terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Educação e negócios, uma relação duvidosa



O sistema de ensino superior privado no Brasil está em crise. Não financeira propriamente dita, mas sobretudo pedagógica e de credibilidade. A maioria das instituições privadas de ensino superior (IPES) está embarcando nas chamadas “otimizações” das grades disciplinares, com drásticas reduções das horas/aulas e enxugamentos dos quadros de docentes mais qualificados. Hoje, poucas são as IPES que dedicam algum compromisso à pesquisa e à extensão, o que leva aos inevitáveis mutilamentos das formações universitárias. O que outrora significava formações razoáveis e um tanto consistentes, hoje se apresenta como uma réplica do segundo grau. É o ensino fast-food, com taxi-teachers e aulas à distância. Desfibra-se o ambiente acadêmico, que dá lugar aos “shoppings educacionais”. Um segmento que já esteve, em sua maioria, nas mãos de empresários vocacionados à educação, agora é garroteado por “investidores” nacionais e internacionais cujo único interesse é o lucro imediato. Com a complacência das instâncias públicas reguladoras, a exemplo do próprio Ministério da Educação - campeão das “vistas grossas” - o empresariado voraz vai tocando o setor como se tocasse fábricas de cimentos. Não sem razão que o especialista em educação da Unesco, Célio da Cunha, entende que esse quadro decorre de uma espécie de mutualismo entre o mercado e as empresas educacionais (já que ambos constituem um mesmo sistema). A sociedade demasiadamente competitiva pressiona a escola para a formação do que Célio entende como “idiota-técnico”. Ou seja, não se deseja mais formar profissionais com valores e construções humanizadas de identidades, mas máquinas de obedecer ordens e construir perspectivas para o mercado, apenas. Um caminho que vai na contramão do que preconiza a Unesco. O Relatório Mundial da Educação formulado pelo órgão como meta para o século XXI, sugere que os países procurem conciliar o “aprender a fazer” (ou dominar algumas técnicas de mercado), “aprender a conhecer” (dominar o conhecimento), “aprender a ser” (ou desenvolver a capacidade de ser cidadão) e “aprender a viver juntos” (ou aprender a conviver com a diversidade cultural). Entre tais sugestões e a realidade vivenciada nas IPES existe uma distância abissal. E o pior é que as mesmas se nutrem financeiramente de volumosos recursos despejados pelo Governo Federal mediante programas sociais de inclusão universitária, a exemplo do Prouni. Quer dizer, o mesmo poder público que outorga publicamente a concessão para que as IPES funcionem, também lhes garante, em boa medida, a aquisição de numerosas vagas por semestre. Ainda assim, estas se sentem à vontade para arrotar a necessidade de quanto menos regulação melhor. Daí, vale tudo. Desde a forma truculenta de tratar os docentes que busquem se organizar politicamente para discutir suas realidades à formulação de políticas pedagógicas internas que são impostas de forma autoritária, sem debates e as necessárias discussões com os corpos docente e discente. E a todo semestre “pacotes-surpresas” brindam os profissionais com demissões em massa, reduções salariais e precarizações das relações de trabalho. São os necessários “ajustes” requeridos pelo mercado para manter as IPES “saudáveis” economicamente, mesmo não importando que pais de famílias sejam demitidos. O que importa são os índices das bolsas de valores. E quanto aos estudantes, estes são anualmente convidados a assumir reajustes das mensalidades para acompanhar o aumento das “despesas” das IPES. Por fim, terminam pagando um assento e um diploma a longo prazo cuja substância pode se limitar apenas a uma logomarca. Como diria o filósofo sloveno Slavoj Zizek, “bem vindo ao deserto do real”. Engraçado, não?

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A direita mostra sua cara e seus arroubos



A vitória do não à prorrogação da Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF), imposto que arrecadaria no ano que vem, segundo previsões do Ministério da Fazenda, em torno de R$ 40 bilhões, mostrou a face mais crua e sórdida da direita brasileira. No Senado, o governo obteve 45 votos a favor e 34 contrários, não constituindo os 3/5 necessários para aprovação à continuidade do tributo. Foi um golpe contra o povo, contra o “zé ninguém”, uma trama urdida pelas elites econômicas do país que não queriam ver parte dos seus lucros direcionados a programas sociais, especialmente para as áreas de Saúde. A CPMF é um imposto progressivo e atinge em cheio as grandes empresas, já que 72% da sua arrecadação provinham de volumosas movimentações financeiras.
No vácuo da vitória, ficou o riso fácil dos barões da Fiesp e de outras entidades do patronato. E a grande imprensa? Esta seguiu seu curso normal do discurso cínico, misturando diariamente alhos com bugalhos no intuito de confundir a opinião pública. Nenhuma linha, nenhum minuto foi dedicado a explicar os pequenos melindres das negociações. Não se ouviu a “procuradora-geral” Miriam Leitão dizer, por exemplo, que ficariam isentos da CPMF todos que tivessem renda de até R$ 2.800, ou seja, extratos que correspondem a mais de 95% da população brasileira e que não pagariam esse imposto. Apenas cenas e lamentos de segmentos abastados, que mediante alquimias econômico-contábeis procuravam desconstruir o sentido do tributo.
Mas a derrota deixa lições. E a primeira delas diz respeito à própria estratégia utilizada pelo Governo Federal que, diga-se, desde o início do mandato de Lula peca por estabelecer alianças com setores nada confiáveis, movidos e embebecidos por cargos e emendas orçamentárias. E tais expedientes só surtem êxitos momentâneos, pontuais e varejistas. O governo já teve tempo de sobra, desde 2002, para entender que a grande aliança que deve ser feita é com os setores populares e os movimentos sociais. Aliança esta, frise-se, cuja mão foi estendida em duas eleições com vitórias esmagadoras e expressivas. Por que a importância da manutenção da CPMF não foi tomada pela agenda dos movimentos sociais? O Palácio do Planalto elitizou o debate acerca do problema e o manteve restrito praticamente ao Congresso Nacional, enquanto que as elites econômicas, de posse dos seus canhões midiáticos, avançavam trincheiras e pressionavam seus pares no Senado Federal para captular às suas exigências.
E de nada adiantou a ação de setores oposicionistas que amargaram a derrota junto com o governo, a exemplo dos governadores candidatáveis José Serra (PSDB-SP) e Aécio Neves (PSDB-MG), já que estes perderam, cada um, em torno de R$ 2 bi com repasses da CPMF que deixarão de ser efetuados aos seus estados. Valeu mais a sordidez do príncipe dos sociólogos, o neo-udenista Fernando Henrique Cardoso, que, junto com o DEM, foi o grande estrategista para barrar a continuidade do tributo. Em texto publicado na revista Época, o cripto-fascista deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), chegou a dizer que caso o imposto fosse renovado “se corria o risco de turbinar a pasta da saúde e diretamente a saúde do governo”. Vejam o nível do cinismo. Não importava ao parlamentar direitista se a população pobre poderia ser melhor atendida por serviços públicos de saúde e sim desestabilizar as políticas sociais.É preciso clareza nesse momento para entender que o embate foge agora às argumentações tecnicistas-econômicas. É preciso que o governo compreenda em qual lado construirá novas trincheiras, se no ninho das hostes adesistas e fisiológicas, ou junto aos setores populares que ainda o apóiam com entusiasmo, conforme aponta a última pesquisa divulgada pelo IBOPE, realizada no mês de novembro passado. Nesta, o governo tem aceitação de 65% da população, um índice que deve não apenas ser comemorado, mas estrategicamente refletido.

domingo, 25 de novembro de 2007

Entrevista com Fábio Guedes - Parte 1

O economista e doutor em Administração Fábio Guedes esteve na Venezuela entre os dias 13 e 17 de novembro participando de um encontro Latinoamericano de Economia Política. Nessa entrevista concedida ao blog Textos ao Vento, ele conta o que viu nas ruas de Caracas e fala do clima político vivenciado no país de Hugo Chávez Frias. Assistam.

Entrevista com Fábio Guedes - Parte 2

sábado, 24 de novembro de 2007

ACM Neto no reino das ilações

Dizem até que se trata de um jovem e promissor político. ACM Neto seria inteligente, safo e outras adjetivações que permeiam o senso-comum. Mas quando testado por um jornalista do porte de Bob Fernandes é perceptível sua fragilidade intelectual, mesmo que para defender teses de direita. Existem quadros melhores. Em entrevista dada ao site Terra Magazine, ACM Neto afirmou que o povo da Venezuela não sabe votar. Depois fez algumas “reflexões” sobre o país vizinho que valeu nova indagação do jornalista: “O senhor já foi à Venezuela?”, perguntou Bob Fernandes. O pequeno parlamentar perdeu a cabeça e respondeu: “Olha, eu acho que você tem uma procuração para defender Hugo Chávez”. Não se fazendo de rogado, Fernandes voltou a repetir a pergunta: “O senhor já foi à Venezuela?”. E a resposta evasiva do diminuto deputado: “Não (...) O meu mecanismo de análise é a partir do que é bom para o Brasil (...) Eu leio jornal, eu leio revista, eu leio livros, eu acompanho todo dia o noticiário e tenho plenas condições de fazer a consciência crítica devida com relação à postura do senhor Hugo Chávez”. Realmente, ACM Neto não mentiu e apenas se informa sobre a Venezuela pelo noticiário. Interessante é o projeto-de-pequeno-déspota fazer comentários sobre posturas autoritárias. Com o fascismo correndo nas veias, fruto de herança genética, ele bem que entende de ditaduras, afinal de contas, seu avô sustentou uma com muito vigor.

Bem vindo ao deserto do real!

Pérolas da mídia(ocridade) baiana. Na coluna desse sábado - 24/11 - do articulista Samuel Celestino sobrou choros e lamentos quanto à situação do ex-presidente da Assembléia Legislativa da Bahia e atual presidente do Tribunal de Contas do Estado, Antônio Honorato, que foi detido pela Polícia Federal na Operação Jaleco Branco e prestará depoimentos em Brasília na sede do órgão. Celestino afirma no início do comentário: “Trata-se de uma coerção humilhante”. No fim da coluna, ele concluiu: “Mas, seguramente, é no mínimo uma extravagância constrangedora a repetição de excessos, como o uso de algemas. Pode não ser ilegal, mas o uso deveria ficar restrito a bandidos que ofereçam perigo para policiais e para a sociedade. Ou não?”. Protestos também foram feitos pelo radialista Mário Kertész quanto ao título dado pela revista eletrônica Terra Magazine: “Operação Jaleco Branco da PF prende elite baiana”. Revoltado, Kertész esbravejou no microfone da sua emissora: “Qual elite? Não vi elite alguma ali!”. Um e outro destilaram sentimentos de classe. Dispensam-se teorias psico-sociológicas para explicar tais posturas. Tudo é muito claro. O que seria então uma ameaça à sociedade na interpretação samuelcelestiana? Quem é acusado de participar da cabeça de um esquema de corrupção que, segundo se noticia, lesou os cofres públicos em quase 1 bi não é uma ameaça à sociedade? Ou não? Aliás, realmente, entre os detidos não se encontra nenhum membro da elite baiana. Creio que Bob Fernandez esteja enganado (corrija-se, Bob!). Eram homens do povo, ladrões de galinha e batedores de carteira, desses que cumprem sentença de vida enquanto a de morte não chega. Na verdade, a PF deteve “proletários” que andam de carros importados e residem nos melhores endereços da Soterópolis. E o dinheiro que as autoridades policiais e os procuradores do Ministério Público Estadual e Federal acusam ter sido surrupiado por eles certamente deixou de ser utilizado para construir escolas, postos de saúde, casas populares, redes de esgoto etc. Não, de forma alguma eles representam ameaça à sociedade. Ou não, Celestino? No país das duas medidas, a Justiça não pode ser única e sim seletiva. Para uns, o limbo das delegacias e o lodo das páginas policiais. Para outros, as colunas sociais e políticas, onde sempre são bem tratados. Como diria Slavoj Zizek: “Bem vindo ao deserto do real”.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Suco de laranja

O empresário Gervásio Oliveira, mantenedor da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FTC), está sendo caçado nesse momento pela Polícia Federal, que deflagrou nesta quinta-feira, na Bahia e Distrito Federal, a Operação Jaleco Branco. Quatorze pessoas já foram detidas no estado, entre elas o ex-presidente da Assembléia Legislativa do Estado, Antônio Honorato (ligado ao falecido senador ACM) e o ex-presidente do Esporte Clube Bahia e ex-deputado estadual Marcelo Guimarães (também ligado ao finado ACM), entre outras autoridades.
Quanto a Gervásio, fica a lição para o dono de uma instituição que não paga suas dívidas trabalhistas com os funcionários demitidos. É a dimensão exata do panorama do ensino superior privado do país, guardando, claro, as exceções. Educação é uma concessão pública e o Estado deve ter critérios para outorgar. Mas, ao que parece, o MEC tem feito vistas grossas.
Segundo o jornal A Tarde, "o esquema era composto por empresários do ramo de prestação de serviços, principalmente de conservação, limpeza e segurança, e atuava na Bahia em licitações federais, estaduais e municipais. Os crimes praticados contavam com a participação de servidores públicos de diversos órgãos".
Ainda de acordo com o jornal baiano, "as investigações começaram em 2005 e apontam superfaturamento de preço, formação de cartel e utilização de empresa de fachada. O esquema se beneficiava também de contratos emergenciais repletos de vícios. A maioria dos líderes tem amizade há quase 20 anos e há mais de 10 atuam no serviço público municipal e estadual. O prejuízo causado aos cofres públicos é de aproximadamente R$ 625 milhões".

Quando o fato não é fato

Jornalismo de indice. Na quarta-feira passada a Rede Globo comentou a greve dos trabalhadores dos serviços de metrô e transportes públicos da França, que já completa 10 dias. De forma bastante peculiar, mas que não foge ao padrão discursivo da emissora, na Edição do Bom Dia Brasil desse dia, 21/11, o fato foi tratato apenas com um momento do discurso do presidente Nicolas Sarkozy. O pequeno trecho foi traduzido e comentado pelo ancora e editor do telejornal, Renato Machado: “O presidente Sarkozy afirmou que foi eleito pelos franceses para mudar a França e nada o impedirá de realizar as mudanças”. Depois foi apresentada uma cena de cerca de dois segundos de uma passeata de trabalhadores franceses. Um índice, apenas. Uma vaga informação do levante de milhares de trabalhadores que tentam barrar as reformas neoliberais impostas pelo governo francês. É o jeito Ali Kamel de dar notícias.

Aula de participação política

A deputada venezuelana Noeli Pocatera explica as mudanças na constituição do país às lideranças indígenas. É o que a mídia corporativa não apresenta no Brasil sobre o país vizinho. O quê para a Rede Globo e as elites nacionais se trata de uma ditadura, para a sociedade venezuelana o que ocorre é a mais ampla participação política da população.

sábado, 17 de novembro de 2007

Duas Caras; Agnaldo Silva chacota com o movimento estudantil



Movimento estudantil na novela das oito da Globo? Como assim? De forma sutil, o folhetim Duas Caras torna-se fiel ao título quando, aparentemente e de forma despretensiosa, apresenta uma manifestação de estudantes na fictícia Universidade Pessoa de Moraes. Os discentes “invadem” a universidade e provocam badernas e quebra-quebra. A dona da instituição (e do negócio!), a personagem Branca, interpretada pela atriz Suzana Vieira, resolve então chamar a polícia. “Invasão de propriedade privada é crime!”, justifica Branca. Mais: o líder do movimento, o personagem Heriberto, é um vilão que manipula os estudantes. É dessa maneira que a Rede Globo busca desconstruir a imagem do movimento estudantil que volta a se levantar país afora lutando contra o sucateamento do ensino público superior e a mercantilização da educação por parte da iniciativa privada. Interessante é que a filha da magnata Branca se sente preparada para assumir o negócio depois de fazer um “curso de verão” na Sorbone, em Paris, com o professor Fernando Henrique Cardoso. O cérebro pensante desse roteiro é o pit bull da vez da emissora, Agnaldo Silva, que apenas reedita folhetins previsíveis nos quais o bem e o mal são a extensão do consenso ideológico dos Marinhos. Aliás, existe local mais aprazível do que a favela da Portelinha? Todavia, segundo ele diz, a favela vai sofrer “um choque de realidade” com a chegada de traficantes, que serão expulsos pelo personagem Juvenal Antena à bala. Agnaldo Silva pretende então construir seu próprio capitão Nascimento? Bobagens recheadas que inebriam 40 milhões de telespectadores por noite. É com esse narcótico diário que a classe média no Brasil pretende aliviar o cansaço de um dia de labuta. A pobreza de conteúdo de maior parte da televisão brasileira é evidente. Mas não só isso. A construção ideológica nos folhetins globais é o pano de fundo, como se observa a tentativa de tirar a legitimidade do movimento estudantil. É como se dissesse: não pode existir; E se existe, é por motivos injustificáveis e banais. Enfim, é a Globo com seu reacionarismo militante sendo conduzido pela pena de Agnaldo Silva, um reacionário croquete a serviço dos barões da mídia.

O samba da mais-valia, de Sérgio Silva

Ouçam a letra. Pensem, então.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Juan Carlos, a Globo e cia...Todos temem as mudanças na Venezuela

A marcha do povo venezuelano em prol das mudanças é maior do que os impulsos fascistas que ainda pairam na cabeça de monarcas como...

....o rei Juan Carlos, da Espanha, que ainda se sente nos tempos do seu amigo generalíssimo Franco


A Rede Globo tomou as dores do rei Juan Carlos que, por sua vez, havia tomado as dores do neofascista José Maria Aznar, ex-premiê da Espanha, quando este foi criticado pelo presidente da Venezuela Hugo Chavéz Frias durante o último encontro da Cúpula Ibero-Americana, evento ocorrido em Santiago na semana passada. Chavéz chamou Aznar de fascista e disse que o líder político direitista sabia da preparação do golpe na Venezuela em 2002. Ele falou a verdade, apenas. Não gostando da afirmação, o monarca dos espanhóis mandou o chefe de estado venezuelano calar-se. Chavéz então respondeu que “não era súdito de nenhum rei” e, na condição de representante do povo da Venezuela, falaria onde o estivesse representando. Foi o suficiente para que a Vênus Platinada repercutisse o episódio durante toda semana.
Na edição do Jornal da Manhã desta quinta-feira, 15 de novembro, o “procurador-geral” da República Alexandre Garcia continuou requentando a matéria, desta vez irritado com um dado novo: o presidente Lula havia desconstruido a cantinela dos repórteres-papagaios dos jornalões e grandes redes de TV’s do país. Perguntado se a Venezuela era uma ditadura, Lula, num momento de muita clareza política, rebateu dizendo que se tratava de uma democracia: “Um mandato que já se submeteu a duas eleições e três plebiscitos não é uma democracia?”, perguntou o presidente, invertendo a ação e se colocando, ele mesmo, no lugar de indagador perante uma turba de repórteres medíocres.
Durante os últimos quinze dias a imprensa oligárquica e corporativa do Brasil se apresentou com uma preocupação mais acentuada acerca dos destinos políticos da Venezuela. Capas contra o governo de Chavéz foram dadas nas revistas Veja (grupo Abril) e Época (Globo). Os Marinhos, Frias (Grupo Folha), Mesquitas (Estadão) e cia não se conformam com as mudanças em curso naquele país, onde, no próximo dia 2 de dezembro, estarão sendo referendados pelo povo 69 dos 350 artigos da Constituição Bolivariana de 1999.
Os novos dispositivos constitucionais, entre outras mudanças, prevêem o fim da autonomia do Banco Central do país; Maior blindagem social-trabalhista com redução da carga horária de trabalho de 40 para 36 horas; Criação de novos modelos de propriedade, entre elas a propriedade social; Seguridade previdenciária fora das mãos dos tubarões do mercado; E o Poder Popular, entidade com participação direta da população que auxiliará o Estado a tomar decisões. A expectativa é que o sim às mudanças alcance 63% dos votos, uma larga maioria.
Sobre a redução do tempo de trabalho semanal, trata-se de uma medida de avanço revolucionário. Justifica-se dessa forma o artigo 90: “Para que os trabalhadores disponham de tempo suficiente para o desenvolvimento integral de sua pessoa, a jornada de trabalho diurna não excederá de seis horas diárias nem de trinta e seis horas semanais e a noturna não excederá de seis horas diárias nem de trinta e quatro horas semanais (...) Da mesma forma deverá programar e organizar os mecanismos para a melhor utilização do tempo livre em benefício da educação, formação integral, desenvolvimento humano, físico, espiritual, moral, cultural e técnico dos trabalhadores e trabalhadoras. Os trabalhadores e trabalhadoras têm direito ao descanso semanal e férias remuneradas nas mesmas condições que as jornadas efetivamente trabalhadas”. Detalhe: a redução do tempo de trabalho não admitirá diminuição de salários.
Um golpe duro também será desfechado contra as velhas oligarquias agrárias. O Art. 307 passa a afirmar: “Se proíbe o latifúndio por ser contrário ao interesse social. A República determinará, mediante Lei, a forma na qual os latifúndios serão transferidos para a propriedade do Estado ou dos entes ou empresas públicas, cooperativas, comunidades ou organizações sociais capazes de administrar e fazer produtivas as terras”. É a Reforma Agrária que esperam milhões de brasileiros.
O item mais polêmico é o artigo 225, que prevê sete anos de mandato presidencial (atualmente são seis), com a possibilidade de reeleição sem impedimentos para outros períodos. E este foi o estopim da gritaria dos barões da mídia e das elites daqui e de lá. A histeria é hipócrita. Não há qualquer impedimento para esse procedimento eleitoral na França, Alemanha, Itália e outros países. Sendo eleição e reeleição produtos do mandato conferido, ninguém deveria ter o direito de decidir quem o povo “não” pode eleger como seu representante. O povo deve poder eleger e revogar livremente os mandatos.
Está explicado o alarido da Globo e cia. É mais fácil chamar Chavéz de ditador do que apresentar aos leitores, telespectadores e radiouvintes os pormenores das mudanças em marcha na Venezuela. O exemplo de lá pode se transformar numa perigosa assimilação política aqui. Nesse caso, é melhor construir um cenário de representação que possa desconstruir a verdade e apresentar a mentira como forma de manipular a opinião pública. No fundo, é a opinião publicada daqueles que detêm e controlam a mídia e que se deseja passar como consenso, como bem afirma o intelectual norte-americano Naom Chomsky.

Retomando

Desculpem o atraso nas atualizações. Mudanças em curso, aguardem!

domingo, 21 de outubro de 2007

Trailer do filme Encontro com Milton Santos, de Silvio Tendler

"O centro do mundo hoje é o dinheiro, mas o dinheiro no estado puro", alertava o professor Milton Santos, um dos maiores intelectuais que o Brasil já produziu. Santos também avisava: "temos que repensar o conceito de civilização".

Revolução em curso!

Lênine discursa no momento da tomada do poder pelos bolcheviques

Há 90 anos o mundo parou a respiração no maior acontecimento já registrado na história da humanidade, a Revolução Russa, ocorrida em outubro de 1917. Comandada por Vladimir Lênin e Leon Trotsky, mediante a atuação do Partido Bolchevique, os trabalhadores russos proclamaram a primeira república sustentada em comitês operários e camponeses e assembléias gerais, os soviets. Erros ocorreram, e muitos! A mosca azul do poder se encarregou de desvirtuar os caminhos da revolução. Mesmo assim, o fato histórico se constituiu no despertar de uma mobilização internacional que, a partir daquele momento, passou a operar como um divisor de águas nas lutas do homem por um mundo mais justo e solidário.

O “ecologismo profundo” de Al Gore; Ou os interesses do grande capital financeiro?



O Prêmio Nobel concedido ao ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, pela sua luta em “defesa” do planeta esconde bem elaboradas estratégias políticas e econômicas das quais ele se tornou peça fundamental. Catapultado à premiação por conta do seu documentário Uma verdade inconveniente, um “alerta” acerca das mudanças climáticas na Terra em decorrência do aquecimento global, Al Gore se torna agora o queridinho da selva financeira internacional. O alarmismo provocado pela película já se traduz num novo filão: o incremento da emissão dos títulos de bônus de carbono por parte do sistema financeiro concomitante à expansão do agronegócio no hemisfério sul. Expondo ursos que morreram em decorrência de tempestades de neve e não do aquecimento global e afirmando que o nível dos mares subirá seis metros num futuro próximo, o que diversos cientistas entendem como uma estapafúrdia, já que para eles isso só ocorrerá daqui a milhares de anos, o ex-vice-presidente se colocou na condição de messias da humanidade. Na semana passada, diversas agências do maior banco privado do país, o Bradesco, distribuíam cópias do documentário para os clientes. Quando um banco “abraça” uma causa ecológica, ponhamos as barbas de molho. O velho Bradesco, berço da TFP, que investe pesado em diversos projetos agroempresariais na Amazônia, desmatando para plantar soja e criar gado de corte, agora financia propaganda ecológica. Talvez aí tenhamos uma faceta da chamada “ecologia profunda”, tese defendida pelo físico indo-americano Deepak Chopra, amigo de Gore. Seguidor de gurus da Índia, a exemplo de “sua santidade” Mararishi Mahesh Yogi, Chopra também se tornou um deles e passou a ser assediado por nove entre 10 milionários excêntricos que buscam nele “paz espiritual”, doando-lhes muita grana e tendo como retorno seus cursos de meditação. Realmente, assim é construído o debate sobre “ecologia profunda” enquanto milhões de pessoas são vitimadas pela fome na África e em outras partes do planeta. Preocupado com os destinos da Terra e sua população estaria um homem do porte do professor Milton Santos, cujo filme sobre o mesmo, de autoria de Silvio Tendler, certamente não será distribuído pelo Bradesco. Retornando ao messias Al Gore, é bom pensar em qual nível mental sua “ecologia profunda” funcionou quando ele e Bill Clinton bombardearam a Iugoslávia, Albânia, Sudão, Afeganistão, Iraque, Haiti, Zaire e Libéria utilizando alto arsenal destrutivo, inclusive armas que continham urânio empobrecido. Tais bombardeios causaram a morte de dezenas de milhares de civis, provocando danos irreparáveis ao meio ambiente, cujos efeitos perdurarão centenas de anos. Talvez também seja uma preocupação da “ecologia profunda” de Gore a rápida mudança da matriz energética para os biocombustíveis. Plantar soja, mamona e outras oleaginosas para produzir energia limpa, da forma que os empreendimentos estão sendo planejados, pode resultar na expansão de novas fronteiras agrícolas que certamente condenarão milhares à fome. Não se terá espaço para o agricultor familiar nem o pequeno produtor, apenas para os garbosos investimentos concatenados à dinâmica do agronegócio. Ecologia profunda. Ou profana? É risível até para o mais leigo dos leigos quando Gore expõe sua preocupação ambiental no seu documentário hollywoodiano. Tudo não passa de uma articulada querela com nuances metafísicas, bem ao estilo da sua ecologia profunda. O mesmo documentário que apresenta ursos nadando por falta de placas de gelo na Antártida, omite as questões ideológicas necessárias ao entendimento do problema que é sócio-ambiental, e não apenas ambiental. E Gore não vai ao cerne desse desequilíbrio, que decorre muito mais dos desequilíbrios sociais. E não vai porque não deseja. É como aquelas dondocas que freqüentam a Praia do Forte e se encantam com a preservação das tartarugas. Elas compram a camisa, o boné e a sacola da grife, tomam massagem relaxante num spa próximo, lêem Deepak Chopra, fazem meditação transcendental e, devidamente “leves e espiritualizadas”, voltam às suas mansões nos seus carrões na frente dos quais pequenos indigentes lhes estendem as mãos na penumbra dos vidros fumês. Mas, para elas, nada da sensibilidade proveniente da ecologia profunda que militam. Papo pra boi dormir. Enquanto isso, os ecologistas profundos estão basicamente preocupados com duas coisas: as formiguinhas que passeiam nos jardins das suas mansões e os investimentos nas bolsas de valores. Pensar em militância ecológica sem questionar a dinâmica neoliberal é como se acreditasse que existem tubarões vegetarianos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Serginho Groisman reinou na província

Foto: Iracema Chequer
Groisman: queridinho de mauricinhos e patricinhas soteropolitanos

Como que se chegasse à província o apresentador Serginho Groisman, que um dia foi vanguarda na telinha brasileira com o programa Fala Garoto, do SBT, comemorou ontem em Salvador, 17/10, os sete anos do programa Altas Horas, da Globo. A festa foi promovida pela emissora na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. O Alta Horas é uma versão descaracterizada e deformada da proposta inicial da sua passagem pelo SBT. A irreverência e o questionamento, outrora conduzidos por Groisman, deram lugar apenas ao entretenimento vazio. Lamentável. Na Concha Acústica, numa noite de homenagem ao grande Tim Maia (que deve ter se revirado no túmulo), Groisman reuniu a constelação do Axé Music e a roqueira Pitty, que disse a jornalistas no local que estava se sentindo “um peixe fora d’água”. Não seria pra menos. Entre as stars do axé, Ivete Sangalo (a garota-propaganda do Cansei), Cláudia Leitte, Durval Lélys, "uma das viúvas" do carlismo, Carlinhos Brown, entre outros. Na platéia, milhares de garotinhos e garotinhas de colégios e faculdades particulares de Salvador escolhidos a dedo pela produção do evento, na certa para apresentar um protótipo de jovem soteropolitano bem distante da realidade.

domingo, 14 de outubro de 2007

Movimento Pais por Justiça vai até o Senado

O movimento Pais por Justiça manifestou-se na frente do Congresso Nacional no último dia 10 para pedir a aceleração do projeto de Lei da Guarda Compartilhada. Todavia, a Justiça já conta com ampla jurisprudência para aplicar essa modalidade de guarda. Mas os pais querem a aprovação com urgência para que o presidente Lula sancione a lei, já aprovada na Câmara, até o final do ano. Veja o vídeo da matéria da Band.

Tropa de Elite: A violência que causa frisson à direita tupiniquim

O violento e psicótico capitão Nascimento, personagem interpretado por Wagner Moura, causa "boa" sensação ao articulista da Revista Veja-on-line, Reinaldo Azevedo. O personagem pode ser o fascista preferido de Azevedo

O foguetório disparado pela direita enaltecendo os atos do capitão Nascimento, personagem interpretado magistralmente pelo ator Wagner Moura no filme-polêmica Tropa de Elite, do diretor José Padilha, levou setores da esquerda nacional a embarcarem gratuitamente nas provocações a ponto de tacharem a película de fascista. Uma delas partiu do articulista e ponta-de-lança da direitona midiática, Reinaldo Azevedo, que comemorou em seu blog os atos do personagem em frase quase orgástica: “Capitão Nascimento derruba o bonde do Foulcaut”. Mas o filme não é fascista, ainda que fascistas queiram usá-lo para desaguar seus instintos. Tropa de Elite é um filme-depoimento à medida que expõe o olhar do policial militar sobre o cenário de um Rio de Janeiro violento e em guerra urbana no ano de 1997, quadro que não se alterou de lá para cá, com toda violência impetrada pelo Batalhão de Operações Especiais, o famigerado BOPE. Numa análise mais profunda da obra pode-se observar o debate acerca do consumo de drogas, por exemplo, que contradiz frontalmente a posição assumida pela revista Veja que aponta o consumidor como único causador do problema. O capitão Nascimento é um assasino, drogado, psicótico, consumidor de calmantes e barbitúricos vendidos legalmente. Recordando um trecho do filme, Nascimento tenta se explicar à mulher que o flagra ingerindo um punhado de comprimidos: “São calmantes, todo mundo toma, não faz mal”. Trata-se de um axioma inteligentemente levantado pelo filme. O próprio diretor defende-se da acusação de ter criminalizado os usuários de drogas: “Eu posso dizer qual é a minha posição sobre o assunto: do ponto de vista dos direitos civis, da liberdade civil, sou a favor da descriminação das drogas e da liberação do uso da maconha. Mas o filme não trata da minha visão, não é sobre mim, ele trata do ponto de vista dos policiais”. A afirmação foi feita na última segunda-feira, 08/10, quando Padilha foi alvo de entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura. Outras acusações recaíram também sobre a violência gratuita que o filme exibe. Ora, o cenário que permeia a película apenas reflete a realidade dos aglomerados de baixo poder aquisitivo das grandes cidades brasileiras, onde as populações vivem acuadas pela violência da empresa do narcotráfico e da polícia, cujos interesses muitas vezes se mostram convergentes quando o assunto envolve grana, o que foi fielmente retratado em Tropa de Elite. Talvez o livro de Michel Foulcaut, Vigiar e Punir, intertextualizado no roteiro do filme, tenha encontrado uma tradução à altura do que efetivamente seja o uso do Estado mediante à violência policial para punir os excluídos socialmente. Sim. Os personagens Neto e Matias, interpretados com maestria pelos atores Caio Junqueira e André Ramiro, respectivamente, encetam o discurso moralizante que tenta encerrar o problema da violência urbana no Rio de Janeiro, e de resto no país inteiro, como oriunda unicamente do consumo de drogas. Na opinião deles, são os “maconheiros” os causadores daquele inferno à medida que estimulam o narcotráfico. E é exatamente essa visão, limitada, que turbina e estufa os argumentos da direita, que não encara o debate sobre a legalização da maconha. E onde os consumidores vão adquirir drogas? Entre os excluídos socialmente, linhas de frente de cadeias comerciais que envolvem policiais civis e militares e o Poder Judiciário. E aí, claro, em meio a esse caldeirão brota a marginalidade que age reproduzindo a violência construída pelas próprias classes dominantes. Onde não há expectativa de qualidade de vida, nem tão pouco sobrevivência com dignidade, locais de ausência permanente de políticas públicas, não resta outro caminho se não fazer dinheiro com o que se vende caro e só por lá se acha: drogas. É ingênuo pensar, como argumentam os “pensadores” da Veja, que o consumo de drogas um dia se encerrará na humanidade. Piada. O homem, desde que se encontra na Terra, sempre se drogou e se drogará, de forma lícita ou ilícita, a depender do ambiente sóciopolítico-cultural que esteja envolvido. A única forma de se por fim ao narcotráfico é descriminalizando algumas drogas, já que o problema deve ser visto pela ótica da saúde pública e não moral, o que é de fato ridículo. Enquanto isso, a indústria da morte vai acumulando estatísticas país afora sob o raciocínio de que apenas medidas policialescas podem dar conta do problema. O filme de Padilha expõe esse paradoxo de forma ímpar quando apresenta a sinergia envolvendo policiais corruptos e mal pagos que abastecem o narcotráfico de armas. Como o próprio diretor afirmou, Tropa de Elite pode ser analisado com a cor dos óculos que se desejar, e, no caso dos articulistas da Veja, o prisma predominante foi o tom sombrio daqueles que tudo dariam para serem, eles próprios, pequenos clones do capitão Nascimento, já que, ao que parece, neles o prazer pela violência gratuita enseja uma sensação de orgasmo permanente.

sábado, 13 de outubro de 2007

Clipe, Banda F.U.R.T.O - Egocity

Marcelo Yuca,ex Rappa, canta esse libelo anti-neoliberal. Prova de maturidade do grande músico e compositor.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Che Guevara é maior do que as mentiras e cretinices da revista Veja



Bíblia da classe média brasileira, a revista Veja chafurnou no seu índice de cretinice, empulhação e mentiras. Veículo impresso semanal mais recheado de publicidade do país, baluarte do pensamento da direita brasileira, resolveu decretar por conta própria a morte histórica de Ernesto Che Guevara, que no último dia 08 de outubro completou 40 anos de morto, quando foi fuzilado desarmado pelas tropas do exército boliviano sob a supervisão da CIA. A “matéria” da Veja (que, diga-se, tudo que nela estiver escrito é bom que se reveja) afirma que “conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na tentativa de entender como o rosto de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário, foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas”. Risível. Eivado de achismos e ilações, o texto, medíocre, traz como fontes apenas desafetos políticos do guerrilheiro exilados nos Estados Unidos e um “historiador”, tal de Jaime Suchlocki, ilustre desconhecido de uma universidade de Miami. Sopa de letras de difícil palato para quem conhece o mínimo da história real do líder revolucionário, o texto da Veja se limita apenas a chamar Guevara de porco e apontá-lo como assassino cruel de pessoas indefesas. Fica difícil analisar esse tipo de asneira. Só falta afirmar que as guerrilhas que ele comandou enfrentaram “dóceis” seres humanos, a exemplo do sanguinário ditador cubano Fulgência Batista e o violento chefe tribal do Congo, o coronel Mabuto, que foi armado pelos Estados Unidos para conter o avanço do líder político popular Laurent Kabila. A farsa é a própria revista Veja. Na mesma edição, a paranóica publicação da direita tupiniquim destila ódio contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra pelo fato desse movimento social ter realizado convênios com universidades públicas para que sem-terras freqüentem cursos superiores. Uma afronta ao ideário bushniano de Roberto Civita e cia, inclusive seus asseclas de plantão, como Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo. A graduação dos trabalhadores rurais seria um acinte às oligarquias nacionais e seus pit bulls da mídia. Título de doutor só para os mesmos, ou seja, os mais abastados da sociedade a qual eles julgam um feudo dos seus domínios. Por isso desconstruir Che Guevara e de resto toda constelação simbólica que remeta aos ideários das transformações sociais. Não se espantem se futuramente aquele pasquim propagandístico resolver querer apagar a imagem de Bob Marley e outros líderes do Terceiro Mundo. É a revista Veja, doença sociopatológica que vitima parcelas consideráveis da sociedade. Verdadeira fábrica da desinformação e produção de oligofrenia coletiva.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Reação já, Wagner!



Nunca um governo da Bahia foi tão cobrado como o atual, sob o comando de Jaques Wagner (PT). Existe uma espécie de “venezuelização” à baiana nos últimos oito meses. O intuito é claro: desconstruir a imagem do governo que encerrou o comando carlista que há 16 anos ininterruptos mandava no Estado com mão de ferro. E não é com a morte do senador, patriarca do clã e Don Corleone tupiniquim, que a artilharia cessaria. A propósito, foi com muita propriedade que o cientista político Paulo Fábio Dantas levantou essa tese em opinião publicada no jornal A Tarde. Para ele, o carlismo não se resumiria à pessoa de ACM em si, mas numa espécie de modos operandi das classes dominantes e oligarquias do Estado. Correto. O legado dos desmandos de décadas em relação à saúde, educação e segurança pública virou munição contra o atual governo. Sem ao menos ter tido tempo para um diagnóstico mais apurado da situação, a gestão de Wagner é violentamente cobrada como se responsável fosse pelo quadro. E os meios de comunicação são os pincéis usados para a pintura de uma aquarela sinistra em tons sombrios. O que mais notabilizou o carlismo foi o uso da máquina pública para financiar grupos e projetos de interesses privados, uma espécie de clube do bolinha, verdadeira patota que se aboletava e enriquecia às custas do erário. Os tentáculos irradiavam-se em todos os setores da economia. Comando de um único homem que delegava a um único grupo. Todavia, quando é iniciada uma gestão que abre canais de discussões com as demandas sociais, impõe práticas democráticas de decisão, apresenta total transparência do orçamento público e estabelece uma mesa de negociação permanente com os servidores públicos, esta fica suscetível às mais radicais críticas e comentários. Estamos diante, sim, de um embate de hegemonias, na qual as velhas estruturas políticas, mas ainda com alto calibre e poder de fogo, principalmente midiático, buscam recompor os espaços perdidos e se colocam como “novas” opções de poder. Isso porque é sensível a mudança de eixo da atual gestão, ainda que a mesma se apresente como uma aliança permeada por amplo leque ideológico. Frente política que para ser administrada requer cintura de bailarina e seriedade de propósitos. É maioria parlamentar assemelhada à placa de gelo fino em meio a verão escaldante, mas necessária à governabilidade que visa, sobretudo, reconduzir o Estado ao patamar do embate político civilizado, o que antes não ocorria. No que se refere às políticas públicas, por exemplo, estas já dão claros sinais de opção por programas que resultem em investimentos voltados à agricultura familiar, micro-crédito, incentivos a pequenos e médios negócios, infra-estrutura em comunidades menos favorecidas, incremento dos recursos humanos e materiais nas áreas de saúde, entre outras medidas. Notadamente que a reação da Bahia quatrocentona faz coro com a reação das elites nacionais, imperando preconceitos e resistências às mudanças. Aqui o Cansei não precisa nem se articular, já que se trata de fenômeno atávico da própria estrutura psico-social das aristocracias locais, que ainda sentem saudades da casa grande como se fosse ontem. Diante de tudo isso, urge reação imediata do governo Wagner. O grupo político no poder tem que falar. Tem que se apresentar à sociedade e apontar o que está sendo feito e o que outrora não era realizado. Tem que desconstruir mitos que se enraizaram como verdadeiros arquétipicos no inconsciente dos baianos. Herança horrenda do mandonismo, da força arbitrária que “resolvia” na fachada, mas que angariava capital político na troca de favores e no chantagismo barato. Quem não se lembra das passagens públicas de ACM aos gritos de “esse é o homem”. Substituição de paternidade pela podagem da reflexão crítica da realidade. E assim o Estado foi forjado, narcotizado por uma lógica do poder de “um homem”, que era o mecenas da cultura, das artes, modernizador econômico, senhor de tudo, inclusive da violência física e política. Fascismo em alto grau de refinamento. É hora de dizer, de usar os parcos recursos midiáticos disponíveis para buscar neutralizar a avalanche de acusações construídas pela oposição. A Bahia, no cenário de representação edificado por tais setores na mídia, se tornou um “Estado em crise”. Espessa névoa açodada com o intuito de nublar a realidade. E falando em realidade, qual o motivo que levava as TV´s, rádios e jornais locais falarem nada ou pouco dos catastróficos índices sociais da Bahia quando estava sob o tacão das gestões anteriores, todas títeres do carlismo? Ou quando falavam, não escandalizam como fazem agora. E o caso Axéduto? O caixa dois do carlismo apenas foi noticiado pela revista Carta Capital em matéria assinada pelo jornalista Leandro Fortes. Na seara local, falas esparsas ou mudez de conveniência, apenas. De resto, microatritos temporãos e notas vagas de articulistas e comentaristas que não deram prosseguimento ao caso. É a Bahia dos velhos donos que não admite alternância de poder, apenas o concede quando seus interesses se sobrepõem aos da maioria da população.

domingo, 30 de setembro de 2007

A direita atuante: parlamentares protegem prática de trabalho escravo



Não foi noticiada em nenhum dos grandes meios de comunicação do país a atuação dos senadores Romeu Tuma (DEM-SP), Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Kátia Abreu (DEM-TO), Cícero Lucena (PSDB-PB) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) em impedir a prática de trabalho escravo na Fazenda Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA). No dia 30 de junho passado a agroempresa foi palco da maior libertação de trabalhadores da história do país. Ao todo, 1.064 empregados que trabalhavam na lavoura de cana-de-açúcar foram resgatados pelo grupo móvel de fiscalização - formado por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), procuradores do Ministério Público do Trabalho e delegados e agentes da Polícia Federal.
Esses senadores pretendem desqualificar a atuação dos órgãos públicos. A maior entusiasta entre eles é a senadora Kátia Abreu. Segundo a Agência Senado, Kátia Abreu afirmou que a empresa “é muito bem administrada e forma uma comunidade de trabalhadores rurais”. Com esse argumento a parlamentar pretende questionar o trabalho dos fiscais.
O posicionamento cripto-fascista de Kátia Abreu não é novo. A senadora é notória opositora do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando deputada federal, na legislatura passada, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação de leis que contribuiriam com a erradicação dessa prática.
As equipes táticas de fiscalização comandadas pelo Ministério do Trabalho, em parceria com outros órgãos federais, já libertaram em torno de 26 mil pessoas desde que o trabalho escravo foi qualificado no Brasil, em 1995.
Vida precária - O Ministério Público Federal no Pará já havia ajuizado, desde o último dia 21, ação penal por trabalho escravo contra Murilo Vilella Zancaner, Fernão Villela Zancaner e Marcos Villela Zancaner, proprietários da Pagrisa.
De acordo com fontes noticiosas do Pará, o MPF concluiu, com base nas provas e no relatório, que os irmãos Zancaner, “dotados de vontade livre e consciente, reduziram os 1064 trabalhadores à condição análoga a de escravo, submetendo-os a trabalhos forçados, à jornada exaustiva e cerceando a liberdade de locomoção desses trabalhadores, por meio da dificuldade de saída da fazenda, pela parca percepção de vencimentos, atrelada à cobrança excessiva pelos medicamentos e à cobrança de transporte para a cidade”. Alguns trabalhadores não ganhavam nem salários, já que os descontos ilegais realizados pela empresa consumiam quase tudo o que tinha para receber.
As equipes de fiscalização também encontraram um quadro dantesco na Pagrisa. A comida fornecida estava estragada e várias pessoas estavam sofrendo de náuseas e diarréia. A água para beber, segundo relato dos empregados na fazenda, era a mesma utilizada na irrigação da cana e, de tão suja, parecia caldo de feijão. O alojamento estava superlotado (não havia espaço para todos) e o esgoto corria a céu aberto. Vindos em sua maioria do Maranhão e do Piauí, os trabalhadores não tinham transporte à disposição para levá-los da fazenda ao centro de Ulianópolis, distante 40 quilômetros.
Proprietários e empresários rurais têm pressionado para tirar poderes da fiscalização rural. A emenda 3 ao projeto que criou a Super Receita é um exemplo. A emenda, que foi vetada pelo Palácio do Planalto, previa que os auditores fiscais não teriam poder para reconhecer vínculos empregatícios no caso de contratos de pessoas jurídicas, ficando esse dever a cargo da Justiça.
Na prática, isso tirava os poderes da fiscalização do Estado. Muitos fazendeiros montam empresas de fachada para o seu contratador de mão-de-obra empregar safristas, o que livra as empresas de arcar com os direitos trabalhistas que também nunca serão pagos pelo contratador - boa parte das vezes tão pobre quanto os peões. É a direita mostrando sua cara sem vergonha de fazê-lo quando se trata de blindar os interesses do capital, mesmo que sustentados na abominável prática do trabalho escravo.

domingo, 23 de setembro de 2007

Golpismo acelerado


Dois pesos, cinco medidas. À meia noite da quarta-feira passada uma notícia foi ao ar transmitida pela Rede Globo: “O procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, denunciará o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) por ter recebido dinheiro repassado pela empresas do publicitário Marcos Valério (...) o senador, segundo o procurador, estaria envolvido com o ´suposto mensalão mineiro` quando foi candidato a governador em Minas nas eleições de 1998”. Pergunta-se: o que ocorreu não foi o mensalão do PSDB, que no referido pleito estava aliançado com o à época PFL, hoje DEM? Curioso, o caixa dois do PT é o “mensalão do PT” e o do PSDB é o “mineiro”. Mais: a notícia simplesmente desapareceu das telas e pouco figurou nos jornalões do país. E será muito difícil que a imprensa golpista de fato cubra esse episódio. Após adaptar o termo cunhado pelo ex-deputado federal Roberto Jéferson, e com ele fazer verdadeiros carnavais midiáticos contra o governo federal, sem que nada fosse comprovado sobre o episódio, a imprensa de Arnaldo Jabor, Miriam Leitão, Diogo Mainardi, Ali Kamel, Otávio Frias e cia agora formula um bem articulado escapismo. Ou o fato não tem critério de noticiabilidade?
Enquadramentos e agendamentos são dispositivos de construções de realidades utilizados pelo jornalismo, já que configurados pelo uso político. No Brasil, a imprensa “gorda” e conservadora é o maior partido. Quer ditar a agenda política desrespeitando a vontade da maioria da população. Assim como não noticia devidamente o “mensalão mineiro”, também não o faz com os dados revelados pelo Instituto de Pesquisa Econômico Aplicada (IPEA), que aponta queda consistente na desigualdade social do país. “Todas as faixas da pirâmide de renda no Brasil conseguiram ganhos, inclusive os mais ricos. No entanto, a base foi a que obteve os maiores ganhos relativos”, afirmou Ricardo Amorim, economista da Fundação Getúlio Vargas, ao jornalista Paulo Henrique Amorim.
Explica-se. Causa verdadeira ojeriza e irrita sobremaneira as elites nacionais, e via de conseqüência seus representantes na mídia, o fato de o governo está implementando políticas públicas de transferência de renda. O alarido dos seus representantes no Congresso é sintomático. A violência dos discursos contra a manutenção do CPMF por parte da direitona, assim como outros impostos, visa exatamente desarticular tais políticas sociais, mesmo que demasiadamente tímidas. A arrogância liberaloide desses setores no parlamento ganha então significativos espaços entre colunistas e comentaristas dos jornalões e redes de TV do Brasil. A cobrança pelo “corte de gastos” e similares, disfarçada de economês jornalístico, turbina o noticiário. Mas nada que deponha contra qualquer estratégia neoliberal. Pelo contrário, a ordem é sedimentar no inconsciente dos públicos leitor, ouvinte e telespectador a ideologia do não-estado e da absoluta supremacia dos interesses do mercado.Enquanto isso, o lema é preservar, blindar mesmo, os projetos políticos neoliberais capitaneados principalmente pelo PSDB e possíveis aliados em 2010. Não esperemos, portanto, nenhuma cobertura mais ampla e consistente sobre os ocorridos dos oito anos da era FHC, quando o país quebrou três vezes e se desfez de importantes patrimônios públicos. Até mesmo porque o demiurgo da sociologia atua como franco atirador no front da mídia gorda, sua aliada que o preservou durante oito anos e ainda continua a fazê-lo. É estratégico para a retomada de amplas políticas neoliberais o cenário de representação construído por esses interesses, o qual “decreta” que este é o governo mais “corrupto” de toda a história do país. E o passado? Bem, este deve ser sepultado e apenas citado numa espécie de memória seletiva.

"Cansei" à baiana; filhinhos-de-papai vão às ruas


Foto: Iracema Chequer

A lente da repórter-fotográfica Iracema Chequer captou uma manifestação do movimento Cansei à baiana. O fato ocorreu na última sexta-feira, dia 21/09, aqui em Salvador, quando alunos dos colégios particulares Marista, Antônio Vieira e Mendel foram às ruas protestar contra a “política”. De certo que existe muita coisa para protestar, mas o interessante é que quando se fala em manifestação contra a “política” soa como algo extremamente deslocado de qualquer contraponto crítico. Afinal de contas, qual o propósito? Se indignar contra a absolvição de Renan Calheiros? Se é, qual a argumentação? Será que aqueles adolescentes conhecem quem é Renan e qual o seu papel naquela emporcalhação do Senado? Parece que se tratou de uma manifestação do vazio, do discurso do nada, do oco dominante nas cabeças da geração pós-Xuxa. Quiçá incentivados pelos próprios empresários, donos das escolas onde estudam, esses meninos e meninas talvez não tenham construído o senso crítico necessário para entender que a política não é um ente deslocado das suas realidades. Não perceberam os filhinhos-de-papai que tal protesto, por si só, já é um ato político. Um ato, diga-se, monitorado exatamente pela ausência de uma reflexão mais crítica por parte deles da realidade que os rodeia. A foto capta três manifestantes que completavam com os demais a palavra democracia. Os três formam a palavra DEM. Sugestivo, não?

sábado, 15 de setembro de 2007

A arte de encantar o incauto




Com o título de “Conexão Bahia Século XXI”, o publicitário, compositor, dublê de apresentador, humorista e arquimilionário Nizan Guanaes conseguiu reunir ampla platéia no Teatro Castro Alves para falar coisas desconexas e receber aplausos. Interessante. Para o gênio da criação publicitária, a solução para os problemas sócio-econômicos do Estado está na reimplantação dos bondes em Salvador, concursos de recitagens de poesias de Castro Alves, apresentações de música clássica, estádio de futebol na orla de Água de Meninos, entre outras idéias “criativas”. Sugere o publicitário que Salvador se transforme até em “capital nacional de eventos”. E ele exemplifica: “Porque não trazer um congresso internacional de odontologia para cá? Nós somos a terra do sorriso”. Bom lembrar ao nosso gênio que os baianos riem mesmo, até da própria miséria, mas a maioria sem os dentes na boca. O “grande” evento, recheado de peças publicitárias, foi fechado com uma ode à Bahia e aos seus filhos ilustres, com direito até à música-homenagem ao centenário de Dona Canô. Detalhe: para ouvir essas soluções “extraordinárias” o espectador pagou de R$60 a R$100. É a própria arte de encantar o encauto. Haja criatividade!

A inconveniência da conveniência



"O voto secreto é um instrumento que deixa o parlamentar a sós com sua consciência em uma hora que é sublime, em que o voto é livre de quaisquer pressões, que podem ser familiares, do poder econômico, de expressão militar ou de setores do Executivo. Voto pela manutenção do voto secreto".

A citação acima é do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) quando, em 13 de março de 2003, defendia posição contrária à do senador Tião Viana (PT-AC) que havia proposto, mediante emenda constitucional, votação aberta para processos de cassação no Senado. Mas é esse mesmo senador que agora argumenta a “imoralidade” da votação secreta. Hipocrisia com juros e dividendos. Como de resto, de toda grande imprensa golpista do país. A absolvição do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ocorrida na quarta-feira passada (12/09), rendeu inúmeras colunas e comentários dos não menos golpistas e oportunistas articulistas dessa mesma imprensa. E a culpa pelo resultado do julgamento recaiu sobre os seis votos de abstenção dados por senadores do PT, já que a outra metade da bancada do partido votou pela cassação do senador. E quanto aos votos da oposição que ajudaram a safar o pescoço do presidente do Senado? Estes não contam? Estratégia e jogo político só valem para as oposições, e para o governo não?
É dado como favas contadas que Renan se licenciará do mandato, Tião Viana, vice-presidente da casa, assumirá, e, posteriormente, o PMDB endossará seu nome para presidir o Senado. O menestrel de Murici não é nenhum santo, e isso é de conhecimento até dos coqueirais da praia de Pajuçara. Todavia, sua imolação pública tem caráter nitidamente político de escandalizar a opinião pública e enfraquecer a base de sustentação do governo.
A acusação que recaiu sobre o senador era de que ele teria cometido crime de ordem fiscal. Calheiros teria recebido dinheiro não declarado de uma empreiteira para pagar pensão alimentícia à filha que tem com a jornalista Mônica Veloso. Caso seja verídica essa informação, hipótese que este colunista não pode descartar, tal crime deve ser comprovado mediante trâmite especifico no âmbito das delegacias de Julgamento da Receita Federal, onde deveria, ou deverá, seguir rito próprio. Confirmado o crime, aí sim, o senador poderia, ou poderá, ser julgado no Senado por quebra de decoro parlamentar.
Mas o que se viu nas semanas que precederam o julgamento naquela casa foi um verdadeiro bunker midiático armado para dar continuidade à artilharia pesada contra o governo. E essa artilharia não cessará, acreditem, e faz sentido compreendê-la. Os últimos dados sócio-econômicos divulgados pelo IBGE apontam que o país está melhor do que há seis anos. Melhoraram a renda, a escolaridade, o poder de consumo e o mercado de trabalho em geral.
As elites brasileiras não admitem que este governo acerte. É preciso defenestrá-lo, logo, antes que milhões de pessoas que estejam sendo beneficiadas por essas políticas públicas, ainda que tímidas, não “inventem de tomar a historia na mão”. Aliás, essa era uma das preocupações de um dos arautos do liberalismo no nascedouro do Brasil, lá pelos idos de 1805. O jornalista Hipólito José da Costa, homem de influência decisiva sobre Bonifácio de Andrada, temia sobremaneira os movimentos populares na colônia que buscassem edificar uma verdadeira república.Fato concreto: para as oposições a trajetória de Calheiros só foi maculada quando um escândalo de ordem político-sexual foi instrumentalizado pela revista Veja como munição dirigida ao Palácio do Planalto. Seu passado, talvez muito mais comprometedor do que seu presente, nunca foi alvo de especulação por parte do front oposicionista. Recomenda-se que esqueça sua conduta à frente da pasta da Justiça à época de FHC e os “serviços prestados” ao processo de reeleição do mesmo. No mais, tudo se redunda no império da hipocrisia comandado pela mídia e oposição golpistas.

domingo, 2 de setembro de 2007

A história de John e João; O sonho americano e o pesadelo brasileiro


John Maguire era casado com Rebeca Wilson Maguire. Eles tinham um filho, o pequeno Ted, de quatro anos. John trabalhava como gerente numa loja Wall Smart da cidade de Pittsburgh, estado de Pensilvânia. Ele vendia material esportivo e suprimentos para caça e pesca. Rebeca era dona de casa e cuidava do Ted. O casal tinha um sonho: comprar uma bela casa, grande, com gramado e espaço para reunir os amigos no sábado. John procura então o gerente do banco do qual é cliente e contrai um financiamento de US$ 250 mil para adquirir o sonhado imóvel. O banco concede o empréstimo e hipoteca a recém-adquirida casa dos Maguires até que o casal pague o investimento. John e Rebeca, como típicos classe-média norte-americanos, terão que se esforçar para quitar as prestações da casa. No seu país não há programas de financiamentos públicos por parte do Estado para adquirir casa própria. Isso vem ocorrendo desde que um cara chamado Ronald Reagan assumiu a presidência por lá e começou a repassar apenas aos bancos privados essa função. Foi nesse período também que a previdência se tornou totalmente privada na pátria de John e Rebeca. Só que o plano dos dois começou a ficar ameaçado por motivos financeiros. As vendas na loja que John trabalhava não iam bem e eles se tornaram inadimplentes com o banco. John não estava conseguindo pagar as altas prestações do imóvel e ainda se lembra do sorriso fácil do corretor que o convenceu a assumir a empreitada. Este lhe apresentava um futuro de sonhos e felicidades com sua Rebeca numa casa bacana. Mas o banco o qual nosso amigo contraíra o financiamento já havia vendido sua dívida de hipoteca a outro, pois era comum no país da liberdade econômica as instituições financeiras negociarem entre si hipotecas como fator de investimentos futuros. O pagamento fiel das prestações dos imóveis os valorizava sobremaneira. As hipotecas ficavam apetitosas para quem as administrava. Um big negócio. Os bancos lucravam muito. Mas esse lucro passou a ser uma forte dúvida. Em cadeia, as instituições financeiras começaram a aferir perdas estratosféricas. Não só John, mas milhões de Johns nos Estados Unidos entraram num clube de inadimplência coletiva. Eles queriam casa bacana para jogar beisebol e assar salsichas. Sonhavam juntos embalados pelos anúncios atrativos veiculados na TV. Foi quando alguns entendidos passaram a antever o caos e apontaram uma “bolha imobiliária” nos EUA. Era gente comprando sem saber se podia continuar pagando. Era banco emprestando sem saber se iria receber de volta. A bolha estourou. Os bancos norte-americanos, diante desse pepino, tiveram que buscar dinheiro em outros investimentos, ou melhor, retirar dinheiro. Retiraram grana de muitas empresas que eles tinham investimentos para recompor o rombo. Então as cotações das ações dessas empresas nas principais bolsas de valores do mundo entraram em queda livre. Eram empresas que, por sua vez, também investiam em outras de outros países. Como um mata-borrão gigante, o dinheiro começou a escoar no ralo do mundo. Distante da terra de John, num certo país chamado Brasil, um outro João trabalhava como operário numa fábrica de carros. Essa empresa tinha ações nas mãos do mesmo banco que John, o norte-americano, contraíra o financiamento. O banco o qual John tornara-se devedor da hipoteca então se desfez de boa parte dos papéis da fábrica de automóveis que João era operário, que ficou em apuros econômicos. Para ficar mais “leve” no mercado e se tornar mais “lucrativa”, a fábrica que empregava João resolveu o demitir assim como a milhares de outros Joãos, que perderam seus empregos. Tanto o banco lá nos EUA e a fábrica no Brasil, que tem ações negociadas no banco dos EUA, jogaram ao mar os “excessos”, e esses “excessos” representaram milhares de famílias sem sustento. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Não importava para ambos se aumentaria a fome, a miséria, a violência e o drama social em todas as partes do planeta. Mas o dono do banco que John tomou o empréstimo e não pagou conseguiu se safar, pois bateu à porta do Governo dos Estados Unidos, chorando, e exigiu que o Banco Central daquele país, o FED, lhe desse socorro, lhe injetando dinheiro público. E esse mesmo FED “recomendou” aos bancos centrais dos outros países, a título de contornar a crise gerada pela especulação desses indomados senhores do mercado, que também injetassem dinheiro público para socorrê-los. Para eles, o Estado agora tinha função. Pronto, o playland dos banqueiros e especuladores estava a salvo, com dinheiro público, diga-se. Seus donos continuarão abastados e arquimilionários. E John e João, como ficaram? John perdeu a casa dos sonhos e mora agora de aluguel no subúrbio de Pittsburgh, onde passa os finais de semana tomando cerveja, assistindo partidas de beisebol na TV e aguardando um comercial que possa atraí-lo para um novo imóvel dos sonhos. Já o João do Brasil, que nunca sonhou com casa bacana, agora mora na casa dos pais, na periferia de São Paulo, com mais oito pessoas. Está desempregado, a mulher está grávida e, diferente do John lá de “cima”, seu sonho de “consumo” é apenas um novo emprego. Mas assim como seu homônimo norte-americano, João também assiste TV todos os dias, principalmente quando levanta pela manhã e vê uma jornalista muito séria, “conhecedora profunda” da economia, que no seu comentário diz: “o mercado amanheceu nervoso”. João não entende nada do que ela quis dizer, apenas se posta à mesa, abre os classificados de emprego e sublinha os anúncios para mais um dia de batalha pela sobrevivência. A jornalista se despede depois de ouvir empresários e investidores sobre o “nervosismo do mercado” e anuncia a próxima programação.

sábado, 1 de setembro de 2007

Plebiscito pela devolução da Vale do Rio Doce ao povo brasileiro

Movimentos sociais, pastorais e centrais sindicais estão organizando, a partir de hoje, 1º, a realização do plebiscito pela anulação do leilão da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). A campanha A Vale é Nossa quer ouvir respostas da população em consulta a ser realizada até o dia 7 de setembro. Pesquisa do Instituto GPP revelou que 50,3% dos brasileiros são a favor da retomada da Vale pelo governo brasileiro. De acordo com informações da CUT, são esperados mais de 12 milhões de votantes. A entrega da companhia estatal, fundada em 1942 com recursos públicos do povo brasileiro, ocorreu em 1997 durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. A veda da Vale se constituiu numa agressão ao país e à sua população. A Vale tinha patrimônio avaliado à época em US$ 100 bilhões e foi vendida por apenas US$ 3,3 bilhões. Hoje, a empresa é controlada pelo consórcio Valepar (que tem a presença do banco Bradesco) e pelos acionistas preferenciais (62% deles estrangeiros). O atual comando da Vale afirma preservar o meio ambiente, quando o trabalho de formação para o plebiscito aponta o contrário: a produção da companhia explora a camada vegetal da Amazônia com o objetivo da exportação. Interessante notar que o mesmo Bradesco que se apresenta como ecologicamente correto, na verdade investe na devastação de amplas áreas da Amazônia.
Perdas - E o que foi que o povo brasileiro perdeu? Vejamos: a empresa atua em 14 Estados da federação, possui nove mil quilômetros de estrada de ferro, é proprietária de dez portos e está presente nos cincos continentes. A Vele detém importantes e estratégicas jazidas de mineiros, como nióbio, urânio, ouro, manganês, etc., sendo que alguns destes minerais possuem reservas somente em solo brasileiro. Líder mundial no mercado de minério de ferro, a Vale é a segunda maior produtora integrada de manganês e ferroligas, além de maior prestadora de serviços de logística do Brasil. Além disso, a empresa comercializa seus produtos para indústrias siderúrgicas do mundo inteiro.
O plebiscito se inscreve como mais um passo à maturidade política do avanço democrático brasileiro. Democracia sem participação popular não existe. No momento em que escrevo ocorre o Terceiro Congresso do Partido dos Trabalhadores. Certamente, diversas correntes da agremiação deverão se manifestar acerca da reestatização da Vale. No entanto, falta uma palavra mais enfática por parte do Governo em relação à questão. A gestão de Lula titubeia e se deixar cegar pelas nuvens de fumaças jogadas pela imprensa marrom e a direita nacional. É dever do Estado se posicionar perante tal fato. Na Venezuela e Bolívia os respectivos governos se encarregaram de encetar processos de nacionalizações e reestatizações de setores estratégicos da economia, principalmente quanto à exploração de minerais. As estratégias de Chavéz e Morales se sustentam na mobilização popular. E é o que aqui deve ser feito. O processo participativo é fundamental para que o país recupere sua soberania, estraçalhada ao longo dos oito anos de mandato dos tucanos em parceira com os velhos oligarcas do PFL.

Imprensa e Justiça: coação ou convergência?

A campanha às eleições de 2010 continua a pleno vapor com os mesmos arranjos de clichês e discursos que a de 2006. O sociólogo inglês e especialista em estudos de mídia John B. Thompson, no seu trabalho O Escândalo Político, Poder e Visibilidade na Era da Mídia, aponta os escândalos midiáticos como ferramentas que visam dar visibilidade a projetos político-eleitorais. Afirma Thompson: “A relação entre políticos e imprensa pode, ocasionalmente, ser próxima e harmoniosa, na medida em que eles tiverem ligados por formas de dependências recíprocas. Nesse sentido, é importante cultivar a mídia, ou mesmo tê-la à mão, dominado-a ou adquirindo-a”.
No decorrer da semana passada, a grande mídia, em consonância política com o Supremo Tribunal Federal (STF), retomou o agendamento do chamado Mensalão. Já era previsto. Passada a febre do “Apagão aéreo”, que resultou na queda do ministro Waldir Pires e a sua substituição pelo turrão gaúcho Nelson Jobim, e a pífia iniciativa da campanha Cansei, a artilharia oposicionista foi realimentada com balas já gastas. Com certeza, por falta de novo estoque. Com direito às primeiras páginas e chamadas nos principais jornais, revistas e telejornais do país, a mais alta corte do Brasil levou as 40 pessoas implicadas no suposto esquema do mensalão à condição de réus. Nesse grupo, de forma estranha, dois deputados do PT, Professor Luizinho e João Paulo Cunha, são acusados de terem vendido seus votos no Congresso Nacional para o próprio governo que eles apoiavam.
Presunção da culpa - Estava dada a senha para mais um escândalo político com o aval da presidente do STF, ministra Ellen Gracie Northfleet, a mesma que se recusa a autorizar que a Polícia Federal abra os HD’s dos computadores do banqueiro-espião Daniel Dantas. Vem à baila, novamente, a presunção da culpa. Substituindo os magistrados e tomando emprestadas suas togas, os grandes meios de comunicação já anteciparam o veredicto: todos são culpados e alguns formaram quadrilhas de esquemas criminosos. Sabe-se que para que se prove tal ato serão necessárias provas robustas num longo processo. O STF, na verdade, operou uma decisão meramente política. Mas é uma decisão que abastece a contento o manancial de munição das oposições e, via de conseqüência, dos grandes grupos de mídia a ela ligados. O ataque é dirigido ao governo. Nesse arsenal, tudo cabe. Após a decisão do STF, o candidato do PSDB e da opus Dei Geraldo Alckmin disparou: "É o governo Lula quem está no banco dos réus. Isso é óbvio, pois tudo aconteceu dentro do governo".
O que se estabelece, de fato, é o descontentamento com o governo por parte de setores cada vez mais amplos das elites nacionais. Reina o ódio e o preconceito de classe. Seja por parte de um João Dório Jr., especialista em organizar desfiles de cachorrinhos de madames, e de articulistas do naipe de Alexandre Garcia, fiel porta-voz do neoliberalismo na Rede Globo. Posterior a avaliação do STF, começaram a vazar informações acerca do posicionamento dos ministros daquela corte. Estariam eles votando sob a coação da mídia? Não é preciso ser vidente para se chegar a essa constatação. Mas uma ressalva deve ser feita: não é bem coação, mas convergências de interesses de cunho estritamente ideológico, inclusive por parte de quem preside o STJ, Ellen Gracie. A mídia apenas obriga o Supremo ser mais célere no andamento do processo. O julgamento do “mensalão”, friso, é combustível planejado para gastar e detonar em 2010. E a estratégia é que a cada passo dado no processo, a grande imprensa, com azeitada correia de transmissão, antecipe-se presumindo culpas em discursos propagandísticos. E são os mesmos jornalões, televisivos e impressos, que continuarão se omitindo quanto à cobertura da mobilização para exigir a manutenção do veto à Emenda três e de resto a todos os fatos envolvendo mobilizações por parte de categorias profissionais e movimentos sociais. O processo do mensalão no STF é parte integrante de uma estratégia de poder conduzida pela direita nacional e internacional que quer e deseja retomar o controle político do país para acelerar a implantação das políticas neoliberais. O objetivo é manter boa parte da população sob a névoa de uma espécie de “modelo” de caos. Um “caos”, diria, intermitente e que deve ser renovado como forma de manter o estoque discursivo para o emplacamento do projeto político oposicionista.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A violência da emenda 3

Um alerta deve ser dado a todos os assalariados que vivem do esforço do seu trabalho. Urge grande mobilização nacional pela manutenção do veto presidencial à Emenda 3, Projeto de Lei aprovado na Câmara e no Senado, que desregulamenta as leis trabalhistas no Brasil. O projeto havia sido vetado pelo presidente Lula, mas o Congresso quer pô-lo novamente em votação. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) manifestou-se contra o PL na semana passada com mais de 30 mil pessoas à frente do Congresso Nacional. Trata-se de um retrocesso histórico ante as conquistas sociais e trabalhistas do povo brasileiro. A direita, com seus representantes no parlamento, vem perseguindo o fim do décimo-terceiro salário, da licença-maternidade, da multa rescisória de 40% do FGTS em caso de demissão sem justa causa, entre outras garantias da blindagem social-trabalhista. O patronato também quer extinguir a Carteira de Trabalho e transformar os contratos em relações econômicas entre pessoas jurídicas. Ou seja, o trabalhador fica obrigado a abrir firma e descontar notas fiscais com o patrão como se empresa fosse, mas só que obedecendo a todas as regras de tutela do capital numa relação empregado-empregador. Isso é fascismo! A trama urdida pelo capital no prostituído parlamento brasileiro tem como linha de frente, entre outros partidos, o Democrata, PSDB, PTB e PMDB. Há cerca de três meses comentei neste blog o “preparo” ideológico da direita para a implementação dessa medida abusiva. Na ocasião, chamava atenção para a postura da Rede Globo ao veicular, durante uma semana, uma série de reportagens sobre o mercado de trabalho no Brasil. O discurso, dissimulado de “solução”, ancorava-se na flexibilização do trabalho, nome “técnico” dado por “especialistas” do setor para afirmar a necessidade de se desconstruir as leis trabalhistas. De acordo com as fontes ouvidas pela Globo, só o fim da atual legislação proporcionaria um boom de novos empregos no Brasil. Segundo eles, as garantias sociais estariam travando o desenvolvimento e impedindo novas contratações. Fico a imaginar como o Bradesco e o Itaú, que lucraram (lucro líquido!), só no primeiro semestre desse ano, R$ 1,7 bi e R$1,9 bi, respectivamente, poderiam estar tendo “dificuldades”. É essa a modernização da economia perseguida pela direitona tupiniquim. E é exatamente por isso que esses setores ideológicos desejam ardentemente a diminuição da atuação do Estado. Não querem “incômodos” para a exploração. Na verdade desejam que a sociedade se transforme num imenso poleiro, colocando raposas para dar segurança às galinhas. É a lei do mais forte elevada à enésima nona potência. Buscam construir um autoritarismo coorporativo no qual as grandes organizações ditam as regras de conduta de milhares de trabalhadores. Um neomediavalismo com novos servos, vassalos e escravos. Em entrevista dada à revista Cult, edição 116, o intelectual norte-americano Noam Chomsky explica essa realidade: “Uma corporação moderna é próxima do ideal totalitário (...) As decisões são tomadas no topo, transferidas para os burocratas (gerentes) em sucessivos níveis inferiores (...) Essas tiranias privadas são em grande parte não-explicadas ao público, além de terem mecanismos regulatórios que são tipicamente fracos, devido ao seu poderoso papel na arena política”. É esse exatamente o quadro. Chomsky acerta na mosca quando desnuda o caráter autoritário que está nas entranhas do neoliberalismo. E é autoritário justamente porque deseja o controle do mundo do trabalho para evitar uma divisão maior da riqueza, inibindo movimentos reivindicatórios por parte dos trabalhadores, os verdadeiros construtores dessa riqueza. Pela manutenção do veto presidencial e a ampliação da blindagem trabalhista! De modo contrário, às barricadas!

domingo, 26 de agosto de 2007

Por uma Tv Pública independente e que enfrente os monopólios do baronato da mídia


Foto: Iracema Chequer

O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, jornalista Franklin Martins, está à frente do desafio de implantar uma rede pública de TV a serviço da sociedade

A necessidade de implantação de uma rede pública de televisão, com independência editorial e financeira e blindada da interferência dos governos de plantão, foi um dos assuntos abordados no Primeiro Fórum Nacional TV’s públicas, ocorrido na semana passada em Salvador. A discussão foi promovida pelo Ministério da Cultura em parceria com o Instituto de Radiodifusão da Bahia (Irdeb) e a Agência Brasil de Notícias (Radiobrás). Os debates tiveram a participação dos ministros Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, e Gilberto Gil, da Cultura, além de técnicos e especialistas no setor da produção audiovisual. O debate prepara o terreno para a implantação de políticas públicas que busquem neutralizar a nociva ação dos monopólios e oligopólios dos meios de comunicação social no país. O Brasil é um feudo midiático histórico. Desde a hegemonia política do Condomínio dos Diários e Emissoras Associados, pertencente a Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, que “reinou” no país, entre os anos 30 e 60, passando pelo absoluto domínio das famílias Civita, Mesquita, Frias, Saad e Marinho, consorciadas com outros empreendimentos político-familiares (Magalhães, Sarney, Collor, Barbalho etc), que o Brasil não conhece efetiva pluralidade de opção na sua grade de programação de TV. É sempre o mais do mesmo em termos de conteúdo, aliado a uma urdida estratégia de construção de cenários de representação políticos e econômicos que reforçam a orientação ideológica neoliberal. O governo tenta agir a tempo, mas tem vacilado num aspecto: o processo de digitalização em curso. Eis aí o cerne da questão. Com a mudança da plataforma tecnológica, poderá se abrir ampla possibilidade de, a médio e longo prazo, democratizar os meios de comunicação no Brasil. Mas o governo já fez o primeiro gol contra quando adotou experimentalmente o padrão tecnológico japonês para transmissão do sinal digitalizado. A tecnologia japonesa é mais cara e, aparentemente, representaria melhor definição de imagem. Mas não muito superior a outros padrões, a exemplo do europeu e dos pesquisados em universidades públicas brasileiras, que satisfazem a contento. O padrão japonês é o almejado pela Rede Globo, pois lhe garante largar à frente de outras iniciativas da sociedade em termos de investimentos com a nova tecnologia de transmissão. A Globo tem dinheiro e deseja continuar sendo hegemônica. Um padrão mais acessível economicamente garantiria a participação de mais setores da sociedade que desejassem operar uma rede de TV, como associações de classe, sindicatos, universidades, movimentos sociais e, inclusive, as ações estatais para a implantação de uma rede pública politicamente responsável e com controle paritário por parte da sociedade. Aí está o centro nervoso do problema. De nada adiantará a formulação de uma rede pública sem que o padrão tecnológico não auxilie a sua efetiva expansão. A TV digital igualará novos e antigos players do setor com qualidade de som e imagem, podendo iniciar uma efetiva transformação da cultura de consumo de produtos televisivos no país. Abrir-se-ia espaço para enorme demanda represada de produtores independentes que têm buscado veicular seus produtos e sempre encontram as portas fechadas. Por outro lado, não se entende a recusa do Governo brasileiro em não aderir à rede multiestatal latinoamericana, a Telesur. Medo dos magnatas da mídia? Melindres quanto à posição dos Estados Unidos? A Telesur é bilíngüe (espanhol e português) e já opera na Argentina, Bolívia, Cuba, Uruguai, Nicarágua e Venezuela. Apesar de ser uma multiestatal, a gestão da Telesur é feita com independência dos governos. Organizações sociais, canais nacionais, regionais, universitários e comunitários, além de produtores independentes, participam da produção da sua programação. Uma rede de televisão pública no país que não esteja ligada ao processo de integração latinoamericana não cumprirá de todo seu papel. Até mesmo porque o que preside esse propósito é o de neutralizar a atuação dos grupos nacionais privados de mídia que atuam em parceria com as corporações que controlam a mídia internacional. Esse é o desafio.

domingo, 19 de agosto de 2007

Falta do que fazer, Heraldo?

Falta do que fazer misturada à inépcia política e um saudosismo digno de viúva. Talvez seja a explicação para a proposta do deputado estadual Heraldo Rocha (DEM) em dar o nome do Centro Administrativo da Bahia ao seu senhor, o falecido senador Antonio Carlos Magalhães. Se já não bastasse avenidas e monumentos com o nome do “chefe” e de familiares espalhadas pelo estado, agora o bom vassalo Heraldo busca atrair atenção da mídia com esse projeto pra lá de estapafúrdio. Talvez uma necessidade de paternidade mal resolvida, quem sabe? Ou a urgência de um processo terapêutico mais profundo para o parlamentar-médico? Sempre subserviente e desprovido de qualquer personalidade política, ventríloquo ridículo do amo, Heraldo, há quem diga, talvez não esteja se adaptando à condição de político sem rumo, até porque pode ter ficado um espaço demasiado vazio na sua existência pública. A saída então para o triste anonimato do deputado é brincar de bolar tolices e se lembrar do tempo que a Bahia tinha dono.

O "civismo" do movimento "Cancei" é racismo


É assim que começa. Comentário postado nesta coluna há cerca de quinze dias chamava atenção do âmago golpista da campanha deflagrada por representantes das elites nacionais que se manifestaram na Paulicéia na última sexta-feira, 17. Calcula-se que duas mil pessoas estiveram presentes ao ato ocorrido na Praça da Sé, segundo estimativas da Polícia Militar. Entre os participantes, “celebridades” como Hebe Camargo e Ivete Sangalo. Esperava-se também a presença da apresentadora Ana Maria Braga, que mandou o apoio, mas não compareceu. Chamado oficialmente de Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, a empreitada direitista foi comandada pelo empresário João Dória Júnior, que se mostra “indignado” com o governo. Talvez pelo fato ter ganho tanto dinheiro explorando os outros. Mas o ápice do seu sentido profundo ocorreu quando um outro líder da “marcha”, Paulo Zottolo, presidente da Philips do Brasil, declarou ao jornal Valor Econômico que "se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado". Além de excludente, o movimento dos quatrocentões paulistanos e de parcelas da burguesia nacional também traz consigo altíssimo viés racista. É a direita encarnada no que há de mais reacionário no país. Pedindo “fora Lula” e usando óculos Gucci, as madames e senhores da “fina fauna” tupiniquim estão reeditando a velha marcha “Pela Família, com Deus, pela Propriedade”, um dos suportes do movimento que depôs o governo legítimo do presidente João Goulart em 1964. De olho neles, pois pode estar ali uma espécie de ovo da serpente à brasileira.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Pais por Justiça!

Um protesto de repercussão nacional foi realizado ontem, 12, na praia de Copacabana, Rio, pelo movimento Pais pela Justiça. Trezentos e sessenta e cinco bonecos foram colocados na areia, com olhos vendados e ornados com panos pretos, representando a situação de crianças órfãs de pais vivos por conta de atitudes das mães e da Justiça. O movimento foi noticiado por todos os grandes órgãos de imprensa do país. De acordo com Nilson Falcão, um dos líderes e organizadores, a intenção é chamar a atenção da Justiça para diversos tipos de aberrações que vêm ocorrendo. Muitas mães detentoras da guarda simplesmente proíbem os pais de terem convívio com os filhos, e quando reclamadas na Justiça quase nenhuma atitude é tomada pelos juízes ou promotores para puni-las. Existe verdadeira complacência do Judiciário com crimes cotidianos perpetrados por mulheres insanas, já que ferem frontalmente o Estatuto da Criança e do Adolescente. O objetivo do movimento é também fazer pressão para acelerar o Projeto de Lei da Guarda Compartilhada, já aprovado na Câmara e no momento tramitando no Senado. O movimento Pais pela Justiça promete nova manifestação no dia 12 de outubro, dia da criança.

domingo, 5 de agosto de 2007

Quem cansou de quem? A hipócrita campanha dos quatrocentões de São Paulo

A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), aquela mesma entidade golpista que pregou a desestabilização da nação nos anos passado e retrasado, agora volta à carga com a campanha “Cansei”. Explica-se o alarido: a popularidade do presidente não foi afetada pelo acidente da TAM, após dez meses do chamado caos aéreo. Pesquisa realizada pelo Datafolha, divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo, aponta que 48% dos brasileiros consideram o governo de Lula ótimo ou bom. O mesmo percentual registrado em março e praticamente igual ao do início de outubro de 2006 (49%), menos de um mês após o acidente da Gol. Ao que parece, os jornalões das famílias Mesquita e Frias, e de resto a aristocracia quatrocentona paulista, que se rebelou em 1932 com saudosismo da República Velha e foi parte ativa do golpe de 1964, não têm encontrado ressonância na sociedade pelo seu “cansaço”, campanha disseminada pelo país com um cínico discurso eivado de hipocrisia. A crise do setor aéreo foi o mote da ação. A partir de uma cobertura que nada tem de técnica e sim política, a Folha de São Paulo e o Estadão, trazendo a reboque outros órgãos da grande imprensa, fazem assessoria para a OBA-SP antecipando as eleições municipais do ano que vem. Para Clovis de Barros Filho, professor de Ética em Comunicação, “existem indícios muito claros de que o episódio de Congonhas está sendo instrumentalizado. Um movimento de deslegitimização do Estado, orquestrado pelo mundo corporativo, através do discurso da ineficácia, que tem como contrapartida a responsabilidade social e outras baboseiras. Tudo o que mostra a ineficácia do Estado interessa a certas políticas, a serviço de quem a mídia costuma estar”. A afirmação do professor foi publicada em entrevista concedida ao site Terra Magazine. Trata-se de uma lógica. Já se fala à boca pequena sobre a privatização de aeroportos como saída, e esse, não tenho dúvida, é o intento e que serve também de clichê eleitoral para 2010. Depois os discursos se voltarão para privatizações de penitenciárias, rodoviárias, universidades, escolas secundárias, hospitais públicos etc. Não há como negar que existe um povo cansado nesse país, um número bem maior do que os 8% da população que utilizam com freqüência os serviços das companhias aéreas. É também fato que existem problemas estruturais a serem resolvidos no setor aéreo, claro. Mas o que justifica e qual o sentido do “cansaço” de setores da elite nacional? O buraco é mais embaixo. A campanha “Cansei” reflete diretrizes de uma estruturada ação que visa desconstruir simbolicamente tudo que remeta a políticas públicas mais à esquerda. Ainda que o projeto político do governo federal esteja longe de se concretizar como um efetivo conjunto de ações de políticas públicas de esquerda, pela própria composição partidária que o sustenta, este é visto como alvo. O governo é uma seara de tensão intra-hegemônica que abarca diversos interesses que se estendem do campo democrático-popular ao mercado financeiro. De forma nenhuma se traduz em um monolito ideológico. Ainda assim, tímidas que sejam, as políticas sociais atuais têm conseguido alguns avanços. Pesquisa divulgada esta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que os programas de transferência de renda com condicionalidades (PTRC), como o Bolsa Família, contribuíram para a queda da desigualdade no Brasil na última década. O estudo aponta que ações como estas geraram a redução de 21% no coeficiente de Gini brasileiro, índice que mede a desigualdade de distribuição de renda em uma sociedade. É o Estado fazendo algo, queiram ou não. Muito mais do que no reinado do príncipe dos sociólogos FHC. É exatamente aí o pomo da discórdia. O aumento da auto-estima do povo pobre do país alerta segmentos dominantes. É como se dissessem: e se esse povo começar a entender que pode fazer história com as próprias mãos? Daí vem o medo de que projetos políticos com mais participação popular possam ser abraçados pela população no futuro, mesmo que não sejam conduzidos pelo PT e aliados. A intenção então é deslegitimar o campo da esquerda como um todo a partir da atual gestão. Note-se que a grande mídia não deu uma manchete sequer sobre a redução das desigualdades no país, fato que se julga extremamente importante. Não há interesse para tal. Por outro lado, são incensadas pela mídia entidades que integram a campanha com representações do que há de mais retrógrado no país, a começar pela Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (ABERT). Também fazem parte do protesto dos ricos a Associação Comercial de São Paulo, Associação Paulista de Imprensa (API), Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Grupo de Jovens da Associação Comercial de São Paulo, Instituto de Estudos Empresariais (IEE), entre outras. A mesma elite que um dia foi escravocrata e que não se cansará enquanto não ver realizado seus intentos golpistas, pois entendem que o povo pobre desse país sempre terá que obedecer aos seus desígnios e ordens. Este é o “cansaço” da direitona tupiniquim.