Raríssimo conceito de democracia





Alexandre Garcia, um dos porta-vozes do jornalismo na Globo destila exclusivo e bem particular conceito de democracia





Um “bem entendido” conceito de democracia se alastra entre alguns comentaristas e jornalistas da Globo: a Venezuela tem um governo autoritário porque não irá renovar a concessão da Radio Caracas Televisión (RCTV). Aliás, a Venezuela foi o último assunto abordado entre os repórteres globais Renato Machado, Alexandre Garcia e Miriam Leitão quando entrevistavam, na semana passada, a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência Dilma Roussef. Reconheçamos, o modos operandi discursivo estabelecido pela editoria do Jornal da Manhã foi matematicamente planejado. A começar pelos questionamentos ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Causa verdadeiro estorvo à Globo pensar em um Estado que invista na infraestrutura, educação e saúde. Para eles, crescimento só deve e pode existir se o Estado encolher e o sacrossanto mercado tomar as rédeas do país como a raposa toma conta do galinheiro. Para um bom entendedor, basta relembrar a forma como Alexandre Garcia inquiria a ministra sobre “a timidez no corte dos gastos”; Ou mesmo quando a “especialista” Miriam Leitão, do alto do seu conhecimento, questionava sobre ações macroeconômicas. Com malabarismos lingüísticos, esses jornalistas buscavam justificar suas crenças e teses no neoliberalismo ornando seus discursos com sofismas baratos, como que quisessem encantar os incautos e fazer crer que estavam num mar de razões. Por fim, veio à baila o verdadeiro tema trazido pela trinca de “ouro” escalada por Ali Kamel, diretor de Jornalismo da Globo, para cumprir a tarefa: perguntar se o governo Lula poderia transformar o Brasil numa Venezuela. A ordem era misturar fatos e mandar o recado de que o Estado brasileiro não poderia agir fora dos limites estabelecidos pelas elites locais. E o gancho para isso foi o questionamento feito por Garcia se o governo de Lula reeditaria ou não a ação de Chávez em solo tupiniquim nesse segundo mandato.
Adentramos então no conceito de democracia da Rede Globo de televisão. É sabido, não por todos e aí está o trunfo da Globo, que Hugo Chávez Frías foi eleito em dezembro passado com 63% dos votos. Chávez tem amplo apoio da população. O Estado venezuelano mobilizou a sociedade e tem utilizado a riqueza do petróleo para investir em programas sociais. A RCTV, por sua vez, pertence a um consórcio de empresários ligado a antiga direção da PSDVA, a companhia petrolífera venezuelana que outrora drenava suas receitas para encher os bolsos de magnatas. Foi a RCTV, junto a CNN e outras emissoras de menor porte, que planejou e executou a tentativa de golpe de Estado em 2002, que durou 48 horas e foi barrado pela pressão popular em Caracas. Para a jornalista Lourdes Zuazo, da Telesur, a atuação da RCTV é que se constitui um atentado à democracia. Zuazo afirma que esta emissora prega abertamente um golpe de Estado na Venezuela e não respeita a constituição do país. E que fique claro: não está se fechando um canal de televisão. A licença de atuação é que não será renovada porque a emissora foge à lei e prega a ilegalidade institucional. Alguém viu ou ouviu algum comentário sobre esses fatos na Rede Globo? Recordando o passado recente, onde se encontrava a voz da Rede Globo quando o país vivia sob o Regime Militar? Boas perguntas.
Temos então um conceito de liberdade e democracia bastante evasivo e seletivo por parte da Vênus Platinada. A rede televisiva que diariamente vomita montanhas de cretinices e pieguices é a mesma que assume um discurso presumivelmente sério acerca dos graves problemas nacionais. No baú da Globo cabe tardes de domingo chorosas no Domingão do Faustão com panegíricos de artistas e celebridades e reportagens sobre o aquecimento global. No entanto, para a emissora dos Marinhos as intempéries climáticas que o planeta enfrenta em decorrência da emissão de gases poluentes nada têm a ver com a concentração da renda mundial e a ambição consumista do capitalismo internacional que está fritando a Terra na frigideira dos lucros. É informação pela metade com discurso enviesado onde tudo se empana para disfarçar a realidade. Hugo Chávez então é o mal e o bem é representado no bom mocismo de araque interpretado pelas suas personalidades e jornalistas ventríloquos dos consensos das elites. Os problemas sociais são vistos como um mosaico sem forma. A propósito, a participação popular que a Rede Globo admite é quando põe em votação, a nível nacional, a escolha de quem vai sair ou ficar na casa-laboratório do Big Brother. Para a Globo, o interesse público se faz necessário quando se trata de pasteurizar a competição social mediante estratagemas de espertezas. Corpos torneados e conversas pueris ganham destaque numa sociedade de excluídos que a emissora transforma em sonhadores que podem ganhar um milhão ao se espelharem naqueles seres-ratos trancafiados numa mansão de luxo.

Comentários

Lopes Pereira disse…
Adorei Professor. Vou postar no meu blog. Também faço parte deste ideal. Não compactuo com a imprensa suja.

Muita Paz

Antonio Nelson Lopes Pereira
Murilo Alves disse…
Respondi o teu comentário lá no meu blog: http://ventanias.blog.terra.com.br
Valeu, mestre!
Murilo Alves disse…
Agora, vamos ao texto que publicastes:
Mais uma vez, tuas impressões a respeito da mídia brasileira, de modo geral, dispensa minhas meras considerações.
Mas ouso dizer que, os teus escritos fizeram ressurgir em minha memória dois episódios clássicos da hipocrisia existente nas esferas imprensa/poder.
O professor deve se lembrar de quando o deputado ACM Neto (ou ACM'inho)afirmou que "o PT fundou a corrupção no Brasil".
Já a Rede Globo, como nós sabemos, historicamente conivente com os regimes militares que mancharam a história do país com sangue, tem a cara-de-pau de criticar o governo venezuelano, além de falar em uma tal de "democracia".
Soa estranho quando carlistas e tucanos pronunciam a palavra: corrupção.
Soa estranho quando a Globo e seus articulistas pronunciam a palavra: democracia...
O blog ficou ainda melhor com este novo visual!!!
Meus parabéns e grande abraço!
Neuma disse…
Zeca,
Fantástico. Um texto agradável de ler, justamente porque contamina, alerta e instrue. É uma lição de como não se deve fazer jornalismo. Por outro lado, mostra que vale a pena entender para contestar.
Um grande abraço professor,
Neuma Dantas
brotherbull disse…
Parabéns para seu artigo. Gostei!
Anônimo disse…
Uma amiga me indicou seu blog. e ñ me falou sobre o que encontraria, fiquei tranquilo, pois me conhecndo como ela me conhece, saberia que viria algo de bom,fiquei surpreso! É muito bom, parabéns professor!!

http://migelnovais.blog.terra.com.br

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