domingo, 25 de março de 2007

Expondo as vísceras da Bahia fascista de ACM


Vendida sempre como a “terra da felicidade”, a Bahia, outrora “propriedade política” de uma única família, tenta se livrar dos fantasmas do passado e se constituir num Estado onde prevaleça o exercício da cidadania. Há cerca de quinze dias os baianos (desavisados) foram surpreendidos com a notícia veiculada no jornal A Tarde que dá conta da existência de uma “sala secreta” na Secretaria de Segurança Pública do Estado. Na sala, amontoam-se mais de 500 processos envolvendo ex-prefeitos, policiais e empresários. Estes estariam sob a proteção do esquema Carlista de poder que durante 16 anos dominou o Estado com mão de ferro.
Segundo informou o atual secretário de Segurança Pública, Paulo Bezerra, esses processos começaram a ser “guardados” na referida sala a partir do governo do atual senador Antônio Carlos Magalhães, em 1991. De lá para cá, foram partícipes do esquema os ex-governadores César Borges e Paulo Souto. Durante suas gestões estiveram à frente da Segurança Pública os secretários Francisco Neto, Kátia Alves e Edson Sá Rocha. Vale registrar que Kátia Alves foi denunciada como executora do esquema criminoso dos grampos telefônicos em 2003. Esquema sujo e criminoso que permitia aos assessores de ACM escutar conversas telefônicas dos desafetos políticos.
Era a Bahia carlista. Do servilismo, do compadrio, da violência política, da acumulação desenfreada de riquezas nas mãos de uma meia dúzia. A terra do “tudo pode”, desde que sob os auspícios do grupo político dominado por Antônio Carlos Magalhães, acantonados no PFL e outras legendas de aluguel. O fascismo destilado em sua forma mais sofisticada. Fascismo à tupiniquim, o qual garantia a manutenção do poder político no Estado e sustentava a execução de uma das políticas neoliberais mais radicais do país, onde o corte dos investimentos públicos em educação e saúde foi responsável pela situação de extrema pobreza e abandono que se encontra a maior parte da população. A Bahia é recordista nacional em analfabetismo e ainda convive com doenças erradicadas no restante do país há décadas. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado, aferido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), registra que 12 municípios baianos têm o menor IDH do país.
Era a Bahia carlista, terra na qual a propaganda política oficial se estendia também para o extra-oficial mediante a atuação de estrondosos esquemas de mídia que, tomando emprestada a categoria de análise gramsciana, se encarregavam de ampliar e cristalizar o domínio absoluto do grupo à época hegemônico. Domínio que chegou a abranger totalmente os poderes Judiciário e Legislativo. Um esquema de controle regional talvez sem paralelo no país.
É por isso que sustentamos a tese da universalidade do fascismo. A Bahia é um dos exemplos. Com diferentes formatações, essa ideologia, na verdade um dos biombos de sustentação do capital em momentos de crise, se mostrou tão evidente na Bahia Carlista que foi capaz de construir imaginários que forjaram um “estado de felicidade compulsória”, introjetando em muitos a idéia de que a Bahia se constituía realmente num “eldorado”.
Por outro lado, a violência político-policial alastrava-se. Um Estado absoluto que blindava o privilégio de poucos reprimindo estudantes, movimentos sociais e qualquer forma de contestatação que se postasse à frente do poder. Ainda é de viva lembrança a invasão da Faculdade de Direito da UFBA por parte da PM, em maio de 2001, quando os estudantes foram violentamente reprimidos com autorização do governador César Borges a mando do senador ACM. Eles exigiam a renúncia de ACM pelo fato do senador ter fraudado o painel eletrônico do Senado. Veja aqui trechos desse momento.
Todavia, um “eldorado” permitido a um pequeno grupo de empresários e investidores que circundavam em torno da corte Carlista. Ou melhor, que transitavam em matreiros esquemas empresariais que favoreciam, em primeiríssimo lugar, as empresas do chefe e dos agregados. Depois, as pequenas remulas acompanhantes poderiam se sorver das sobras.
Um estratagema de dominação muito bem calculado. A chancela para isso era a tutela dos grotões eleitorais que garantiam folgadas eleições dos representantes do esquema, a exemplo dos títeres Paulo Souto e César Borges. A propósito, foi da boca de ACM que saiu a célebre frase: “Se quiser, faço até um cachorro governador da Bahia”. Sentia-se senhor de tudo e de todos. E é exatamente por conta dessa situação que a certeza da impunidade prevalecia. Por que então não esconder processos envolvendo comparsas e apadrinhados políticos? Seja um crime contra o erário ou de qualquer outra natureza, nada importava. Estando sob o beneplácito do guarda-chuva carlista tudo podia e valia. Moeda de troca necessária para auferir dividendos políticos a médio e longo prazo, garantia a impunidade de muitos e, via de conseqüência, recebia milhares de votos necessários à manutenção do esquema. Fascismo sofisticado, como já dito.
Com o estancamento desse sistema, leia-se o declínio do Carlismo, o organismo do Estado baiano começa a supurar o mal expondo as vísceras de um nefasto período. E pelo visto, as secreções ainda hão de jorrar muito.

sábado, 17 de março de 2007

Lobo em pele de cordeiro


Não estou me importando com a visita de Joseph Alois Ratzinger, o Papa Bento XVI, que estará no Brasil entre 9 e 14 do mês de maio próximo. Na verdade, até repudio e exponho aqui minhas razões. Sei que a mídia espetacularizará de tal monta sua estada no país que não lhe faltarão inúmeros panegíricos. Já imagino Pedro Bial declamando poesias para o Papa, que acariciará criancinhas, doentes e velhos e fará discursos entusiasmados contra as “imoralidades” do mundo moderno. Recomendará aos católicos que não usem camisinha e reforçará sua cruzada contra os casais que se encontram em segundas núpcias (os quais recentemente classificou como “pragas”), além de destilar seu ódio contra os gays.
E quem é esse tal de Ratzinger, o homem que usa óculos Louis Viton e sapatos Prada? Extremamente conservador, Bento XVI, antes de assumir o Papado, esteve 24 anos à frente da Congregação Para a Doutrina da Fé, órgão ligado ao Vaticano que se apresenta como uma nova versão do outrora temido Tribunal da Santa Inquisição. Na sua sanha conservadora, foi o responsável pelo “silêncio obsequioso” (uma espécie de cale-se!) imposto, em 1985, ao frade franciscano Leonardo Boff. O frade era um dos ideólogos no Brasil da Teologia da Libertação, movimento de esquerda que emergiu nas comunidades de base da Igreja Católica em diversos países da América Latina nos anos 70 e 80.
Sua posição reacionária já se fazia notar ainda na adolescência, quando fez parte da Juventude Hitlerista. No decorrer da Segunda Guerra Mundial, Ratzinger deixou o seminário que freqüentava desde os 16 anos para se alistar no exército alemão. Em 1944 ele abandonou a tropa, talvez antevendo que o Terceiro Reich estivesse com os dias contados.
Em 1968, já teólogo renomado e professor universitário, Ratzinger lançou sua ira contra os levantes estudantis que marcaram esse ano. Opôs-se radicalmente à rebelião da juventude da época e começou a pregar aberta e ferozmente contra o socialismo, chamado por ele de “a vergonha de nosso tempo”. Em 1977 tornou-se bispo de Munique e, logo depois, cardeal.
Sua cruzada moralista e conservadora não parou por aí. Atacava constantemente os movimentos feministas e as mulheres, às quais ele afirmava não terem nem o direito de participar de corais nas igrejas. Quanto aos homossexuais, julgava que estes possuíam uma “maldade moral intrínseca”. Seus ataques se dirigiam também à música rock, ao aborto e ao uso da camisinha. Para ele, a única forma de combater a Aids era por intermédio da abstinência sexual.
Todavia, quando se discutia o crescente número de sacerdotes católicos da Igreja envolvidos com pedofilia, Ratzinger preferia exercer sua hipocrisia: “Estou convencido que as notícias freqüentes sobre padres católicos pecadores [pedófilos] fazem parte de uma campanha planejada para prejudicar a Igreja Católica”.
Na diplomacia internacional, esteve envolvido em querelas teológicas com os mulçumanos. Atacou-os e também foi atacado. Os fundamentalistas, de um lado e outro, no fundo devem se entender.
Logo após assumir o Papado, Bento XVI foi alvo de entusiásticos elogios da direita internacional. De George W. Bush, passando por Berlusconi e desembocando no patético Severino Cavalcanti no Brasil, o novo Papa provocou a euforia do conservadorismo mundial. Mas quem mais se mostrou feliz com a assunção de Ratzinger foi a Opus Dei, a demiurga da direita católica. Ratzinger é uma ameaça à liberdade e não arrefecerá sua fúria. Bento XVI representa o projeto de uma neo contra-reforma da Igreja num mundo cada vez mais convulsionado.

Um recado de Renato Russo de 1986, mas muito atual


FáBrica

Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez
Não é pedir demais:
Quero justiça

Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço
Eu quero um trabalho honesto
Em vez de escravidão

Deve haver algum lugar
Onde o mais forte não
Consegue escravizar
Que não tem chance

De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fabrica?

O céu já foi azul, mas agora é cinza
O que era verde aqui já não existe mais

Quem me dera acreditar
Que não acontece nada
De tanto brincar com fogo
Que venha o fogo então

Esse ar deixou minha vista cansada
Nada demais

Herança maldita

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) revela que a Bahia apresenta o maior índice de analfabetos do País. Apesar das 536 mil vagas disponíveis na rede pública estadual de ensino, cerca de 2,7 milhões de pessoas acima de 10 anos de idade não têm acesso à educação. Um legado dos 16 anos de poder do grupo carlista à frente do Estado. Agora a poeira da corrupção, do autoritarismo e da incompetência começa a ser retirada debaixo do tapete.

domingo, 11 de março de 2007

Semana de luta na América do Sul


A imagem diz tudo. Manifestantes enfrentam policiais em Bogotá, Colômbia, em protesto contra a visita do presidente norte-americano George W. Bush. Derrotado nas últimas eleições nos EUA, onde o Partido Democrata fez maioria no Congresso, Bush Jr. vê-se agora envolto na tentativa de conter o crescimento da esquerda na América do Sul buscando isolar o presidente da Venezuela Hugo Chavez. O Senhor da Guerra afina as garras da águia para retomar a hegemonia no continente.

Um recado de Chico Buarque em 1979, mas muito atual

Hino de Duran

Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas sussurros ardís
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar

Se trazes no bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X

Se vives nas sobras freqüentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam

E se definitivamente a sociedade só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,és um estorvo, és um tumor
A lei fecha o livro, te pregam na cruz, depois chamam os urubus

Se pensas que burlas as normas penais
Insuflas agitas e gritas demais
A lei logo vai te abraçar infrator com seus braços de estivador
Se pensas que pensas estás redondamente enganado

E como já disse o Dr Eiras,vem chegando aí, junto com o delegado pra te levar...

sábado, 10 de março de 2007

Radiojornalismo de prima



Mais acréscimo de vida inteligente na rádio soteropolitana. O programa Estação Caribe, comandado pelo jornalista Pedro Caldeira, é uma excelente oportunidade para o público que admira a música latinoamericana conhecer sua história mediante densa pesquisa. Com seleção impecável, Caldeira brinda o ouvinte com músicas maravilhosas que abarcam diversos ritmos da América Central, Caribe e América do Sul, além de informações precisas e comentários inteligentes. O programa é veiculado sempre aos sábados, às 21h, na Rádio Educadora da Bahia. Vale à pena conferir.

Fábrica de ilusões



O abismo entre a realidade e a “telerealidade” construída pelos mass midia atinge seu ápice discursivo nas telenovelas veiculadas pelas emissoras de TV do país. O último drama das 8h exibido pela Rede Globo, Páginas da Vida, deixa evidente essa leitura, como de resto nos demais dramas que ocuparam o mesmo horário na Vênus Platinada. Contradições e conflitos sociais são sepultados e não figuram nesses enredos. Muito comum que a filha de um magnata se case com o jardineiro da mansão, na qual empregados e patrões convivem em ambiente familiar. A sociedade então é vista atomizada nos personagens, como se cada um deles, antes de representar um tipo social, configuram-se, individualmente, como tipos ideais, tomando emprestada a terminologia weberiana, O bom mocismo e o mal mocismo são rigidamente separados, com direito a eventuais conversões, quando assim o roteiro exige para redimir em cada um dos 63 milhões de telespectadores que o bem sempre triunfa e o mal sempre perde. Em meio a paixões, traições, encontros e desencontros, a “vida” naquelas páginas construídas serve apenas ao propósito da recompensa imediata. Os problemas sociais, por sua vez, são enquadrados como situações genéricas e temporais. Se a violência existe na sociedade, esta surge imanente, do ocaso. Não há contexto, apenas o texto. É a emoção enlatada. Como afirma Theodor Adorno, “(...) O destino trágico transpira no justo castigo (...)”. Cristaliza-se dessa forma o ideário burguês, em cujo cenário de representação construído tudo remete à felicidade como conseqüência de dádiva e/ou merecimento. Ser feliz é conforma-se à realidade. Seja à realidade da personagem Thelminha, interpretada pela atriz debutante Grazielle Massafera, que é recompensada com um casamento milionário. Ou a punição da sua irmã, Sandra, a personagem loura interpretada pela atriz Daniele Winits, cujo inconformismo com a situação de ser filha dos empregados da casa e não dos patrões, leva-a a tomar atitudes de enfrentamento. Atitudes ornadas sob o biombo da paixão que ela nutria pelo filho do casal magnata. A “subversão” de “Sandrinha” não se conecta com o sentimento de libelo de classe dos contraditos da sociedade, mas de inveja que desemboca em atitudes de mera rebeldia juvenil-tardia. Thelminha é a boa menina e Sandrinha é a má menina. E no decorrer de todo o drama, a “realidade” da Globo era recheada nos intervalos com depoimentos da vida real. Fossem mulheres sofredoras na vida e até mesmo aquelas que só atingiram o orgasmo aos 40 anos de idade. Era uma forma de reduzir a realidade à fantasia, como se a segunda suplantasse a primeira. Agora um novo folhetim já brinda os milhões de telespectadores com o “Paraíso Tropical”, que vai configurar o Brasil no calçadão de Copacabana. Haja saco!

segunda-feira, 5 de março de 2007

O Senhor da Guerra está chegando

O Senhor da Guerra chega na próxima quinta-feira com um esquema de segurança envolvendo mais de 300 agentes norte-americanos e policiais militares, civis e federais do Brasil. Bush Jr. vem trazendo até água mineral dos EUA e tudo que ele e sua comitiva consumirão. Na agenda do encontro com o presidente Lula, o manda-chuva do mundo pleiteará a tecnologia do biodiesel mas não aceitará negociar o fim dos subsídios aos produtos norte-americanos assim como a taxação dos produtos brasileiros de exportação. Para ele, o que importa é apenas o “destino manifesto” dos EUA, o qual, pensam os norte-americanos, referenda a hegemonia mundial estadunidense de domínio absoluto. Protestos estão marcados em São Paulo, onde ele desembarca, e Brasília.

sábado, 3 de março de 2007

Chega de sangue e cinismo



O debate acerca de uma séria questão começa a ganhar claridade e racionalidade no país. No decorrer da semana o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), levantou a proposta da descriminalização das drogas como forma de desarticular o narcotráfico. Em diversos países do mundo essa medida já é realidade e aqui no Brasil o problema ainda vive sob o manto da hipocrisia e do falso moralismo. Enquanto isso, a indústria da morte perpetrada pelo crime organizado continua a atuar mutilando vidas e ameaçando milhares de comunidades pobres país afora. É nas favelas e periferias das grandes cidades que o narcotráfico infiltra-se, desenvolve sua indústria, impõe seu poder e organiza seus centros de distribuição para abastecer o consumo das classes médias e altas. É nessas comunidades também que a polícia invade, assassina inocentes e, junto com os bandidos, impõe o medo às populações. Nesse enredo, tudo pode ocorrer. O marginal visto como mocinho pela população e policiais, delegados e juízes, transvestidos de lei, atuando como marginais em consórcio com o crime. A proibição das drogas gera lucros para muitos. É chegado o momento de encarar o problema de frente.
A sugestão de Cabral traduz o que um expressivo contingente de profissionais que debatem a questão há anos vem buscando alertar: a droga ilícita é um problema de ordem psicológica, social e de saúde pública, assim como as drogas lícitas, a exemplo do álcool, açúcar, medicamentos vendidos em farmácia etc. Tais situações não podem ser enquadradas como problema policial. O cretinismo, o cinismo e o preconceito das classes dominantes no Brasil, assim como em outros países, é que levaram a entender o consumo de drogas como delito de lesa-moral. Proibiram-nas e permitiram o surgimento de uma sociedade convulsionada, doente.
Peguemos o exemplo da maconha, cujo nome científico é Canabis Sativa e a substância psicoativa o Tetrahidrocanabinol. Esta tem seus primeiros indícios de uso há mais de cinco mil anos, quando povos como os chineses e persas a utilizavam como incenso em cerimônias religiosas. Era também usada com fins medicinais, o que perdurou até o início do século XX. No Brasil, a droga foi trazida pelos escravos vindos da África que faziam uso em diversos tipos de rituais e, no regime escravocrata, para suportar a opressão do dia-a-dia.
Tanto aqui como em outros locais do mundo ocidental, a exemplo dos Estados Unidos, a proibição legal da utilização da maconha foi definida nos anos 40. No Brasil, assim como nos EUA, potencializou-se o preconceito da origem, a África. Um preconceito cultural e de classe, sim. Se realmente o que fosse justificar a proibição apenas se resumisse aos efeitos sobre os usuários o álcool não seria liberado, pois é sabido que tem conseqüências muito mais devastadoras no organismo do que a maconha.
Nos anos 60 e 70, sob a bandeira dos movimentos libertários, como o Hippie, a utilização da maconha vem novamente à baila. E o preconceito também. A contracultura batia-se no questionamento aos valores da sociedade ocidental. Usuário de maconha passou a ser sinônimo de marginal. Em pleno Regime Militar, esse estigma foi avivado sobremaneira.
A verdade é que o uso de drogas nas comunidades humanas sempre existiu e existirá. Não há como negar tal fato. Cinismo é ver o mundo caminhar para a destruição pelos efeitos do aquecimento global provocado pela sociedade industrial e achar que esse “fim de mundo” seria legalizar drogas.
Tudo bem, o fato de uma substância ser considerada droga admite-se que tal tenha elementos lesivos ao organismo, e, portanto, destrutivos. Não se pode também negar isso. A apologia à alta-destruição não é o que se prega. Pelo contrário. É entender que o usuário, a depender da sua situação, é um caso de tratamento e não de prisão. E o Estado deve saber quantos potenciais doentes existem na sociedade para, aí sim, lançar mão de políticas públicas preventivas que minimizem o problema que, frisando, é de ordem social. É notório o sucesso das campanhas antitabagistas. De vinte anos para cá o número de fumantes foi drasticamente reduzido, e olha que se trata de outra droga infinitamente mais danosa do que a maconha, ainda que lícita.
Mas o problema não se encerra aí. Há aqueles que perguntarão sobre a cocaína, o crack e outras drogas de efeitos também devastadores sobre o organismo. A eliminação do comércio da maconha de forma ilegal abalará sobremaneira as finanças do narcotráfico. A venda da maconha, pelo fato de ser o entorpecente ilícito mais popularizado e também utilizado, é o que move o capital de giro dos narcotraficantes para a comercialização das drogas pesadas. E essa queda de receita é determinante para, inicialmente, pôr o narcotráfico de joelhos.
Choque de interesses
Retomemos a questão ao ponto de partida. Com um bom atraso a classe política brasileira começa a buscar medidas racionalizadas para o combate ao narcotráfico. Com exceção do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) (e outros poucos), que há anos milita pela legalização do uso da maconha, a maioria dos políticos do país ainda prefere acompanhar seus sensos morais conservadores ou mesmo se esquivar do problema para não se expor. Creio que o Congresso ainda resistirá bastante para tomar medidas mais ousadas.
E daí surge outro problema de ordem internacional. Para que o país assuma tal política será preciso enfrentar os interesses dos Estados Unidos. A política norte-americana para o controle do tráfico de drogas na América do Sul, se não tem conseguido reduzir o comércio de entorpecentes, pelo menos conseguiu estabelecer-se como praticamente a única agenda assumida em conjunto pelos países sulamericanos, inclusive o Brasil. E esta agenda beneficia as demandas comerciais, sociais e ideológicas dos Estados Unidos.
A prevalência da agenda dos EUA, ou seja, o combate limitado apenas à repressão militarizada, permite uma eficiente prática de intervencionismo dissimulado e a penetração comercial de empresas norte-americanas, como as que comercializam armamentos, por exemplo. É uma realidade fruto de articulações que os norte-americanos realizam desde o início deste século, com a promoção de encontros e acordos internacionais que vão sendo, um após o outro, assumidos pelos demais países do continente.
Nesse caso, o enfrentamento ao narcotráfico mediante a legalização de drogas mais leves pode acenar como uma política pública muito mais eficiente do que o estilo “xerife” do Tio Sam. E o que é pior, para eles, claro, os EUA perderiam sua hegemonia nessa frente de interesses. Deixar de vender armas e consultorias para as polícias do Brasil e dos demais países do continente pode não ser um bom negócio para Bush Jr.Está lançado o debate. Espera-se que desta vez o bom senso prevaleça, pois nesse momento que escrevo lamentavelmente vidas estão sendo ceifadas pelo país na disputa de pontos de vendas de drogas.

Mais do mesmo

É incrível a capacidade que os escritores de novelas da Globo têm em literalmente redundar sobre o mesmo tema. Mal acaba um melodrama que ambientava a Gávea e o Leblon, Laços de família, para entrar outro ambientado em Copacabana e adjacências, Paraíso tropical. Cansou. O Brasil reduzido ao Rio de Janeiro, ou melhor, à Zona Sul da cidade, é o único cenário que a Vênus Platinada oferece. No mais, mais do mesmo. Fotos aéreas do Cristo Redentor, da Baía de Guanabara e outros cartões postais. É como se um país-continente como o Brasil se limitasse apenas a uma cidade. E, podem esperar, a despeito do novo roteiro vem mais lutas entre o bem e o mal. Mocinhos e bandidos vão se degladiar novamente na telinha para o deleite de milhares de Homer Simpsons que perfazem a audiência das telenovelas no país.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Tem gente que não se emenda

O bate-boca ocorrido anteontem na Comissão de Constituição e Justiça do Senado entre o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL) e um estudante universitário deu o tom da semana no Congresso Nacional. Presidindo os trabalhos naquela comissão para acelerar um pacote de medidas de combate à criminalidade, ACM, muito ao seu estilo, não aceitou a intervenção do estudante quando se debatia a redução da maioridade penal. Chamou-o de palhaço. O jovem retrucou: “fascista!”. Bem aplicado! Aliás, ACM nunca vestiu tão bem uma carapuça que lhe cabe como uma luva, exemplar modelito para o coronel decadente.