Tropa de Elite: A violência que causa frisson à direita tupiniquim

O violento e psicótico capitão Nascimento, personagem interpretado por Wagner Moura, causa "boa" sensação ao articulista da Revista Veja-on-line, Reinaldo Azevedo. O personagem pode ser o fascista preferido de Azevedo

O foguetório disparado pela direita enaltecendo os atos do capitão Nascimento, personagem interpretado magistralmente pelo ator Wagner Moura no filme-polêmica Tropa de Elite, do diretor José Padilha, levou setores da esquerda nacional a embarcarem gratuitamente nas provocações a ponto de tacharem a película de fascista. Uma delas partiu do articulista e ponta-de-lança da direitona midiática, Reinaldo Azevedo, que comemorou em seu blog os atos do personagem em frase quase orgástica: “Capitão Nascimento derruba o bonde do Foulcaut”. Mas o filme não é fascista, ainda que fascistas queiram usá-lo para desaguar seus instintos. Tropa de Elite é um filme-depoimento à medida que expõe o olhar do policial militar sobre o cenário de um Rio de Janeiro violento e em guerra urbana no ano de 1997, quadro que não se alterou de lá para cá, com toda violência impetrada pelo Batalhão de Operações Especiais, o famigerado BOPE. Numa análise mais profunda da obra pode-se observar o debate acerca do consumo de drogas, por exemplo, que contradiz frontalmente a posição assumida pela revista Veja que aponta o consumidor como único causador do problema. O capitão Nascimento é um assasino, drogado, psicótico, consumidor de calmantes e barbitúricos vendidos legalmente. Recordando um trecho do filme, Nascimento tenta se explicar à mulher que o flagra ingerindo um punhado de comprimidos: “São calmantes, todo mundo toma, não faz mal”. Trata-se de um axioma inteligentemente levantado pelo filme. O próprio diretor defende-se da acusação de ter criminalizado os usuários de drogas: “Eu posso dizer qual é a minha posição sobre o assunto: do ponto de vista dos direitos civis, da liberdade civil, sou a favor da descriminação das drogas e da liberação do uso da maconha. Mas o filme não trata da minha visão, não é sobre mim, ele trata do ponto de vista dos policiais”. A afirmação foi feita na última segunda-feira, 08/10, quando Padilha foi alvo de entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura. Outras acusações recaíram também sobre a violência gratuita que o filme exibe. Ora, o cenário que permeia a película apenas reflete a realidade dos aglomerados de baixo poder aquisitivo das grandes cidades brasileiras, onde as populações vivem acuadas pela violência da empresa do narcotráfico e da polícia, cujos interesses muitas vezes se mostram convergentes quando o assunto envolve grana, o que foi fielmente retratado em Tropa de Elite. Talvez o livro de Michel Foulcaut, Vigiar e Punir, intertextualizado no roteiro do filme, tenha encontrado uma tradução à altura do que efetivamente seja o uso do Estado mediante à violência policial para punir os excluídos socialmente. Sim. Os personagens Neto e Matias, interpretados com maestria pelos atores Caio Junqueira e André Ramiro, respectivamente, encetam o discurso moralizante que tenta encerrar o problema da violência urbana no Rio de Janeiro, e de resto no país inteiro, como oriunda unicamente do consumo de drogas. Na opinião deles, são os “maconheiros” os causadores daquele inferno à medida que estimulam o narcotráfico. E é exatamente essa visão, limitada, que turbina e estufa os argumentos da direita, que não encara o debate sobre a legalização da maconha. E onde os consumidores vão adquirir drogas? Entre os excluídos socialmente, linhas de frente de cadeias comerciais que envolvem policiais civis e militares e o Poder Judiciário. E aí, claro, em meio a esse caldeirão brota a marginalidade que age reproduzindo a violência construída pelas próprias classes dominantes. Onde não há expectativa de qualidade de vida, nem tão pouco sobrevivência com dignidade, locais de ausência permanente de políticas públicas, não resta outro caminho se não fazer dinheiro com o que se vende caro e só por lá se acha: drogas. É ingênuo pensar, como argumentam os “pensadores” da Veja, que o consumo de drogas um dia se encerrará na humanidade. Piada. O homem, desde que se encontra na Terra, sempre se drogou e se drogará, de forma lícita ou ilícita, a depender do ambiente sóciopolítico-cultural que esteja envolvido. A única forma de se por fim ao narcotráfico é descriminalizando algumas drogas, já que o problema deve ser visto pela ótica da saúde pública e não moral, o que é de fato ridículo. Enquanto isso, a indústria da morte vai acumulando estatísticas país afora sob o raciocínio de que apenas medidas policialescas podem dar conta do problema. O filme de Padilha expõe esse paradoxo de forma ímpar quando apresenta a sinergia envolvendo policiais corruptos e mal pagos que abastecem o narcotráfico de armas. Como o próprio diretor afirmou, Tropa de Elite pode ser analisado com a cor dos óculos que se desejar, e, no caso dos articulistas da Veja, o prisma predominante foi o tom sombrio daqueles que tudo dariam para serem, eles próprios, pequenos clones do capitão Nascimento, já que, ao que parece, neles o prazer pela violência gratuita enseja uma sensação de orgasmo permanente.

Comentários

É assim que muitos dessa tal "direitona" querem ver o país: cercado de policiais violentos que vão causar medo e, a partir dele, vão controlar os "maconheiros" e subversores da ordem.
Não sei como você vê o tráfico, mas o vejo como um comércio qualquer. É muito fácil ficarmos falando mal das drogas e observando tudo sob a ótica do bonzinho e justo homem que quer a sociedade "limpa". Faça uma reflexão e veja que a burguesia aceita, de forma parcimoniosa, a ascensão da Schincariol ou da Pirassununga 51. Compare os efeitos. Muitas crianças já foram perdidas nas estradas por causa de um Filho da Puta que resolveu beber e exercer sua irresponsabilidade de ser humano. Muitas mulheres e CRIANÇAS são vítimas de pais/maridos alcoólatras.

Citei as crianças porque o filme faz essa referência e age diretamente no sentimento das pessoas. "Quantas crianças ainda vamos perder para o tráfico para que um playboy possa fumar um baseado?"
Você percebeu que há uma montagem paralela que desestrutura a violência, mas a justifica. A esposa do Capitão Nascimento está grávida desde o início do filme e pari durante uma ação num dos morros do Rio.
São muitas coisas que podem ser observadas no filme e você observou bem. Se tratando erros de continuidade, Gol Geração 3 em 1997 é exagero e só passa despercebido porque não sabemos ler filmes. Quando a Maria [Boladona?] está em sua casa, após a morte dos amigos, o noticiário diz que A SECRETARIA de Segurança Pública vai falar mas quem fala é O SECRETÁRIO. Isso na versão das ruas. No Pirata Original.
Pensei em encerrar meu comentário mas lembrei da polêmica com o famigerado Mainardi(que sujeitinho!). Segundo ele o país não precisa da produção de filmes e ele não assiste ao cinema nacional nem a qualquer outro cinema. Arriscou dizer que, só de ver o cartaz do filme, percebia o péssimo ator que é o Wagner Moura. Ele ainda atentou para um aspecto físico do ator e pediu um movimento para que o Wagner faça as sobrancelhas. Típico de um imbecil.

Só um adendo, se me permite:
Tropa de Elite - Durante as filmagens, uma equipe foi sequestrada e armas e equipamentos foram roubados. A equipe foi liberada. Nada se falou depois disso. Já havia mais de um ano do lançamento do livro Elite da Tropa e a atenção não era a mínima esperada. Com a retomada do cinema nacional e as indicações para o Oscar, a produção aumentou e os anseios também. Bilheteria e Oscar. De repente, o filme aparece nas ruas, as "Têvês" resolvem falar mal dos piratas(ainda mais) e o filme fica mais conhecido que o Domingão do Faustão. Um bode expiatório que ninguém viu a cara foi preso e nada mais se falou sobre o assunto. Tática de Marketing em cima do que é ilícito? Estranho...

E, pra finalizar, devo dizer só uma coisa que esqueci de acrescentar quando falei da Schincariol e 51. O que a burguesia não quer é ver o pobre ganhando dinheiro. O tráfico é um comércio como outro qualquer. O problema é que não paga impostos e não tem regulamentação. Sem contar que são os pobres colocados nas favelas que vendem e enriquecem(de forma ilícita, é claro, mas quantos não fizeram com os escravos ou com os cofres públicos?). Esse é o grande problema, Zeca.

Ontem, no programa Altas Horas, uma guria resolveu fazer uma pergunta para Lula: "Pros pobres o senhor dá tudo; os ricos têm como pagar. E nós, da classe média, não ganhamos nada?" Que os ricos têm como pagar, é inegável, mas tudo para os pobres? Se tivesse tudo não seriam pobres...

Vixe...e Luciano Huck mandou chamar o Cap. Nascimento após roubarem seu rolex...

Paciência, meu caro...
Zeca disse…
Pois é caro "Acarajé", o que impera realmente é a hipocrisia deslavada dos senhores da moral. E se continuar nesse diapasão de raciocínio, entendendo o problema não como saúde pública e sim moral continuaremos idiotizados e buscando entender, como babacas, porque existe narcotráfico. Ora, façamos como alguns países já fizeram, descriminaliza e cadastra quem quer vender. O problema é que dá forma que está muita gente está lucrando, não os pobres, "gerentes" e "aviãzinhos", mas policiais, juízes, autoridades etc... E tome-lhe mais cara-de-pau....
Vinicius Silva disse…
Faz tempo que não passo aqui para comentar, mas vamos lá.

Eu li essa mesma reportagem na revista SET desse mês, quando a própria entrevista o José Padilha e o Wagner Moura. Acabei não lendo as reportagens da revista VEJA, que com certeza são de óticas diferentes, como o proprio filme é: a SET cuida mais da arte cinematográfica, enquanto que a VEJA aproveita para alfinetar e criar idéias mirambolantes que só ela faz.

Padilha, que também fez um excelente trabalho com o documentário "Onibus 174", disse na SET a sua idéia é narrar o longa, na pele de Cap. Nascimento, sob a ótica da polícia. Ele completa, explicando que o Estado abandonou a polícia e "Tropa de Elite" é escancarar o estado calamitoso de uma instituição perdida. Como o proprio Wagner narra logo no inicio, falando as armas que os bandidos usam que elas mesmas sõ são usadas em guerras. Mas, querendo ou não, a polícia do Rio vive em guerra contra os traficantes, isso é fato.

Outro ponto muito interessante em "Tropa de Elite" é que Padilha, ao contrário de outros diretores, como Fernando Meirelles em "Cidade de Deus", acaba fazendo o contrário deste último. O Cinema Nacional sempre lançou a ótica para o traficante, como o Zé Pequeno, Pixote, Sandro Nascimento, entre outros. É dificil ver um filme narrado sob a ótica da polícia, tentando transformá-los em heróis, mas que na verdade, não é esta a dita proposta, pelo menos não a encarei como tal.

Sei que já estou escrevendo demais, mas só pra finalizar mesmo. Assistindo "Tropa de Elite" acabei me lembrando de uma obra-prima de Kubrick, creio que você já deve ter visto: "Nascido para Matar". Não só pelas cenas do treinamento necessário para entrar no BOPE, mas também pelo grau de transformação que cada soldado daquele sofre. O Matias, por exemplo, na primeira metade do filme é tido como o bom moço, que cursa Direito na Faculdade e é policial. Mas, depois de passar pelo treinamento do BOPE, ele acaba também passando por uma transformação que é a mesma que o Cap. Nascimento sofreu, fazendo com que ele tivesse a Sindrome do Pânico e cansado de lutar contra um sistema que nunca muda.

Abraços Zeca. Desculpa por escrever tanto!

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