Segundo os jornalões, "são jovens acusados de agressão". Explica-se: porque são brancos e filhinhos de papai



A imprensa marrom do Brasil, particularmente os jornalões do sul, tem feito discursos cheios de melindres na cobertura das violentas agressões sofridas pela empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, 32 anos. O fato ocorreu na Barra da Tijuca, bairro de classe média alta do Rio de Janeiro. Sirley foi violentamente espancada quando se encontrava num ponto de ônibus pelos delinqüentes Felippe de Macedo Neto, Julio Junqueira, Leonardo Andrade, Rodrigo Bassalo e Rubens Arruda. Os “jovens” argumentaram que confundiram Sirley com uma prostituta. Trata-se de delinqüência, sim! E por que os jornalões impressos e televisivos do Brasil não usaram tal adjetivo, ou similar, para classificar tão bárbara atitude? No jornal O Globo, por exemplo, o termo de tratamento variou entre “jovens” e “rapazes”. No Jornal Nacional, da mesma empresa, William Bonner noticiou o fato chamando os agressores de “estudantes” (De quê? Vá lá saber.). Até o pai de um deles foi ouvido e teve seu depoimento repercutido: "Não é justo que crianças que estudam, que estão na faculdade, que trabalham, sejam mantidas presas. Tem que ter outra forma de punição. Não é justo prender cinco jovens que têm pai e mãe, e juntar com bandidos que a gente não sabe de onde vieram. Imagina o sofrimento desses garotos", afirmou Ludovico Ramalho Bruno, 46 anos, micro-empresário e pai de Rubens Arruda. O senso de “justiça” e ética da classe média e de boa parte da mídia brasileira - já que é a segunda que alimenta o imaginário da primeira - é permeado pelo entendimento de que prisão e tratamento de delinqüente só podem ser destinados a pretos e pobres. É a mesma mídia que arrota aos quatro ventos a necessidade de reduzir a maioridade penal, medida que se destina exclusivamente a apertar o cerco de violência contra esses mesmos pretos e pobres. Qual pai de algum trombadinha de rua foi ouvido pelos jornalões quando o filho foi preso por bater uma carteira? O coro é uníssono: prendam e espanquem! É a Justiça seletiva. Dezenas de teorias têm se encarregado de explicar o comportamento da imprensa e uma delas é a do enquadramento. Alguns autores defendem a hipótese que a mídia enquadra um tema ou assunto de acordo com as necessidades ideológicas dos grupos econômicos que a controlam. A notícia se destina, na maior parte das vezes, não apenas a informar, se for o caso, mas, sobretudo, a formar opinião. E é o que se observa na cobertura da violência bárbara cometida pelos “jovens” contra Sirley Carvalho. O discurso é o espelho do sentimento de classe. O texto é um misto de perplexidade e, subliminarmente, dó para com os “rapazes acusados de agressão”, como noticiou O Globo, apesar de testemunhas terem confirmado à polícia a ação violenta da gangue. Por outro lado, não há espaço para rotulagens de “jovens” e “rapazes” às milhares de vítimas condenadas socialmente por um sistema econômico-político genocida. É só ir às páginas policiais dos jornalões do país e se observar a representação da realidade construída. O ladrão de galinha, batedor de carteira, “rato” de supermercado ou perpetrador de pequenos delitos são os “meliantes”, bandidos, delinqüentes juvenis etc. O sentido é o mesmo que inaugurou o conceito de página de polícia no Brasil no século XIX: a delação social. O espaço era destinado a anúncios colocados pela polícia, a mando de fazendeiros, para delatar escravos fugitivos. Pergunta: quem é mais “meliante”, o Zé Ninguém da esquina que roubou uma caixa de biscoitos no supermercado ou o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), que “propinou” e recebeu mais de R$ 1 milhão via o Banco Regional de Brasília? Na verdade, os verdadeiros meliantes desse país historicamente nunca apareceram nas páginas policiais e sim nas colunas sociais e de política. De alguma forma, inverter essa situação na mídia é uma árdua tarefa para os senhores empresários donos dos meios de comunicação de massa. Ademais, os violentos Felippe, Julio, Leonardo, Rodrigo e Rubens podem ser considerados frutos sociais dessa mesma mídia. A geração que cresceu aprendendo na televisão que bem e mal são situações dissonantes a partir da representação social construída pelos paradigmas das classes economicamente favorecidas. A TV apresenta a atriz negra e mestiça como empregada e a branca e loura no papel de patroa. É a geração do disco voador da Xuxa recheado de idiotices que chegava ao fim da tarde “se vendo” em Malhação, um dos programas mais cretinos da televisão brasileira. A partir disso, os “bem criados” da Barra da Tijuca puderam se encarregar de canalizar seus valores de desrespeito e ódio à diferença social e racial agredindo empregadas domésticas que teriam confundido como prostitutas, como se estas também não merecessem nenhum respeito. A perplexidade da mídia gorda não se dirige em absoluto à violência física e moral que Sirley foi submetida, mas ao fato de “crianças” do próprio ninho terem cometido tal barbaridade, afinal de contas estas não foram criadas para descriminar dessa forma, já que seus pais e pares exigem hoje mais “assepsia” para tal ato.

Comentários

Danusa Maria disse…
Inventaram agora que eles agiram dessa forma devido à má influência de um jogo de vídeo game. Nesse jogo a missão é agredir ou matar, não sei ao certo, prostitutas.
Andam frisando que os agressores foram influenciados e que não passam de pobres vítimas do joguinho. Ah, tá!
Anônimo disse…
ler todo o blog, muito bom

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