O gosto de mandar e ser mandado. As elites baianas choram a perda do seu Moisés


Sei que os poucos leitores dessa coluna devem estar a se perguntar o porquê do meu silêncio ante o falecimento de Antônio Carlos Magalhães, político o qual me opus sistematicamente. Antes de tudo gostaria de dizer que não faço e nem fiz oposição a esse personagem por questões pessoais e sim ideológicas. Opus-me a ele e, por extensão, ao carlismo como instrumento de dominação social e política. Também não faz parte do meu caráter jubilar sobre o infortúnio de ninguém. Mas, passados os panegíricos naturais numa sociedade marcada pela espetacularização da midiopolítica, o que falar da ausência de um personagem que dominou a cena na Bahia durante quase 40 anos? Um fato natural nessa sociedade de exclusão, apenas. Na Bahia, antes de ACM teve José Joaquim Seabra, Juracy Magalhães, Lomanto Júnior, Luis Viana. Como toda região pobre de um país subdesenvolvido, estes foram homens “notáveis” da política local, entendendo-a como ferramenta de controle por parte de grupos oligárquicos e econômicos e/ou do compadrio político. No caso de Juracy e ACM, ambos abraçaram estratégias político-administrativas que o cientista político Paulo Fábio Dantas entende como a modernização conservadora. O primeiro, herdando um pouco do populismo getulista e depois se inserindo na bravata moralista da UDN. O segundo, estendendo sua atuação conservadora-modernizante sob o beneplácito do Regime Militar, que o turbinou e o ungiu para que se consolidasse como o “homem” da Bahia. Afora questões de ordem economicista-administrativa, outra indagação então vem à baila: E por que essa construção da mídia em torno do endeusamento de ACM? Num brilhante trabalhado realizado na década de 30, o psicanalista William Reich (Psicologia de Massas do Fascismo) demonstrou como o fascismo do século XX submeteu as massas ao misticismo e ao desejo de autoridade. O estilo de conduta traçado pelo esquema carlista de dominação e controle reflete exatamente esse fenômeno. O carlismo foi uma sofisticada experiência fascista, à tupiniquim, ancorada num processo que encampou demandas individuais em articulação com grupos de domínios regionais num estado que só iniciou efetivamente seu progresso econômico a partir da virada dos anos 50 para os 60. A ditadura militar gerara sua cria mais fidedigna. Em meio às diversas nuances desse regime, a Bahia se particularizou como experiência talvez única no país. O modelo de dominação do carlismo não conheceu fronteiras. A partir de um estado centralizado, seus tentáculos atingiram a justiça, o legislativo, a economia e a cultura. Controle total. E as formas de reprodução desse poder se deram das mais risíveis às mais funestas. Houve quem portasse fotografia abraçado ao “chefe” como salvo-conduto. Houve quem grampeasse o telefone do desafeto cumprindo ordens superiores na posição de secretária de Estado. O Haiti ou Uganda um dia foram aqui. Reflexos do culto à personalidade sem paralelos entre as outras unidades da federação. Poder simbólico edificado sob o manto do medo e da opressão. Muitos não o reverenciavam, apenas o temiam. Foi assim a construção dessa “baianidade”. O amor à Bahia deveria ser sentimento exclusivamente associado ao carlismo. Fora dele, era “traição”. Por aí entrou o mecenato do carlismo na “defesa” da “cultura” baiana, gerando uma produção cultural sustentada, apenas, na venda de suposta alegria compulsiva que se traduzia na carnavalização da sociedade. Nessa “seita”, o baiano deveria ser alegre, hospitaleiro e conformado com o domínio e o destino. Enquanto isso, os índices de desenvolvimento humano do estado amargavam níveis sofríveis. A Bahia tem uma das piores distribuições de renda do país, recordista em analfabetismo, e a maior parte do seu povo é carente de assistência médica e educacional. O Haiti e Uganda ainda devem ser aqui. Não à toa que entre as cenas apresentadas pela TV de sua propriedade no dia do seu falecimento, constavam aquelas em que populares gritavam: “Esse é o homem!”. Tais cenas se inscrevem no sentimento de mando do carlismo que presumia a dispensa da reflexão política por parte da sociedade, já que ele, ACM, delegara a si próprio, única e exclusivamente, esta tarefa. Na Bahia não poderia haver oposição, e ai de quem tentasse se opor. Para estes estava destinada a perseguição moral, política e econômica. Era a vontade de legitimar um Estado que se confundisse com a própria esfinge do “chefe”. Fascismos não se sustentam sem legitimação. A alquimia então perseguida era unir interesses dos rincões manobrados por lideranças rurais em aliança com atores da modernização capitalista. O bussines e o jeca dialogavam nessa malha de interesses. Ora ascendia um tecnocrata do porte de Paulo Souto, legítimo integrante da escola de administração carlista, ora ascendia um César Borges, filho do coronel Valdomiro Borges, legítimo herdeiro da tradição do mando rural da Bahia. Guardadas as diferenças, perfeitamente conciliáveis, ambos foram títeres do mando de ACM. César Borges, desprovido de qualquer personalidade política própria, se tornou um ventríloquo do “chefe”. O carlismo era assim: aceitação cega às ordens. Não surpreende, portanto, o totem erguido em seu nome por muitos setores da sociedade local, que se acostumaram ao medo e o assimilaram enquanto se mostravam representados naquela expressão moderna de fascismo. Nos idos dos anos 40, comentando o comportamento dos estados autoritários, a filósofa Hanna Harendt já apontava o “fascínio que o autoritarismo exercia sobre as elites”. Com as baianas não foi diferente. ACM realmente exerceu grande fascínio sobre as classes privilegiadas locais, que o viam como um misto de pai, um Moisés dos seus destinos. Sem nunca saber caminhar com as próprias pernas, desde que a capital se transferiu para o Rio de Janeiro, em 1763, as elites baianas só conseguiram reerguer a auto-estima quando se sentiram representadas por um eleito das suas conveniências. Isso era o carlismo.

Comentários

Fagner Abrêu disse…
Muito bom o texto. E era carlista sem duvida foi um marco politico na historia do país. Atos como perseguições, submissão era de prache do cabeça branca. Mas uma etapa da historia baiana, foi vencida. Ficaram seus pupilos, principalmente Paulo Souto. MAs será que terão a força do Chefe?
Eduardo Pelosi disse…
Excelente perspectiva, acredito que ninguém vai conseguir ocupar o espaço que o Cabeça Branca tinha, nem Paulo Souto nem ACM Neto, nem ninguém, graças a Deus! Estamos livres, de uma vez por todas, do coronelismo.
Muito legal, Zéca, essa relação com a carnavalização conformada do Estado... essa coisa mesmo horrorosa da cidade da alegria...
jrsevla disse…
Falar é muito facil. Vamos la, então, acabem os mensalões, os filósofos que estão roubando nossa grana. Cadê, falem deles tambem!!!Acho que devemos acabar com os ladróes desse governo que ai está !
Zeca Peixoto disse…
Caro(a)? Jrsevla,

Já fiz diversos comentários sobre mensalões etc. Inclusive comentando acerca dessa construção na mídia. Eleve o nível de entendimento sobre política e, aí sim, podemos prosseguir a conversa. Passar bem!
Zeca parabéns pelo comentário! Alivia-nos ler algo que destoe da maioria burra, ou insolente. Continue!!!
Bibi disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Bibi disse…
Bibi Gonzaga!!!
Zeca, Parabéns! Você com sua sumidade consegue excitar aprazendo textos os quais nos dias de hoje são escassos. Na realidade é disso que precisamos fortificar-se através de nossas ideologias onde possamos buscar instrumentos de luta política. Dá um basta nessa hipocrisia que reina em nossa sociedade. Mover-se contra os egocêntricos. E mostrar que se realmente almejamos mudanças com assiduidade conseguiremos. É hora de reescrever uma nova realidade onde todos possamos ter oportunidades. Estudantes conscientes do seu papel na sociedade, nesse momento temos a chance de emancipar as dominações. E quem tem sede de mudança está na hora de escancarar e exigir um Estado honrado onde às pessoas adquiram novamente o espírito de ser honesto. Chegou o momento de comprometer-se com responsabilidade num interesse que é de todos. Ao conquistarmos os nossos direitos. O qual os políticos tantos repete em todas as campanhas acesso à uma educação digna, à cultura, ao esporte, assistência médica de qualidade. E essas promessas as quais temos provas gravadas. Não são cumpridas. O que existe efetivamente são os altos índices de desemprego, de analfabetismo o qual o Estado maquia. Com um grande tática a qual são especialistas intensos dissimulados utilizando uma prática que era utilizada em Roma "Pão e Circo". Na Bahia se utiliza festas de todos os Santos, com lavagens, Carnaval, Ressaca e etc...Sendo que o mesmo grupo dominador tira vantagem promovendo festas de camisas para elite. Enquanto o povo mesmo humilhado vivendo de migalhas, pessoas simples que seus desejos são tão limitados. Sem perceber que estão sendo manipulados pela mídia, pela pequena minoria à qual tem em mãos a dominação, autoridade, poder, posse, senhoria. Continuem centralizando uma mesma ascendência. Nossa! Quanto amor o Senador ACM proclamava pela Bahia. Enquanto a criminalidade domina nas periferias por falta de policiamento intenso. Uma parte da paralela é bem protegida. Ali mesmo na Av. Luís Viana Filho. Onde está localizada uma das obras mais importantes para o “povo” o monumento em homenagem ao filho. Onde trouxe ao povo uma grande importância. Custos que ao invés de ser investido em segurança, salários convenientes para várias categorias principalmente professores onde tem a responsabilidade de passar o conhecimento para que tenhamos uma potência de buscar paridades. Tudo não passa de uma simples utopia, ou melhor, um sonho. Não tenho comentários contra o homem ACM. Até porque estaria sendo contra o meu caráter falar de uma pessoa à qual nunca tive vínculo de amizade. E também não sou uma pessoa indelicada para desdita da família nesse momento de dor. Respeito o sentimento pela perca a qual os seus familiares passaram porque afinal somos seres humanos e sabemos que perder alguém à qual temos um carinho incondicional é muito triste. "Que Deus coloque à alma dele num bom lugar". Mas em relação ao político ACM tenho certeza que a Bahia se libertou do Carlismo. Lógico que não estamos livres dos políticos que usam à política para tirar vantagens para si próprio. Ao invés de usar como civilidade. Mas a esperança pode ser mudada a partir do momento em que já se ergue um novo conjunto de princípios que serve de base para uma reforma política. Melhor, conscientizando a sociedade e respeitado o próprio tema da nossa bandeira. ORDEM E PROGRESSO. É hora de propagação. Vamos ser singular. Basta querer.
murilo disse…
Sempre opus-me ao Senador Antonio Carlos, porque amo a Bahia, e, na minha concepção, o regime carlista fez muito mal aos baianos. Os beneficiados de tamanho período de dominação econômica, política e social (leia-se aí a elite deste Estado)de fato, choram "a perda de seu Moisés", o que me parece lógico e logo, pouco surpreendente.
O texto do jornalista e professor, para variar, é excelente.

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