quarta-feira, 5 de outubro de 2016

kristallnacht à brasileira?


Não fico triste.
Não fico perplexo.
Sim, confesso que tenho vontade de uma gargalhada recôndita.
Mas o faria se o quadro não fosse por demais preocupante. Sociológica e psicologicamente.
Nos anos 20 do século passado o psicanalista alemão William Reich escreveu "Psicologia de Massas do Fascismo".
Ele buscava entender como a ideologia nazista ganhou boa parte da população da Alemanha, sobretudo os jovens e, sim, o operariado germânico.
Quase 100 anos se passaram desde que a obra foi publicada. E nunca esteve tão atual, no Brasil e no mundo.
Vi algumas postagens de pessoas jovens, que tiveram acesso à educação privada e cursaram mais de uma faculdade.
Elas comemoravam a notícia (de uma fonte que não me é familiar) de que caso Lula venha a ser preso os parlamentares do PT renunciariam em bloco.
Co-me-mo-ra-vam!
Isso mesmo.
Reitero, não me tomo triste nem perplexo. Para mim, casos a serem estudados como fenômeno.
Parto da premissa de que o consórcio golpista jurídico-policial-midiático está atingindo a contento seu plano. A meta é exterminar o PT e, à frente, todos os partidos de esquerda.
Mais: eliminar quaisquer pensamentos de esquerda no Brasil.
O imaginário já está cristalizado: todos os males do país decorrem das ações dos petralhas e aliados.
Cunha, Serra, Aécio, Temer etc estão soltos. Mas isso não convém, não é mesmo?
O importante é se balizar pela manchete escandalosa acerca das não menos escandalosas ações de milícia da PF para teleguiar interesses, como foi o caso da invasão à sede do PT na Bahia. Não havia nenhum motivo para o procedimento a não ser alimentar os abutres da imprensa.
O Brasil, lamentavelmente, está muito próximo a vivenciar sua kristallnacht. Na noite de 09 de novembro de 1938, turbas instigadas pelos nazistas, quando não suas próprias milícias, depredaram lojas e estabelecimentos de judeus e atacaram militantes de esquerda que ainda existiam naquela Alemanha já envolta pelo nazismo. Adolf Hitler já era chanceler, bom lembrar.
E no último domingo, 02/10/16, os partidos conservadores e à direita do espectro político foram amplamente majoritários.
O Brasil já é tomado pelo ódio político irracional numa composição com as correntes religiosas do neopentencostalismo de direita. E marcha célere para a extrema-direita.
E este obsceno constructo tem encantado jovens capazes de rir, de sentir prazer, de pousar em grupos nas redes sociais apoiando o fascista Jair Bolsonaro, e de se regozijar com o extermínio de uma legenda de esquerda.
Conformam uma psicopatia coletiva sem se dar conta do que estão promovendo, embora alguns tenham percepção do nefasto processo que movem.
Reitero: não me causa perplexidade, tristeza e nem desconforto. Talvez um pouco de pena.
É a Idiotia coletiva que sustenta um projeto político que nada tem de idiota. Muito pelo contrário.
Quem sabe à frente, uns 50 anos à frente, esta juventude será estudada à semelhança da juventude nazista, aquela que se engajou no extermínio de mais de 30 milhões de seres humanos?
E que também se doava com a melhor das intenções em nome da pátria?
Se isto ocorrer, as gerações futuras nada terão a agradecer. Elas terão vergonha.