domingo, 29 de julho de 2007

Música - Classe Média

Uma letra que merece ser refletida, além du tudo um soco no estômago da mesmice.

sábado, 28 de julho de 2007

O gosto de mandar e ser mandado. As elites baianas choram a perda do seu Moisés


Sei que os poucos leitores dessa coluna devem estar a se perguntar o porquê do meu silêncio ante o falecimento de Antônio Carlos Magalhães, político o qual me opus sistematicamente. Antes de tudo gostaria de dizer que não faço e nem fiz oposição a esse personagem por questões pessoais e sim ideológicas. Opus-me a ele e, por extensão, ao carlismo como instrumento de dominação social e política. Também não faz parte do meu caráter jubilar sobre o infortúnio de ninguém. Mas, passados os panegíricos naturais numa sociedade marcada pela espetacularização da midiopolítica, o que falar da ausência de um personagem que dominou a cena na Bahia durante quase 40 anos? Um fato natural nessa sociedade de exclusão, apenas. Na Bahia, antes de ACM teve José Joaquim Seabra, Juracy Magalhães, Lomanto Júnior, Luis Viana. Como toda região pobre de um país subdesenvolvido, estes foram homens “notáveis” da política local, entendendo-a como ferramenta de controle por parte de grupos oligárquicos e econômicos e/ou do compadrio político. No caso de Juracy e ACM, ambos abraçaram estratégias político-administrativas que o cientista político Paulo Fábio Dantas entende como a modernização conservadora. O primeiro, herdando um pouco do populismo getulista e depois se inserindo na bravata moralista da UDN. O segundo, estendendo sua atuação conservadora-modernizante sob o beneplácito do Regime Militar, que o turbinou e o ungiu para que se consolidasse como o “homem” da Bahia. Afora questões de ordem economicista-administrativa, outra indagação então vem à baila: E por que essa construção da mídia em torno do endeusamento de ACM? Num brilhante trabalhado realizado na década de 30, o psicanalista William Reich (Psicologia de Massas do Fascismo) demonstrou como o fascismo do século XX submeteu as massas ao misticismo e ao desejo de autoridade. O estilo de conduta traçado pelo esquema carlista de dominação e controle reflete exatamente esse fenômeno. O carlismo foi uma sofisticada experiência fascista, à tupiniquim, ancorada num processo que encampou demandas individuais em articulação com grupos de domínios regionais num estado que só iniciou efetivamente seu progresso econômico a partir da virada dos anos 50 para os 60. A ditadura militar gerara sua cria mais fidedigna. Em meio às diversas nuances desse regime, a Bahia se particularizou como experiência talvez única no país. O modelo de dominação do carlismo não conheceu fronteiras. A partir de um estado centralizado, seus tentáculos atingiram a justiça, o legislativo, a economia e a cultura. Controle total. E as formas de reprodução desse poder se deram das mais risíveis às mais funestas. Houve quem portasse fotografia abraçado ao “chefe” como salvo-conduto. Houve quem grampeasse o telefone do desafeto cumprindo ordens superiores na posição de secretária de Estado. O Haiti ou Uganda um dia foram aqui. Reflexos do culto à personalidade sem paralelos entre as outras unidades da federação. Poder simbólico edificado sob o manto do medo e da opressão. Muitos não o reverenciavam, apenas o temiam. Foi assim a construção dessa “baianidade”. O amor à Bahia deveria ser sentimento exclusivamente associado ao carlismo. Fora dele, era “traição”. Por aí entrou o mecenato do carlismo na “defesa” da “cultura” baiana, gerando uma produção cultural sustentada, apenas, na venda de suposta alegria compulsiva que se traduzia na carnavalização da sociedade. Nessa “seita”, o baiano deveria ser alegre, hospitaleiro e conformado com o domínio e o destino. Enquanto isso, os índices de desenvolvimento humano do estado amargavam níveis sofríveis. A Bahia tem uma das piores distribuições de renda do país, recordista em analfabetismo, e a maior parte do seu povo é carente de assistência médica e educacional. O Haiti e Uganda ainda devem ser aqui. Não à toa que entre as cenas apresentadas pela TV de sua propriedade no dia do seu falecimento, constavam aquelas em que populares gritavam: “Esse é o homem!”. Tais cenas se inscrevem no sentimento de mando do carlismo que presumia a dispensa da reflexão política por parte da sociedade, já que ele, ACM, delegara a si próprio, única e exclusivamente, esta tarefa. Na Bahia não poderia haver oposição, e ai de quem tentasse se opor. Para estes estava destinada a perseguição moral, política e econômica. Era a vontade de legitimar um Estado que se confundisse com a própria esfinge do “chefe”. Fascismos não se sustentam sem legitimação. A alquimia então perseguida era unir interesses dos rincões manobrados por lideranças rurais em aliança com atores da modernização capitalista. O bussines e o jeca dialogavam nessa malha de interesses. Ora ascendia um tecnocrata do porte de Paulo Souto, legítimo integrante da escola de administração carlista, ora ascendia um César Borges, filho do coronel Valdomiro Borges, legítimo herdeiro da tradição do mando rural da Bahia. Guardadas as diferenças, perfeitamente conciliáveis, ambos foram títeres do mando de ACM. César Borges, desprovido de qualquer personalidade política própria, se tornou um ventríloquo do “chefe”. O carlismo era assim: aceitação cega às ordens. Não surpreende, portanto, o totem erguido em seu nome por muitos setores da sociedade local, que se acostumaram ao medo e o assimilaram enquanto se mostravam representados naquela expressão moderna de fascismo. Nos idos dos anos 40, comentando o comportamento dos estados autoritários, a filósofa Hanna Harendt já apontava o “fascínio que o autoritarismo exercia sobre as elites”. Com as baianas não foi diferente. ACM realmente exerceu grande fascínio sobre as classes privilegiadas locais, que o viam como um misto de pai, um Moisés dos seus destinos. Sem nunca saber caminhar com as próprias pernas, desde que a capital se transferiu para o Rio de Janeiro, em 1763, as elites baianas só conseguiram reerguer a auto-estima quando se sentiram representadas por um eleito das suas conveniências. Isso era o carlismo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Haja cinismo!


Não há mais limite para se fazer jornalismo instrumentalizado e sem ética na Rede Globo. Tomando emprestado o termo cunhado pelo jornalista e pesquisador Vinício Lima, novamente a emissora do Jardim Botânico apoiou-se na presunção da culpa para realizar sua cobertura sobre a tragédia envolvendo a aeronave da Tam em Congonhas, que teve mais de 180 vítimas. A edição do Jornal Nacional do dia 17, terça-feira passada, foi um palanque. A idéia que dava é que o avião sinistrado era pilotado pelo presidente Lula e seus assessores, e o acidente foi culpa direta do Palácio do Planalto. A reportagem do JN conseguiu misturar abacaxi com banana num mosaico de informações cujo propósito era evidentemente confundir os telespectadores. Antes mesmo do resultado de qualquer perícia técnica, já que a caixa-preta do Air-bus nem mesmo tinha sido enviada a Washington para exames, o âncora William Bonner praticamente apontava os culpados pela tragédia. Numa escala de culpabilidade, esta teria sido decorrente de negligências da Infraero e, via de conseqüência, do Ministério da Defesa e, por fim, do Governo Federal. Um avião que arremete antes da aterrisagem, que não tinha tido qualquer tipo de problema durante o vôo, e depois se choca com um prédio nas proximidades do aeroporto, reuniu no seu infortúnio todo o chamado apagão aéreo. Na retrospectiva da reportagem, ocorreu a exibição de diversos trechos de matérias anteriores que misturavam problemas de ordem gerencial das companhias aéreas, com a superlotação de aeroportos, a protestos de controladores de vôos. A ministra do Turismo Marta Suplicy figurou para ser defenestrada, assim como, de quebra, o próprio presidente. O assunto então foi repercutido junto a vozes da oposição, em especial a do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que bateu: “nesse país não funciona mais nada: portos, aeroportos, ferrovias”. Como um abutre ensandecido sob as vítimas do acidente, a emissora da família Marinho não teve nenhum pruido ético para informar bem aos seus 65 milhões de telespectadores daquela faixa-horária. Uma vergonha. Explorando o sentimento das pessoas, a Vênus Platinada se utilizou delas para estabelecer suas teses golpistas e seu jogo sujo. Mediante a fisionomia do seu agente, o jornalista William Bonner, a Globo destilou seu cinismo quando o mesmo se apresentava consternado e, ao mesmo tempo, com certo ar de satisfação por ter em suas mãos mais um tacape de ataque contra o governo federal. E com a mesma feição, o mesmo jornalista apresentou a edição desta quinta-feira, 19, contradizendo o discurso da edição do dia 17. Com o arroubo de sempre, o âncora informou aos telespectadores que: “Conforme a reportagem da Globo havia apurado, o Air-bus da Tam já apresentava defeitos técnicos antes da decolagem”. O governo seria agora culpado pela falta de manutenção no avião? Num ato de desfaçatez sem precedentes, a edição destinou-se a ouvir especialistas que passaram a questionar a ausência de procedimentos técnicos na aeronave sinistrada. Não mais se falou em apagão aéreo ou problemas com controladores de vôos. As explicações para o sinistro limitavam-se às questões de ordem mecânica do avião. O fato é que, de forma espúria, aética e extremamente açodada, a reportagem do dia 17 foi utilizada para fins políticos no sentido de criar mais uma crise institucional no país, valendo-se de um acidente aéreo cujas causas nem mesmo foram apuradas. Mais uma vez a Vênus Platinada age como um verme de prontidão.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Querem destronar Momo


Que se saiba, o único monarca no Brasil é um cidadão de nome temporário Momo, cujo reinado é limitado há apenas uma semana. Mas no sábado passado, 14/07, apareceu em Salvador um outro que também se diz monarca, um tal de príncipe Bertrand de Orleans e Bragança, trineto de D. Pedro II. Veio à capital baiana para o lançamento da Associação da Nobreza Histórica do Brasil, que reuniu no auditório do Instituto Feminino a “nata” dos sangue-azuis da Bahia. Lá estavam os Calmon de Sá, Costa Pinto entre outros integrantes da “nobreza” local. Sabe-se que durante a solenidade um certo conde lamentou o 15 de novembro de 1889 como um “dia fatídico”. Ao que parece, os nobres e sangue-azuis estão se esmerando para destronar o efetivo monarca brasileiro, Momo. Eles têm tudo para saírem vitoriosos, pois se depender de presepadas as deles não duram apenas uma semana, mas o ano todo.

Pais prostestam contra Justiça e mães insanas



No próximo dia 12 de agosto, dia dos pais, diversos movimentos e entidades que lutam pela causa da igualdade parental estarão protestando no Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis contra arbitrariedades de diversos setores Justiça, que impedem o convívio de pais e filhos após processos de separação. Grupos como a Associação de Pais Separados (Apase), Pais Para Sempre, Movimento Guarda Compartilhada, entre outros, estarão cerrando fileiras para exigir a rápida aprovação no Senado do Projeto de Lei nº. 6350/2002, que institui a Guarda Compartilhada no Código Civil. A matéria, que já teve aprovação unânime na Câmara, aguarda parecer no Senado para que possa ser posta em votação na casa, onde a tendência é também de unanimidade.
Os pais que articulam o protesto estão se movimentando por intermédio de diversos grupos no Orkut, onde foi criada comunidade que se destina especificamente à organização dos eventos (clique aqui). Nesse site já existem mais de uma dezena de comunidades envolvidas na luta pela igualdade parental.
O ato servirá também para chamar atenção da Justiça, a qual é acusada, em boa medida, de facilitar arbitrariedades cometidas por mães guardiãs de filhos. Muitos pais acusam ex-companheiras de os impedirem de se relacionar com seus filhos, inclusive desconstruindo a imagem da figura paterna. É o que os psicólogos e estudiosos do tema chamam de Síndrome de Alienação Parental (SAP), que causa danos psicológicos violentos às crianças.
Sejamos direto: o que se quer é uma adequação dos operadores do Direito de Família aos novos tempos. Não é mais admissível que parte substantiva do Judiciário ainda entenda o problema das separações, principalmente as litigiosas, como uma receita de bolo: a mãe fica com a guarda e o pai visita quinzenalmente. Os pais estão protestando exatamente porque não querem ser entendidos apenas como visitantes quinzenais dos seus filhos, pais de shoppings. Querem continuar a ter o convívio, necessário para ambos, que, na maior parte dos casos, outrora existiu e foi mutilado por decisão judicial.
E é essa mesma Justiça que se mostra lenta e complacente com crimes diários cometidos contra milhares de pais. Sim, crime, pois não há outro termo para enquadrar atitudes de mulheres desequilibradas que impedem o relacionamento entre pais e filhos. Publico aqui uma das centenas de relatos postados no Orkut de pais vitimados: “Oi amigos desta comunidade. Venho contar um fato que está me acontecendo. A mãe de minha filha tem a guarda (isto já é normal), mas o que me aconteceu? Por vontade da mãe, em comum acordo, me autorizou a pegar minha filha uma semana antes do ano novo e entregar em seguida, só que quando fui buscá-la, ela me disse que pelo simples fato de não ter avisado, não pegaria minha filha e que nem no ano novo eu a pegaria (...) Só que minha irmã conversou com ela e ela autorizou eu trazer minha filha. Isto aconteceu às 17h, quando foi às 20h, ela ligou dizendo que se eu não a levasse ela iria a delegacia prestar queixa contra mim. E não é que ela foi mesmo (...)”. Detalhe: esse pai teria o direito de passar as festas de final do ano com a filha, já que no anterior esta tinha passado com a mãe. Indo à Justiça, a juíza que acompanha o caso lhe pediu apenas “paciência”.
Há, no entanto, mudanças de atitudes por parte de muitos juízes. Em determinada Vara de Família de São Paulo, uma mãe foi sentenciada da seguinte forma: “Considerando que mais do que um direito do genitor, é direito do filho conviver e ter a companhia de seu pai, i-se pessoalmente a parte ré para que cumpra a visitação determinada pelo Juízo, à fl. 21, sob pena de multa, que arbitro em R$ 200,00, POR DIA DE DESCUMPRIMENTO”. Pois é, um preço razoável para uma inconseqüente. O caso criou jurisprudência e muitas mães pensarão três vezes antes de tomar atitudes arbitrárias.
Tal sentença exprime também a mudança de mentalidade em curso no poder Judiciário, mormente nas varas de Família. Mudança necessária para que comece a ser construído um novo entendimento acerca da guarda de filhos, inclusive acabando com o mito da “deusa-mãe”, imaginário de origem judaico-cristã que alimenta a desigualdade parental e coloca a figura materna em sobreposição à paterna. Está no Estatuto da Criança e do Adolescente que o convívio familiar em um direito e o Estado tem o dever de proporcionar tal convívio às crianças. Portanto a luta dos pais nada mais é do que buscar se fazer de fato justiça ante um Judiciário que, em grande parte, ainda se mostra recalcitrante em quebrar tabus e modelos já superados.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Praia dos "Fortes"; A resistência de Israel Nascimento ao assédio da especulação


Considerado um dos espaços mais “bem freqüentados” do litoral norte baiano, a localidade de Praia do Forte, no município de Mata de São João, se destaca pelas suas belezas naturais com piscinas de águas cristalinas rodeadas pelos recifes. De 1549 para cá, desde que o almoxarife da Coroa Portuguesa Garcia D´Ávila ergueu um castelo em estilo medieval, que a antiga vila de pescadores passou a ser cortejada por investidores nacionais e internacionais. Considerada hoje a Búzios baiana, Praia de Forte passou por intensas transformações nos últimos 15 anos. Pujança de um lado e miséria de outro. A principal queixa dos antigos moradores, cuja maioria foi expulsa do paraíso, é de que tiveram que vender seus imóveis e patrimônios a preço de bagatela para brasileiros e estrangeiros que transformaram a vila num dos espaços mais “in” da Bahia. Acoplado a isso, o projeto Tamar, voltado à preservação de tartarugas marinhas, se encarregou de criar no imaginário local uma espécie de ecologismo de boutique. Hordas de turistas chegam toda semana para visitar trabalhos de preservação de espécies marinhas em extinção. Todavia, nenhum projeto foi desenvolvido para amparar sócio-economicamente seus antigos habitantes. Poucos descendentes de pescadores sobraram, a maioria trabalhando para os magnatas que se assentaram por lá como novos donatários. Um espelho fiel dessa ocupação é o calçadão principal da vila, que se chama “Avenida” Antônio Carlos Magalhães. É na Praia do Forte que se encontram filhinhos de papai e socialites de Salvador e do Brasil para comentadas festas e badalações. Na contramão dessa história está Israel Antônio Nascimento, nascido em Praia do Forte, um forte que vem resistindo às investidas dos especuladores. Segundo ele, propostas apetitosas lhes são ofertadas constantemente para que ele venda seu imóvel, onde funciona o estabelecimento Bar D.Repente Israel, um típico boteco no qual a cerveja é vendida a R$ 2,50 (garrafa tamanho grande) em contraposição aos demais bares do local, que exploram a bebida a R$ 4,00. Na praia a lata chega a custar R$ 3,50. O assédio a Israel é a própria representação do incômodo. Como pode um genuíno boteco popular se encontrar encravado em meio a lojas e bares de grã-finos, dividindo o espaço com boutiques chiques onde a palavra desconto é dita no inglês off ? O espaço que um dia foi dele e da comunidade nativa, agora pertence ao grande capital. Mas Israel resiste. Veja aqui o vídeo.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Segundo os jornalões, "são jovens acusados de agressão". Explica-se: porque são brancos e filhinhos de papai



A imprensa marrom do Brasil, particularmente os jornalões do sul, tem feito discursos cheios de melindres na cobertura das violentas agressões sofridas pela empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, 32 anos. O fato ocorreu na Barra da Tijuca, bairro de classe média alta do Rio de Janeiro. Sirley foi violentamente espancada quando se encontrava num ponto de ônibus pelos delinqüentes Felippe de Macedo Neto, Julio Junqueira, Leonardo Andrade, Rodrigo Bassalo e Rubens Arruda. Os “jovens” argumentaram que confundiram Sirley com uma prostituta. Trata-se de delinqüência, sim! E por que os jornalões impressos e televisivos do Brasil não usaram tal adjetivo, ou similar, para classificar tão bárbara atitude? No jornal O Globo, por exemplo, o termo de tratamento variou entre “jovens” e “rapazes”. No Jornal Nacional, da mesma empresa, William Bonner noticiou o fato chamando os agressores de “estudantes” (De quê? Vá lá saber.). Até o pai de um deles foi ouvido e teve seu depoimento repercutido: "Não é justo que crianças que estudam, que estão na faculdade, que trabalham, sejam mantidas presas. Tem que ter outra forma de punição. Não é justo prender cinco jovens que têm pai e mãe, e juntar com bandidos que a gente não sabe de onde vieram. Imagina o sofrimento desses garotos", afirmou Ludovico Ramalho Bruno, 46 anos, micro-empresário e pai de Rubens Arruda. O senso de “justiça” e ética da classe média e de boa parte da mídia brasileira - já que é a segunda que alimenta o imaginário da primeira - é permeado pelo entendimento de que prisão e tratamento de delinqüente só podem ser destinados a pretos e pobres. É a mesma mídia que arrota aos quatro ventos a necessidade de reduzir a maioridade penal, medida que se destina exclusivamente a apertar o cerco de violência contra esses mesmos pretos e pobres. Qual pai de algum trombadinha de rua foi ouvido pelos jornalões quando o filho foi preso por bater uma carteira? O coro é uníssono: prendam e espanquem! É a Justiça seletiva. Dezenas de teorias têm se encarregado de explicar o comportamento da imprensa e uma delas é a do enquadramento. Alguns autores defendem a hipótese que a mídia enquadra um tema ou assunto de acordo com as necessidades ideológicas dos grupos econômicos que a controlam. A notícia se destina, na maior parte das vezes, não apenas a informar, se for o caso, mas, sobretudo, a formar opinião. E é o que se observa na cobertura da violência bárbara cometida pelos “jovens” contra Sirley Carvalho. O discurso é o espelho do sentimento de classe. O texto é um misto de perplexidade e, subliminarmente, dó para com os “rapazes acusados de agressão”, como noticiou O Globo, apesar de testemunhas terem confirmado à polícia a ação violenta da gangue. Por outro lado, não há espaço para rotulagens de “jovens” e “rapazes” às milhares de vítimas condenadas socialmente por um sistema econômico-político genocida. É só ir às páginas policiais dos jornalões do país e se observar a representação da realidade construída. O ladrão de galinha, batedor de carteira, “rato” de supermercado ou perpetrador de pequenos delitos são os “meliantes”, bandidos, delinqüentes juvenis etc. O sentido é o mesmo que inaugurou o conceito de página de polícia no Brasil no século XIX: a delação social. O espaço era destinado a anúncios colocados pela polícia, a mando de fazendeiros, para delatar escravos fugitivos. Pergunta: quem é mais “meliante”, o Zé Ninguém da esquina que roubou uma caixa de biscoitos no supermercado ou o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), que “propinou” e recebeu mais de R$ 1 milhão via o Banco Regional de Brasília? Na verdade, os verdadeiros meliantes desse país historicamente nunca apareceram nas páginas policiais e sim nas colunas sociais e de política. De alguma forma, inverter essa situação na mídia é uma árdua tarefa para os senhores empresários donos dos meios de comunicação de massa. Ademais, os violentos Felippe, Julio, Leonardo, Rodrigo e Rubens podem ser considerados frutos sociais dessa mesma mídia. A geração que cresceu aprendendo na televisão que bem e mal são situações dissonantes a partir da representação social construída pelos paradigmas das classes economicamente favorecidas. A TV apresenta a atriz negra e mestiça como empregada e a branca e loura no papel de patroa. É a geração do disco voador da Xuxa recheado de idiotices que chegava ao fim da tarde “se vendo” em Malhação, um dos programas mais cretinos da televisão brasileira. A partir disso, os “bem criados” da Barra da Tijuca puderam se encarregar de canalizar seus valores de desrespeito e ódio à diferença social e racial agredindo empregadas domésticas que teriam confundido como prostitutas, como se estas também não merecessem nenhum respeito. A perplexidade da mídia gorda não se dirige em absoluto à violência física e moral que Sirley foi submetida, mas ao fato de “crianças” do próprio ninho terem cometido tal barbaridade, afinal de contas estas não foram criadas para descriminar dessa forma, já que seus pais e pares exigem hoje mais “assepsia” para tal ato.