domingo, 18 de dezembro de 2011

A "ética" da avestruz e a esperteza da cascavel



Acabei de ler o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., “A Privataria Tucana”. E li também o artigo do articulista de O Globo, Merval Pereira, que entendeu a publicação como “ficção”. Ficção? Como assim? Não há nada na obra que remeta a esta situação. O livro é um condensado de fatos que não causa supresa para quem tem acompanhado com olhar crivo o desenrolar da vida política do País nos últimos 25 anos. O processo de privatizações da era FHC foi marcado por muita corrupção e bandidagem, como o autor demonstra cabalmente. Fato. O que Pereira faz, mal e porcamente num texto sofrível e teleguiado, é tentar encantar incauto.  
A estratégia de negar com profundo silêncio um rigoroso e exaustivo processo de apuração jornalística, e amplamente documentada, denuncia algo. E perigoso. Em recente comentário veiculado nas redes sociais, o jornalista Bob Fernandes declarou: “O silêncio da grande mídia em relação ao livro de Amaury Ribeiro pode ser revelador”. Sim, revela-nos muitas inquietações, e a mais preemente ancora-se num argumento-tese, e básico: parte significativa da grande mídia no Brasil está organicamente partidarizada. E se não fosse a Internet possivelmente milhões de pessoas não teriam acesso às informações contidas na apuração de Amaury Ribeiro.
E este é um dado perigoso. A despeito das risíveis posturas de colunistas e comentaristas acerca do conteúdo do livro, fazendo-se de desentendidos ou, quando não, tentando desqualificá-lo com argumentos que beiram o cretinismo débil e com forte dose de cinismo, são posicionamentos que ensejam a desconfiança de que há realmente algo de muito podre fermentando. Um serpentário inteiro pode está apto a vir à luz.
O caso Privataria Tucana, a nosso ver, estabelece paralelo com outro ocorrido nas décadas de 30 e 40. Um alinhamento partidário de meios de comunicação do tipo que tem sido registrado no Brasil nos últimos 10 anos – jornalistas, colunistas e empresas – só encontra similaridade na poderosa orquestra de mídia levada a cabo pelo Partido Nazista na Alemanha.
A indústria do escândalo e o estabelecimento de tribunais de exceção acantonados nos aquários das redações, com o concomitante pacto de silêncio quando se trata de noticiar algo que deponha contra seus pares políticos, foi estratégia largamente usada por Adolf Hitler. Joseph Goebbels assim orientara. A partir de meados dos anos 20, o Partido Nazista agregou em sua entourage a esmagadora maioria dos grandes jornais alemães que o acompanharam até a assunção ao poder, em 1933. E foram peças de propaganda determinantes para desestabilizar a República de Weimar. Posteriormente, a partir de 1935, jornais foram cooptados e comprados mundo afora para servirem de escoadoro da agência de notícias Transocean, também controlada pelo partido. No Brasil, o Diário de Notícias da Bahia, o Meio Dia, do Rio de Janeiro, e a Folha da Manhã, em Recife, foram alguns deles.
O episódio envolvendo o livro recém-lançado reúne ingredientes que, no mínimo, merecem reflexão mais séria acerca da conduta dos grandes conglomerados de mídia do País. Não se trata apenas de uma opção ideológica. A orquestração editorial dessas corporações sinaliza deliberado objetivo de desestabilização do sistema político. A despolitização perfaz a base argumentativa. Político é sinonímia de corrupção, desde que não se encontre em destaque no campo oposicionista, como se verifica com o ex-candidato a presidente José Serra. É a “ética” da avestruz escondendo a esperteza da cascavel.
Segue-se à risca a tarefa de blindagem total às hostes da oposição partidária de direita como estratagema à desconstrução de imagens e reputações do campo governista. Mesquitas, Frias, Marinhos, Civitas e rêmolas menores buscam diariamente seus reichstags para incendiar. “Às favas com os escrúpulos”, afirmara o coronel Jarbas Passarinho quando questionado sobre os atos de exceção do Regime Militar. E caprichosamente a história reedita a frase-mestre do arbítrio com os grandes meios de comunicação do Brasil no século XXI. As serpentes estão à espreita. E é bom enfrentá-las!  

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

PSD confirma a acefalia politica Brasileira!

Por Andre Luis Novais (@zededao2010)


Já diziam nos auges de 1835, pela voz escrita do Sentinela da Liberdade: “papel que me enjoa ler por me cheirar aguardente, a bafo de Aristocracia bandalho e cantiga de Maroto desprezível, um poucas Letras e muito servilismo e inimizade a nossa Independência, Liberdade e federação verdadeira e solida”...Evoco aqui palavras do memorável Brasileiro e herói das letras e da Opinião Publica : “Cipriano Barata”.
Esta evocação a Cipriano Barata no auge da construção do Brasil como uma Nação, vem para elucidar o que vivemos em nossa politica hoje!
Com Lula encontramos o caminho de fato para construir um país mais justo e mais social, só que neste pacote deparamos com a verdadeira Devassa partidária de interesses esdrúxulos sem ideais e sem contribuição para está construção e está nova dinâmica Brasileira.
O PSD de Kassab é sem duvidas o resultado mais escracho desta nova realidade. PSD não é uma caminho é uma bifurcação, entre os “DEM” que declararam guerra ao Governo Lula e os EX-DEM que acharam este caminho equivocado e fundaram o “Mais do Mesmo”, só que de uma forma mais moderada e menos abrangente.
Declarar GUERRA ao governo da forma que o DEM fez realmente foi um caminho errado e equivocado, e que de fato culminou na criação de mais um partido politico, mas que partido é esse? Para quem ? e por quem?
Agora pouco saiu o que o fundador do partido, Gilberto Kassab, chamou de: “Manifesto ao Povo”, na verdade eu chamaria de desafeto ao Povo, simplesmente porque o partido não é uma aspiração de fora do poder, o partido de Kassab nasce membrado do “resto” dos partidos que já estavam em processos de falência. Pergunte se alguém se desfilou do PT para ir ao além –mar do PSD?
Falo isso sem o menor pudor de cometer qualquer erro futuro, não podemos deixar que eles se apresentem como consenso ou “centro”, como solução ou alternativa o PSD é sem duvidas o “Mais do Mesmo”....

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Artigo de Marcos Coimbra: A corrupção e a opinião pública


É sempre necessário conhecer o que pensam os cidadãos sobre os temas em debate no meio político. A opinião pública pode não ser a dimensão fundamental na democracia, mas é uma das mais importantes.
Suas preocupações e prioridades coincidem, muitas vezes, com as dos políticos e as da imprensa. Em outras, no entanto, não são as mesmas.
A corrupção, por exemplo. Deve ter sido a palavra mais usada no Congresso e na mídia nos últimos meses.
A temporada começou com as denúncias contra Palocci e não se encerrou. Pelo contrário. Outros ministros caíram, dezenas de funcionários foram demitidos.
Os partidos de oposição, como é natural, se aproveitaram desses casos para focar o discurso. Seria ilógico que desperdiçassem a oportunidade, apesar do telhado de vidro e de saberem, no íntimo, que enfrentariam dificuldades parecidas às de Dilma, se tivessem vencido a eleição.
A mídia oposicionista avaliou que esse era um flanco a explorar no ataque a seu inimigo figadal, o “lulopetismo”. Deu-lhe, portanto, farta cobertura (mas, como sempre, sem dedicar uma linha a quem corrompe).
Ao longo do mês, um terceiro elemento (não separado dos anteriores) entrou em cena. A partir do Sete de Setembro, foram tentadas algumas manifestações de protesto civil contra a corrupção, das quais a maior ocorreu em Brasília. Todas foram modestas.
A mais recente, que aconteceu esta semana no Rio de Janeiro, chegou a ser patética, apesar do espaço que sua preparação recebeu nos veículos do maior grupo de comunicação da cidade (e do país) e da simpatia com que foi tratada. Só faltou convocar a população, explicitamente, a participar do evento.
Apenas 2,5 mil pessoas apareceram, entre manifestantes — a maioria motivada por outras questões — e a turma que costuma circular no centro das grandes cidades. Alguns empunhavam as velhas vassouras do pior udenismo.
Nada de semelhante às manifestações de massa em outros países. Do mundo árabe à Europa, passando pelo Chile e chegando aos Estados Unidos, grandes e entusiasmados protestos, especialmente de jovens, tornaram-se parte decisiva do processo político.
Uma das razões que explicam a baixa adesão popular aos protestos anticorrupção no Brasil é o lugar que o tema possui na hierarquia dos problemas nacionais. Ele está longe de ser prioritário para a vasta maioria da população.
Em pesquisa realizada há dois meses pela Vox Populi, foi pedido aos entrevistados que dissessem quais os três principais problemas do país (em pergunta espontânea, i.e. sem exibir lista). Como mais grave, a corrupção foi citada por 5% dos ouvidos e ficou em sexto lugar. Agregando as repostas de quem a colocou como um dos três mais relevantes, permaneceu na mesma posição.
Esses 5% podem ser comparados aos 38% que escolheram a saúde, aos 20% que citaram a segurança, aos 12% que responderam educação, aos 11% que mencionaram o desemprego e aos 5% que falaram em pobreza ou fome. Ou seja, não é uma preocupação central para muita gente.
Não se está aqui dizendo que seja pouco importante. As pessoas se preocupam com a corrupção e acham que é indispensável coibi-la.
Mas não consideram que o problema tenha se agravado ultimamente. Aliás, todas as pesquisas mostram que, quando se pedem comparações entre os governos do PT e do PSDB, a maioria acha que era mais sério antes da vitória de Lula.
Perguntadas sobre qual partido “tem políticos mais desonestos “, as pessoas tendem a dizer “todos” (30%) ou (o que é parecido) não saber qual (36%). PT, PMDB e PSDB empatam, cada um com cerca de 8%, entre os que mencionam algum.
A corrupção não é, portanto, um tema que esteja pegando fogo na opinião pública. E não há, hoje, “culpados” claros por ela (como houve no passado, quando chegou a levar milhões de caras pintadas às ruas).
O mais importante, contudo, é que a grande maioria da população aprova o governo e confia na sua atuação. As pessoas acreditam que a corrupção é um dos muitos problemas que o país têm e que estão sendo enfrentados por Dilma.
É por que a opinião pública pensa assim que a “indignação” mobiliza tão pouca gente. Apesar dos esforços em contrário de alguns (poderosos).
* Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Vox Populi.

sábado, 28 de maio de 2011

Da spanishrevolution à brazilianrevolution


Por Bernardo Gutiérrez, via Caros Amigos

Muitos amigos brasileiros estão perguntando para mim sobre a spanishrevolution. O mídia mainstream brasileira publicou pouco e entendeu quase nada. Por isso, vou fazer um exercício muito simples para entender a chamada spanishrevolution. Imagina que uma ministra de Cultura (Ana Buarque do Holanda, por exemplo) aprova uma lei sobre direitos de autor da Internet que despreza licenças como Creative Commons, corta liberdades civis na rede e faz o jogo da indústria audiovisual. Um grupo de ativistas digitais cria uma plataforma navoteneles, pedindo para castigar os partidos que aprovaram a lei (imaginemos aqui, PT, PSDB e PMDB). O grupo, indignado com os casos de corrupção, começa fazer ´wikimapas´ feitos em redes com os candidatos corruptos. Depois, milhares de grupos que lutam por causas diferentes entram na luta pedindo uma “democracia real” mais participativa e transparente e outro sistema económico alternativo ao liberalismo. A revolução democraciareal estoura quando a polícia despeja um grupo de pessoas que estavam acampadas na principal praça da capital do país. As redes sociais espalham rapidamente a brazilianrevolution e os cidadãos, altamente conectados, descentralizados e organizados, invadem as praças do país inteiro e discutem, no asfalto e na Rede, uma nova sociedade. A campanha política em andamento para as eleições regionais fica paralisada e o mundo começa olhar para uma nova revolução digital de consequências imprevisíveis. Entendeu agora o que aconteceu na Espanha e as ideias que se espalham pelo mundo? Só falta temperar isso com uma crise econômica (internacional) e a explosão de uma gigantesca bolha imobiliária (espanhola) para completar a equação.
O fácil para a mídia brasileira era falar que o alto desemprego da Espanha (por volta dos 20%) provocou a revolta. É lógico: a crise e o desemprego influenciaram, mas o desemprego não foi o motivo principal, entre outras coisas porque ainda funciona o seguro desemprego. O simples era comparar a spanishrevolution às reviravoltas do mundo árabe. Só tem um ponto em comum, a importância das redes sociais no processo. Na Espanha tem democracia consolidada. As causas da revolta foram outras, várias, muitas. Os objetivos também são diferentes aos do mundo árabe. 92% dos jovens espanhóis usam a Internet, doze pontos por cima do resto da Europa, segundo o próprio Estado. A Espanha lidera também o uso de banda larga nos celulares (19,5% da população, 6,9% na Europa). O “cocktail” se completa com uma elevadíssima porcentagem de jovens formados na universidade: 39% da população espanhola entre 25 e 34 anos tem formação superior, mais que a França ou outros países europeus.  E muitos estão desempregados.
Chama minha atenção que a poderosa conta de @wikileaks no Twitter, a reportagem de Preseurop, “A revolta islandesa da Espanha”, reparou na hora que um dos links mais importantes da  spanishrevolution vinha do norte, da Islândia, o país que já teve o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais elevado do mundo e que afundou nas tormentas dos mercados. De fato, uma das principais petições da spanishrevolution é exigir do governo que não ajude mais o sistema bancário que provocou a crise internacional. O link islandês-espanhol, à procura de alternativas a um mundo governado pelos mercados e pelas agências de rating é tão claro que Hordur Torfason, o homem que fez o povo islandês reagir contra banqueiros e políticos, gravou um video para parabenizar o povo espanhol.
A juventude espanhola, é claro, admira o que aconteceu nos países árabes. Foi um exemplo para todos nós. Mas a  spanisrevolution é diferente. É um passo na frente. É claramente européia. E sem, pretendê-lo, se converteu na revolta digital mais avançada do mundo. Gerou o debate sobre a democracia. E pode ser fundamental para o mundo atingir um Sistema 2.0 verdadeiramente participativo. Um detalhe: a plataforma de ciberativismo Actuable.es, que nasceu no final de 2010, foi vital para evitar que o Governo despejasse a Puerta del Sol de Madri. Em menos de 24 horas, quando a Junta Eleitoral proibiu o protesto, Actuable.es incentivou o envio de mais 150.000 e-mails para o Alfredo Pérez Rubalcaba, ministro do Interior e evitou a repressão policial e um banho de sangue. O suplemento do Estado de São Paulo publicou na passada segunda-feira o melhor trabalho sobre o assunto na imprensa brasileira: Reiniciar o sistema. Esse é o foco. E nem todo o mundo entendeu.
As duas principais forças políticas espanholas, Partido Socialista Operário Espanhol (no poder) e o direitista Partido Popular (PP), depois das eleições regionais do domingo passado, fizeram de conta que nada aconteceu.  Se a abstenção (pessoas que não votaram) fosse uma força política, teria sido a grande ganhadora, com 33% dos votos. O Partido Popular, que foi o grande ganhador, só foi votado por 24% do país. Por exemplo em Madri, só 1 em cada 3 votantes deu a sua confiança no Partido Popular, mas governará com maioria. Em Barcelona, o escândalo foi maior. 47% dos votantes ficaram em casa (ou seja, muitos na gigantesca acampada da Plaça de Catalunya, no centro de Barcelona). E Convergència i Unió (CiU), nacionalistas conservadores,  vão governar a cidade com 14% dos votos.
A spanishrevolution quer uma lei eleitoral mais justa, mais representativa. Quer uma lei de transparência das contas públicas. Quer criar um espaço para participação constante da política nacional, regional e local. Quer fazer um redesenho profundo da democracia. Mas, por enquanto, ninguém parece ter entendido o recado. E os protestos continuam. E as praças estão ainda cheias de pessoas. E já tem iniciativas como “Madrid toma los barrios” para expandir o debate e participação nos bairros, praças e ruas das cidades.  
Existem causas, motivos e condições para uma  brazilianrevolution?  Os mesmos motivos que lá e muitos outros. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Espanha, apesar da crise, ainda é um dos mais elevados do mundo. O Brasil, apesar do crescimento econômico, tem alguns motivos para uma brazilianrevolution: uma nova ministra de Cultura, Ana Buarque de Holanda, que não respeitou a herança de cultura livre do Governo Lula; altos níveis de corrupção (muitos mais que lá); democracia pouco participativa; um rumo econômico focado no macro e não no micro (agronegócio, exportação, grandes obras); sérios problemas ambientais; inflação; uma especulação imobiliária crescente que vai rumo ao da bolha que estourou na Espanha; desigualdade; violência…
Além disso, o Brasil tem um ativismo admirável. Aqui nasceu o Fórum Social Mundial e o orçamento participativo. Aqui cresceu o apoio de governos ao software livre e licenças como o Creative Commons. O Brasil foi e é importantíssimo na luta pela cultura livre e pelos direitos civis na Internet, uma referência internacional. O ciberativismo brasileiro, até agora, era mais forte que o espanhol, que só estourou depois da crise, quando o país inteiro saiu da mordomia da prosperidade. Os brasileiros, graças à Avaaz, conseguiram encaminhar uma lei de "ficha limpa". Brasil é dos países mais ativos em redes sociais e tem a terceira maior penetração de Twitter do mundo (23%).
Não serei eu, estrangeiro, quem vai inventar uma  brazilianrevolution, um movimento além das esquerdas e direitas, um movimento que lute pela liberdade, pela transparência e pela democracia 2.0. Isso corresponde ao meu querido povo brasileiro. Mas pense bem: Existem causas, motivos e condições para uma brazilianrevolution?

http://www.facebook.com/democraciarealbrasil

Bernardo Gutiérrez é espanhol, jornalista, escritor e consultor de mídia. Mora em São Paulo. Seus trabalhos aparecem em La Vanguardia (Barcelona), Esquire (Madri), Expresso (Lisboa), Tage Spiegel (Berlim) ou National Geographic Brasil, entre muitos outros.
http://www.bernardogutierrez.es/

sexta-feira, 15 de abril de 2011

De Salvador à Praça Tahir; o jornalista baiano que esteve presente na Revolução do Egito

Em janeiro deste ano o produtor de vídeo, jornalista e cineasta baiano José Carlos Torres esteve na Cidade do Cairo, no Egito, onde acompanhou o levante popular que depôs o ditador Hosni Mubarak do poder. Torres é um cidadão do mundo e pratica um jornalismo independente. Antes, ele já tinha ido à India e ao Tibet, locais onde vivenciou experiências existenciais relatadas num livro-reportagem ainda a ser publicado. Nesta última viagem, o senso de repórter falou mais alto, o que o fez se deslocar da Itália para o olho do furacão, na Praça Tahir. A revolução egípcia foi o primeiro grande movimento de massas do século XXI. Durante aproximadamente uma semana, Torres conviveu com os cidadãos daquele país e procurou ouvir suas inquietações, angústias e esperanças. No decorrer da sua estadia no Cairo, o jornalista se colocou à disposição de uma emissora de televisão baiana para passar informações sobre as manifestações. Ele não cobrou nada por isso e mesmo assim, e para sua surpresa, foi ignorado solenemente. Talvez este canal de TV tenha se contentado em apenas servir de base reprodutora para sua cabeça de rede, que fica no Rio de Janeiro. No entanto, perdeu a oportunidade de ouvir preciosos relatos do único baiano que vivenciou aquele grande movimento político, de caráter popular, que durante dias foi alvo da atenção mundial. No nosso entendimento, sobrou soberba e faltou senso jornalístico à referida emissora, a qual ele dá o nome no decorrer desta entrevista dada com exclusividade ao blog Textos ao Vento. Assistam o vídeo.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Honoráveis sabujos. Quais as relações de ACM e Aleluia com a Embaixada dos EUA? O País quer saber

O falecido ex-senador Antônio Carlos Magalhães e o candidato derrotado ao Senado nas últimas eleições, o ex-deputado federal José Carlos Aleluia, ambos do DEM da Bahia, foram, até o momento, os dois últimos personagens brasileiros a figurarem no WikiLeaks. O site do jornalista australiano Julian Assange informa que os políticos baianos tiveram encontros com um representante da embaixada dos EUA à época da campanha à Presidência de 2006. 
Segundo nota veiculada pelo jornalista Levi Vasconcelos no jornal A Tarde, na conversa com o diplomata Aleluia se mostrou frustrado com a iminente vitória de Lula naquele ano, enquanto que ACM previa dificuldades para o presidente porque ele teria minoria no Senado.
Mais: no diálogo, ACM disse ao norte-americano que “a oposição pode ter perdido uma oportunidade de impeachmar Lula em seu primeiro mandato, mas tentará no segundo”. A prestação de contas dos dois udenistas ao funcionário dos EUA não revela nada de extraordinário, mas confirma a inclinação golpista de ambos. Registre-se que ACM foi ativo colaborador do Golpe de 1964 e um dos principais políticos de sustentação do regime; enquanto que Aleluia sempre foi ardoroso defensor de teses privatizantes e neoliberais. 
Em diversas oportunidades o ex-presidente Lula declarou que entre os anos de 2004 e 2005 pressentiu a proximidade de um golpe de estado. Ele falava a verdade. A crise do mensalão seria a brecha que ACM e cia utilizariam para destituir o então presidente. 
A pergunta: quem garante que o Departamento de Estado dos EUA não tivesse monitorando tais movimentações? Claro, esta é uma hipótese e sua confirmação depende de investigações mais consistentes. No entanto, a possibilidade de “tentar no segundo (mandato)” o impechament do presidente revela um ACM disposto a desestabilizar as instituições políticas para apear Lula do poder. Verifica-se um ACM idêntico ao que conspirou com a quartelada de primeiro de abril de 1964. 
Já Aleluia, é razoável pensar como integrante da entourage golpista. Estas informações vazadas pelo WikiLeaks não devem passar despercebidas. É importante que se esclareça até onde se estendiam as relações de ACM e Aleluia com a diplomacia norte-americana  e qual o nível de sabujice de ambos na conspirata de interesses contrários aos do país.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Homenagem a Marighella na Paralela!

 Em dezembro próximo se comemora o centenário de um dos maiores patriotas que o Brasil já conheceu, Carlos Marighella. Vamos lhe render justa homenagem com um monumento na Avenida Paralela, aqui em Salvador. É o que propõe este blog.
Político, líder revolucionário, poeta, humanista e aguerrido combatente pela liberdade, Marighella nasceu em Salvador no dia 15 de dezembro de 1911. Filho de operário imigrante italiano e uma descendente de escravos sudaneses haussá, o ex-militante do Partido Comunista do Brasil - o então PCB - combateu tenazmente os regimes de força que se instalaram no país. Nos anos 30 e 40 lutou contra o Estado Novo de Vargas, quando foi preso e torturado diversas vezes. Com a redemocratização, em 1946, se elegeu deputado federal pelo PCB.
Posteriormente, enfrentou o golpe de 1964 e a ditadura, já como militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Marighella foi assassinado na noite de 4 de novembro de 1969, surpreendido por uma emboscada dos agentes do DOPS, na alameda Casa Branca, em São Paulo. A ação foi coordenada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, que se notabilizou como um sádico torturador.
 O que este blog está propondo é um maior reconhecimento, sobretudo oficial, a este grande brasileiro. Lançamos aqui a sugestão de que um monumento a Carlos Marighella deva ser erguido em Salvador, e de preferência no lugar onde hoje se encontra o Monumento a Luis Eduardo Magalhães.
Entendemos que homenagens devem ser feitas a heróis de verdade e não a um playboy, filho de um tiranete de província como Antônio Carlos Magalhães, déspota aliado da ditadura militar. Já não basta a excrescência do Aeroporto Dois de Julho ter sido rebatizado com o  nome do filho de ACM. Derrube-se o culto à personalidade ao carlismo e erga-se um monumento simbólico a um verdadeiro herói da Bahia, Carlos Marighella!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Bye bye Mubarak


Bye Bye Mubarak from Ramy Rizkallah on Vimeo.


Vídeo do cineasta egípcio Ramy Rizkallah sobre a celebração nas ruas do Cairo em torno da queda de Mubarak. Fonte: El Pais.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Porque a Comissão da Verdade tem que fazer o seu trabalho

O jornal Folha de São Paulo adjetivou a ditadura militar no Brasil de "ditabranda". Durante a última campanha presidencial, o Plano Nacional de Direitos Humanos III foi violentamente atacado pelas oposições, sobretudo as de tendência fascista que se encontravam ombradas à candidatura de José Serra. Vejam este documentário, produzido em 1971 com exilados brasileiros, e tirem suas próprias conclusões.    

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A mídia e as "ditaduras amigas"

Reproduzo artigo de Ignacio Ramonet, publicado no sítio Carta Maior:

Uma ditadura na Tunísia? No Egito, uma ditadura? Vendo os meios de comunicação se esbaldarem com a palavra “ditadura” aplicada a Tunísia de Bem Alí e ao Egito de Moubarak, os franceses devem estar se perguntando se entenderam ou leram bem. Esses mesmos meios de comunicação e esses mesmos jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos” eram “Estados moderados”? A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da “espantosa tirania” de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia? Eis aqui, em todo caso, um primeiro abrir de olhos que devemos ao rebelde povo da Tunísia. Sua prodigiosa vitória liberou os europeus da “retórica hipócrita de ocultamento” em vigor em nossas chancelarias e em nossa mídia. Obrigados a tirar a máscara, simulam descobrir o que sabíamos há algum tempo (1), a saber, que as “ditaduras amigas” não são mais do que isso: regimes de opressão.
Sobre esse assunto, os meios de comunicação não têm feito outra coisa do que seguir a “linha oficial”: fechar os olhos ou olhar para o outro lado confirmando a ideia de que a imprensa só é livre em relação aos fracos e aos povos isolados. Por acaso Nicolás Sarkozy não teve a altivez de assegurar que na Tunísia “havia uma desesperança, um sofrimento, um sentimento de angústia que, precisamos reconhecer, não havíamos apreciado em sua justa medida”, ao se referir ao sistema mafioso do clã Ben Alí-Trabelsi?
“Não havíamos apreciado em sua justa medida...” Em 23 anos...Apesar de contar, neste país, com serviços diplomáticos mais prolíficos que os de qualquer outro país...Apesar da colaboração em todos os setores da segurança (polícia, inteligência...) (2). Apesar das estâncias regulares de altos responsáveis políticos e midiáticos que estabeleciam ali descomplexadamente seus locais de veraneio...Apesar da existência na França de dirigentes exilados da oposição tunisiana, mantidos marginalizados como pesteados pelas autoridades francesas e com acesso proibido durante décadas aos grandes meios de comunicação... Democracia ruinosa...
Na realidade, esses regimes autoritários foram (e seguem sendo) protegidos de modo complacente pelas democracias europeias, que desprezaram seus próprios valores sob o pretexto de que constituíam baluartes contra o islamismo radical (3). O mesmo argumento cínico usado pelo Ocidente durante a Guerra Fria para apoiar ditaduras militares na Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) e na América Latina, pretendendo impedir a chegada do comunismo ao poder.
Que formidável lição das sociedades árabes revolucionárias aqueles que, na Europa, os descreviam em termos maniqueístas, ou seja, como massas dóceis submetidas a tiranos orientais corruptos ou como multidões histéricas possuídas pelo fanatismo religioso. E agora, de repente, elas surgem nas telas de nossos computadores e televisores (conferir o admirável trabalho da Al-Jazeera), preocupadas com o progresso social, não obcecadas pela questão religiosa, sedentas de liberdade, cansadas da corrupção, detestando as desigualdades e reclamando democracia para todos, sem exclusões.
Longes das caricaturas binárias, esses povos não constituem de modo algum uma espécie de “exceção árabe”, mas sim se assemelham em suas aspirações políticas ao resto das ilustradas sociedades urbanas modernas. Um terço dos tunisianos e quase um quarto dos egípcios navegam regularmente pela internet. Como afirma Moulay Hicham El Alaoui: “Os novos movimentos já não estão marcados pelos velhos antagonismos como anti-imperialismo, anticolonialismo ou antisecularismo. As manifestações na Tunísia e no Egito são, até aqui, desprovidas de todo simbolismo religioso. Constituem uma ruptura geracional que refuta a tese do excepcionalismo árabe. Além disso, esses movimentos são animados pelas novas metodologias de comunicação da internet. Eles propõem uma nova versão da sociedade civil, onde o rechaço ao autoritarismo anda de mãos dadas com o rechaço à corrupção” (4).
Especialmente graças às redes sociais digitais, as sociedades da Tunísia e do Egito se mobilizaram com grande rapidez e puderam desestabilizar o poder em tempo recorde. Ainda antes de os movimentos terem a oportunidade de “amadurecer” e favorecer a emergência de novos dirigentes entre eles. É uma das raras ocasiões onde, sem líderes, sem organizações dirigentes e sem programa, a simples dinâmica da exasperação das massas bastou para conseguir o triunfo da revolução. Trata-se de um momento frágil e, sem dúvida, as grandes potências já estão trabalhando, especialmente no Egito, para que “tudo mude sem que nada mude”, segundo o velho adágio de O Leopardo. Esses povos que conquistaram sua liberdade devem lembrar a advertência de Balzac: “Se matará a imprensa assim como se mata um povo, outorgando-lhe a liberdade” (5). Nas “democracias vigiadas” é muito mais fácil domesticar legitimamente um povo do que nas antigas ditaduras. Mas isso não justifica sua manutenção. Nem deve ofuscar o ardor de derrubar uma tirania.
A derrocada da ditadura na Tunísia foi tão veloz que os demais povos magrebinos e árabes chegaram à conclusão de que essas autocracias – as mais velhas do mundo – estavam na verdade profundamente corroídas e não eram, portanto, mais do que “tigres de papel”. Esta demonstração está ocorrendo também no Egito.
Daí esse impressionante levante dos povos árabes, que leva a pensar inevitavelmente no grande florescimento das revoluções europeias de 1848, na Jordânia, Iêmen, Argélia, Síria, Arábia Saudita, Sudão e também no Marrocos.
Neste último país, uma monarquia absoluta, na qual o resultado das “eleições” (sempre viciado) é decidido pelo soberano, que designa segundo sua vontade os chamados ministros “da soberania”, algumas dezenas de famílias próximas ao trono continuam controlando a maioria das riquezas (6). Os telegramas divulgados por Wikileaks revelaram que a corrupção chega a níveis de indecência descomunal, maiores que os encontrados na Tunísia de Ben Alí, e que as redes mafiosas teriam todas como origem o Palácio. Trata-se de um país onde a prática da tortura está generalizada e o amordaçamento da imprensa é permanente.
No entanto, como na Tunísia de Ben Alí, esta “ditadura amiga” se beneficia da grande indulgência dos meios de comunicação e da maior parte de nossos responsáveis políticos (7), os quais minimizam os sinais do começo de um “contágio” da rebelião. Quatro pessoas se imolaram, incendiando suas próprias vestes. Produziram-se manifestações de solidariedade com os rebeldes da Tunísia e do Egito em Tânger, Fez e Rabat (8). Acossadas pelo medo, as autoridades decidiram subvencionar preventivamente os artigos de primeira necessidade para evitar as “rebeliões do pão”. Importantes contingentes de tropas do Saara Ocidental teriam sido deslocados aceleradamente para Rabat e Casablanca. O rei Mohamed VI e alguns colaboradores teriam viajado a França no dia 29 de janeiro para consultar especialistas em ordem pública do Ministério do Interior francês (9).
Ainda que as autoridades desmintam as duas últimas informações, está claro que a sociedade marroquina está seguindo os acontecimentos da Tunísia e do Egito, com excitação. Preparados para unir-se ao impulso de fervor revolucionário e quebrar de uma vez por todas as travas feudais. E para cobrar todos aqueles que, na Europa, foram cúmplices durante décadas dessas “ditaduras amigas”.

NOTAS

(1) Ler, por exemplo, de Jacqueline Boucher "La société tunisienne privée de parole" e de Ignacio Ramonet "Main de fer en Tunisie", Le Monde Diplomatique, de fevereiro de 1996 e de julho de 1996, respectivamente.
(2) Quando Mohamed Bouazizi se imolou incendiando-se em 17 de dezembro de 2010, quando a insurreição ganhava todo o país e dezenas de tunisianos rebeldes continuavam caindo sob as balas da repressão, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoé, e a ministra de Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie consideravam absolutamente normal ir festejar alegremente em Tunis.
(3) Ao mesmo tempo, Washington e seus aliados europeus, sem aparentemente medir as contradições, apoiam o regime teocrático e tirânico da Arábia Saudita, principal sede do islamismo mais obscurantista e mais expansionista.
(4) http://www.medelu.org/spip.php?article711
(5) Honoré de Balzac, Monographie de la presse parisienne, Paris, 1843.
(6) Ler Ignacio Ramonet, "La poudrière Maroc", Mémoire des luttes, setembro 2008. http://www.medelu.org/spip.php?article111
(7) Desde Nicolas Sarkozy até Ségolène Royal, passando por Dominique Strauss-Kahn, que possui um “ryad” em Marrakesh, os dirigentes políticos franceses não têm o menor escrúpulo em passar suas férias de inverno entre estas “ditaduras amigas”.
(8) El País, 30 de janeiro de 2011- http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat
(9) Ler El País, 30 de janeiro de 2011 http://www.elpais.com/..Mohamed/VI/va/vacaciones y Pierre Haski, "Le discret voyage du roi du Maroc dans son château de l´Oise", Rue89, 29 de janeiro de 2011. http://www.rue89.com/..le-roi-du-maroc-en-voyage-discret...188096http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um alô para José Antar

Novamente provocado pelo pitoniso José Antar, aquele que “previu” em abril passado as vitórias “estrondantes” de José Serra e Paulo Souto, sinto-me no dever de pôr alguns pontos nos “is” soltos à sarjeta, lançados pelo digníssimo amigo. Revoltado com a corrupção no Brasil, bem ao estilo Carlos Lacerda, Antar utilizou como exemplo do delito o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “São uns corruptos que só querem invadir as terras dos outros”. E ao segundo plano foram jogadas situações bem mais convincentes. Ou seria a memória seletivíssima do nosso amigo responsável por ofuscar tais lembretes? Será? Talvez sua leitura assídua da Revista Veja, maior baluarte editorial da extrema-direita tupiniquim, não o ajude avivar as idéias, talvez empastá-las, apenas. Mas é o MST o bode expiatório do nosso “bem informado” Antar, que vez em quando fica com vontade de reeditar a Marcha com Deus, pela Família e a Propriedade. Segundo ele, o movimento sem-terra “só invade terras produtivas”. Outra vez pergunto, será? Aos fatos. Num meio rural marcado pelo recente processo escravocrata - sociogênese da brutal violência e origem da grande propriedade privada da terra no Brasil - 60% dos imóveis rurais não possuem titulação de fato. A prática é cercar a terra e começar (ou não) a produzir para depois se anunciar como dono. Muitos proprietários fazem contratos de compra e venda não reconhecidos em cartórios e, por vezes, estão ocupando terras da União. Este é o caso da Cutrale, a empresa situada no noroeste paulista que Antar apontou como “vítima” de uma invasão. Outra quimera defendida pelo nobre “debatedor” é quanto à produtividade. É preciso lembrar que se somar toda a área com plantio agrícola ela não chega a 70 milhões de hectares. O Brasil tem 850 milhões de hectares! Na Amazônia, por exemplo, há o caso de uma pessoa que é proprietária de cinco milhões de hectares. É pouco? Então, quem invadiu quem, Antar? São os movimentos sociais ou a ação historicamente comprovada da grilagem armada e corrupta? Certo, tudo bem, nas páginas amarelas da Veja não há matérias falando disso, ok. Mas para quem se informa apenas numa fonte...Os movimentos sociais nascem desta contradição, nobre Antar. Talvez o que o amigo não saiba é fazer um bom arrazoado histórico do próprio processo de colonização do país onde vive. Quando se afirma algo tem que se balizar a fonte pesquisada, lógico. E é assim que se deve proceder: apurando, pesquisando, lendo e, finalmente, conhecendo a realidade. Aliás, esta era uma iniciativa preconizada por aqueles filósofos do século XVIII, os enciclopedistas, ou iluministas, entre eles Rousseau, Voltaire, Diderot etc. Eles achavam que se as pessoas conhecessem, de fato, a realidade os problemas ficariam mais fáceis de serem resolvidos na sociedade. Mas sabiam também que as ideologias dominantes usariam de subterfúgios para esconder esta mesma realidade, como Karl Marx comprovou posteriormente. Seria este o caso, Antar? Por isso as ilações e os gritos bafejados na mesa? Ficam as perguntas. No próximo comentário, falo sobre o Regime Militar e as torturas, outro tema que o amigo desconhece, mas teima em discutir a partir das próprias concepções, ou aquelas tiradas pelos vaticínios da famiglia Civita, dona da Veja, o manual que orna a cabeceira do grande José Antar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um alô para Fernando Souza


Radical. Assim fui taxado pelo amigo Fernando Souza durante mesas drinqueiras da passagem do ano. Radical por que, Fernando? Aqui estou eu a meditar com meus translúcidos botões. Da palavra não se pode, e não se deve, denotar preconceitos ou sentidos senão aqueles que de fato o termo remeta. Ou mereça. Radical vem de raiz, que é radical da mesma palavra. Mas serve também como significado para significantes diversos. O menu é vasto. No meu caso, por conotação ideológica, penso. Tá bom, então eu sou radical e sua posição é destendida, flexível e capaz de absorver vasta gama de idéias, certo Fernando? Ok. Há, sim, também fui rotulado de “stalinista” pelo mesmo interlocutor, portanto sou um “stalinista radical”. Não é isso mesmo, Fernando?
Aos fatos. O que me impressiona sobremaneira nas argumentações do meu amigo é a possibilidade do rótulo a mim imputado servir muito mais àquele que me imputa. Explico. Um dos pomos da discórdia é o fato do caríssimo Fernando martelar teclas tão antigas quanto à passagem da Guerra Fria. O georgiano Josef Vissarionovitch Stalin morreu em março de 1953 e realmente fora perpetrador de um regime assassino, o que não é negado por ninguém, nem tão pouco por pensadores de esquerda que a este se opuseram tenazmente. A lista é vasta, a começar por Trotsky, incluindo também Lucaks, Marcuse, Walter Benjamin, Gramsci, Theodor Adorno e tantos e tantos. Mas para saber desses intercursos da história é preciso conhecê-la, o que acho ser uma grande lacuna do caro Fernando.
Não, Fernando, não sou stalinista. Nunca fui, saiba. Ao contrário, sempre cultivei sentimentos libertários e que extrapolam linhas de condutas ideológicas. E ajo assim pelo fato de buscar entender a história como processo, mantendo distância de paixões. Não sou monge e a mim não cabem camisas-de-força discursivas ou partidarizadas. No entanto, sempre procurei ser coerente com minhas inclinações existenciais e políticas. Coerência é importante, viu Fernando? Se deixar levar por ladainhas orquestradas pelas famíglias Civita, Marinho, Mesquita, Frias e outras pode ser danoso ao raciocínio.
Sabe, Fernando, quando vi a campanha do seu candidato José Serra fazer aliança com a Opus Dei, TFP, grupos fascistas e sites nazistas passei a pensar o que seria, de fato, radicalismo. Foi um debate tão “suave”, não foi? Enquanto Mônica Serra afirmava que Dilma Rousseff “mataria criancinhas”, bispos católicos e pastores fundamentalistas reeditavam em 2010 a marcha de Deus com a família e pela propriedade. Saudades da quartelada de 1964? Talvez. E, friso, era tudo tão “suave”, não é mesmo? Aqueles discursos homofóbicos, a reunião com os milicos de pijama no Clube das Forças Armadas, no Rio, a vociferação contra a união civil de pessoas do mesmo sexo, o ódio contra os sem-terra e os sem-teto, a hipocrisia com o tema do aborto, e, depois das eleições, o preconceito contra os nordestinos. Que bela campanha “light”, hein Fernando? Chego a imaginar que Torquemada, aquele inquisidor espanhol que queimou milhares na fogueira, tenha virado fichinha junto à entourage de Serra.
E você, hein Fernando, que tanto argumenta sobre a aliança com Sarney, já pensou como ficariam as florestas e o meio rural do Brasil sob a batuta de Kátia Abreu, a ruralista escravocrata aliada de Serra? E quantos aquilatados “democratas” marcharam com seu candidato? Creio que vários, não é mesmo? Indio da Costa então, que belo e invejável exemplar de democrata!
Sabe qual o problema da informação, Fernando? É que quando não é bem feita e dosada ela passa a ser deformação. A propósito, sobre isso me lembro de um dos últimos pronunciamentos de um brilhante escritor o qual você lia na paradisíaca Praia do Guaibim, José Saramago. Comunista histórico, não stalinista, Saramago mostrava-se bastante inquieto com a desinformação das pessoas neste alvorecer do século XXI, momento que ele taxou de “traição do iluminismo”. Para o escritor, o bombardeio midiático intermitente sob o controle das corporações estava levando substantivas parcelas da população a pensar e agir conforme seus padrões ideológicos. Será? Ou você passou a aprender diferente com Saramago? Tomara.