito de site, que significa sítio, remete a um espaço pequeno e a Internet deveria, e deve ser, um conjunto desses pequenos “sítios” no qual prevaleça a diversidade e a democracia de opção e participação. De modo contrário, prevalecerão os “latifúndios” midiáticos que reproduzirão na web o que já é realidade nos suportes mais antigos, como o rádio, a TV e os impressos. É tudo que deseja Bill Gates, a Fox e os demais mastodontes da mídia mundial.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A notícia não dada ou a "verdade" conforme a Globo

O presidente do Equador, Rafael Correa, é uma voz quase que deletada do noticiário da Globo. Seu país teve o espaço aéreo violado pela Colômbia, fantoche dos Estados Unidos, e mesmo assim é tido como "agressor" pela inteligentsia jornalística da Vênus Platinada

Novamente o logral ensaiado da grande mídia tupiniquim serve como caixa de ressonância dos meios de comunicação estadunidenses. O efeito papagaio ganha novos contornos. A invasão do espaço aéreo equatoriano pelo exército colombiano, ocorrido no sábado passado, 01/03, que resultou no assassinato do número dois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Raúl Reyes, e mais 16 guerrilheiros, provocou uma crise político-militar no continente que é propícia aos interesses de Washington. E os jornalões e as emissoras de rádio e TV fazem a festa com o, até o momento, embaraço diplomático que envolve Colômbia, Equador e Venezuela. As pérolas foram as notícias veiculadas conforme a ótica de Ali Kamel, diretor de Jornalismo da Globo. Com bastante estardalhaço o jornalista Renato Machado anunciou a crise na América da Sul no início da semana no telejornal Bom Dia Brasil, não citando o fato em si, mas focando a informação na iniciativa do presidente venezuelano Hugo Chávez em deslocar 10 batalhões para a fronteira do seu país com a Colômbia. A violação do espaço aéreo equatoriano não mereceu posição de lead na matéria. Posteriormente, veio o comentário do âncora Alexandre Garcia. O mesmo diapasão. Garcia se refutou a comentar o problema de forma didática, e não o fez por pruridos ideológicos. Ficou então o telespectador a boiar, sem saber a respeito do emaranhado político que envolve as organizações de esquerda na Colômbia, como as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN), e a direita e seus grupos paramilitares, que hoje têm como representante máximo o próprio presidente do país, Álvaro Uribe. À semelhança de Machado, Garcia se limitou a atacar Chávez e afirmar a ligação das Farc com o narcotráfico e os governos equatoriano e venezuelano. Mas não informou que o governo de Álvaro Uribe é que está sendo apontado de ter ligações com o narcotráfico, conforme denúncia disparada pelos chefes de Estado do Equador, Venezuela e as próprias Farc. Nem mesmo a decisão do presidente equatoriano, Rafael Correa, em colocar as forças militares do seu país em alerta máximo na fronteira colombiana foi noticiada de imediato. No comentário do âncora, nada também sobre a violação do território do Equador pelas forças colombianas a partir da análise do Direito Internacional. Ou seja, a notícia que presumivelmente poderia informar alguma coisa se torna “refém” dos comentários que a ornam. E assim tem prosseguido o “cast” informativo de boa parte da mídia corporativa país afora acerca da crise em curso. No Jornal Nacional da terça-feira à noite, quatro minutos foram dedicados a apresentar os documentos apreendidos pelos militares colombianos que indicavam a “ligação” do Estado salvadorenho com as Farc. No entanto, nenhuma palavra dita sobre o posicionamento do ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, que lamentou a morte de Raúl Reyes. “Não é uma boa notícia”, disse Kouchner, “que o homem com o qual falávamos e tínhamos contatos tenha sido morto”. O ministro defendeu que os esforços agora devem ser redobrados para a libertação dos reféns da guerrilha, em especial de Ingrid Betancourt, a ministra de nacionalidade franco-colombiana que é refém das Farc há quatro anos. Reyes, autoridades do Equador, Venezuela e o próprio Kouchner negociavam a libertação de Betancourt e mais outros reféns. A declaração foi veiculada pela agência France Press, e o comando de Jornalismo da Globo evidentemente sabia a respeito, mas não deu. Por outro lado, enquanto a maior parte dos órgãos de imprensa brasileiros copia os discursos vindos da imprensa dos estados Unidos, os quais dizem que Chávez quer se aproveitar do clima de tensão para elevar sua popularidade, passam a omitir peremptoriamente a situação interna da Colômbia. Segundo o cientista político Emir Sader, é a linha dura de Uribe, que precisa dos enfrentamentos militares para manter sua popularidade interna e conseguir reformar de novo a Constituição e poder obter um terceiro mandato. Diz Sader: “Ele (Uribe) perdeu as eleições municipais internas nas principais cidades do país, como Bogotá, Medellin, Cali, por isso precisa desviar a atenção dos colombianos para que não avaliem seu governo, mas se mantenham sob a chantagem da guerra, com ele supostamente representando a paz. Quando na realidade Uribe representa e precisa da continuidade da guerra”. Fica então boa parte da população do país refém das notícias-pela-metade. Claro intuito de não tocar no cerne principal da questão: o uso da situação por parte dos Estados Unidos para uma intervenção armada no continente sulamericano, aonde a maioria dos países vem trilhando caminhos políticos distantes dos interesses de Washington, que tem a Colômbia como aliada. E o invólucro dessa intervenção começa pelo efeito papagaio disseminado na mídia corporativa nativa da América do Sul, que constrói cenários favoráveis à Casa Branca.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A balcanização da Bolívia está em curso

O presidente da Bolívia, Evo Morales, avisa: "Quero que o mundo inteiro saiba é que há uma conspiração contra minha pessoa encabeçada pelo embaixador dos Estados Unidos, Philip Goldberg"

A estratégia do golpe separatista está em marcha na Bolívia. Depois de atuar em Kosovo, o embaixador norte-americano Philip Goldberg, que agora serve em La Paz – não à toa, claro – conspira contra o governo de Evo Morales dando “consultoria” aos governadores da Media Luna, região oriental e mais rica do país que congrega os departamentos (estados) de Tarija, Chuquisaca, Santa Cruz, Beni e Pando. Segundo o professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UNB), “no curso do mês de agosto do ano passado, com o término dos trabalhos da Constituinte, a crise tem se tornado crônica na Bolívia e pode se agravar e evoluir para um confronto armado, dado que há virtualmente uma dualidade de poderes, com a formação da Junta Autonômica Democrática da Bolívia pelos dirigentes daquelas cinco Províncias”. Bandeira acrescenta também que um dos principais artífices do golpe separatista no país é o banqueiro Branko Marinkovic Jovicevic, de origem croata e ligado a capitalistas chilenos. Branko Marinkovic foi eleito presidente da Federação de Empresários Privados de Santa Cruz (Fepsc) e está à frente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, braço político do movimento Nação Camba, sustentado por poderosas organizações, como Câmara Agropecuária do Oriente (CAO), Câmara de Indústria, Comércio, Serviços e Turismo de Santa Cruz (Cainco), a Federação de Empresários e a Federação de Pecuaristas de Santa Cruz (Fegasacruz). Em entrevista concedida ao jornalista Pablo Stefanoni, em La Paz, o presidente boliviano declarou: “Quero que o mundo inteiro saiba é que há uma conspiração contra minha pessoa encabeçada pelo embaixador dos Estados Unidos, Philip Goldberg”. Morales assegurou que o golpe em curso pretende “dividir a Bolívia com grupos oligárquicos e mafiosos”. Washington designou Goldberg pela sua experiência internacional em situações semelhantes. O diplomata tem experiência em conflitos étnicos e tendências separatistas, que irromperam no Leste europeu após a desintegração da Iugoslávia. Ele trabalhou na questão da Bósnia, no Departamento de Estado, de 1994 a 1996; foi assistente especial do embaixador Richard Holbrooke, o artífice da desintegração da Iugoslávia; e serviu como chefe da Missão dos EUA em Prístina, Kosovo (2004-06), onde orientou a separação dos Estados da Sérvia e Montenegro, após haver sido ministro conselheiro na Embaixada dos Estados Unidos em Santiago do Chile (2001-04).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Cuba além de Fidel

A imagem mostra a última manifestação em Havana, capital de Cuba, contra os Estados Unidos, um país onde a imprensa corporativa insiste em dizer que não existe participação popular na política

A renúncia oficial do comandante-em-chefe do governo cubano, Fidel Castro Ruiz, um dos líderes da revolução de 1959, provocou o previsível alarido na mídia corporativa do país. A maior parte dos discursos proferidos na Rede Globo e demais grandes meios, em seus diversos suportes - televisivos, radiofônicos, impressos e web - se deu como réplica das posições políticas estadunidenses: Cuba é uma ditadura e Fidel o déspota tirano que controlava com mão de ferro a ilha. Na emissora dos Marinhos, o jornalista William Waack, apresentador do telejornal da noite, fez o seguinte comentário na edição da terça-feira, 19/02: “O ditador cubano Fidel Castro, já velho e combalido, assim como as suas idéias, renunciou ao cargo de mandatário da ilha”. O editorial de Waack foi coberto, em parte, com imagens de Fidel andando com dificuldade e vestido com o uniforme da delegação olímpica cubana. Outros comentaristas e jornalistas seguiram, com poucas variações, o mesmo ponto de vista. Quanto às “análises” sobre os desmembramentos políticos em Cuba veiculadas país afora por “especialistas”, estas se resumem em um discurso único ancorado na possibilidade da ilha vir a ser engolfada pela “modernização” neoliberal, que se esconde sobre o manto do “retorno à democracia”. As fontes então são os exilados de Miami, dissidentes políticos do regime, políticos norte-americanos e o próprio George Bush, o paladino do “mundo livre”. Aliás, Bush Jr. e sua porta voz, a Fox News, jamais se mostrariam dispostos a tecer algum comentário sobre as liberdades políticas na Arábia Saudita, uma monarquia autocrata, aliada do seu império, que oprime mulheres e não conta com qualquer espécie de representação popular. Ou mesmo o exemplar regime “democrático” do Paquistão, também seu aliado. O fato é que para a grande mídia o conceito de democracia é assimilado a partir dos próprios valores políticos encarnados pelos donos dos meios e os interesses por eles representados. Quase nenhuma reportagem adentrou, de fato, ao quadro econômico-político cubano. Apenas limitou-se à periferia da questão. Um dia após a renuncia de Fidel, estive na casa de uma senhora - a quem muito estimo e amo - e ela, revoltada, fez o seguinte comentário: “Cuba tem muita miséria! Uma ditadura de um homem que estava há 49 anos no poder”. Indaguei-lhe então a partir de quais informações ela construíra tal ponto de vista. Ela disse: “Passou uma reportagem aí na televisão mostrando tudo”. A angústia daquela senhora, na verdade, reflete o imaginário formado sobre o tema pela grande mídia. No entanto, ela não sabe acerca das diversas formas de representação popular que existem na República Socialista de Cuba. Claro, isso não é pauta. Existe quase um consenso, inclusive para intelectuais cubanos e aqueles que analisam seriamente a situação da ilha, que o processo político que se desenrola no país desde 1959 tem sofrido contradições que muitas vezes são antagônicas às diretrizes propostas pela revolução. E uma delas é a própria personificação desse processo na figura de Fidel Castro. Antes da renúncia de Fidel, o jornal Juventude Rebelde, de Havana, publicou matéria a qual noticiava que setores universitários interpelaram autoridades do Estado acerca de diversos temas. E assim também ocorreu na última grande Feira do Livro de Havana, onde os debates sobre os destinos políticos da ilha ganharam a agenda, conforme informou o jornal porta-voz do Partido Comunista Cubano, o Gramna. Em entrevista ao jornal Brasil de Fato, o historiador cubano Ariel Dacal, morador de Havana, afirma: “É certo que o sistema cubano se personalizou muito em sua figura (na de Fidel), mas isso, desde um ponto de vista histórico, está muito distante da noção de ditadura, não só do povo cubano, mas também dos povos da América”. A perspectiva do pequeno país se desvencilhar de um bloqueio econômico que já dura mais de quarenta anos é uma situação que arrebata a maior parte da sua população e seus dirigentes, assim como diversas lideranças internacionais. Há que existir algum tipo de transição, claro, mas esta necessariamente não deverá seguir o receituário neoliberal proposto pelos Estados Unidos, que exportam valores “democráticos” para diversas partes do mundo à custa de infindáveis derramamentos de sangue. No Leste Europeu, após a queda do muro de Berlim, processos fórceps de transição de economias planificadas para as de mercado geraram privatizações selvagens e muita corrupção. Na América Latina, as reformas liberalizantes foram frustrantes do ponto de vista dos investimentos e crescimento. Cuba poderá surpreender favoravelmente no primeiro quartel do século 21, pois conta com um patrimônio social invejável. O índice de desenvolvimento humano (IDH) de Cuba é 0,871, nível considerado de país desenvolvido (superior a 0,8). Os indicadores de saúde seguem a mesma trilha. A taxa de mortalidade infantil é de seis mortes por 1.000 nascidos vivos, pouco acima da média dos países mais ricos da OCDE (cinco mortes por 1.000 nascidos vivos). A expectativa de vida é de 77,2 anos, sete anos a mais que no Brasil. Segundo as Nações Unidas, Cuba é o país que mais investe em educação no mundo: 18,7% do PIB. A taxa de alfabetização adulta é de 96,9%. São avanços galgados pela Revolução, pena que a grande mídia não dê conta dessa pauta, pois seus bloqueios ideológicos não permitem. Lembrado daquela senhora citada acima e que acredita piamente na informação da sua TV, sua casa fica a cinco minutos de diversos conglomerados humanos que contrastam com o bairro onde mora. Neles, os esgotos correm a céu aberto e as crianças vagam pelas ruas sem a mínima perspectiva de futuro. E bairros como estes são maioria na cidade que esta senhora reside, ainda que o jornalista que a informe toda noite insista em dizer que a miséria existe é em Cuba.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Liberdade na internet!


O encontro de duas geracões de libertários da net: o hacker Georgy Berolyshev e o papa do software livre, John Maddog Hall (de barba)
Foto: Fernando Cavalcanti

Software livre! É a mais nova palavra de ordem das lutas populares. Enquanto a grande mídia dava destaque apenas aos games e a novidades na edição brasileira do Campus Party, que reuniu 3.300 pessoas, os chamados “campuseros”, militantes pela livre circulação do conhecimento tecnológico disparavam seus gritos de guerra contra o controle das megacorporações. O Campus Party é o maior evento de entretenimento eletrônico em rede do mundo, um encontro anual realizado desde 1997 e que esse ano ocorreu no Brasil, em São Paulo, de 11 a 17 de fevereiro, nas instalações do pavilhão Cecilio Matarazzo, na Bienal do Parque Ibirapuera. O evento foi encerrado com uma passeata que contou com a participação de 300 pessoas, uma flash mob liderada por um robô. Na manifestação, nerds, geeks, hackers, cientistas, gamers perfilaram-se junto ao robô e gritaram palavras de ordem pela liberdade na Internet e contra o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). A flash mob teve a participação de personalidades presentes ao protesto, como o sociólogo Sérgio Amadeu, Mário Teza e Jon “Maddog” Hall, o arquinimigo da Microsoft, entre outros ícones do movimento pelo livre conhecimento no Brasil e no mundo. Segundo Amadeu, “quando a circulação de conhecimento é livre a criatividade prolifera”. O sociólogo acrescenta também que os maiores inventos da sociedade da informação não foram feitos dentro de ambientes fechados, sob o controle dos gerentes de patentes das megacorporações. “Obviamente, as inovações incrementais têm milhões de dólares nelas aplicadas, mas a genialidade brota de ambientes em que a liberdade e o compartilhamento do conhecimento imperam”, afirma Amadeu em seu blog. O alerta de Amadeu fundamenta-se em um dado concreto: em pouco tempo a maior parte da produção simbólica da humanidade passará pela rede mundial e o seu controle pelo grande capital significará o controle-pedágio ao seu acesso. O problema recai na democratização da mídia e na luta pela inclusão digital, o que vai de encontro ao que propõe o projeto de lei de Azeredo, que pretende estabelecer uma regulamentação criminal para controlar a Internet no Brasil. Na verdade, o senador tucano atua como porta-voz dos interesses das megacorporações que não admitem o uso democrático das novas tecnologias. Assim se procede com a internet e seus desmembramentos atuais, como a TV e o rádio digitais, cujos padrões tecnológicos adotados (modelo japonês) pelo Governo federal beneficiaram as grandes e poderosas redes de televisão do país, consorciadas com as megacorporações internacionais, hoje em torno de cinco grupos que garroteiam quase que 100% da produção e distribuição dos bens audiovisuais no mundo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O cerco vai apertar

O Ministério Público do Trabalho na Bahia (MTB-BA) vai investigar a avalanche de demissões ocorridas no ano passado no setor privado de ensino superior no estado, algo em torno de 450. Segundo o procurador Manoel Jorge Silva e Neto, o histórico das demissões apontará se existiu algum tipo de discriminação com professores de maior titulação. Sabe-se que o órgão tomará a mesma medida em outros estados da Federação. A Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior – sindicato (Andes) deverá auxiliar o MPT no trabalho de averiguação. Outros fatores também serão considerados, como assédio moral e violência contra a liberdade de expressão, já que muitos docentes foram demitidos por manifestarem posicionamentos, mesmo que de caráter pedagógico, contrários às diretrizes de algumas instituições, que exigem o que chamam de “alinhamento”, uma forma dissimulada de censura prévia. A liberdade de expressão é um direito assegurado pela Constituição do país. Na investigação, serão ouvidos tanto professores demitidos quanto dirigentes e coordenadores de cursos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Da esquerda à ultradireita

E já que estamos falando de discurso político na teledramartugia brasileira, vai aí um pouco da trajetória profissional de um dos maiores reacionários do país, Agnaldo Silva. O escriba que demoniza a esquerda e estereotipa militantes estudantis na novela Duas Caras, um dia já militou na imprensa alternativa. Agnaldo Silva foi jornalista-fundador do jornal Lampião da Esquina -veículo porta-voz do movimento homossexual - assim como atuou também no alternativo Movimento. O dramaturgo já esteve preso durante o regime militar e respondeu a vários processos, inclusive sendo enquadrado na Lei de Imprensa. Pois é, agora está acantonado no front mais conservador e reacionário da direitona nacional. Conheço histórias semelhantes no meio acadêmico....

Ira! - Núcleo Base [Ao Vivo 1987]

Era o ano de 1987. O rock Brasil fervia...Com a redemocratização, uma vontade enorme de dizer o que queria. O Ira fazia um discurso com Núcleo Base contra o serviço militar obrigatório. Foi um show e tanto!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Beleza Pura?

O autor da nova novela das sete, Silvio de Abreu, talvez nem saiba o sentido exato da mensagem da música-tema do novo folhetim. Beleza Pura não é a Zona Sul do Rio de Janeiro com seus personagens previsíveis, mas um momento de afirmação étnica-política de vastas parcelas da população de Salvador


A música-tema da próxima novela do horário das sete da Globo, Beleza Pura, é a composição homônima Beleza Pura, de autoria de Caetano Veloso. É muito estranho que esta canção sirva de trilha para imagens que apresentem cartões postais do Rio de Janeiro entremeadas com rápidas cenas do novo folhetim, nas quais figuram tipos físicos e ambientes sociais bem diversos das imagens retratadas pela música. Segundo o próprio autor, “Beleza Pura é uma saudação ao início da ‘tomada’ da cidade do Salvador pelos pretos nos anos 70”. A argumentação de Caetano pode ser encontrada às páginas 27 e 30 do livro Sobre as Letras (Companhia das Letras). O compositor baiano é taxativo ao afirmar que sua música inspira-se nos “pretos, puxadores de rede, de xaréu, tocadores de candomblé, pescadores, vendedores de acarajé” que “saíram dos seus lugares” para afirmar sua identidade cultural numa cidade majoritariamente afrodescendente e pobre. Caetano afirma que quando compôs a música suas parabólicas estavam voltadas aos movimentos libertários dos negros da África do Sul e dos Estados Unidos (movimento Black Power), que foram assimilados naquele momento histórico pelos negros da Bahia. Dizer beleza pura então era o mesmo que dizer black is beatiful (negro é lindo). Nas cenas de apresentação da novela, é paradoxal ouvir o trecho “quando essa preta começa a tratar do cabelo” tendo como imagem de cobertura atores globais brancos num contexto extremamente díspare com o da letra. Ou qual das duas atrizes, Regiane Alves ou Zezé Polessa, é a tal “preta que trata o cabelo”? Será difícil também na trama global ver algum “negro lindo do Badauê” ou alguém “dentro daquele turbante dos Filhos de Ghandi”? Este não seria o caso de Edson Celulari vestido de mauricinho executivo. Não, a novela não se passa em Salvador dos anos 70 nem 80 com toda sua ebulição cultural, mas num Rio de Janeiro zona sul atual com personagens que representam empresários ricos, dondocas deslumbradas e ambientes sofisticados. É possível que o próprio autor da música nem se importe com tal fato, pois, que se saiba, para Caê tudo é cultura, até mesmo as cretinices folhetinescas da Rede Globo. Mas quanto aos autores do texto, Sílvio de Abreu e Andréa Maltarolli, será que conhecem o sentido da letra da música-tema da novela que estão escrevendo? A diversidade cultural do país novamente se vê anulada pela pretensão da Rede Globo em estabelecer por decreto próprio que o Brasil foi batido num liquidificador e diluído no Rio de Janeiro. A trama nem foi posta no ar, mas já é um estupro cultural. A Rede Globo produz conteúdos comunicacionais como se estivesse lhe dando com um público homogêneo, onde todos são carioquizados de forma fórceps. A desconstrução do discurso de uma canção com profundo valor estético-político numa novela de “babados” e fatos sem importância, é a ponta de um iceberg maior que remete à questão da diversificação dos conteúdos televisivos no Brasil, país onde a produção audiovisual regional fora do eixo Rio-São Paulo tem encontrado pouco ou quase nenhum espaço para escoar seus produtos. O resultado dessa anomalia num país multifacetado culturalmente são aberrações do tipo Beleza Pura (a novela). Não é querendo ser reticente, mas enquanto a emissora do Jardim Botânico se mantiver hegemônica nas telinhas do Brasil, um vasto conjunto de brasileiros continuará a não se enxergar na principal mídia da sociedade, como uma “moça preta do Curuzu” (bairro de Salvador e maior conglomerado humano afrodescendente do mundo) que serve de tema às papagaiadas novelescas da campeã de audiência. Conselho: mudem de canal.

Lupa na formação de jornalistas na Bahia

A comissão pró-Fórum de Observação da Formação de Jornalistas já dispõe para análise grades curriculares de quatro cursos de Jornalismo ministrados na Bahia. A maior parte mantém o número de horas/aulas em torno de 2.800 horas. Mas uma instituição privada e que cobra mensalidades maiores do que as demais, tem a menor carga horária e a grade curricular mais deficitária. Outras, no entanto, se notabilizam pelo excelência da grade curricular e com projetos de extensão arrojados. A expectativa é de que até o meio do ano os resultados sejam divulgados num boletim a ser publicado nos meios acadêmicos e colégios secundários. Aguardem.

A crise dos cartões corporativos ou o desmonte do Estado?



Enquanto o Estado brasileiro focar sua atuação, ainda que com todas as contradições e limitações, em políticas sociais que dependam do fortalecimento das suas estruturas administrativas, a direita tupiniquim não recuará um milímetro do seu objetivo de desestabilizá-lo. Mais uma crise emerge e a bola da vez são os cartões corporativos. No entanto, a atual campanha perpetrada pelo centro oposicionista (PSDB-DEM) em parceria com a grande mídia acerca dos gastos com os cartões já se embaraça nas próprias pernas. Com habilidade, a base aliada do governo se antecipou e pediu a instauração de uma CPI no Senado. A oposição só aceitaria se a comissão fosse mista (integrando parlamentares do Senado e Câmara). A base do governo aceitou condicionando que a investigação remontasse ao ano de 1998, passando a averiguar, portanto, as despesas das contas B do governo de Fernando Henrique Cardoso, que deram origem ao cartão corporativo, implantado em 2001 ainda na sua gestão. A decisão melindrou as hostes oposicionistas, onde expressivos quadros temem sobremaneira uma rígida apuração das contas do ex-presidente. Enquanto isso, os critérios de noticiabilidade com o fato são tratados ao sabor dos meios de comunicação. Como carnavalizar uma situação na qual o tiro pode sair pela culatra, ou pior, atingir o próprio pé? E o primeiro ensaio já ocorreu. A Folha de São Paulo noticiou que os gastos com o cartão corporativo no governo de José Serra (PSDB) atingiram a cifra de R$ 108 milhões, volume maior do que as despesas com os cartões no governo Lula ao longo de mais de cinco anos. Hilário, o jornalista Paulo Henrique Amorim carimbou o fogo amigo da família Frias de “Tapioca do Serra”, numa alusão à compra de tapioca com o cartão por parte do ministro dos Esportes, Orlando Silva, que serviu de gancho para pautas na revistas Veja e Época, e na própria Folha de São Paulo, entre outros órgãos da grande imprensa. Saindo do varejo factóide e adentrando à análise mais crítica da situação midiopolítica do Brasil, tem-se o jogo do poder no mais claro conceito da disputa hegemônica. Retomando a questão do Estado, é óbvio que o alvo é o seu desmonte, e rápido! Mesmo com uma política econômica inofensiva aos interesses dos grandes bancos e corporações, o exemplo é malévolo para as elites nacionais, que não se conformam com as políticas públicas de transferência de renda. A derrota da CPMF é um exemplo. O cenário que a direita constrói sustenta-se em pilares argumentativos sob diversos discursos perpetrados na mídia, seja no texto de Agnaldo Silva, na novela Duas Caras, da Globo, ou na capa da revista Veja. O escriba da classe média, por exemplo, defenestra o movimento estudantil e combate a política de cotas raciais a partir de uma ácida crítica às universidades públicas que adotaram a medida. Na trama, uma universidade privada apresenta-se como solução para os problemas educacionais do país, enquanto o samba-enredo da imaginária Portelinha chama o governo federal de circo. No mesmo front, a Veja abre capa com a foto de um marajá sob um tapete voador, estrela vermelha no turbante, que representa a administração pública. Uma leitura mais apurada aponta, indubitavelmente, à tentativa da retomada rápida da agenda ultraneoliberal. O projeto é o Estado diminuto, enfraquecido, e que apenas sirva de agência de fomento aos interesses privados. No mais, eleições como disputas de marketing para ornar com pinta de “democracia” o intento real: o sucateamento da máquina pública. Petrobrás, Caixa Econômica, Banco do Brasil e outras estatais estarão então sob forte ameaça, assim como de resto todos os programas sociais e a blindagem de segurança social-trabalhista que ainda resta ao povo brasileiro, sempre condenado a ser escravo de uma elite torpe e atrasada.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A deblaquê



O capitalismo americano treme, e o mundo com ele. O governo Bush anunciou um pacote de medidas que prevê isenções fiscais em torno de US$ 145 bi, que corresponde a 1% do PIB do país, para tentar reanimar a economia norte-americana, evitando um processo recessivo que pode levar a uma crise mundial sem precedentes. E as primeiras vítimas são as economias dependentes, o Brasil incluso, ainda que o país tenha reservas abundantes para segurar o baque, de início. A déblaquê já era anunciada. Há, no mínimo, três anos especialistas já apontavam os riscos que a bolha imobiliária norte-americana representava para a economia global. Simples: bancos financiaram à granel aquisições de imóveis nos últimos dez anos e milhares de unidades foram compradas sem que seus proprietários pudessem honrar seus compromissos, os chamados empréstimos subprime (concedidos em larga escala a setores das classes-médias). Mas não só, a crise norte-americana é também estrutural. O desemprego nos Estados Unidos atingiu 5% em dezembro do ano passado, a maior taxa em dois anos, e a alta do petróleo, a inflação e a queda no consumo têm comprometido as margens de lucro das empresas. Nesta semana, instituições financeiras, que outrora se notabilizavam como sólidas no mercado, apresentaram perdas estratosféricas. O banco Merrill Lynch perdeu US$ 9,83 bilhões no quarto trimestre de 2007. O JP Morgan Chase & Co. fechou o quarto trimestre de 2007 com lucro líquido 34% menor, US$ 2,971 bilhões, ante os US$ 4,526 bilhões somados em mesmo período de 2006. O Citigroup, um dos maiores bancos do mundo, anunciou prejuízo de US$ 9,83 bilhões no quarto trimestre e teve que receber injeções de recursos de investidores asiáticos e árabes para não fechar as portas. As crises cíclicas do capital põem em alerta os entusiastas do neoliberalismo. O corte de impostos anunciado por Bush Jr. certamente resultará na redução dos programas sociais nos EUA. Menos investimentos públicos para que famílias possam consumir mais e abasteçam um mercado ávido em lucros incessantes. Porquanto, a economia brasileira mantém-se blindada, já que o país, além de contar com robustas reservas, aumentou consideravelmente sua inserção em outros mercados mundiais. Mas a situação mantém-se em alerta, e máximo. Os Estados Unidos ainda são os primeiros parceiros comerciais do Brasil e um refluxo de investimentos abrupto da parte deles certamente refletirá numa economia ainda dependente, como é o nosso caso. O capitalismo financeiro globalizado já dá sinais de cansaço, já que os bancos são responsáveis pelo garroteamento da maior parte da economia internacional. Não se descarta, portanto, que ondas de desemprego possam figurar num futuro próximo em escala mundial. Não se pretende aqui apocalíptico, mas a diminuição das ilhas de inclusão social ante o aumento considerável da exclusão representará um quadro sombrio para a conjuntura internacional. Isso porque a defesa do capitalismo assenta-se na natureza acumulativa e não distributiva da riqueza produzida que, com o ralo aberto pela economia norte-americana levará os capitais aos inevitáveis “colchões” para assegurar seus lucros. Não é preciso recorrer a manuais de marxismo para explicar a crise americana. O economista John Maynard Keynes já alertava na década de 30 do século passado os resultados deletérios de economias desreguladas. Reproduz-se agora a crise de 1929 com o agravante de que os fluxos de capitais não mais se sustentam em recursos provenientes do trabalho, mas, sobretudo, da especulação financeira. É o mundo onde os poucos que jogam na bolsa lucram milhões, sozinhos, e quando estes perdem, arrastam consigo o infortúnio de milhões, não de dólares, mas de seres humanos.