Fábrica de ilusões



O abismo entre a realidade e a “telerealidade” construída pelos mass midia atinge seu ápice discursivo nas telenovelas veiculadas pelas emissoras de TV do país. O último drama das 8h exibido pela Rede Globo, Páginas da Vida, deixa evidente essa leitura, como de resto nos demais dramas que ocuparam o mesmo horário na Vênus Platinada. Contradições e conflitos sociais são sepultados e não figuram nesses enredos. Muito comum que a filha de um magnata se case com o jardineiro da mansão, na qual empregados e patrões convivem em ambiente familiar. A sociedade então é vista atomizada nos personagens, como se cada um deles, antes de representar um tipo social, configuram-se, individualmente, como tipos ideais, tomando emprestada a terminologia weberiana, O bom mocismo e o mal mocismo são rigidamente separados, com direito a eventuais conversões, quando assim o roteiro exige para redimir em cada um dos 63 milhões de telespectadores que o bem sempre triunfa e o mal sempre perde. Em meio a paixões, traições, encontros e desencontros, a “vida” naquelas páginas construídas serve apenas ao propósito da recompensa imediata. Os problemas sociais, por sua vez, são enquadrados como situações genéricas e temporais. Se a violência existe na sociedade, esta surge imanente, do ocaso. Não há contexto, apenas o texto. É a emoção enlatada. Como afirma Theodor Adorno, “(...) O destino trágico transpira no justo castigo (...)”. Cristaliza-se dessa forma o ideário burguês, em cujo cenário de representação construído tudo remete à felicidade como conseqüência de dádiva e/ou merecimento. Ser feliz é conforma-se à realidade. Seja à realidade da personagem Thelminha, interpretada pela atriz debutante Grazielle Massafera, que é recompensada com um casamento milionário. Ou a punição da sua irmã, Sandra, a personagem loura interpretada pela atriz Daniele Winits, cujo inconformismo com a situação de ser filha dos empregados da casa e não dos patrões, leva-a a tomar atitudes de enfrentamento. Atitudes ornadas sob o biombo da paixão que ela nutria pelo filho do casal magnata. A “subversão” de “Sandrinha” não se conecta com o sentimento de libelo de classe dos contraditos da sociedade, mas de inveja que desemboca em atitudes de mera rebeldia juvenil-tardia. Thelminha é a boa menina e Sandrinha é a má menina. E no decorrer de todo o drama, a “realidade” da Globo era recheada nos intervalos com depoimentos da vida real. Fossem mulheres sofredoras na vida e até mesmo aquelas que só atingiram o orgasmo aos 40 anos de idade. Era uma forma de reduzir a realidade à fantasia, como se a segunda suplantasse a primeira. Agora um novo folhetim já brinda os milhões de telespectadores com o “Paraíso Tropical”, que vai configurar o Brasil no calçadão de Copacabana. Haja saco!

Comentários

MuriloAlves disse…
Há outro fator que me instiga bastante nas tais "fábricas de ilusões" da teledramaturgia global: vocês já notaram que geralmente as refeicões dos "núcleos" suburbanos (cariocas...) nas novelas são compostas de variedades absurdas de pães, bolos, sucos e toda uma gama de alternativas comumente encontradas, na vida real, nas mesas da classes abastadas do país?
É algo de extraordinário. Favelados dos confins de São Goncalo e Vila Isabel não costumam passar fome... Eles escolhem o que vão comer nos cafés da manhã e
lanches da tarde...
A Glória Perez, então, é um caso de polícia. Os personagens viajam do Rio de Janeiro para o Marrocos em escala maior do que as minhas viagens com o Estacão Mussurunga para a Ribeira. Deve ter lido demais as histórias de Júlio Verne...
A Globo criou o seu próprio Brasil. Um Brasil que desconheco.
Ps: Meu teclado está desconfigurado, o que justifica a falta de cedilhas.
http://ventanias.blog.terra.com.br
jornalismo disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Andreia Santos disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Andreia Santos disse…
È realmente sarcástico, parar na frente da tv e assistir algo hoje em dia. Salvando alguns telejornais que " informam". perdemos o que se chama de "programas televisivos". A tv hoje esta composta de pessimas programações. Ainda achando pouco, quando acaba a novela das oito, que só passa as nove, temos que suportar mais um "big merda brasil"( pois é assim que vejo a sétima ediçao do big brother).Partindo do pressuposto do texto de Zeca peixoto. Acredito que essa mistura de realidade com ficção tornou-se um marco nas novelas de Manoel Carlos, pois é com esse slogam que as novelas dele tem alcançado cada vez mais audiência.A sedução de um publico que chega a ser de 74% dos televisores ligados todos os dias naquele mesmo horario é apenas mais um produto que a rede globo está conseguindo vender,e por sinal muito bem. Pouco importa se o que vai ao o ar é alienação, sedução e mentiras estapafudas que chegam a nos deixar boquiabertos.
As novelas são apenas " ilusões vendidas". Realmente usando de um forte poder de alienação e como o proprio autor diz "Com grande responsabilidade social, eu tenho um papel importante na sociedade"! como pode ser tao ridiculo á acreditar que alienando seres humanos ele vai conseguir alertar alguém para uma verdade que está escondida! Paro e me pergunto - Onde esta a violência que ocorre frequentemente nas praias do Rio de Janeiro? os personagens ficam na praia, onde há arrastões quase todo o tempo, como se tivesse numa ilha deserta!? Onde cabe uma personagem que é psicopata, que vive reclamando que nao tenhe dinheiro, morar na Gavéa, um dos bairros nobres da cidade?!Ainda podendo manter uma filha estudando fora do país? seria impossivel uma pessoa falida, como a propria personagem dizia, conseguir manter a vida de uma jovem estudante em outro país?

As vezes penso quando vai acabar essas "Telenovelasprontes" apenas novelas prontas, com o mesmo perfil! De uma coisa sabemos, todas cada vez mais piores! Ainda irão estar presentes nas emissoras! Afinal é um produto que vende.. não é?!

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