sexta-feira, 2 de março de 2012

O caro, o barato e o tecnocrata


“O estado de bem-estar social era muito caro”, afirmou um técnico do setor público quando discutíamos a crise da Europa, e em particular a da Grécia. Não me tomei surpreso. Naquele momento imaginei como Margaret Thatcher e a Escola de Chicago conseguiram difundir tão bem seus valores mundo afora entre cabeças de tecnocratas engomadinhos. A sociedade se resume a uma planilha onde cabe apenas o cálculo racionalizado. Mas este não é um pensamento solto ou um discurso deslocado de certo engajamento ideológico. Não, não é. Políticas públicas de educação, saúde, segurança e lazer ganharam ares de heresia nos tempos da euforia neoliberal. Em nome da eficiência, o sacrossanto mercado responderia muito bem às demandas sociais, desafogando impostos dos setores privados, que agora poderiam efetivamente canalizar recursos em maior volume para o setor produtivo, gerar pleno emprego em abundância e prestar serviços públicos com eficiência e competitividade, superando a inércia do Estado. O ciclo do capitalismo estaria perfeito e o pensamento liberal finalmente triunfaria para todo e sempre. Mas, como diria o velho barba no século XIX, a história se repete como farsa e depois como tragédia. Bingo! Capitais de todas as matizes e credos ganharam um fenomenal play groud  para brincar de fazer dinheiro fácil. Tudo virou aposta no que poderia ser. E não foi. A farsa novamente veio à baila. O mesmo Estado, outrora vilão, é chamado a socorrer os cirandeiros que, sem dinheiro, fecharam as torneiras do crédito e levaram milhares de empresas à falência. Saiu “barato” então o Banco Central Europeu ofertar grana dos suados impostos dos cidadãos para 523 bancos do velho continente com juros de 1% ao ano, e com três de prazo para pagamento! Neste mês de fevereiro foram 530 bilhões de euros para que a garotada da ciranda que se estrepou na brincadeira se recuperasse do tombo. Isso depois deles torrarem o dinheiro da previdência de milhões de pessoas e passarem o porrete em outros milhões de correntistas e pequenos investidores. O estado de bem-estar social das elites do planeta é realmente muito caro. Mas esta não é uma conta a ser feita pelo nosso técnico. Agora são milhões a vagar pelas ruas das cidades européias à busca dos empregos e dos sonhos roubados. E a “reorganização” do sistema traz consigo uma saraivada de retóricas amplificadas pelas corporações de mídia para garantir legitimidade “técnica” às medidas fiscais salvacionistas. Estão aí para não me deixar mentir a moçada da CNN, do Financial Times e da Globo, como Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg e cia. Essa turma é boa nesse negócio de enganar trouxa. E no lombo da população européia cairá o chicote do aumento dos impostos, da redução dos salários e do aniquilamento da blindagem social que ainda restava. Adeus escola e saúde públicas. E o Estado passa a ser reduzido a um mero gerente do clube do bolinha da ciranda, que ficará de “castigo” um tempinho pela traquinagem enquanto aguarda que o parque seja rearrumado para a brincadeira prosseguir com mais segurança. Realmente, o estado de bem-estar social do capital é muito caro, não é mesmo meu caro técnico?