domingo, 14 de abril de 2013

A "arte" de fomentar um golpe: O dia que durou 21 anos


Terrorismo econômico e escândalo político seletivo e oportunista. A mídia corporativa nativa cria a agenda com o auxílio luxuoso do Departamento de Estado dos Estados Unidos para levar à instabilidade institucional. Não, não estamos falando da conjuntura atual do país e sim do Brasil de 1964. A fórmula é velha, sabe-se, mas foi este o enredo que levou ao golpe militar naquele ano. E não é coincidência.
O dia que durou 21 anos, documentário dirigido por Camilo Tavares, com produção do seu pai, o jornalista Flávio Tavares, ex-preso político torturado pelo regime, reúne documentos inéditos sobre o episódio que retardou em, pelo menos, 40 anos o desenvolvimento brasileiro. O trabalho, de 117 minutos, é uma co-produção da Pequi Filmes e TV Brasil.
O filme expõe as vísceras do envolvimento do governo estadunidense no episódio. Processo iniciado ainda em 1962 com o presidente John Kennedy e levado a cabo pelo seu sucessor, Lyndon Johnson. A ordem era tirar o presidente João Goulart do poder, desde que ele assumira o comando do país, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros.
O documentário é didático. Explica com riqueza de detalhes a crise para o retorno de Goulart, a emenda parlamentarista que lhe tirou força política, o plebiscito que reconduziu o Brasil ao sistema presidencialista e o desfecho golpista, ocorrido na madrugada de 31 de março para 1 de abril de 1964.
Nos bastidores, a atuação de autoridades dos EUA, como o embaixador Lincoln Gordon e o adido militar, general Vernon Walters. São provas cabais. Documentos e gravações em áudio são apresentados e trazem à baila diálogos entre Gordon e o primeiro escalão estadunidense. As conversas incluem o presidente Johnson, o secretário de Estado Dean Rusk e o secretário da Defesa, Robert McNamara, entre outros personagens.
Enquanto isso, no Brasil, entidades estadunidenses atuam na conspiração. O Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Insituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), grupos teleguiados pela CIA, se encarregam de despejar milhões de dólares na imprensa e na compra de apoio parlamentar à conspirata.
Na agenda política do governo, as chamadas reformas de base - reforma agrária, política e tributária, junto a outras medidas - deixam as elites e setores expressivos da classe média apreensivos ante o perigo da implantação de um “governo sindicalista de inclinação de esquerda”.
A paranóia anti-comunista cai como uma luva no imaginário desses setores. A direita sai às ruas e leva milhares para a “Marcha com Deus, pela família e pela propriedade”. Empresários, imprensa e políticos inclinados ao golpe alimentam a iminência de uma revolução comunista. Sentimento que serve como amálgama aos intentos estadunidenses, que vêem seus interesses econômicos ameaçados.
Também figuram depoimentos interessantes, como de oficiais legalistas que foram cassados pela quartelada, sendo que um deles lamenta a ausência de resistência por parte das forças do governo. “Foi tudo muito pacífico”, lembra. 
A Operação Brother Sam também é citada. Washington autoriza o envio de forças militares para pressionar a queda de Goulart. A decisão é demonstrada em áudio. “Tudo o que precisarmos fazer. Vamos pôr nosso pescoço para fora (nos arriscar)”.
O golpe é dado e o país mergulha em 21 anos de trevas. Cassações, torturas, assassinatos e toda tipo de violência são cometidos pelas forças de repressão. E o pior é que essas mesmas ameaças continuam a pairar sobre o país. O filme dos Tavares serve como vacina e alerta. Imperdível.

Vejam trailer

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Alguns minutos com o MST. Emoção e luta!

No dia 11 de abril de 2013 militantes do MST chegam ao Centro Administrativo da Bahia para reivindicar mais rapidez nas ações da Reforma Agrária. A manifestação integrou as ações do Abril Vermelho. Entrevista, imagens e edição: Zeca Peixoto.

domingo, 7 de abril de 2013

Dores, sofrimentos e comédias. Ou quando a juíza abre o coração



Foi um acaso. Serendipidades que não presumimos vir ocorrer. Encontro fortuito no ambiente de trabalho com uma colega. Papo rápido em frente ao cafezinho, mas suficiente para destilar angústias e incômodos que a vida traz. “Estou lendo um livro fantástico, escrito por uma juíza e que narra algumas situações ao longo dos seus 15 anos de atuação nas varas de família do Rio de Janeiro”. No dia seguinte chegava às minhas mãos A vida não é justa, de Andréa Pachá.    
Foi um presente. Nos últimos anos dedicado à leitura de livros e textos acadêmicos, afundado em toneladas de ensaios, artigos e publicações especializadas, abri um hiato para ler aquelas histórias. Emocionei, chorei, ri e, também, de alguma forma, me vi. Para quem já passou por duas separações…  
Quem imagina um texto duro, juridiquês pesado, se engana com Pachá. A juíza retira a toga e abre o coração. Com refinado estilo e uma narrativa suave, inteligente, perpicaz e doce, a magistrada descreve sucintamente dramas e desencontros de casais, pais e filhos. A tormenta dos desenlaces conjugais nivela ricos, pobres, classe média e favelados. O sofrimento transcende as condições sociais daqueles que o atravessam.
Andréa divide o livro em quatro eixos temáticos. Amores líquidos; Pais e filhos; Realidade ampliada; e Recomeços. Seja a separação de um jovem casal abastado para o qual o casamento foi só uma festa que durou três meses; a decisão consensual de pedir o divórcio e sair de mãos dadas do fórum aos prantos; disputas por heranças e pensões; as duas famílias de Zé Pernambuco; a senhora de 64 anos que assumiu o avatar de “Molhadinha25” na Internet e deixou o marido pocesso; exames de paternidade; lamentos de crianças e adolescentes cujos pais tomam rumos diferentes, entre outras.
Ainda que em todas as situações descritas a juíza não decline de expôr suas decisões, ela intervem na mediação dos processos observando as relações humanas. A letra fria da lei é o que menos importa. Sua percepção e, sobretudo, interpretação e aplicação das sentenças decorrem do entendimento da vida num aspecto mais elevado. Andréa aconselha, conversa, escuta, opina e, por vezes, se deixa levar por recônditas emoções que procura enjaular. Sim, a juíza também sente. E respeita a todos.
Não há certos nem errados. A condição humana, por si, já é factível de erros. São os designos da existência que levam homens e mulheres a buscar o Estado para desenrolar novelos que movem paixões, desamores, rancores, frustrações ou disputas meramente materiais. Com passagem na área de produção teatral, Andréa Pachá se coloca na condição de arbitrar destinos nesse grande palco que é a vida. E que não é justa.
O livro tem 190 páginas e foi publicado pela editora Agir. Conta com as apresentações dos escritores Zuenir Ventura – capa – e Alcione Araújo.