A inconveniência da conveniência



"O voto secreto é um instrumento que deixa o parlamentar a sós com sua consciência em uma hora que é sublime, em que o voto é livre de quaisquer pressões, que podem ser familiares, do poder econômico, de expressão militar ou de setores do Executivo. Voto pela manutenção do voto secreto".

A citação acima é do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) quando, em 13 de março de 2003, defendia posição contrária à do senador Tião Viana (PT-AC) que havia proposto, mediante emenda constitucional, votação aberta para processos de cassação no Senado. Mas é esse mesmo senador que agora argumenta a “imoralidade” da votação secreta. Hipocrisia com juros e dividendos. Como de resto, de toda grande imprensa golpista do país. A absolvição do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ocorrida na quarta-feira passada (12/09), rendeu inúmeras colunas e comentários dos não menos golpistas e oportunistas articulistas dessa mesma imprensa. E a culpa pelo resultado do julgamento recaiu sobre os seis votos de abstenção dados por senadores do PT, já que a outra metade da bancada do partido votou pela cassação do senador. E quanto aos votos da oposição que ajudaram a safar o pescoço do presidente do Senado? Estes não contam? Estratégia e jogo político só valem para as oposições, e para o governo não?
É dado como favas contadas que Renan se licenciará do mandato, Tião Viana, vice-presidente da casa, assumirá, e, posteriormente, o PMDB endossará seu nome para presidir o Senado. O menestrel de Murici não é nenhum santo, e isso é de conhecimento até dos coqueirais da praia de Pajuçara. Todavia, sua imolação pública tem caráter nitidamente político de escandalizar a opinião pública e enfraquecer a base de sustentação do governo.
A acusação que recaiu sobre o senador era de que ele teria cometido crime de ordem fiscal. Calheiros teria recebido dinheiro não declarado de uma empreiteira para pagar pensão alimentícia à filha que tem com a jornalista Mônica Veloso. Caso seja verídica essa informação, hipótese que este colunista não pode descartar, tal crime deve ser comprovado mediante trâmite especifico no âmbito das delegacias de Julgamento da Receita Federal, onde deveria, ou deverá, seguir rito próprio. Confirmado o crime, aí sim, o senador poderia, ou poderá, ser julgado no Senado por quebra de decoro parlamentar.
Mas o que se viu nas semanas que precederam o julgamento naquela casa foi um verdadeiro bunker midiático armado para dar continuidade à artilharia pesada contra o governo. E essa artilharia não cessará, acreditem, e faz sentido compreendê-la. Os últimos dados sócio-econômicos divulgados pelo IBGE apontam que o país está melhor do que há seis anos. Melhoraram a renda, a escolaridade, o poder de consumo e o mercado de trabalho em geral.
As elites brasileiras não admitem que este governo acerte. É preciso defenestrá-lo, logo, antes que milhões de pessoas que estejam sendo beneficiadas por essas políticas públicas, ainda que tímidas, não “inventem de tomar a historia na mão”. Aliás, essa era uma das preocupações de um dos arautos do liberalismo no nascedouro do Brasil, lá pelos idos de 1805. O jornalista Hipólito José da Costa, homem de influência decisiva sobre Bonifácio de Andrada, temia sobremaneira os movimentos populares na colônia que buscassem edificar uma verdadeira república.Fato concreto: para as oposições a trajetória de Calheiros só foi maculada quando um escândalo de ordem político-sexual foi instrumentalizado pela revista Veja como munição dirigida ao Palácio do Planalto. Seu passado, talvez muito mais comprometedor do que seu presente, nunca foi alvo de especulação por parte do front oposicionista. Recomenda-se que esqueça sua conduta à frente da pasta da Justiça à época de FHC e os “serviços prestados” ao processo de reeleição do mesmo. No mais, tudo se redunda no império da hipocrisia comandado pela mídia e oposição golpistas.

Comentários

Mitchell Almeida disse…
Perfeito!
E poucos sabem que além do "paladino" Arthur Virgílio Neto(PSDB-AM), os não menos "íntegros", José Agripino(DEM-RN), Sergio Guerra(PSDB-PE), Gerson Camata(PMDB-ES) e Tasso Jereissati(PSDB-CE) -para só citar alguns- também foram contrários à proposta do fanfarrão senador, Tião Viana(PT-AC).

Como as coisas mudaram de 2003 pra cá...

Saravá!
Anônimo disse…
É verdade! Eu fico puto com isso! Nosso Congresso muda de cor conforme muda o governo.
Tudo que o PT pregou enquanto oposição, é contra hoje.
Tudo que PSDB/PFL tinha como impensável enquanto governo, é a favor hoje.

Pra mim, "A imoralidade da conveniência"


P.S.:Sou o mesmo anônimo "da Vale"

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