Expondo as vísceras da Bahia fascista de ACM


Vendida sempre como a “terra da felicidade”, a Bahia, outrora “propriedade política” de uma única família, tenta se livrar dos fantasmas do passado e se constituir num Estado onde prevaleça o exercício da cidadania. Há cerca de quinze dias os baianos (desavisados) foram surpreendidos com a notícia veiculada no jornal A Tarde que dá conta da existência de uma “sala secreta” na Secretaria de Segurança Pública do Estado. Na sala, amontoam-se mais de 500 processos envolvendo ex-prefeitos, policiais e empresários. Estes estariam sob a proteção do esquema Carlista de poder que durante 16 anos dominou o Estado com mão de ferro.
Segundo informou o atual secretário de Segurança Pública, Paulo Bezerra, esses processos começaram a ser “guardados” na referida sala a partir do governo do atual senador Antônio Carlos Magalhães, em 1991. De lá para cá, foram partícipes do esquema os ex-governadores César Borges e Paulo Souto. Durante suas gestões estiveram à frente da Segurança Pública os secretários Francisco Neto, Kátia Alves e Edson Sá Rocha. Vale registrar que Kátia Alves foi denunciada como executora do esquema criminoso dos grampos telefônicos em 2003. Esquema sujo e criminoso que permitia aos assessores de ACM escutar conversas telefônicas dos desafetos políticos.
Era a Bahia carlista. Do servilismo, do compadrio, da violência política, da acumulação desenfreada de riquezas nas mãos de uma meia dúzia. A terra do “tudo pode”, desde que sob os auspícios do grupo político dominado por Antônio Carlos Magalhães, acantonados no PFL e outras legendas de aluguel. O fascismo destilado em sua forma mais sofisticada. Fascismo à tupiniquim, o qual garantia a manutenção do poder político no Estado e sustentava a execução de uma das políticas neoliberais mais radicais do país, onde o corte dos investimentos públicos em educação e saúde foi responsável pela situação de extrema pobreza e abandono que se encontra a maior parte da população. A Bahia é recordista nacional em analfabetismo e ainda convive com doenças erradicadas no restante do país há décadas. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado, aferido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), registra que 12 municípios baianos têm o menor IDH do país.
Era a Bahia carlista, terra na qual a propaganda política oficial se estendia também para o extra-oficial mediante a atuação de estrondosos esquemas de mídia que, tomando emprestada a categoria de análise gramsciana, se encarregavam de ampliar e cristalizar o domínio absoluto do grupo à época hegemônico. Domínio que chegou a abranger totalmente os poderes Judiciário e Legislativo. Um esquema de controle regional talvez sem paralelo no país.
É por isso que sustentamos a tese da universalidade do fascismo. A Bahia é um dos exemplos. Com diferentes formatações, essa ideologia, na verdade um dos biombos de sustentação do capital em momentos de crise, se mostrou tão evidente na Bahia Carlista que foi capaz de construir imaginários que forjaram um “estado de felicidade compulsória”, introjetando em muitos a idéia de que a Bahia se constituía realmente num “eldorado”.
Por outro lado, a violência político-policial alastrava-se. Um Estado absoluto que blindava o privilégio de poucos reprimindo estudantes, movimentos sociais e qualquer forma de contestatação que se postasse à frente do poder. Ainda é de viva lembrança a invasão da Faculdade de Direito da UFBA por parte da PM, em maio de 2001, quando os estudantes foram violentamente reprimidos com autorização do governador César Borges a mando do senador ACM. Eles exigiam a renúncia de ACM pelo fato do senador ter fraudado o painel eletrônico do Senado. Veja aqui trechos desse momento.
Todavia, um “eldorado” permitido a um pequeno grupo de empresários e investidores que circundavam em torno da corte Carlista. Ou melhor, que transitavam em matreiros esquemas empresariais que favoreciam, em primeiríssimo lugar, as empresas do chefe e dos agregados. Depois, as pequenas remulas acompanhantes poderiam se sorver das sobras.
Um estratagema de dominação muito bem calculado. A chancela para isso era a tutela dos grotões eleitorais que garantiam folgadas eleições dos representantes do esquema, a exemplo dos títeres Paulo Souto e César Borges. A propósito, foi da boca de ACM que saiu a célebre frase: “Se quiser, faço até um cachorro governador da Bahia”. Sentia-se senhor de tudo e de todos. E é exatamente por conta dessa situação que a certeza da impunidade prevalecia. Por que então não esconder processos envolvendo comparsas e apadrinhados políticos? Seja um crime contra o erário ou de qualquer outra natureza, nada importava. Estando sob o beneplácito do guarda-chuva carlista tudo podia e valia. Moeda de troca necessária para auferir dividendos políticos a médio e longo prazo, garantia a impunidade de muitos e, via de conseqüência, recebia milhares de votos necessários à manutenção do esquema. Fascismo sofisticado, como já dito.
Com o estancamento desse sistema, leia-se o declínio do Carlismo, o organismo do Estado baiano começa a supurar o mal expondo as vísceras de um nefasto período. E pelo visto, as secreções ainda hão de jorrar muito.

Comentários

Hailton Andrade disse…
Fiquei muito feliz quando presenciei o ínicio da derrota do "carlismo" na Bahia. É muito bom desmascarar tudo o que acontecia nos bastidores do Estado "carlista". Infelizmente, será difícil punir esses indivíduos por tudo que fizeram de irregular quando estavam no poder. Restará apenas a raiva. Agora é torcer para que entremos numa era de crescimento coletivo!
Vinícius Silva disse…
Não vou me ater muito ao texto e sim ao vídeo colocado por você Zeca. Talvez para aqueles que ainda tenham dúvida em relaçao ao que está escrito, que abre o video no youtube. São apenas 4min. Cenas que chocam mas que mostram a realidade de um Estado onde as leis, ha!, elas praticamente não existiam. As leis eram mudadas e/ou forjadas a todo instante, sem o conhecimento da população. Invadir uma área Federal é proibido, mas você acha que eles estavam preocupados com isso?

Queria chamar atenção também para a trilha sonora do vídeo, que é também trilha do filme Requiem para um Sonho com Jared Leto e Jennifer Connolly. Grande filme que também mostra cenas chocantes mas que representam a realidade, assim como este video baseado no documentário "Choque". O próprio titulo já diz tudo. Abraço Zeca.
Diego Salviano disse…
Olá Zeca,
quero registrar desde já meu apreço por seus textos, ainda que discordo, em parte, de algumas coisas, o que acredito ser permitido e natural. Com relação à exposição desse ato irresponsável datado da adiministração de ACM e postergado por seus sucessores, tem-se mesmo que mostrar para a população o que acontece por tras das cochias desses enorme palco que é a política, acredito ser assaz válido o trabalho realizado por quem tornou público esse episódio, mantido obscuro por tanto tempo!
Ficaria bastante feliz se um trabalho de tal expressividade, como esse, fosse posto em prática para descobrir o que acontece nos tantos outros estados e principalmente no governo federal. Um mandato é tempo suficiente para me fazer crer que coisas do tipo que ocorreu em nosso estado, tivera acontecido, e por que não dizer, acontece, nos governos atuais.
na verdade é de extrema importância que tenhamos acesso a essas podridões entranhadas nos anais politicos da Bahia e do Brasil. Diante do seu texto e sua pessoa, prefiro dizer que isso é possível em administrações pefelistas, pemedebistas, pesedebistas, petistas dentre outros. Corroboro sempre: o que se ponhe em prática, e não é de hj, e para tanto me atenho ao Brasil, é POLITICÁGEM!
Quero deixar bem claro:
Não sou "carlista", apenas, como existem os que abominam o "carlismo" eu abomino o "lulismo"

NÃO PODERIA DEIXAR DE CONSIDERAR TAMBÉM SOBRE A TEMÁTICA DO CONFLITO ENTRE A PM E OS ESTUDANTES EM 2001, REPUGNÂNCIA, PRA ESSA PALAVRA CLASSIFIQUE O MEU SENTIMENTO PELO EPISÓDIO!


Abraço jovem!
Zeca disse…
Uma réplica para Diego:

Adoro polêmicas, como as amo! Em primeiro lugar fico agradecido pela sua valiosa contribuição a esse blog, mas permita-me algumas considerações. Creio caro Diego que você está inserido num mar de limitações de análises sobre certas questões de ordem política. Em primeiríssimo lugar, fico aqui a comentar com meus simplórios botões, o que seria o Lulismo? Persigo a resposta. Não gosto muito de reduzir a história a trajetórias individuais, mas se formos realmente analisar por essa via, vejamos então: Lula, junto a outros companheiros, foi o operário que organizou as primeiras grandes manifestações de massa contra o regime militar. Acelerou, e como, o seu apodrecimento. Noves fora a esteria da grande mídia no decorrer dos últimos três anos (basta avaliar os estudos de mídia dos principais centros de pesquisa em jornalismo do país), trata-se de um governo que o mínimo que fez foi superior aos oito anos do governo vendilhão de FHC. E olha que esse que aqui escreve é um ferrenho opositor da atual política econômica. Entendo o governo não como um monolito de interesses, mas sim como um campo de disputas de hegemonias, ou seja, nele estão acontonados diversos interesses, desde os dos banqueiros aos dos trabalhadores. Só quem sabe e não soube pela Globo ou pela Veja conhece a fundo o que foi o dito mensalão, que começou mesmo na era FHC com Eduardo Azeredo. Mas tratou-se de um estratagema bem montado para desarticular um governo que não criminaliza movimentos sociais e entende a disputa democrática como normal. E aí? Me traga mais substancias sobre o que seria o "Lulismo". Apenas um neologismo advindo das páginas da Veja? Sei que existem e não são poucos problemas com atual governo. Mas gostaria aqui de saber: quando Lula mandou reprimir manifestações sociais? Nesse aspecto, compará-lo em termos de postura à nefasta e fascista era de ACM no comando do Estado é, no mínimo, reducionismo barato. Sei não Diego, me parece que você alimenta um bloqueio psicológico profundo com teses de esquerda, à medida que entende a política apenas no varejo ("culpa da politicagem! etc..."). Seria mais interessante se sua lupa ampliasse o raio do momento para o da história e entendesse as diferenças básicas que norteiam a casa grande e a senzala. Aí poderíamos começar a conversar. Espero então.
André Martins disse…
Massa seu novo blog... Zeca
entrei para esse mundo agora também!

depois passa la no meu e add aqui também, claro que o seu já esta mais que add.

forte abraço do ex-aluno e agora colega de profissão

André Martins
Laís Souza disse…
É desprezível pensar que coisas assim ainda acontecem (refiro-me ao vídeo)...
Welber Vasques disse…
Caramba Zeca ...Eu já era um mero admirador de suas aulas, mas acredite, nunca tinha se quer eu tinha visto um blog, o primeiro te todos logicamente iria ser o seu...concordo quase que totalmente com você em relação ao caso ACM, pra mim ele contribuiu muito para a nossa Bahia, nossa cidade, mas vale frizar também o quanto ele "lucrou" com a forma que ele veio levando o governo, lucrou e nunca deixou de lucrar, e logicamente este lucro impróprio do mesmo é por custa de todos nós(no brusco do sentido). Pois bem gostei muito de ter visitado o seu blog continue sendo polêmico pois para mim é isso que faz com que seus alunos o admirem mais e mais. Foi um Prazer, Welber Vasques estudante de Jornalismo 1º semestre FJA turma A (ou melhor o tocedor rubro-negro chato que você ensina)

Forte abraço.
Guigo F.G. disse…
Fez o que? Coloquemos tudo de bom feito pelo 'Carlismo' em um lado. Agora, do outro, o preço pago por isso. Qual lado penderá a balança? Precisa dizer alguma coisa mais? Welber? Zeca?
Welber Vasques disse…
Anonimato querido "guigo f.g" ?

Deixe me ver o que argumentar sobre tal fato... Será que devemos de verdade colocar numa balança todas as ações do senhor ACM ? ou devemos olhar para ele com um olhar de desprezo ? eis duas questões meu caro, desprezo não porque aqui pra nós, o que ele já fez por essa Bahia não foi pouco, tá tudo bem; mas seria possível e normal tudo mas tudo o que ele fez? fazer com que boa parte da população baiana fique com um pé atrás diante as ações dele? Pois bem,irei entender que talvez até seja neccessário mesmo pôr numa balança, para só daí se concretizar o que e como foi o "carlismo" aqui na Bahia ...

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