quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A balcanização da Bolívia está em curso

O presidente da Bolívia, Evo Morales, avisa: "Quero que o mundo inteiro saiba é que há uma conspiração contra minha pessoa encabeçada pelo embaixador dos Estados Unidos, Philip Goldberg"

A estratégia do golpe separatista está em marcha na Bolívia. Depois de atuar em Kosovo, o embaixador norte-americano Philip Goldberg, que agora serve em La Paz – não à toa, claro – conspira contra o governo de Evo Morales dando “consultoria” aos governadores da Media Luna, região oriental e mais rica do país que congrega os departamentos (estados) de Tarija, Chuquisaca, Santa Cruz, Beni e Pando. Segundo o professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UNB), “no curso do mês de agosto do ano passado, com o término dos trabalhos da Constituinte, a crise tem se tornado crônica na Bolívia e pode se agravar e evoluir para um confronto armado, dado que há virtualmente uma dualidade de poderes, com a formação da Junta Autonômica Democrática da Bolívia pelos dirigentes daquelas cinco Províncias”. Bandeira acrescenta também que um dos principais artífices do golpe separatista no país é o banqueiro Branko Marinkovic Jovicevic, de origem croata e ligado a capitalistas chilenos. Branko Marinkovic foi eleito presidente da Federação de Empresários Privados de Santa Cruz (Fepsc) e está à frente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, braço político do movimento Nação Camba, sustentado por poderosas organizações, como Câmara Agropecuária do Oriente (CAO), Câmara de Indústria, Comércio, Serviços e Turismo de Santa Cruz (Cainco), a Federação de Empresários e a Federação de Pecuaristas de Santa Cruz (Fegasacruz). Em entrevista concedida ao jornalista Pablo Stefanoni, em La Paz, o presidente boliviano declarou: “Quero que o mundo inteiro saiba é que há uma conspiração contra minha pessoa encabeçada pelo embaixador dos Estados Unidos, Philip Goldberg”. Morales assegurou que o golpe em curso pretende “dividir a Bolívia com grupos oligárquicos e mafiosos”. Washington designou Goldberg pela sua experiência internacional em situações semelhantes. O diplomata tem experiência em conflitos étnicos e tendências separatistas, que irromperam no Leste europeu após a desintegração da Iugoslávia. Ele trabalhou na questão da Bósnia, no Departamento de Estado, de 1994 a 1996; foi assistente especial do embaixador Richard Holbrooke, o artífice da desintegração da Iugoslávia; e serviu como chefe da Missão dos EUA em Prístina, Kosovo (2004-06), onde orientou a separação dos Estados da Sérvia e Montenegro, após haver sido ministro conselheiro na Embaixada dos Estados Unidos em Santiago do Chile (2001-04).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Cuba além de Fidel

A imagem mostra a última manifestação em Havana, capital de Cuba, contra os Estados Unidos, um país onde a imprensa corporativa insiste em dizer que não existe participação popular na política

A renúncia oficial do comandante-em-chefe do governo cubano, Fidel Castro Ruiz, um dos líderes da revolução de 1959, provocou o previsível alarido na mídia corporativa do país. A maior parte dos discursos proferidos na Rede Globo e demais grandes meios, em seus diversos suportes - televisivos, radiofônicos, impressos e web - se deu como réplica das posições políticas estadunidenses: Cuba é uma ditadura e Fidel o déspota tirano que controlava com mão de ferro a ilha. Na emissora dos Marinhos, o jornalista William Waack, apresentador do telejornal da noite, fez o seguinte comentário na edição da terça-feira, 19/02: “O ditador cubano Fidel Castro, já velho e combalido, assim como as suas idéias, renunciou ao cargo de mandatário da ilha”. O editorial de Waack foi coberto, em parte, com imagens de Fidel andando com dificuldade e vestido com o uniforme da delegação olímpica cubana. Outros comentaristas e jornalistas seguiram, com poucas variações, o mesmo ponto de vista. Quanto às “análises” sobre os desmembramentos políticos em Cuba veiculadas país afora por “especialistas”, estas se resumem em um discurso único ancorado na possibilidade da ilha vir a ser engolfada pela “modernização” neoliberal, que se esconde sobre o manto do “retorno à democracia”. As fontes então são os exilados de Miami, dissidentes políticos do regime, políticos norte-americanos e o próprio George Bush, o paladino do “mundo livre”. Aliás, Bush Jr. e sua porta voz, a Fox News, jamais se mostrariam dispostos a tecer algum comentário sobre as liberdades políticas na Arábia Saudita, uma monarquia autocrata, aliada do seu império, que oprime mulheres e não conta com qualquer espécie de representação popular. Ou mesmo o exemplar regime “democrático” do Paquistão, também seu aliado. O fato é que para a grande mídia o conceito de democracia é assimilado a partir dos próprios valores políticos encarnados pelos donos dos meios e os interesses por eles representados. Quase nenhuma reportagem adentrou, de fato, ao quadro econômico-político cubano. Apenas limitou-se à periferia da questão. Um dia após a renuncia de Fidel, estive na casa de uma senhora - a quem muito estimo e amo - e ela, revoltada, fez o seguinte comentário: “Cuba tem muita miséria! Uma ditadura de um homem que estava há 49 anos no poder”. Indaguei-lhe então a partir de quais informações ela construíra tal ponto de vista. Ela disse: “Passou uma reportagem aí na televisão mostrando tudo”. A angústia daquela senhora, na verdade, reflete o imaginário formado sobre o tema pela grande mídia. No entanto, ela não sabe acerca das diversas formas de representação popular que existem na República Socialista de Cuba. Claro, isso não é pauta. Existe quase um consenso, inclusive para intelectuais cubanos e aqueles que analisam seriamente a situação da ilha, que o processo político que se desenrola no país desde 1959 tem sofrido contradições que muitas vezes são antagônicas às diretrizes propostas pela revolução. E uma delas é a própria personificação desse processo na figura de Fidel Castro. Antes da renúncia de Fidel, o jornal Juventude Rebelde, de Havana, publicou matéria a qual noticiava que setores universitários interpelaram autoridades do Estado acerca de diversos temas. E assim também ocorreu na última grande Feira do Livro de Havana, onde os debates sobre os destinos políticos da ilha ganharam a agenda, conforme informou o jornal porta-voz do Partido Comunista Cubano, o Gramna. Em entrevista ao jornal Brasil de Fato, o historiador cubano Ariel Dacal, morador de Havana, afirma: “É certo que o sistema cubano se personalizou muito em sua figura (na de Fidel), mas isso, desde um ponto de vista histórico, está muito distante da noção de ditadura, não só do povo cubano, mas também dos povos da América”. A perspectiva do pequeno país se desvencilhar de um bloqueio econômico que já dura mais de quarenta anos é uma situação que arrebata a maior parte da sua população e seus dirigentes, assim como diversas lideranças internacionais. Há que existir algum tipo de transição, claro, mas esta necessariamente não deverá seguir o receituário neoliberal proposto pelos Estados Unidos, que exportam valores “democráticos” para diversas partes do mundo à custa de infindáveis derramamentos de sangue. No Leste Europeu, após a queda do muro de Berlim, processos fórceps de transição de economias planificadas para as de mercado geraram privatizações selvagens e muita corrupção. Na América Latina, as reformas liberalizantes foram frustrantes do ponto de vista dos investimentos e crescimento. Cuba poderá surpreender favoravelmente no primeiro quartel do século 21, pois conta com um patrimônio social invejável. O índice de desenvolvimento humano (IDH) de Cuba é 0,871, nível considerado de país desenvolvido (superior a 0,8). Os indicadores de saúde seguem a mesma trilha. A taxa de mortalidade infantil é de seis mortes por 1.000 nascidos vivos, pouco acima da média dos países mais ricos da OCDE (cinco mortes por 1.000 nascidos vivos). A expectativa de vida é de 77,2 anos, sete anos a mais que no Brasil. Segundo as Nações Unidas, Cuba é o país que mais investe em educação no mundo: 18,7% do PIB. A taxa de alfabetização adulta é de 96,9%. São avanços galgados pela Revolução, pena que a grande mídia não dê conta dessa pauta, pois seus bloqueios ideológicos não permitem. Lembrado daquela senhora citada acima e que acredita piamente na informação da sua TV, sua casa fica a cinco minutos de diversos conglomerados humanos que contrastam com o bairro onde mora. Neles, os esgotos correm a céu aberto e as crianças vagam pelas ruas sem a mínima perspectiva de futuro. E bairros como estes são maioria na cidade que esta senhora reside, ainda que o jornalista que a informe toda noite insista em dizer que a miséria existe é em Cuba.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Liberdade na internet!


O encontro de duas geracões de libertários da net: o hacker Georgy Berolyshev e o papa do software livre, John Maddog Hall (de barba)
Foto: Fernando Cavalcanti

Software livre! É a mais nova palavra de ordem das lutas populares. Enquanto a grande mídia dava destaque apenas aos games e a novidades na edição brasileira do Campus Party, que reuniu 3.300 pessoas, os chamados “campuseros”, militantes pela livre circulação do conhecimento tecnológico disparavam seus gritos de guerra contra o controle das megacorporações. O Campus Party é o maior evento de entretenimento eletrônico em rede do mundo, um encontro anual realizado desde 1997 e que esse ano ocorreu no Brasil, em São Paulo, de 11 a 17 de fevereiro, nas instalações do pavilhão Cecilio Matarazzo, na Bienal do Parque Ibirapuera. O evento foi encerrado com uma passeata que contou com a participação de 300 pessoas, uma flash mob liderada por um robô. Na manifestação, nerds, geeks, hackers, cientistas, gamers perfilaram-se junto ao robô e gritaram palavras de ordem pela liberdade na Internet e contra o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). A flash mob teve a participação de personalidades presentes ao protesto, como o sociólogo Sérgio Amadeu, Mário Teza e Jon “Maddog” Hall, o arquinimigo da Microsoft, entre outros ícones do movimento pelo livre conhecimento no Brasil e no mundo. Segundo Amadeu, “quando a circulação de conhecimento é livre a criatividade prolifera”. O sociólogo acrescenta também que os maiores inventos da sociedade da informação não foram feitos dentro de ambientes fechados, sob o controle dos gerentes de patentes das megacorporações. “Obviamente, as inovações incrementais têm milhões de dólares nelas aplicadas, mas a genialidade brota de ambientes em que a liberdade e o compartilhamento do conhecimento imperam”, afirma Amadeu em seu blog. O alerta de Amadeu fundamenta-se em um dado concreto: em pouco tempo a maior parte da produção simbólica da humanidade passará pela rede mundial e o seu controle pelo grande capital significará o controle-pedágio ao seu acesso. O problema recai na democratização da mídia e na luta pela inclusão digital, o que vai de encontro ao que propõe o projeto de lei de Azeredo, que pretende estabelecer uma regulamentação criminal para controlar a Internet no Brasil. Na verdade, o senador tucano atua como porta-voz dos interesses das megacorporações que não admitem o uso democrático das novas tecnologias. Assim se procede com a internet e seus desmembramentos atuais, como a TV e o rádio digitais, cujos padrões tecnológicos adotados (modelo japonês) pelo Governo federal beneficiaram as grandes e poderosas redes de televisão do país, consorciadas com as megacorporações internacionais, hoje em torno de cinco grupos que garroteiam quase que 100% da produção e distribuição dos bens audiovisuais no mundo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O cerco vai apertar

O Ministério Público do Trabalho na Bahia (MTB-BA) vai investigar a avalanche de demissões ocorridas no ano passado no setor privado de ensino superior no estado, algo em torno de 450. Segundo o procurador Manoel Jorge Silva e Neto, o histórico das demissões apontará se existiu algum tipo de discriminação com professores de maior titulação. Sabe-se que o órgão tomará a mesma medida em outros estados da Federação. A Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior – sindicato (Andes) deverá auxiliar o MPT no trabalho de averiguação. Outros fatores também serão considerados, como assédio moral e violência contra a liberdade de expressão, já que muitos docentes foram demitidos por manifestarem posicionamentos, mesmo que de caráter pedagógico, contrários às diretrizes de algumas instituições, que exigem o que chamam de “alinhamento”, uma forma dissimulada de censura prévia. A liberdade de expressão é um direito assegurado pela Constituição do país. Na investigação, serão ouvidos tanto professores demitidos quanto dirigentes e coordenadores de cursos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Da esquerda à ultradireita

E já que estamos falando de discurso político na teledramartugia brasileira, vai aí um pouco da trajetória profissional de um dos maiores reacionários do país, Agnaldo Silva. O escriba que demoniza a esquerda e estereotipa militantes estudantis na novela Duas Caras, um dia já militou na imprensa alternativa. Agnaldo Silva foi jornalista-fundador do jornal Lampião da Esquina -veículo porta-voz do movimento homossexual - assim como atuou também no alternativo Movimento. O dramaturgo já esteve preso durante o regime militar e respondeu a vários processos, inclusive sendo enquadrado na Lei de Imprensa. Pois é, agora está acantonado no front mais conservador e reacionário da direitona nacional. Conheço histórias semelhantes no meio acadêmico....

Ira! - Núcleo Base [Ao Vivo 1987]

Era o ano de 1987. O rock Brasil fervia...Com a redemocratização, uma vontade enorme de dizer o que queria. O Ira fazia um discurso com Núcleo Base contra o serviço militar obrigatório. Foi um show e tanto!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Beleza Pura?

O autor da nova novela das sete, Silvio de Abreu, talvez nem saiba o sentido exato da mensagem da música-tema do novo folhetim. Beleza Pura não é a Zona Sul do Rio de Janeiro com seus personagens previsíveis, mas um momento de afirmação étnica-política de vastas parcelas da população de Salvador


A música-tema da próxima novela do horário das sete da Globo, Beleza Pura, é a composição homônima Beleza Pura, de autoria de Caetano Veloso. É muito estranho que esta canção sirva de trilha para imagens que apresentem cartões postais do Rio de Janeiro entremeadas com rápidas cenas do novo folhetim, nas quais figuram tipos físicos e ambientes sociais bem diversos das imagens retratadas pela música. Segundo o próprio autor, “Beleza Pura é uma saudação ao início da ‘tomada’ da cidade do Salvador pelos pretos nos anos 70”. A argumentação de Caetano pode ser encontrada às páginas 27 e 30 do livro Sobre as Letras (Companhia das Letras). O compositor baiano é taxativo ao afirmar que sua música inspira-se nos “pretos, puxadores de rede, de xaréu, tocadores de candomblé, pescadores, vendedores de acarajé” que “saíram dos seus lugares” para afirmar sua identidade cultural numa cidade majoritariamente afrodescendente e pobre. Caetano afirma que quando compôs a música suas parabólicas estavam voltadas aos movimentos libertários dos negros da África do Sul e dos Estados Unidos (movimento Black Power), que foram assimilados naquele momento histórico pelos negros da Bahia. Dizer beleza pura então era o mesmo que dizer black is beatiful (negro é lindo). Nas cenas de apresentação da novela, é paradoxal ouvir o trecho “quando essa preta começa a tratar do cabelo” tendo como imagem de cobertura atores globais brancos num contexto extremamente díspare com o da letra. Ou qual das duas atrizes, Regiane Alves ou Zezé Polessa, é a tal “preta que trata o cabelo”? Será difícil também na trama global ver algum “negro lindo do Badauê” ou alguém “dentro daquele turbante dos Filhos de Ghandi”? Este não seria o caso de Edson Celulari vestido de mauricinho executivo. Não, a novela não se passa em Salvador dos anos 70 nem 80 com toda sua ebulição cultural, mas num Rio de Janeiro zona sul atual com personagens que representam empresários ricos, dondocas deslumbradas e ambientes sofisticados. É possível que o próprio autor da música nem se importe com tal fato, pois, que se saiba, para Caê tudo é cultura, até mesmo as cretinices folhetinescas da Rede Globo. Mas quanto aos autores do texto, Sílvio de Abreu e Andréa Maltarolli, será que conhecem o sentido da letra da música-tema da novela que estão escrevendo? A diversidade cultural do país novamente se vê anulada pela pretensão da Rede Globo em estabelecer por decreto próprio que o Brasil foi batido num liquidificador e diluído no Rio de Janeiro. A trama nem foi posta no ar, mas já é um estupro cultural. A Rede Globo produz conteúdos comunicacionais como se estivesse lhe dando com um público homogêneo, onde todos são carioquizados de forma fórceps. A desconstrução do discurso de uma canção com profundo valor estético-político numa novela de “babados” e fatos sem importância, é a ponta de um iceberg maior que remete à questão da diversificação dos conteúdos televisivos no Brasil, país onde a produção audiovisual regional fora do eixo Rio-São Paulo tem encontrado pouco ou quase nenhum espaço para escoar seus produtos. O resultado dessa anomalia num país multifacetado culturalmente são aberrações do tipo Beleza Pura (a novela). Não é querendo ser reticente, mas enquanto a emissora do Jardim Botânico se mantiver hegemônica nas telinhas do Brasil, um vasto conjunto de brasileiros continuará a não se enxergar na principal mídia da sociedade, como uma “moça preta do Curuzu” (bairro de Salvador e maior conglomerado humano afrodescendente do mundo) que serve de tema às papagaiadas novelescas da campeã de audiência. Conselho: mudem de canal.

Lupa na formação de jornalistas na Bahia

A comissão pró-Fórum de Observação da Formação de Jornalistas já dispõe para análise grades curriculares de quatro cursos de Jornalismo ministrados na Bahia. A maior parte mantém o número de horas/aulas em torno de 2.800 horas. Mas uma instituição privada e que cobra mensalidades maiores do que as demais, tem a menor carga horária e a grade curricular mais deficitária. Outras, no entanto, se notabilizam pelo excelência da grade curricular e com projetos de extensão arrojados. A expectativa é de que até o meio do ano os resultados sejam divulgados num boletim a ser publicado nos meios acadêmicos e colégios secundários. Aguardem.

A crise dos cartões corporativos ou o desmonte do Estado?



Enquanto o Estado brasileiro focar sua atuação, ainda que com todas as contradições e limitações, em políticas sociais que dependam do fortalecimento das suas estruturas administrativas, a direita tupiniquim não recuará um milímetro do seu objetivo de desestabilizá-lo. Mais uma crise emerge e a bola da vez são os cartões corporativos. No entanto, a atual campanha perpetrada pelo centro oposicionista (PSDB-DEM) em parceria com a grande mídia acerca dos gastos com os cartões já se embaraça nas próprias pernas. Com habilidade, a base aliada do governo se antecipou e pediu a instauração de uma CPI no Senado. A oposição só aceitaria se a comissão fosse mista (integrando parlamentares do Senado e Câmara). A base do governo aceitou condicionando que a investigação remontasse ao ano de 1998, passando a averiguar, portanto, as despesas das contas B do governo de Fernando Henrique Cardoso, que deram origem ao cartão corporativo, implantado em 2001 ainda na sua gestão. A decisão melindrou as hostes oposicionistas, onde expressivos quadros temem sobremaneira uma rígida apuração das contas do ex-presidente. Enquanto isso, os critérios de noticiabilidade com o fato são tratados ao sabor dos meios de comunicação. Como carnavalizar uma situação na qual o tiro pode sair pela culatra, ou pior, atingir o próprio pé? E o primeiro ensaio já ocorreu. A Folha de São Paulo noticiou que os gastos com o cartão corporativo no governo de José Serra (PSDB) atingiram a cifra de R$ 108 milhões, volume maior do que as despesas com os cartões no governo Lula ao longo de mais de cinco anos. Hilário, o jornalista Paulo Henrique Amorim carimbou o fogo amigo da família Frias de “Tapioca do Serra”, numa alusão à compra de tapioca com o cartão por parte do ministro dos Esportes, Orlando Silva, que serviu de gancho para pautas na revistas Veja e Época, e na própria Folha de São Paulo, entre outros órgãos da grande imprensa. Saindo do varejo factóide e adentrando à análise mais crítica da situação midiopolítica do Brasil, tem-se o jogo do poder no mais claro conceito da disputa hegemônica. Retomando a questão do Estado, é óbvio que o alvo é o seu desmonte, e rápido! Mesmo com uma política econômica inofensiva aos interesses dos grandes bancos e corporações, o exemplo é malévolo para as elites nacionais, que não se conformam com as políticas públicas de transferência de renda. A derrota da CPMF é um exemplo. O cenário que a direita constrói sustenta-se em pilares argumentativos sob diversos discursos perpetrados na mídia, seja no texto de Agnaldo Silva, na novela Duas Caras, da Globo, ou na capa da revista Veja. O escriba da classe média, por exemplo, defenestra o movimento estudantil e combate a política de cotas raciais a partir de uma ácida crítica às universidades públicas que adotaram a medida. Na trama, uma universidade privada apresenta-se como solução para os problemas educacionais do país, enquanto o samba-enredo da imaginária Portelinha chama o governo federal de circo. No mesmo front, a Veja abre capa com a foto de um marajá sob um tapete voador, estrela vermelha no turbante, que representa a administração pública. Uma leitura mais apurada aponta, indubitavelmente, à tentativa da retomada rápida da agenda ultraneoliberal. O projeto é o Estado diminuto, enfraquecido, e que apenas sirva de agência de fomento aos interesses privados. No mais, eleições como disputas de marketing para ornar com pinta de “democracia” o intento real: o sucateamento da máquina pública. Petrobrás, Caixa Econômica, Banco do Brasil e outras estatais estarão então sob forte ameaça, assim como de resto todos os programas sociais e a blindagem de segurança social-trabalhista que ainda resta ao povo brasileiro, sempre condenado a ser escravo de uma elite torpe e atrasada.