domingo, 25 de maio de 2008

O adeus do doce anarquista



Um maravilhoso anarquista. Todas as trincheiras da luta pela liberdade perderam, na última sexta-feira, dia 23, o médico, terapeuta, escritor, dramaturgo e roteirista Roberto Freire. Autor de 25 livros, entre eles Cléo e Daniel, Sem Tesão Não Há Solução, Ame e dê Vexame, Coiote e Eu e um outro, Roberto Freire, o bigode, foi seguramente um dos maiores intelectuais desse país. Para a televisão, escreveu a Grande Família e TV Mulher. Certamente que a repercussão da sua morte não teve o destaque merecido. Freire era uma espécie de bad boy entre os círculos mais letrados do país, à direita e à esquerda. Ainda lembro quando tive o primeiro e único contato com o terapeuta aqui em Salvador. O ano era 1989. Fui convidado a conhecer um bar diferente, o Tesão e Cia, nas imediações da Praia de Jaguaribe. Era, na verdade, uma cooperativa de jovens que nos finais de semana trabalhava com o bar e no restante dos dias oferecia terapias de grupo. Encantei-me pelo trabalho, ainda que polemizando. Para um militante à época da esquerda ortodoxa, aquilo tudo poderia ser uma grande blasfêmia. Mas assumo que capitulei diante dos argumentos daquele “coroa”. Roberto Freire me apontou caminhos de transformação social que eu jamais vislumbrara. E quem foi ele? Livre militante das suas idéias, o médico Roberto Freire realizou sua formação em Psicanálise através da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Posteriormente, ele rompeu com a prática psicanalítica e se aproximou da obra do terapeuta alemão William Reich (A Análise do Caráter e Psicologia de Massas do Fascismo, entre outras obras), que trabalhou com a bioenergética nos anos 20 e 30 e morreu nos cárceres nazistas na década de 40. A partir da teoria reichiniana, Roberto Freire desenvolveu a proposta da terapia anarquista, a somaterapia, uma prática que buscasse liberar as potencialidades do ser humano. Diz o terapeuta: “A pessoa saudável é aquela que vive sua originalidade, se auto-regulando e buscando sua unicidade. Essa seria a finalidade biológica de cada vida. Toda vez que alguém não consegue expressar sua originalidade, a nossa espécie e o ecossistema em que vivemos perdem uma contribuição ao seu desenvolvimento, tornando-se, então, essa vida uma experiência inútil”. A partir dos meados dos anos 80, como uma espécie de lanterna na ressaca do regime militar, Roberto Freire iniciou a construção da rede somateráptica país afora. Dezenas de núcleos de terapias da soma foram implantados em diversas cidades. De acordo com o site oficial da somaterapia, o trabalho desenvolvido por Freire se dá, “através de exercícios teatrais, jogos lúdicos e de sensibilização (...) criando uma série de vivências que possibilitam uma rica descoberta sobre o comportamento, suas infinitas e singulares diferenças”. A preocupação da somaterapia é perceber como o corpo reage diante de situações comuns no cotidiano das relações humanas, como a agressividade, a comunicação, a sensualidade e sua associação com os sentimentos e emoções. O objetivo é criar um contraponto à massificação. A Soma passou a se constituir então como um processo terapêutico com conteúdo ideológico explícito, o Anarquismo. Vida longa a Roberto Freire, que seus frutos proliferem.

sábado, 24 de maio de 2008

Nardi Suxo, vice-ministra da Transparência e Luta Contra a Corrupção da Bolívia, fala sobre seu país

Passou despercebida por parte dos meios de comunicação de Salvador a visita da vice-ministra da Transparência e Luta Contra a Corrupção da Bolívia, Nardi Suxo, que esteve na capital baiana entre os dias 14 e 15 de maio. Suxo veio à Bahia por recomendação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O objetivo foi conhecer tecnologias de gestão pública que estão sendo implementadas pelo governo baiano. Durante sua estada, em meio a uma agenda repleta de compromissos, a vice-ministra concedeu entrevista exclusiva ao blog Textos ao Vento na qual comentou sobre a situação atual do seu país. Nardi Suxo falou sobre a luta para dotar a Bolívia de melhores serviços públicos à população; a sanha separatista perpetrada pelas elites da região de Santa Cruz; a discriminação que estas praticam com as populações indígenas nativas, inclusive com o próprio presidente e auxiliares indígenas; e a certeza de que a Embaixada dos EUA está financiando a desestabilização do país. Sempre se referindo ao presidente Evo Morales como “hermano”, Nardi Suxo deixou claro que o governo boliviano é a representação da vontade dos movimentos sociais indígenas, “um país com muitos recursos naturais que estão sendo recuperados para a população”, enfatizou. Segue o vídeo.


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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Guarda Compartilhada. Agora é lei! Um basta à maternocracia



Foram dez anos de luta. Na última terça-feira foi aprovado pelo plenário da Câmara Federal, em Brasília, o projeto de lei no 6.350/02, a Lei José Lucas (ver Boxe abaixo), que institui no país a Guarda Compartilhada de filhos de pais separados ou divorciados. A nova lei pode se constituir num basta ao arbítrio praticado por muitas mães detentoras das custódias dos filhos. A lei estabelece, entre outros pontos, a divisão de responsabilidades de ambos os pais na criação dos filhos, o que também inclui livre acesso e, o mais importante, determina o rateamento das despesas entre pai e mãe. Trata-se, efetivamente, do compartilhamento. É o início da consolidação da Igualdade parental. Na verdade, a nova lei já nasce sustentada por ampla jurisprudência no assunto. Se inicia a derrubada de um muro ideológico construído pelo imaginário judaico-cristão que sublimou o papel da maternidade em detrimento da paternidade. E a herança disso foram as errôneas interpretações feitas por operadores jurídicos quando a questão era decidir sobre guarda de filhos. Não se mensurava quase nada, apenas o “consenso”, à fórceps, de que o pai pagava a pensão e a mãe detinha a guarda. Tal situação resultou em ônus para pais e filhos. Milhares de laços parentais foram decapitados com decisões esdrúxulas que reduziam a paternidade a “visitas quinzenais”. A necessária convivência entre pais e filhos se limitava a dois encontros mensais. É interessante notar que na linguagem do Direito de Família convivência é sinônimo de “visita”, o que denota o nível do atraso de boa parte dos operadores jurídicos no que diz respeito ao problema. Por outro lado, se desenvolvia uma poderosa indústria: a pensão alimentícia. Entendendo que poderiam se utilizar dos filhos para angariar benesses pessoais, muitas mulheres se esbaldavam com polpudas quantias. O quê, a princípio, deveria ser aplicado no sustento da criança, se transformava em salários para o exercício da maternidade. Ficava fácil. Trabalhando, “mães” delegavam os cuidados dos filhos a babás e afins – o quê os pais também poderiam perfeitamente fazer –, conseguindo auferir renda extra apenas pela diferenciação dos hormônios. Concomitante a essa violenta distorção, outra passou também a ocorrer, a Síndrome de Alienação Parental (SAP). Detentoras da guarda e com convívio diário, as “guardiãs” desconstruíam a imagem dos pais perante os filhos para forçar ainda mais o distanciamento entre estes. A nova lei buscará estancar essa violência. É o que explica a juíza Maria Aglaé Vilardo, juíza titular da 15ª Vara de Família da Comarca do Rio de Janeiro, em entrevista concedida à TV Educativa: “O Estado tem o dever de dar o impulso para o pai conviver com o filho”, afirma a magistrada, que considera “indispensável o convívio entre pais e filhos para o sadio desenvolvimento mental da criança”. Uma terceira maneira de se tentar afastar pais e filhos é o expediente da falsa acusação por abuso sexual. Talvez milhares de casos se enquadrem nessa criminosa e engenhosa artimanha. Um pai acusado, mesmo que injustamente, já está condenado a passar meses, quiçá anos, longe do filho dada a morosidade da justiça em avaliar concretamente a situação. Até provar a inocência, laços parentais de convivência já foram mutilados com o legado de sérios traumas para ambos. Um novo projeto de lei já está em elaboração e prevê rigorosa punição para esse tipo de crime, assim como para a prática da alienação parental. Com a aprovação da Lei José Lucas, muitas mulheres já se encontram inquietas. Ao longo desta semana uma das matérias veiculadas numa emissora de televisão de Salvador abriu o debate para o público. A maior parte dos telefonemas e e-mails endereçados aos apresentadores era de mulheres que se mostravam preocupadas em relação às perdas financeiras. Amor de mãe ou pânico com o início do fim da maternocracia? É sabido que a Lei José Lucas não resultará em transformações imediatas, já que sua devida interpretação, particularmente por parte dos juízes, levará algum tempo para ser assimilada, é bom lembrar. Todavia, esta já impulsiona uma expressiva mudança em curso nos costumes e mentalidades. A Lei José Lucas é fruto do esforço de diversas entidades – www.paisparasemprebrasil.org , www.participais.com.br , www.apase.org.br – e, em especial, da ação de alguns homens que enfrentaram toda sorte de dificuldades para conviver com os filhos após a separação e se lançaram na obstinada tarefa de mudar a legislação. Um deles é o jornalista Rodrigo Dias, pai de José Lucas, que propôs ao deputado Thilden Santiago (PT-MG) a elaboração do projeto de lei, participando inclusive da sua discussão. O próximo passo das organizações que lutam pela igualdade parental é uma ampla campanha de esclarecimento para que a Lei José Lucas seja amplamente aplicada e se faça garantir o direito das crianças que estão condenadas a serem órfãs de pais vivos. Igualdade parental, já!

O caso José Lucas, símbolo de luta

O garoto José Lucas Delmondes Dias, hoje com 12 anos, filho de Rodrigo Dias, ficou separado do seu pai por quase seis meses a partir de um expediente escuso utilizado pela ex-mulher de Rodrigo. Contando com os “serviços” de uma psicóloga, sob orientação de advogados, foi demandado um laudo o qual indicava que a convivência do pai seria nefasta para José Lucas. Rodrigo lutou na Justiça, provou que o documento não tinha fundamentação e reverteu a situação ganhando a guarda do filho, que era da mãe. Mesmo assim, Rodrigo estendeu à ex-esposa o direito de compartilhar com ele as decisões e responsabilidades na criação de José Lucas. Atualmente, pai e filho são obstinados militantes da Guarda Compartilhada e da luta pela Igualdade Parental.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O último recado de Milton Santos - O vídeo

Assista o trailer do documentário, leia a resenha e, claro, opine.

O último recado de Milton Santos - o texto




As cenas são fortes e reveladoras. Imigrantes latinos tentando atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos; pobreza no Brasil, na Bolívia, na Índia; Protestos e reivindicações dos movimentos sociais. A cada denúncia à globalização, sólidos argumentos. Irrefutáveis. E as imagens marcantes vão se entrelaçando com um doce personagem, que também é firme, duro. O entrevistado é o geógrafo Milton Santos, intelectual reconhecido internacionalmente. O entrevistador é o cineasta Silvio Tendler (Jango, Os anos JK, entre outros). E o filme: Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá. Dirigido por Tendler e premiado no Festival de Cinema de Brasília de 2006, o documentário - já em exibição em diversos circuitos culturais - é um tapa na consciência de quem assiste. Com roteiro bem estruturado, consegue construir cada idéia extraída de Milton Santos veiculando cenas de situações vivenciadas em diversas partes do mundo. Crítico mordaz da globalização neoliberal, o geógrafo sustenta uma inteligente oposição ao fenômeno, que apenas beneficia os países mais ricos em detrimento dos mais pobres. Ainda que considere a globalização inevitável, Milton Santos acredita que é possível mudar a forma como esta se processa, transformando-a a partir das suas próprias dinâmicas. Ele é categórico e deixa transbordar sua inteligência: “Até hoje nunca tivemos humanidade, apenas alguns ensaios. Talvez estejamos vivenciando mais um grande ensaio”. E, quando provocado, o intelectual é enfático: “Não milito em nenhum partido, não pertenço a nenhuma organização política, não sou ligado a nenhum grupo”, diz, contundente, deixando clara sua posição de franco atirador que troca o adjetivo de marxista por marxisisante. Pura dialética. Negro, olhos semicerrados e gestos simples, o Prof. Dr. Milton de Almeida Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no dia 03 de Maio de 1926. Em 1948 formou-se em Direito pela UFBA e em 1958 fez doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo, na França. Como livre pensador, foi doutor honoris causa em vários países, ganhando o prêmio Vautrin Lud - o prêmio Nobel da geografia - em 1994. Quando esteve exilado por conta do Golpe Militar de 1964, Milton Santos atuou como professor em diversos países e publicou cerca de 40 livros. Um currículo que Silvio Tendler teve a maestria de dissecar, não por previsíveis arrolagens de titulação, mas, sobretudo, pela sagacidade dos questionamentos. E um dos momentos mais fortes é quando o cineasta dispara: “É difícil ser um intelectual negro?”. O resultado é uma resposta seca e direta: “É difícil ser negro”. O documentário tem clima de despedida, talvez pela passagem de um momento a outro da sociedade humana, ou mesmo do entrevistado, que sugere querer deixar suas últimas mensagens. Na derradeira cena, Santos levanta-se apoiado numa bengala, abre um sorriso e ausenta-se da sala de entrevista. Seis meses depois da gravação ele morreu. Um último ato de quem parece antever o início dos próximos passos da humanidade.

domingo, 11 de maio de 2008

Dúbias posições

A absolvição do mandante do assassino da irmã Dorothy Stang (foto) não preocupou os editorialistas dos grandes jornais e demais meios de comunicação


O país ficou perplexo na semana passada com a absolvição do fazendeiro Vitalmiro Bastos Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do assassinado da missionária Dorothy Stang em 2005. Conhecida por seu trabalho em defesa da reforma agrária, pelo reflorestamento de áreas degradadas e pelo esforço em minimizar os conflitos do campo no estado do Pará, a irmã Dorothy foi vítima de empresários ligados ao agronegócio. Vitalmiro havia sido condenado a 30 anos de prisão no primeiro júri. No segundo, apenas o seu capanga, o pistoleiro Rayfran das Neves, o Fogoió, foi condenado a 28 anos. Fogoió mudou seu depoimento 14 vezes ao longo do processo. Ainda que os meios de comunicação tenham dado ampla cobertura à decisão da “Justiça”, o caso requer uma análise mais profunda. As empresas jornalísticas e o Poder Judiciário são historicamente instituições conservadoras que reforçam a desigualdade social no país quando deveriam ser árbitros para garantir a igualdade e a justiça. A estranha decisão do tribunal paraense não mereceu nenhum editorial que questionasse o ato por parte dos grandes meios de comunicação. Todos se esconderam numa nítida demonstração de solidariedade de classe. Vozes que por vezes se apresentam veementes quando se trata ou se tratou de dar eco a factoídes, calaram-se perante a um flagrante desrespeito aos direitos humanos, ainda que se mostrem extremamente contundentes quando é para criminalizar e demonizar as ações dos movimentos sociais. E mesmo na cobertura do julgamento, as matérias veiculadas se limitaram a apresentar o fato sem o devido registro dos antecedentes que os norteia. Pautas evasivas. Numa certa emissora de televisão, a irmã Dorothy foi apresentada apenas como uma “defensora da floresta”, não informando os pormenores da luta que ela travava e os motivos reais do seu assassinato. Sumiram também os “analistas”, aqueles “especialistas” que sabem tudo do nada e nenhuma repercussão com as autoridades do Vaticano. O Estado Papal não se pronunciou e era mais do que lógico saber os porquês dessa indiferença. É como se quisessem dissolver o episódio com uma névoa de desinformação. Quanto à cobertura do Judiciário, totalmente sem base. O que sobrou de alarde ante a decisão, faltou em questionamento. Algum advogado ligado aos movimentos sociais foi convidado a opinar? Sindicalistas da região foram ouvidos? Nada. Restou apenas a velha enunciação do problema como índice. E a cobertura mais densa ficou então dedicada à CPI dos cartões corporativos e ao caso Isabella Nardoni. Compreensível, pelo menos para quem tem olhos mais críticos.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O tacape de Dilma e a vergonha de Agripino Maia




A ministra Dilma Rousseff desfechou um belo contra-ataque ao senador Agripino Maia (DEM-RN) quando este tentou ofendê-la com argumentos que só um beócio poderia utilizar


Tudo fora programado pela oposição - parlamentar e midiática - para ser mais um palco no qual o Governo, na pessoa da ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, seria devidamente defenestrado. Dilma havia sido convidada para falar na semana passada na Comissão de Infra-estrutura do Senado sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas o verdadeiro interesse das oposições – parlamentar e midiática – era constranger a ministra com perguntas sobre o dossiê dos cartões corporativos que teria sido vazado da Casa Civil e revelado gastos do ex-presidente FHC. Assanhados, os parlamentares oposicionistas apostavam no fracasso do depoimento de Dilma como se fosse um time comemorando a vitória antecipadamente. Talvez imaginassem belas manchetes nas quais diversos “arautos da modalidade” se sobressairiam como salvadores da pátria. E um deles, o senador Agripino Maia (DEM-RN), resolveu ir com tanta sede ao pote que, pensando em provocar um factóide bem ao estilo do seu partido golpista, acabou caindo no ridículo. No início dos trabalhos, Maia – que apoiou de corpo e alma a Ditadura Militar – lembrou que nos anos 70 a ministra, então militante que combatia o regime, mentiu ao ser torturada pelos órgãos de repressão. Dilma havia dito numa entrevista, concedida há mais e um ano, que, quando torturada, realmente mentiu para não colocar em risco a vida de companheiros. O senador quis insinuar que ela estaria fazendo o mesmo agora, em relação ao suposto dossiê com informações sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Tal comparação só poderia ter sido feita por um beócio. E o tiro saiu pela culatra. Ao rememorar a entrevista na comissão, Agripino Maia foi rebatido com tanta veemência por Dilma Rousseff que terminou por desarmar os argumentos dele e dos demais colegas oposicionistas: “O que acontece ao longo dos anos 70 é a impossibilidade de se dizer a verdade em qualquer circunstância. No pau de arara, com o choque elétrico e a morte, não há diálogo", disse a ministra. E prosseguiu: "Eu fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores, entrega os seus iguais. Eu me orgulho muito de ter mentido na tortura, senador", enfatizou. Na época da prisão Dilma tinha 19 anos e passou três anos presa. Não houve como esconder o fato por parte dos grandes jornalões e TV’s do país, ainda que uns tenham dado mais destaque do que outros. O vexame que Maia foi submetido sob o tacape de Dilma Rousseff se tornou público. Todavia, uns dos braços mais articulados da oposição, a TV Globo, retomou a carga da pauta no dia seguinte para tentar ofuscar o vexame do aliado Agripino Maia. O Jornal Nacional de ontem, 08/05, veiculou matéria informando que o suposto dossiê havia saído da Casa Civil por intermédio de email transmitido por um funcionário do órgão a um assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR). Mas a fonte não foi a Polícia Federal, convocada pelo próprio Palácio do Planalto para investigar o episódio, e sim uma empresa de tecnologia que teria feito o rastreamento dos computadores da Casa Civil. Nenhum laudo oficial foi apresentado. E o pior, a matéria só confirmou o que a própria ministra havia antecipado no depoimento dado no dia anterior, que a Casa Civil abrira sindicância interna e apontaria quem teria vazado informações do banco de dados do órgão. É o desespero de diversos setores do país que não aceitam e fingem não entender a avaliação positiva da gestão do Governo Federal por amplos segmentos da população. Diante de tal quadro, e com a ineficiência das pífias oposições parlamentares, resta o front armado das empresas jornalísticas na esperança de que algum factóide novo possa desestabilizar o governo. É o sentimento golpista de sempre do fantasma de Carlos Lacerda encarnado nos Marinhos, Civitas, Frias e Mesquitas.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Mais uma grande "matéria" do JB



Foi a pérola da semana. A edição do dia 29/04 do Jornal do Brasil fez alquimia lingüística com uma matéria que foi chamada de capa. Com título Tráfico infiltra-se no PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal -, o texto informa que a polícia havia prendido um certo Adauto do Nascimento Gonçalves, o Pitbull, que, segundo a matéria, “fazia expediente nas obras do PAC”. Prossegue o texto: “Para as autoridades, a captura comprova a infiltração (do narcotráfico) no programa”. Detalhe: a foto apresentada do traficante foi tirada de um crachá da construtora OAS, empreiteira que presta serviço ao Governo. Portanto, Adauto, se for o caso, é empregado da referida empresa, já que não existem empregados do PAC, a não ser na cabeça dos editores do JB. O restante da matéria, publicada na página 10 do Caderno A, atêm-se apenas às movimentações das policias Civil e Militar nos morros do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, e Cantagalo, em Ipanema. Realmente, uma “apuração” digna do prêmio Politzer.