Pequeno irmão. Quando o ativismo hacker juvenil subverte os EUA


Os Estados Unidos estão sob estado de sítio após um atentado terrorista. Na cidade de São Francisco, Califórnia, um grupo de adolescentes hakers luta contra os atos arbitrários perpetrados pelo Departamento de Segurança Nacional. As liberdades civis são suprimidas e a ação na Internet é a última fronteira de resistência de jovens colegiais que não se submetem à paranóica vigilância das autoridades.
Este é o cenário que ambienta a ficção Pequeno Irmão, do jornalista, escritor e ciberativista canadense Cory Doctorow, que no Brasil foi publicado pela Galera Record. O livro tem pose de literatura juvenil, mas o que de fato propõe vai além. Ao longo da narrativa, Doctorow estabelece pontes ideológicas entre as militâncias libertárias que sacudiram a Califórnia e boa parte do mundo nos anos 60 e 70 e os movimentos hakers e a cultura digital. Seriam ciclos sociais dialeticamente sucedâneos.
Marcus Yallow, o personagem central, ou simplesmente M1k3y, é um garoto de 17 anos, amante e conhecedor profundo das novas tecnologias de comunicação, que pauta seu dia-a-dia entre as “existências” real e virtual. Numa situação digna dos nebulosos roteiros de Kafka, é preso pelas autoridades estadunidenses e acusado de envolvimento com terrorismo junto com outros companheiros.
Autogestão, colaboração e opções alternativas de vida são o contraponto político a uma sociedade panóptica e sufocante. Ter à mão um console Xbox e o acesso a uma rede wi-fi paralela e criptografada é a retaguarda tecnológica necessária para transformar os games virtuais em estratégias precisas na luta contra as forças opressoras do Estado. O resultado é a militância na “vida real” a partir de convocações e provocações para mobs flashs de resistência. 
Ecoa então a palavra de ordem “Não confie em ninguém com mais de 25 anos”. Um revival ainda mais radical que o libelo de 1968, encurtando em cinco anos a desconfiança nas gerações mais velhas. “Nós sempre fomos um pouco mais politizados do que o resto da nação”, afirma uma professora amiga que dá argumentos à galera numa lembrança nostálgica da Califórnia convulsionada por hippies, yippies, panteras negras etc.
A história imaginada por Doctorow salpica fortes doses de realismo à medida que põe o leitor diante de situações e fatos concretos, que nada têm de ficcionais. Ele apenas muda locais e nomes, não como forma de dissimular, mas de apontar e protestar. A prisão de Guantánamo está logo ali na Baía de São Francisco, para onde dissidentes e presos são encaminhados após violentas manifestações de rua, ou mesmo após serem pegos pela ostensiva vigilância do Patriotic Act – lei patriótica. Se o autor não chega a vaticinar os EUA vivendo num futuro estado de exceção, ao menos deixa um alerta para tal.

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