A notícia não dada ou a "verdade" conforme a Globo

O presidente do Equador, Rafael Correa, é uma voz quase que deletada do noticiário da Globo. Seu país teve o espaço aéreo violado pela Colômbia, fantoche dos Estados Unidos, e mesmo assim é tido como "agressor" pela inteligentsia jornalística da Vênus Platinada

Novamente o logral ensaiado da grande mídia tupiniquim serve como caixa de ressonância dos meios de comunicação estadunidenses. O efeito papagaio ganha novos contornos. A invasão do espaço aéreo equatoriano pelo exército colombiano, ocorrido no sábado passado, 01/03, que resultou no assassinato do número dois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Raúl Reyes, e mais 16 guerrilheiros, provocou uma crise político-militar no continente que é propícia aos interesses de Washington. E os jornalões e as emissoras de rádio e TV fazem a festa com o, até o momento, embaraço diplomático que envolve Colômbia, Equador e Venezuela. As pérolas foram as notícias veiculadas conforme a ótica de Ali Kamel, diretor de Jornalismo da Globo. Com bastante estardalhaço o jornalista Renato Machado anunciou a crise na América da Sul no início da semana no telejornal Bom Dia Brasil, não citando o fato em si, mas focando a informação na iniciativa do presidente venezuelano Hugo Chávez em deslocar 10 batalhões para a fronteira do seu país com a Colômbia. A violação do espaço aéreo equatoriano não mereceu posição de lead na matéria. Posteriormente, veio o comentário do âncora Alexandre Garcia. O mesmo diapasão. Garcia se refutou a comentar o problema de forma didática, e não o fez por pruridos ideológicos. Ficou então o telespectador a boiar, sem saber a respeito do emaranhado político que envolve as organizações de esquerda na Colômbia, como as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN), e a direita e seus grupos paramilitares, que hoje têm como representante máximo o próprio presidente do país, Álvaro Uribe. À semelhança de Machado, Garcia se limitou a atacar Chávez e afirmar a ligação das Farc com o narcotráfico e os governos equatoriano e venezuelano. Mas não informou que o governo de Álvaro Uribe é que está sendo apontado de ter ligações com o narcotráfico, conforme denúncia disparada pelos chefes de Estado do Equador, Venezuela e as próprias Farc. Nem mesmo a decisão do presidente equatoriano, Rafael Correa, em colocar as forças militares do seu país em alerta máximo na fronteira colombiana foi noticiada de imediato. No comentário do âncora, nada também sobre a violação do território do Equador pelas forças colombianas a partir da análise do Direito Internacional. Ou seja, a notícia que presumivelmente poderia informar alguma coisa se torna “refém” dos comentários que a ornam. E assim tem prosseguido o “cast” informativo de boa parte da mídia corporativa país afora acerca da crise em curso. No Jornal Nacional da terça-feira à noite, quatro minutos foram dedicados a apresentar os documentos apreendidos pelos militares colombianos que indicavam a “ligação” do Estado salvadorenho com as Farc. No entanto, nenhuma palavra dita sobre o posicionamento do ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, que lamentou a morte de Raúl Reyes. “Não é uma boa notícia”, disse Kouchner, “que o homem com o qual falávamos e tínhamos contatos tenha sido morto”. O ministro defendeu que os esforços agora devem ser redobrados para a libertação dos reféns da guerrilha, em especial de Ingrid Betancourt, a ministra de nacionalidade franco-colombiana que é refém das Farc há quatro anos. Reyes, autoridades do Equador, Venezuela e o próprio Kouchner negociavam a libertação de Betancourt e mais outros reféns. A declaração foi veiculada pela agência France Press, e o comando de Jornalismo da Globo evidentemente sabia a respeito, mas não deu. Por outro lado, enquanto a maior parte dos órgãos de imprensa brasileiros copia os discursos vindos da imprensa dos estados Unidos, os quais dizem que Chávez quer se aproveitar do clima de tensão para elevar sua popularidade, passam a omitir peremptoriamente a situação interna da Colômbia. Segundo o cientista político Emir Sader, é a linha dura de Uribe, que precisa dos enfrentamentos militares para manter sua popularidade interna e conseguir reformar de novo a Constituição e poder obter um terceiro mandato. Diz Sader: “Ele (Uribe) perdeu as eleições municipais internas nas principais cidades do país, como Bogotá, Medellin, Cali, por isso precisa desviar a atenção dos colombianos para que não avaliem seu governo, mas se mantenham sob a chantagem da guerra, com ele supostamente representando a paz. Quando na realidade Uribe representa e precisa da continuidade da guerra”. Fica então boa parte da população do país refém das notícias-pela-metade. Claro intuito de não tocar no cerne principal da questão: o uso da situação por parte dos Estados Unidos para uma intervenção armada no continente sulamericano, aonde a maioria dos países vem trilhando caminhos políticos distantes dos interesses de Washington, que tem a Colômbia como aliada. E o invólucro dessa intervenção começa pelo efeito papagaio disseminado na mídia corporativa nativa da América do Sul, que constrói cenários favoráveis à Casa Branca.

Comentários

Eduardo Pelosi disse…
Assisti um dos telejornais da Globo, não me lembro qual, onde a manchete do dia dava um show de enquadramento: "Chávez imita o que mais critica nos Estados Unidos e coloca militares na fronteira do seu país".

Chega a ser piada!!
Efraim Neto disse…
Não tem como não começar rindo...kkkkkkk
Não entra na minha cabeça a questão da ética e da verdade na imprensa. Sabemos das babozeiras que são ditas todos os dias. Mas não vi, ouvi, assiti, ou sei lá o quê, nenhum jornal mostrar ou falar do processo de negociação que existia para a libertação de outros reféns.
Uribe sabia, melhor do que todos nós, que as negociações estavam avançadas. Forçar Chavez a agir assim só o torna mais "terrorista", um inimigo do Estado americano. A mídia até noticiou os interesses de Chavez e Sarkozy em negociar com as Farc's. Mas o que falaram realmente. NADA.
Essa provincia anda dependerá por muito tempo dos interesses americanos, e a imprensa mais do que nunca, continuará a distorcer todas essa falácias do governo e da sociedade. Viva a Ditadura Americana. It's my life...
Anônimo disse…
Sei que é difícil. São diversas atividades. Fico na espera da atualizaçaão

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