Cinema de primeira





O que um criador de cabras no Marrocos, uma família classe média norte-americana, uma empregada mexicana imigrante e um executivo japonês, pai de uma deficiente auditiva, podem ter em comum? Babel, o novo filme do diretor mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu, estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett, consegue amarrar, num excelente e bem inspirado roteiro, histórias de pessoas comuns que, entrelaçadas pelo destino, servem como pano de fundo para discutir desde a condição humana a relações de poder num mundo globalizado. É cinema de primeiríssima qualidade.
Há quem diga que o filme de Iñarritu “é um festival de descompassos”, como apontou a jornalista Isabela Boscov, da revista Veja. Deixemos as tolices da Veja e seus críticos para lá, afinal de contas é pedir demais algum tipo de postura ética e sensata naquelas páginas.
O fato é que a película não se candidata ao Oscar à toa. Nada disso. É a indústria cinematográfica dos Estados Unidos que se curva à maestria de uma discussão pra lá de séria sobre a humanidade. No elenco, além dos já citados intérpretes, participam também os atores japoneses Kôji Yakusho e Rinko Kikuchi e os mexicanos Gael Garcia Bernal e Adriana Berraza.
De férias no Marrocos, os turistas norte-americanos Susan (Blanchett) e seu marido Richard (Brad Pitt) discutem a relação de um casamento em frangalhos. Um tiro acidental, dado pelo filho de um pastor de ovelhas, atinge Susan dentro do ônibus. O fato leva a uma crise diplomática, pois a polícia marroquina passa a perseguir os supostos terroristas que teriam disparado o tiro. Na verdade, uma fatalidade advinda da brincadeira de dois adolescentes encarregados pelo pai de tomar conta dos animais e atirar em chacais. O rifle, que fora recém-comprado pelo pastor, pertencera a outro camponês e havia sido presenteado a ele pelo executivo japonês Yasujiro, quando este se encontrava em solo marroquino caçando. Os dois adolescentes são perseguidos como animais pelos policiais.
Enquanto isso, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, Amélia, empregada e imigrante ilegal, toma conta dos dois filhos do casal norte-americano. Empolgada com o casamento do filho mais velho, ela resolve levar as duas crianças para a celebração, que ocorre em solo mexicano. No retorno da festa, um incidente entre seu sobrinho Santiago e a polícia fronteiriça descamba para uma situação perturbadora envolvendo a mexicana e as duas crianças.
Quase que simultaneamente, no outro lado do mundo, quem está perturbada é a cabeça da jovem estudante Chieko, a filha de Yasujiro. Surda e muda, Chieko mergulha num complexo de inferioridade pela sua deficiência auditiva e busca suprir suas carências sexuais num mundo marcado pelo preconceito. Ela não supera a morte da mãe assim como seu pai também. A incompreensão do mundo e dos homens para com a adolescente leva-a ao desespero. Na verdade, a película é um grito surdo que canaliza em línguas diferentes, mas numa só voz, a dor de seres humanos esmagados por conflitos de ordem psicológica, social, política, econômica e existencial. Nesse caldeirão de infortúnios, uma abastada família japonesa pode ser tão vítima quanto um pobre pastor do Marrocos assim como uma imigrante mexicana e um casal norte-americano perdido no deserto africano. A fragilidade da vida é o que conta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Snowden. Ou o fim da utopia cibernética

Num dia de agosto de 1992

Fé e ciência. O que Buda e Cristo têm em comum?