Disposição para enfrentamentos

Ícones populares estampam camisetas, bandeiras, cartazes e cristalizam-se no imaginário social como totens intocáveis. Quando não, ombram-se à condição de sagrados. Defeitos e fraquezas quase sempre ficam sepultos ante a ode às mitificações. E poucos assumem a própria desconstrução da imagem para se apresentar com suas virtudes, vícios, dramas e opiniões sobre fatos singelos ou de grande monta. É o que parece propor Rolihlhala Mandela, ou Nelson Mandela, líder maior da luta contra o regime racista (apartheid) da África do Sul e ex-presidente do país, ao publicar sua autobigrafia Conversas que tive comigo.
Prefaciado pelo presidente norte-americano Barack Obama, o livro, de 415 páginas, lançado no Brasil pela editora Rocco, reúne cartas, comentários, diálogos e entrevistas de Mandela com companheiros de militância contra o apartheid. Os documentos revelam situações vivenciadas pelo líder do Congreso Nacional Africano (CNA) ao longo dos 27 anos de cárcere, desde que foi detido em 1962 sob a acusação de alta traição.
É difícil acreditar num Nelson Mandela que se define como “homem medíocre”, como procura fazer crer em correspondência a uma companheira, em 1971. É o momento de abatimento. Sente-se impotente diante da grande tarefa histórica que o convoca. Sete anos se passaram desde que fora condenado à prisão perpétua e enviado à Ilha de Robben para cumprir a pena. A situação lhe era desfavorável.
O desabafo, no entanto, apresenta-se como uma névoa que aos poucos vai se dissipando. Os depoimentos descortinam um homem decidido e que encara com firmeza as agruras de um sistema político covarde e assassino.  Entre as narrativas que permeiam a obra, destacam-se conversas e entrevistas com o editor Richard Stengel e o companheiro de prisão Ahmed Kathrada. Os relatos expõem os vários enfrentamentos que se interpuseram à trajetória do líder.
A adesão à luta armada, por exemplo, é justificada como necessidade histórica de reação à violência institucionalizada pela supremacia branca nos campos político e militar. “Eles (o povo sul-africano) precisavam saber porque iriam pegar em armas e lutar (...) revolução não era só uma questão de puxar o gatilho e atirar – era uma organização montada para tomar o poder político. Isso foi bem definido”. Mandela refere-se à fundação do MK, a Umkhonto we Siswe (lança de uma nação), braço armado do Congresso Nacional Africano do qual foi um dos propositores.
Pegar ou não em armas, no entanto, não se constituia em questão central da luta política que travava. Mandela sabia negociar. Para ele, mais importante “era fazer ranger e se mover a roda da história”, a ponto de não se sentir desconfortável em rever posições sobre nacionalizações. “Tínhamos que dissipar temores da comunidade internacional”, justifica, com a mesma habilidade que montou poderosa artilharia de propaganda política para desestabilizar o governo sul-africano.                                       
Outros embates não foram menos dolorosos. Ser pai a distância e preso atormentava um chefe de família cônscio das suas obrigações. Em 1969, quando sua segunda mulher, Winie Mandela, foi colocada na solitária por 17 meses sob a acusação de atividades subversivas, ele escreveu às filhas Zeni e Zindzi, à época com nove e oito anos, respectivamente. “Mais uma vez sua querida mãe foi presa e agora ela e papai estão na cadeia (...) vinte e quatro horas por dia sentindo a falta de suas filhinhas. Meses e até mesmo anos poderão se passar até que vocês a vejam de novo. Vocês poderão viver muitos anos como órfãs sem lar e sem pais”.
O tom meigo e ao mesmo tempo duro com que apresenta a realidade às filhas não denota conformismo. Ao contrário, o faz como uma espécie de vacina psicológica para fortalecê-las diante das adversidades que acompanharão suas vidas até a fase adulta. O mesmo ocorre quando é informado da morte do filho mais velho, Thembekile, de 24 anos, vitimado por um acidente de carro. O governo sul-africano lhe negara autorização para estar presente no enterro. Mandela procura não só consolar-se, como à mãe do rapaz, Evelyn, sua primeira mulher: “Sei mais que qualquer pessoa viva o quanto este golpe cruel deve ter sido devastador para você, pois Thembi era seu primeiro filho (...) O golpe foi igualmente doloroso para mim (...) e nunca mais iremos vê-lo”.
Não é que Nelson Mandela procure abafar seus sentimentos com doses demasiadas de racionalidade, como muitas cartas deixam transparecer. O que se percebe é um homem politicamente engajado e que entende a luta de libertação do seu povo como causa prioritária.
Em certo momento, instigado por Stengel sobre a paixão por Winnie Mandela e a possibilidade de ela o trair enquanto se encontrava encarcerado, ele é enfático: “essas questões para mim não eram materiais e era preciso aceitar o fato humano, a realidade de que há ocasiões em que uma pessoa quer relaxar e não se deve ser inquisitivo”.
Ser racional, portanto, é uma estratégia à sobrevivencia emocional. Sublimar inseguranças faz parte.
Diante de tantos infortúnios, o saldo dos relatos não desenha um homem pautado pelo rancor. Ao contrário. Já liberto, é o próprio Nelson Mandela que sugere a Ahmed Kathrada “comer um churrasco” com antigos carcereiros, a quem alguns deles o líder sul-africano devota respeito e admiração.
Não se trata de incoerência. Mandela tinha clara noção do que era o cumprimento do dever com balizas na ética. Ao se referir a um certo policial de nome Kruger, por exemplo, ele afirma querer revê-lo, pois o tinha como um “homem muito decente”. 
Conversas que tive Comigo é uma colcha de retalhos que, em boa medida, resume a trajetória política e pessoal de Nelson Mandela. Os textos emolduram um homem singular, capaz de limpar o vaso sanitário de um companheiro que não conseguia fazê-lo porque tinha nojo. “Isso não significava nada para mim”, confessa o líder que doou a vida para limpar uma das maiores excrecências do planeta, o apartheid.

Comentários

Anônimo disse…
Belo texto! Gosto do jeito que vc escreve.

Postagens mais visitadas deste blog

Snowden. Ou o fim da utopia cibernética

kristallnacht à brasileira?

Fé e ciência. O que Buda e Cristo têm em comum?