domingo, 30 de setembro de 2007

A direita atuante: parlamentares protegem prática de trabalho escravo



Não foi noticiada em nenhum dos grandes meios de comunicação do país a atuação dos senadores Romeu Tuma (DEM-SP), Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Kátia Abreu (DEM-TO), Cícero Lucena (PSDB-PB) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) em impedir a prática de trabalho escravo na Fazenda Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA). No dia 30 de junho passado a agroempresa foi palco da maior libertação de trabalhadores da história do país. Ao todo, 1.064 empregados que trabalhavam na lavoura de cana-de-açúcar foram resgatados pelo grupo móvel de fiscalização - formado por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), procuradores do Ministério Público do Trabalho e delegados e agentes da Polícia Federal.
Esses senadores pretendem desqualificar a atuação dos órgãos públicos. A maior entusiasta entre eles é a senadora Kátia Abreu. Segundo a Agência Senado, Kátia Abreu afirmou que a empresa “é muito bem administrada e forma uma comunidade de trabalhadores rurais”. Com esse argumento a parlamentar pretende questionar o trabalho dos fiscais.
O posicionamento cripto-fascista de Kátia Abreu não é novo. A senadora é notória opositora do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando deputada federal, na legislatura passada, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação de leis que contribuiriam com a erradicação dessa prática.
As equipes táticas de fiscalização comandadas pelo Ministério do Trabalho, em parceria com outros órgãos federais, já libertaram em torno de 26 mil pessoas desde que o trabalho escravo foi qualificado no Brasil, em 1995.
Vida precária - O Ministério Público Federal no Pará já havia ajuizado, desde o último dia 21, ação penal por trabalho escravo contra Murilo Vilella Zancaner, Fernão Villela Zancaner e Marcos Villela Zancaner, proprietários da Pagrisa.
De acordo com fontes noticiosas do Pará, o MPF concluiu, com base nas provas e no relatório, que os irmãos Zancaner, “dotados de vontade livre e consciente, reduziram os 1064 trabalhadores à condição análoga a de escravo, submetendo-os a trabalhos forçados, à jornada exaustiva e cerceando a liberdade de locomoção desses trabalhadores, por meio da dificuldade de saída da fazenda, pela parca percepção de vencimentos, atrelada à cobrança excessiva pelos medicamentos e à cobrança de transporte para a cidade”. Alguns trabalhadores não ganhavam nem salários, já que os descontos ilegais realizados pela empresa consumiam quase tudo o que tinha para receber.
As equipes de fiscalização também encontraram um quadro dantesco na Pagrisa. A comida fornecida estava estragada e várias pessoas estavam sofrendo de náuseas e diarréia. A água para beber, segundo relato dos empregados na fazenda, era a mesma utilizada na irrigação da cana e, de tão suja, parecia caldo de feijão. O alojamento estava superlotado (não havia espaço para todos) e o esgoto corria a céu aberto. Vindos em sua maioria do Maranhão e do Piauí, os trabalhadores não tinham transporte à disposição para levá-los da fazenda ao centro de Ulianópolis, distante 40 quilômetros.
Proprietários e empresários rurais têm pressionado para tirar poderes da fiscalização rural. A emenda 3 ao projeto que criou a Super Receita é um exemplo. A emenda, que foi vetada pelo Palácio do Planalto, previa que os auditores fiscais não teriam poder para reconhecer vínculos empregatícios no caso de contratos de pessoas jurídicas, ficando esse dever a cargo da Justiça.
Na prática, isso tirava os poderes da fiscalização do Estado. Muitos fazendeiros montam empresas de fachada para o seu contratador de mão-de-obra empregar safristas, o que livra as empresas de arcar com os direitos trabalhistas que também nunca serão pagos pelo contratador - boa parte das vezes tão pobre quanto os peões. É a direita mostrando sua cara sem vergonha de fazê-lo quando se trata de blindar os interesses do capital, mesmo que sustentados na abominável prática do trabalho escravo.

domingo, 23 de setembro de 2007

Golpismo acelerado


Dois pesos, cinco medidas. À meia noite da quarta-feira passada uma notícia foi ao ar transmitida pela Rede Globo: “O procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, denunciará o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) por ter recebido dinheiro repassado pela empresas do publicitário Marcos Valério (...) o senador, segundo o procurador, estaria envolvido com o ´suposto mensalão mineiro` quando foi candidato a governador em Minas nas eleições de 1998”. Pergunta-se: o que ocorreu não foi o mensalão do PSDB, que no referido pleito estava aliançado com o à época PFL, hoje DEM? Curioso, o caixa dois do PT é o “mensalão do PT” e o do PSDB é o “mineiro”. Mais: a notícia simplesmente desapareceu das telas e pouco figurou nos jornalões do país. E será muito difícil que a imprensa golpista de fato cubra esse episódio. Após adaptar o termo cunhado pelo ex-deputado federal Roberto Jéferson, e com ele fazer verdadeiros carnavais midiáticos contra o governo federal, sem que nada fosse comprovado sobre o episódio, a imprensa de Arnaldo Jabor, Miriam Leitão, Diogo Mainardi, Ali Kamel, Otávio Frias e cia agora formula um bem articulado escapismo. Ou o fato não tem critério de noticiabilidade?
Enquadramentos e agendamentos são dispositivos de construções de realidades utilizados pelo jornalismo, já que configurados pelo uso político. No Brasil, a imprensa “gorda” e conservadora é o maior partido. Quer ditar a agenda política desrespeitando a vontade da maioria da população. Assim como não noticia devidamente o “mensalão mineiro”, também não o faz com os dados revelados pelo Instituto de Pesquisa Econômico Aplicada (IPEA), que aponta queda consistente na desigualdade social do país. “Todas as faixas da pirâmide de renda no Brasil conseguiram ganhos, inclusive os mais ricos. No entanto, a base foi a que obteve os maiores ganhos relativos”, afirmou Ricardo Amorim, economista da Fundação Getúlio Vargas, ao jornalista Paulo Henrique Amorim.
Explica-se. Causa verdadeira ojeriza e irrita sobremaneira as elites nacionais, e via de conseqüência seus representantes na mídia, o fato de o governo está implementando políticas públicas de transferência de renda. O alarido dos seus representantes no Congresso é sintomático. A violência dos discursos contra a manutenção do CPMF por parte da direitona, assim como outros impostos, visa exatamente desarticular tais políticas sociais, mesmo que demasiadamente tímidas. A arrogância liberaloide desses setores no parlamento ganha então significativos espaços entre colunistas e comentaristas dos jornalões e redes de TV do Brasil. A cobrança pelo “corte de gastos” e similares, disfarçada de economês jornalístico, turbina o noticiário. Mas nada que deponha contra qualquer estratégia neoliberal. Pelo contrário, a ordem é sedimentar no inconsciente dos públicos leitor, ouvinte e telespectador a ideologia do não-estado e da absoluta supremacia dos interesses do mercado.Enquanto isso, o lema é preservar, blindar mesmo, os projetos políticos neoliberais capitaneados principalmente pelo PSDB e possíveis aliados em 2010. Não esperemos, portanto, nenhuma cobertura mais ampla e consistente sobre os ocorridos dos oito anos da era FHC, quando o país quebrou três vezes e se desfez de importantes patrimônios públicos. Até mesmo porque o demiurgo da sociologia atua como franco atirador no front da mídia gorda, sua aliada que o preservou durante oito anos e ainda continua a fazê-lo. É estratégico para a retomada de amplas políticas neoliberais o cenário de representação construído por esses interesses, o qual “decreta” que este é o governo mais “corrupto” de toda a história do país. E o passado? Bem, este deve ser sepultado e apenas citado numa espécie de memória seletiva.

"Cansei" à baiana; filhinhos-de-papai vão às ruas


Foto: Iracema Chequer

A lente da repórter-fotográfica Iracema Chequer captou uma manifestação do movimento Cansei à baiana. O fato ocorreu na última sexta-feira, dia 21/09, aqui em Salvador, quando alunos dos colégios particulares Marista, Antônio Vieira e Mendel foram às ruas protestar contra a “política”. De certo que existe muita coisa para protestar, mas o interessante é que quando se fala em manifestação contra a “política” soa como algo extremamente deslocado de qualquer contraponto crítico. Afinal de contas, qual o propósito? Se indignar contra a absolvição de Renan Calheiros? Se é, qual a argumentação? Será que aqueles adolescentes conhecem quem é Renan e qual o seu papel naquela emporcalhação do Senado? Parece que se tratou de uma manifestação do vazio, do discurso do nada, do oco dominante nas cabeças da geração pós-Xuxa. Quiçá incentivados pelos próprios empresários, donos das escolas onde estudam, esses meninos e meninas talvez não tenham construído o senso crítico necessário para entender que a política não é um ente deslocado das suas realidades. Não perceberam os filhinhos-de-papai que tal protesto, por si só, já é um ato político. Um ato, diga-se, monitorado exatamente pela ausência de uma reflexão mais crítica por parte deles da realidade que os rodeia. A foto capta três manifestantes que completavam com os demais a palavra democracia. Os três formam a palavra DEM. Sugestivo, não?

sábado, 15 de setembro de 2007

A arte de encantar o incauto




Com o título de “Conexão Bahia Século XXI”, o publicitário, compositor, dublê de apresentador, humorista e arquimilionário Nizan Guanaes conseguiu reunir ampla platéia no Teatro Castro Alves para falar coisas desconexas e receber aplausos. Interessante. Para o gênio da criação publicitária, a solução para os problemas sócio-econômicos do Estado está na reimplantação dos bondes em Salvador, concursos de recitagens de poesias de Castro Alves, apresentações de música clássica, estádio de futebol na orla de Água de Meninos, entre outras idéias “criativas”. Sugere o publicitário que Salvador se transforme até em “capital nacional de eventos”. E ele exemplifica: “Porque não trazer um congresso internacional de odontologia para cá? Nós somos a terra do sorriso”. Bom lembrar ao nosso gênio que os baianos riem mesmo, até da própria miséria, mas a maioria sem os dentes na boca. O “grande” evento, recheado de peças publicitárias, foi fechado com uma ode à Bahia e aos seus filhos ilustres, com direito até à música-homenagem ao centenário de Dona Canô. Detalhe: para ouvir essas soluções “extraordinárias” o espectador pagou de R$60 a R$100. É a própria arte de encantar o encauto. Haja criatividade!

A inconveniência da conveniência



"O voto secreto é um instrumento que deixa o parlamentar a sós com sua consciência em uma hora que é sublime, em que o voto é livre de quaisquer pressões, que podem ser familiares, do poder econômico, de expressão militar ou de setores do Executivo. Voto pela manutenção do voto secreto".

A citação acima é do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) quando, em 13 de março de 2003, defendia posição contrária à do senador Tião Viana (PT-AC) que havia proposto, mediante emenda constitucional, votação aberta para processos de cassação no Senado. Mas é esse mesmo senador que agora argumenta a “imoralidade” da votação secreta. Hipocrisia com juros e dividendos. Como de resto, de toda grande imprensa golpista do país. A absolvição do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ocorrida na quarta-feira passada (12/09), rendeu inúmeras colunas e comentários dos não menos golpistas e oportunistas articulistas dessa mesma imprensa. E a culpa pelo resultado do julgamento recaiu sobre os seis votos de abstenção dados por senadores do PT, já que a outra metade da bancada do partido votou pela cassação do senador. E quanto aos votos da oposição que ajudaram a safar o pescoço do presidente do Senado? Estes não contam? Estratégia e jogo político só valem para as oposições, e para o governo não?
É dado como favas contadas que Renan se licenciará do mandato, Tião Viana, vice-presidente da casa, assumirá, e, posteriormente, o PMDB endossará seu nome para presidir o Senado. O menestrel de Murici não é nenhum santo, e isso é de conhecimento até dos coqueirais da praia de Pajuçara. Todavia, sua imolação pública tem caráter nitidamente político de escandalizar a opinião pública e enfraquecer a base de sustentação do governo.
A acusação que recaiu sobre o senador era de que ele teria cometido crime de ordem fiscal. Calheiros teria recebido dinheiro não declarado de uma empreiteira para pagar pensão alimentícia à filha que tem com a jornalista Mônica Veloso. Caso seja verídica essa informação, hipótese que este colunista não pode descartar, tal crime deve ser comprovado mediante trâmite especifico no âmbito das delegacias de Julgamento da Receita Federal, onde deveria, ou deverá, seguir rito próprio. Confirmado o crime, aí sim, o senador poderia, ou poderá, ser julgado no Senado por quebra de decoro parlamentar.
Mas o que se viu nas semanas que precederam o julgamento naquela casa foi um verdadeiro bunker midiático armado para dar continuidade à artilharia pesada contra o governo. E essa artilharia não cessará, acreditem, e faz sentido compreendê-la. Os últimos dados sócio-econômicos divulgados pelo IBGE apontam que o país está melhor do que há seis anos. Melhoraram a renda, a escolaridade, o poder de consumo e o mercado de trabalho em geral.
As elites brasileiras não admitem que este governo acerte. É preciso defenestrá-lo, logo, antes que milhões de pessoas que estejam sendo beneficiadas por essas políticas públicas, ainda que tímidas, não “inventem de tomar a historia na mão”. Aliás, essa era uma das preocupações de um dos arautos do liberalismo no nascedouro do Brasil, lá pelos idos de 1805. O jornalista Hipólito José da Costa, homem de influência decisiva sobre Bonifácio de Andrada, temia sobremaneira os movimentos populares na colônia que buscassem edificar uma verdadeira república.Fato concreto: para as oposições a trajetória de Calheiros só foi maculada quando um escândalo de ordem político-sexual foi instrumentalizado pela revista Veja como munição dirigida ao Palácio do Planalto. Seu passado, talvez muito mais comprometedor do que seu presente, nunca foi alvo de especulação por parte do front oposicionista. Recomenda-se que esqueça sua conduta à frente da pasta da Justiça à época de FHC e os “serviços prestados” ao processo de reeleição do mesmo. No mais, tudo se redunda no império da hipocrisia comandado pela mídia e oposição golpistas.

domingo, 2 de setembro de 2007

A história de John e João; O sonho americano e o pesadelo brasileiro


John Maguire era casado com Rebeca Wilson Maguire. Eles tinham um filho, o pequeno Ted, de quatro anos. John trabalhava como gerente numa loja Wall Smart da cidade de Pittsburgh, estado de Pensilvânia. Ele vendia material esportivo e suprimentos para caça e pesca. Rebeca era dona de casa e cuidava do Ted. O casal tinha um sonho: comprar uma bela casa, grande, com gramado e espaço para reunir os amigos no sábado. John procura então o gerente do banco do qual é cliente e contrai um financiamento de US$ 250 mil para adquirir o sonhado imóvel. O banco concede o empréstimo e hipoteca a recém-adquirida casa dos Maguires até que o casal pague o investimento. John e Rebeca, como típicos classe-média norte-americanos, terão que se esforçar para quitar as prestações da casa. No seu país não há programas de financiamentos públicos por parte do Estado para adquirir casa própria. Isso vem ocorrendo desde que um cara chamado Ronald Reagan assumiu a presidência por lá e começou a repassar apenas aos bancos privados essa função. Foi nesse período também que a previdência se tornou totalmente privada na pátria de John e Rebeca. Só que o plano dos dois começou a ficar ameaçado por motivos financeiros. As vendas na loja que John trabalhava não iam bem e eles se tornaram inadimplentes com o banco. John não estava conseguindo pagar as altas prestações do imóvel e ainda se lembra do sorriso fácil do corretor que o convenceu a assumir a empreitada. Este lhe apresentava um futuro de sonhos e felicidades com sua Rebeca numa casa bacana. Mas o banco o qual nosso amigo contraíra o financiamento já havia vendido sua dívida de hipoteca a outro, pois era comum no país da liberdade econômica as instituições financeiras negociarem entre si hipotecas como fator de investimentos futuros. O pagamento fiel das prestações dos imóveis os valorizava sobremaneira. As hipotecas ficavam apetitosas para quem as administrava. Um big negócio. Os bancos lucravam muito. Mas esse lucro passou a ser uma forte dúvida. Em cadeia, as instituições financeiras começaram a aferir perdas estratosféricas. Não só John, mas milhões de Johns nos Estados Unidos entraram num clube de inadimplência coletiva. Eles queriam casa bacana para jogar beisebol e assar salsichas. Sonhavam juntos embalados pelos anúncios atrativos veiculados na TV. Foi quando alguns entendidos passaram a antever o caos e apontaram uma “bolha imobiliária” nos EUA. Era gente comprando sem saber se podia continuar pagando. Era banco emprestando sem saber se iria receber de volta. A bolha estourou. Os bancos norte-americanos, diante desse pepino, tiveram que buscar dinheiro em outros investimentos, ou melhor, retirar dinheiro. Retiraram grana de muitas empresas que eles tinham investimentos para recompor o rombo. Então as cotações das ações dessas empresas nas principais bolsas de valores do mundo entraram em queda livre. Eram empresas que, por sua vez, também investiam em outras de outros países. Como um mata-borrão gigante, o dinheiro começou a escoar no ralo do mundo. Distante da terra de John, num certo país chamado Brasil, um outro João trabalhava como operário numa fábrica de carros. Essa empresa tinha ações nas mãos do mesmo banco que John, o norte-americano, contraíra o financiamento. O banco o qual John tornara-se devedor da hipoteca então se desfez de boa parte dos papéis da fábrica de automóveis que João era operário, que ficou em apuros econômicos. Para ficar mais “leve” no mercado e se tornar mais “lucrativa”, a fábrica que empregava João resolveu o demitir assim como a milhares de outros Joãos, que perderam seus empregos. Tanto o banco lá nos EUA e a fábrica no Brasil, que tem ações negociadas no banco dos EUA, jogaram ao mar os “excessos”, e esses “excessos” representaram milhares de famílias sem sustento. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Não importava para ambos se aumentaria a fome, a miséria, a violência e o drama social em todas as partes do planeta. Mas o dono do banco que John tomou o empréstimo e não pagou conseguiu se safar, pois bateu à porta do Governo dos Estados Unidos, chorando, e exigiu que o Banco Central daquele país, o FED, lhe desse socorro, lhe injetando dinheiro público. E esse mesmo FED “recomendou” aos bancos centrais dos outros países, a título de contornar a crise gerada pela especulação desses indomados senhores do mercado, que também injetassem dinheiro público para socorrê-los. Para eles, o Estado agora tinha função. Pronto, o playland dos banqueiros e especuladores estava a salvo, com dinheiro público, diga-se. Seus donos continuarão abastados e arquimilionários. E John e João, como ficaram? John perdeu a casa dos sonhos e mora agora de aluguel no subúrbio de Pittsburgh, onde passa os finais de semana tomando cerveja, assistindo partidas de beisebol na TV e aguardando um comercial que possa atraí-lo para um novo imóvel dos sonhos. Já o João do Brasil, que nunca sonhou com casa bacana, agora mora na casa dos pais, na periferia de São Paulo, com mais oito pessoas. Está desempregado, a mulher está grávida e, diferente do John lá de “cima”, seu sonho de “consumo” é apenas um novo emprego. Mas assim como seu homônimo norte-americano, João também assiste TV todos os dias, principalmente quando levanta pela manhã e vê uma jornalista muito séria, “conhecedora profunda” da economia, que no seu comentário diz: “o mercado amanheceu nervoso”. João não entende nada do que ela quis dizer, apenas se posta à mesa, abre os classificados de emprego e sublinha os anúncios para mais um dia de batalha pela sobrevivência. A jornalista se despede depois de ouvir empresários e investidores sobre o “nervosismo do mercado” e anuncia a próxima programação.

sábado, 1 de setembro de 2007

Plebiscito pela devolução da Vale do Rio Doce ao povo brasileiro

Movimentos sociais, pastorais e centrais sindicais estão organizando, a partir de hoje, 1º, a realização do plebiscito pela anulação do leilão da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). A campanha A Vale é Nossa quer ouvir respostas da população em consulta a ser realizada até o dia 7 de setembro. Pesquisa do Instituto GPP revelou que 50,3% dos brasileiros são a favor da retomada da Vale pelo governo brasileiro. De acordo com informações da CUT, são esperados mais de 12 milhões de votantes. A entrega da companhia estatal, fundada em 1942 com recursos públicos do povo brasileiro, ocorreu em 1997 durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. A veda da Vale se constituiu numa agressão ao país e à sua população. A Vale tinha patrimônio avaliado à época em US$ 100 bilhões e foi vendida por apenas US$ 3,3 bilhões. Hoje, a empresa é controlada pelo consórcio Valepar (que tem a presença do banco Bradesco) e pelos acionistas preferenciais (62% deles estrangeiros). O atual comando da Vale afirma preservar o meio ambiente, quando o trabalho de formação para o plebiscito aponta o contrário: a produção da companhia explora a camada vegetal da Amazônia com o objetivo da exportação. Interessante notar que o mesmo Bradesco que se apresenta como ecologicamente correto, na verdade investe na devastação de amplas áreas da Amazônia.
Perdas - E o que foi que o povo brasileiro perdeu? Vejamos: a empresa atua em 14 Estados da federação, possui nove mil quilômetros de estrada de ferro, é proprietária de dez portos e está presente nos cincos continentes. A Vele detém importantes e estratégicas jazidas de mineiros, como nióbio, urânio, ouro, manganês, etc., sendo que alguns destes minerais possuem reservas somente em solo brasileiro. Líder mundial no mercado de minério de ferro, a Vale é a segunda maior produtora integrada de manganês e ferroligas, além de maior prestadora de serviços de logística do Brasil. Além disso, a empresa comercializa seus produtos para indústrias siderúrgicas do mundo inteiro.
O plebiscito se inscreve como mais um passo à maturidade política do avanço democrático brasileiro. Democracia sem participação popular não existe. No momento em que escrevo ocorre o Terceiro Congresso do Partido dos Trabalhadores. Certamente, diversas correntes da agremiação deverão se manifestar acerca da reestatização da Vale. No entanto, falta uma palavra mais enfática por parte do Governo em relação à questão. A gestão de Lula titubeia e se deixar cegar pelas nuvens de fumaças jogadas pela imprensa marrom e a direita nacional. É dever do Estado se posicionar perante tal fato. Na Venezuela e Bolívia os respectivos governos se encarregaram de encetar processos de nacionalizações e reestatizações de setores estratégicos da economia, principalmente quanto à exploração de minerais. As estratégias de Chavéz e Morales se sustentam na mobilização popular. E é o que aqui deve ser feito. O processo participativo é fundamental para que o país recupere sua soberania, estraçalhada ao longo dos oito anos de mandato dos tucanos em parceira com os velhos oligarcas do PFL.

Imprensa e Justiça: coação ou convergência?

A campanha às eleições de 2010 continua a pleno vapor com os mesmos arranjos de clichês e discursos que a de 2006. O sociólogo inglês e especialista em estudos de mídia John B. Thompson, no seu trabalho O Escândalo Político, Poder e Visibilidade na Era da Mídia, aponta os escândalos midiáticos como ferramentas que visam dar visibilidade a projetos político-eleitorais. Afirma Thompson: “A relação entre políticos e imprensa pode, ocasionalmente, ser próxima e harmoniosa, na medida em que eles tiverem ligados por formas de dependências recíprocas. Nesse sentido, é importante cultivar a mídia, ou mesmo tê-la à mão, dominado-a ou adquirindo-a”.
No decorrer da semana passada, a grande mídia, em consonância política com o Supremo Tribunal Federal (STF), retomou o agendamento do chamado Mensalão. Já era previsto. Passada a febre do “Apagão aéreo”, que resultou na queda do ministro Waldir Pires e a sua substituição pelo turrão gaúcho Nelson Jobim, e a pífia iniciativa da campanha Cansei, a artilharia oposicionista foi realimentada com balas já gastas. Com certeza, por falta de novo estoque. Com direito às primeiras páginas e chamadas nos principais jornais, revistas e telejornais do país, a mais alta corte do Brasil levou as 40 pessoas implicadas no suposto esquema do mensalão à condição de réus. Nesse grupo, de forma estranha, dois deputados do PT, Professor Luizinho e João Paulo Cunha, são acusados de terem vendido seus votos no Congresso Nacional para o próprio governo que eles apoiavam.
Presunção da culpa - Estava dada a senha para mais um escândalo político com o aval da presidente do STF, ministra Ellen Gracie Northfleet, a mesma que se recusa a autorizar que a Polícia Federal abra os HD’s dos computadores do banqueiro-espião Daniel Dantas. Vem à baila, novamente, a presunção da culpa. Substituindo os magistrados e tomando emprestadas suas togas, os grandes meios de comunicação já anteciparam o veredicto: todos são culpados e alguns formaram quadrilhas de esquemas criminosos. Sabe-se que para que se prove tal ato serão necessárias provas robustas num longo processo. O STF, na verdade, operou uma decisão meramente política. Mas é uma decisão que abastece a contento o manancial de munição das oposições e, via de conseqüência, dos grandes grupos de mídia a ela ligados. O ataque é dirigido ao governo. Nesse arsenal, tudo cabe. Após a decisão do STF, o candidato do PSDB e da opus Dei Geraldo Alckmin disparou: "É o governo Lula quem está no banco dos réus. Isso é óbvio, pois tudo aconteceu dentro do governo".
O que se estabelece, de fato, é o descontentamento com o governo por parte de setores cada vez mais amplos das elites nacionais. Reina o ódio e o preconceito de classe. Seja por parte de um João Dório Jr., especialista em organizar desfiles de cachorrinhos de madames, e de articulistas do naipe de Alexandre Garcia, fiel porta-voz do neoliberalismo na Rede Globo. Posterior a avaliação do STF, começaram a vazar informações acerca do posicionamento dos ministros daquela corte. Estariam eles votando sob a coação da mídia? Não é preciso ser vidente para se chegar a essa constatação. Mas uma ressalva deve ser feita: não é bem coação, mas convergências de interesses de cunho estritamente ideológico, inclusive por parte de quem preside o STJ, Ellen Gracie. A mídia apenas obriga o Supremo ser mais célere no andamento do processo. O julgamento do “mensalão”, friso, é combustível planejado para gastar e detonar em 2010. E a estratégia é que a cada passo dado no processo, a grande imprensa, com azeitada correia de transmissão, antecipe-se presumindo culpas em discursos propagandísticos. E são os mesmos jornalões, televisivos e impressos, que continuarão se omitindo quanto à cobertura da mobilização para exigir a manutenção do veto à Emenda três e de resto a todos os fatos envolvendo mobilizações por parte de categorias profissionais e movimentos sociais. O processo do mensalão no STF é parte integrante de uma estratégia de poder conduzida pela direita nacional e internacional que quer e deseja retomar o controle político do país para acelerar a implantação das políticas neoliberais. O objetivo é manter boa parte da população sob a névoa de uma espécie de “modelo” de caos. Um “caos”, diria, intermitente e que deve ser renovado como forma de manter o estoque discursivo para o emplacamento do projeto político oposicionista.