terça-feira, 16 de junho de 2015

Cuba dezessete anos depois

Foto: Jorge Nascimento


Por Safira Caldas

“Para examinar a verdade é necessário, uma vez na vida, colocar todas as coisas em dúvida tanto quanto se possa.” René Descartes (1596-1650)

Havana 1996-1997

Anos dificílimos para os cubanos. A URSS, seu grande parceiro, havia “desmoronado” e os EUA exerciam o seu poder ditatorial, multando qualquer navio que ancorasse na ilha. Isto impedia até a chegada de remédios e marca-passos. Havia apagões e muitas e muitas necessidades. Muitos partiram e outros morreram tragicamente. Metaforicamente, era como um filho que perdera o “pai” que lhe sustentava financeiramente e psicologicamente. Cuba vivia o seu luto.
Entretanto, a prioridade da educação e da saúde foi mantida.. Visitei escolas e hospitais e vi, que mesmo de uma forma despojada, a dignidade do atendimento nestes setores fora mantida. A SOLIDARIEDADE de alguns não faltou e doações chegaram de várias partes do planeta.


Havana 2015
Foto: Carmen Medeiros

A surpresa começa no aeroporto José Martí. Profundas reformas foram feitas e já há lojas vendendo rum, “artesania” cubana, charutos, etc. Esperando o turbilhão de turistas que chegam de diversas partes do mundo, ônibus e micro-ônibus de fabricação chinesa os esperam.
O centro de Havana é um verdadeiro canteiro de obras. Dia e noite britadeiras sulcam velhos calçamentos, alargando e embelezando as ruas. Velhos hotéis são recuperados e novos estão sendo construídos a todo vapor. Não vivenciei nenhum apagão, apenas, houve falta de água no hotel uma manhã. O câmbio foi fácil !
Nas ruas a liberdade é visível. Segundo uma pessoa do meu grupo, havia uma pequena passeata com umas 20 pessoas, algumas com a camisa da CIA que pediam a queda do regime. Não foram incomodadas, porém foram solenemente ignoradas.
Apesar da proibição, muitos cubanos oferecem no câmbio negro venda de rum e charutos, o que não é aconselhável, pois, segundo o aviso dos guias da CUBANATUR (Empresa de turismo do governo cubano) esta compra é passível de criar problemas com a polícia, além de serem falsificados.
Até junho, está acontecendo uma Feira Internacional de Artes, o que coloriu mais ainda a cidade. Muitos eventos, muitas performances!
Não se vê nenhuma criança desacompanhada pelas ruas e algumas uniformizadas estão acompanhadas por adultos. Vi uma escola de Jardim de Infância muito bem conservada. A educação, a saúde, o enterro são gratuitos.
Foto: Carmen Medeiros
A prioridade do acesso à internet é dada para os que mais necessitam dela, como por exemplo, jornalistas. Sobre a famosa blogueira (por aqui) muitos não sabem quem ela é!
Muitos falam com orgulho dos seus médicos que partem para a África e outros lugares para ajudar outros países. Outros temem perder suas conquistas pós revolução.
A produção dos famosos charutos já não é monopólio totalmente do Estado. Muitos pequenos campesinos já podem ter parceria com o governo. Pequenas lojas de marcas famosas, começam a despontar na Rua O Bispo e até Coca-Cola fabricada no México, aparece timidamente em alguns restaurantes
A velha e bonita “Guayabera” (linda camisa de algodão bordada) que era quase um uniforme dos cubanos já está sendo substituída por camisetas. Vi , pelo menos, duas já com a inscrição “MIAMI”.
O jogo é proibido, entretanto, há um “jogo de bicho” clandestino que segue o resultado da loteria de Miami.

Alguns cubanos nos falam das novelas brasileiras e acreditam que elas reproduzem fielmente a nossa realidade. Muitas vezes aproveitam este momento para pedir um “regalo”.
Parecem muito saudáveis e mostram dentes muitos bem cuidados. Quando elogiamos, falam que o serviço odontológico (gratuito) é de ótima qualidade.
O Malecon que possui 7 km de extensão está revitalizado e no final das tardes ensolaradas de Havana, assistir o por do sol é uma festa compartilhada por turistas e cubanos.
Alguns se queixam que desejam viajar e ter mais pares de tênis. Enfim, lutar contra o consumismo é difícil. Sempre citam os que partiram para o Canadá ou Miami e dizem que estes, hoje, estão ricos. Parece que o canto da sereia engana alguns.
Viajamos pelo interior: Santa Clara (O memorial do Che é emocionante), Trindade, Cayo das Brujas (praia belíssima). As estradas estão ótimas.
Enfim, vale a pena ir a Cuba e caminhar a qualquer hora da noite sem medo de ser assaltado e sem engarrafamento. E não esquecer de comer um "chivirico" vendido nas ruas (parece cavaco). Torço para que Cuba se torne uma adulta sensata e não esqueça suas conquistas.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pequeno irmão. Quando o ativismo hacker juvenil subverte os EUA


Os Estados Unidos estão sob estado de sítio após um atentado terrorista. Na cidade de São Francisco, Califórnia, um grupo de adolescentes hakers luta contra os atos arbitrários perpetrados pelo Departamento de Segurança Nacional. As liberdades civis são suprimidas e a ação na Internet é a última fronteira de resistência de jovens colegiais que não se submetem à paranóica vigilância das autoridades.
Este é o cenário que ambienta a ficção Pequeno Irmão, do jornalista, escritor e ciberativista canadense Cory Doctorow, que no Brasil foi publicado pela Galera Record. O livro tem pose de literatura juvenil, mas o que de fato propõe vai além. Ao longo da narrativa, Doctorow estabelece pontes ideológicas entre as militâncias libertárias que sacudiram a Califórnia e boa parte do mundo nos anos 60 e 70 e os movimentos hakers e a cultura digital. Seriam ciclos sociais dialeticamente sucedâneos.
Marcus Yallow, o personagem central, ou simplesmente M1k3y, é um garoto de 17 anos, amante e conhecedor profundo das novas tecnologias de comunicação, que pauta seu dia-a-dia entre as “existências” real e virtual. Numa situação digna dos nebulosos roteiros de Kafka, é preso pelas autoridades estadunidenses e acusado de envolvimento com terrorismo junto com outros companheiros.
Autogestão, colaboração e opções alternativas de vida são o contraponto político a uma sociedade panóptica e sufocante. Ter à mão um console Xbox e o acesso a uma rede wi-fi paralela e criptografada é a retaguarda tecnológica necessária para transformar os games virtuais em estratégias precisas na luta contra as forças opressoras do Estado. O resultado é a militância na “vida real” a partir de convocações e provocações para mobs flashs de resistência. 
Ecoa então a palavra de ordem “Não confie em ninguém com mais de 25 anos”. Um revival ainda mais radical que o libelo de 1968, encurtando em cinco anos a desconfiança nas gerações mais velhas. “Nós sempre fomos um pouco mais politizados do que o resto da nação”, afirma uma professora amiga que dá argumentos à galera numa lembrança nostálgica da Califórnia convulsionada por hippies, yippies, panteras negras etc.
A história imaginada por Doctorow salpica fortes doses de realismo à medida que põe o leitor diante de situações e fatos concretos, que nada têm de ficcionais. Ele apenas muda locais e nomes, não como forma de dissimular, mas de apontar e protestar. A prisão de Guantánamo está logo ali na Baía de São Francisco, para onde dissidentes e presos são encaminhados após violentas manifestações de rua, ou mesmo após serem pegos pela ostensiva vigilância do Patriotic Act – lei patriótica. Se o autor não chega a vaticinar os EUA vivendo num futuro estado de exceção, ao menos deixa um alerta para tal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Depois da Chuva é filme para o mundo assistir


Caio (Pedro Maia) busca o colo materno. A mãe (Aícha Marques), impávida, nem mesmo olha para o filho que, carente, disputa espaço para se debruçar no seu ventre. Ela mantém atenção fixa na televisão, que reporta a posse de José Sarney, primeiro presidente civil após o regime militar e que conduz o início da Nova República. Ele desiste do intento.
A cena é forte e traduz o recado que Depois da Chuva passa: a desilusão que contrasta com o clima de euforia decorrente da redemocratização do país, em 1984, quando os militares entregaram o poder após 20 anos de ditadura.
O estado de exceção se fora, mas não os conflitos que envolvem gerações. Caio é um adolescente que estuda num colégio particular e conservador. Está envolvido com um grupo de ativistas anarquistas, descrentes da política partidária tradicional. Atuam num espaço no Centro Histórico onde funciona uma rádio pirata. Eles fumam, atacam o sistema, tocam música experimental e debocham dos militantes da esquerda ortodoxa, inclusos os colegas que tentam reorganizar o grêmio estudantil. Trazem o embate na veia.
Rescaldos da crítica dos “engajados” sobre os “desbundados”, que marcou os anos de chumbo nos 70. Neste aspecto, o filme sugere o início da atuação do combativo jornal anarquista de Salvador, O Inimigo do Rei, alvo de críticas à direita e à esquerda no período em tela. 
Dirigido por Cláudio Marques e Marília Hughes, Depois da Chuva, que estreou neste mês de Janeiro no Brasil, tem o mérito de apresentar alguns aspectos pouco conhecidos da Salvador dos meados dos 80. Situações que muitos jamais perceberam.
Os diretores se distanciaram dos estereótipos que carimbam a Soterópolis festeira. A capital baiana figura apenas como um acaso. Os apelos de baianidades e sentimentos pueris de pertencimento à terra, dão lugar à cidade com espaços tomados por bandas de punk rock, como Cracr! e Dever de Classe, onde reuniam jovens em shows artesanais, como os que ocorriam na fábrica abandonada da Ribeira.
A fotografia, outro ponto forte do filme, dá o diapasão estético da película mediante enquadramentos e luz que emolduram diálogos densos e inteligentes. O som do Dead Kennedys, sim, compõe bem com imagens de locais recônditos da capital baiana, que vivia a gênese da chamada axé music.
Destaque para a atuação de Pedro Maia, protagonista principal, jovem e excelente ator que interpreta Caio. O garoto não é promessa. É ator. E atua junto com um elenco competente e preparado. Elenco que esteve sob os cuidados do cineasta Reinofy Duarte, que certamente teve função determinante no desempenho do grupo.
Depois da Chuva é filme para o mundo assistir e debater. Feito do cinema baiano que só Glauber Rocha havia conseguido. Cláudio Marques e Marília Hughes foram ousados. E conseguiram. Que bom!

Ficha técnica:

Companhia produtora: Coisa de Cinema
Produção Executiva: Cláudio Marques e Marília Hughes
Roteiro: Cláudio Marques
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Som: Guile Martins, Edson Secco
Direção de Arte, Figurino: Anita Dominoni
Preparação de atores: Reinofy Duarte
Montagem: Cláudio Marques Edição de Som: Edson Secco
Trilha Musical: Mateus Dantas, Nancy Viegas, Bandas Crac! e Dever de Classe Com: Pedro Maia, Sophia Corral, Aícha Marques e Talis Castro.




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Quando o público define o que se propaga. Ou o nó górdio da mídia contemporânea


Rever os conceitos de propagabilidade numa economia da mídia forjada pela intensa participação dos usuários como condutores de ideias e atuantes na remodelagem dos produtos veiculados. Mais do que o valor agregado a partir de uma escala puramente econômica, a Internet tem proporcionado aos membros da audiência, também produtores, novas percepções do sentido de lucro.
Na economia da dádiva, ou do dom, mais vale a opinião e a catapulta midiática nas mãos dos usuários do que 1000 banners “flashando” a linha do tempo de alguém. Doravante, o jornalismo, a propaganda e a publicidade, da forma que o capitalismo desenhou até o momento, em breve serão peças arqueológicas. Diria Marx: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”.
O vaticínio é dos estadunidenses e estudiosos da mídia Henry Jenkins, Joshua Green e Sam Ford, três pesquisadores ligados ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Em Cultura da Conexão, lançado no Brasil pela Editora Aleph, o compartilhamento nas redes sociais não tem apenas papel fundamental à visibilidade de um novo produto, tangível ou intangível, mas, sobretudo, à manutenção e sobrevivência deste produto.
Os modelos de veiculação tradicionais, conforme os autores, só sobrevivem, da mesma forma, em compasso cadenciado com as inquietações dos internautas. São eles que têm definido a biruta das tendências.
A cantora inglesa Susan Boyle é um bom exemplo. As performances da artista na rede renderam 77 milhões de visualizações no Youtube, enquanto o final da temporada do American Idol atraiu 32 milhões de telespectadores nos EUA. O programa foi veiculado na TV aberta.      
Jenkins, Green e Ford partem da desconstrução do conceito de “virial”. Optam pelo entendimento de “propagabilidade”. Há diferenças. Neste quesito, o público tem papel ativo na “propagação” e não se limita a ser portador da imagem ou texto sobre o que seja. Mais: estes mesmos produtos são factíveis de remodelagens, remixagens e outros recursos midiáticos. Transmutam-se. Ganham resignificações.
Nesta nova linha de montagem, os usuários das redes sociais são “commodities”. Isso mesmo, mercadoria. Os autores coadunam com outros pesquisadores da mídia, a exemplo do ciberativista Eli Pariser (2012).
“O público cria, conscientemente ou não, valor de economia por interesses comerciais, por meio de geração de conteúdo para atrair a atenção e transformar essa atenção em commodity, e através das informações valiosas que eles lançam, as quais podem ser vendidas pelo lance mais alto”, sustentam os autores.
O trabalho dos pesquisadores não fecha questão do que poderá vir a se concretizar na nova economia política da mídia. No entanto, não é difícil constatar que os interesses sociais que movem os públicos é fator determinante nos processos de propagação de quaisquer produtos, com o ônus ou o bônus que estes movimentos possam representar.