segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Cinema de primeira





O que um criador de cabras no Marrocos, uma família classe média norte-americana, uma empregada mexicana imigrante e um executivo japonês, pai de uma deficiente auditiva, podem ter em comum? Babel, o novo filme do diretor mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu, estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett, consegue amarrar, num excelente e bem inspirado roteiro, histórias de pessoas comuns que, entrelaçadas pelo destino, servem como pano de fundo para discutir desde a condição humana a relações de poder num mundo globalizado. É cinema de primeiríssima qualidade.
Há quem diga que o filme de Iñarritu “é um festival de descompassos”, como apontou a jornalista Isabela Boscov, da revista Veja. Deixemos as tolices da Veja e seus críticos para lá, afinal de contas é pedir demais algum tipo de postura ética e sensata naquelas páginas.
O fato é que a película não se candidata ao Oscar à toa. Nada disso. É a indústria cinematográfica dos Estados Unidos que se curva à maestria de uma discussão pra lá de séria sobre a humanidade. No elenco, além dos já citados intérpretes, participam também os atores japoneses Kôji Yakusho e Rinko Kikuchi e os mexicanos Gael Garcia Bernal e Adriana Berraza.
De férias no Marrocos, os turistas norte-americanos Susan (Blanchett) e seu marido Richard (Brad Pitt) discutem a relação de um casamento em frangalhos. Um tiro acidental, dado pelo filho de um pastor de ovelhas, atinge Susan dentro do ônibus. O fato leva a uma crise diplomática, pois a polícia marroquina passa a perseguir os supostos terroristas que teriam disparado o tiro. Na verdade, uma fatalidade advinda da brincadeira de dois adolescentes encarregados pelo pai de tomar conta dos animais e atirar em chacais. O rifle, que fora recém-comprado pelo pastor, pertencera a outro camponês e havia sido presenteado a ele pelo executivo japonês Yasujiro, quando este se encontrava em solo marroquino caçando. Os dois adolescentes são perseguidos como animais pelos policiais.
Enquanto isso, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, Amélia, empregada e imigrante ilegal, toma conta dos dois filhos do casal norte-americano. Empolgada com o casamento do filho mais velho, ela resolve levar as duas crianças para a celebração, que ocorre em solo mexicano. No retorno da festa, um incidente entre seu sobrinho Santiago e a polícia fronteiriça descamba para uma situação perturbadora envolvendo a mexicana e as duas crianças.
Quase que simultaneamente, no outro lado do mundo, quem está perturbada é a cabeça da jovem estudante Chieko, a filha de Yasujiro. Surda e muda, Chieko mergulha num complexo de inferioridade pela sua deficiência auditiva e busca suprir suas carências sexuais num mundo marcado pelo preconceito. Ela não supera a morte da mãe assim como seu pai também. A incompreensão do mundo e dos homens para com a adolescente leva-a ao desespero. Na verdade, a película é um grito surdo que canaliza em línguas diferentes, mas numa só voz, a dor de seres humanos esmagados por conflitos de ordem psicológica, social, política, econômica e existencial. Nesse caldeirão de infortúnios, uma abastada família japonesa pode ser tão vítima quanto um pobre pastor do Marrocos assim como uma imigrante mexicana e um casal norte-americano perdido no deserto africano. A fragilidade da vida é o que conta.

Raríssimo conceito de democracia





Alexandre Garcia, um dos porta-vozes do jornalismo na Globo destila exclusivo e bem particular conceito de democracia





Um “bem entendido” conceito de democracia se alastra entre alguns comentaristas e jornalistas da Globo: a Venezuela tem um governo autoritário porque não irá renovar a concessão da Radio Caracas Televisión (RCTV). Aliás, a Venezuela foi o último assunto abordado entre os repórteres globais Renato Machado, Alexandre Garcia e Miriam Leitão quando entrevistavam, na semana passada, a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência Dilma Roussef. Reconheçamos, o modos operandi discursivo estabelecido pela editoria do Jornal da Manhã foi matematicamente planejado. A começar pelos questionamentos ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Causa verdadeiro estorvo à Globo pensar em um Estado que invista na infraestrutura, educação e saúde. Para eles, crescimento só deve e pode existir se o Estado encolher e o sacrossanto mercado tomar as rédeas do país como a raposa toma conta do galinheiro. Para um bom entendedor, basta relembrar a forma como Alexandre Garcia inquiria a ministra sobre “a timidez no corte dos gastos”; Ou mesmo quando a “especialista” Miriam Leitão, do alto do seu conhecimento, questionava sobre ações macroeconômicas. Com malabarismos lingüísticos, esses jornalistas buscavam justificar suas crenças e teses no neoliberalismo ornando seus discursos com sofismas baratos, como que quisessem encantar os incautos e fazer crer que estavam num mar de razões. Por fim, veio à baila o verdadeiro tema trazido pela trinca de “ouro” escalada por Ali Kamel, diretor de Jornalismo da Globo, para cumprir a tarefa: perguntar se o governo Lula poderia transformar o Brasil numa Venezuela. A ordem era misturar fatos e mandar o recado de que o Estado brasileiro não poderia agir fora dos limites estabelecidos pelas elites locais. E o gancho para isso foi o questionamento feito por Garcia se o governo de Lula reeditaria ou não a ação de Chávez em solo tupiniquim nesse segundo mandato.
Adentramos então no conceito de democracia da Rede Globo de televisão. É sabido, não por todos e aí está o trunfo da Globo, que Hugo Chávez Frías foi eleito em dezembro passado com 63% dos votos. Chávez tem amplo apoio da população. O Estado venezuelano mobilizou a sociedade e tem utilizado a riqueza do petróleo para investir em programas sociais. A RCTV, por sua vez, pertence a um consórcio de empresários ligado a antiga direção da PSDVA, a companhia petrolífera venezuelana que outrora drenava suas receitas para encher os bolsos de magnatas. Foi a RCTV, junto a CNN e outras emissoras de menor porte, que planejou e executou a tentativa de golpe de Estado em 2002, que durou 48 horas e foi barrado pela pressão popular em Caracas. Para a jornalista Lourdes Zuazo, da Telesur, a atuação da RCTV é que se constitui um atentado à democracia. Zuazo afirma que esta emissora prega abertamente um golpe de Estado na Venezuela e não respeita a constituição do país. E que fique claro: não está se fechando um canal de televisão. A licença de atuação é que não será renovada porque a emissora foge à lei e prega a ilegalidade institucional. Alguém viu ou ouviu algum comentário sobre esses fatos na Rede Globo? Recordando o passado recente, onde se encontrava a voz da Rede Globo quando o país vivia sob o Regime Militar? Boas perguntas.
Temos então um conceito de liberdade e democracia bastante evasivo e seletivo por parte da Vênus Platinada. A rede televisiva que diariamente vomita montanhas de cretinices e pieguices é a mesma que assume um discurso presumivelmente sério acerca dos graves problemas nacionais. No baú da Globo cabe tardes de domingo chorosas no Domingão do Faustão com panegíricos de artistas e celebridades e reportagens sobre o aquecimento global. No entanto, para a emissora dos Marinhos as intempéries climáticas que o planeta enfrenta em decorrência da emissão de gases poluentes nada têm a ver com a concentração da renda mundial e a ambição consumista do capitalismo internacional que está fritando a Terra na frigideira dos lucros. É informação pela metade com discurso enviesado onde tudo se empana para disfarçar a realidade. Hugo Chávez então é o mal e o bem é representado no bom mocismo de araque interpretado pelas suas personalidades e jornalistas ventríloquos dos consensos das elites. Os problemas sociais são vistos como um mosaico sem forma. A propósito, a participação popular que a Rede Globo admite é quando põe em votação, a nível nacional, a escolha de quem vai sair ou ficar na casa-laboratório do Big Brother. Para a Globo, o interesse público se faz necessário quando se trata de pasteurizar a competição social mediante estratagemas de espertezas. Corpos torneados e conversas pueris ganham destaque numa sociedade de excluídos que a emissora transforma em sonhadores que podem ganhar um milhão ao se espelharem naqueles seres-ratos trancafiados numa mansão de luxo.