História da campanha do NO, case da propaganda política que pôs fim a ditadura de Pinochet



René Saavedra (Gael García Bernal) é um publiscitário descolado que vai para o trabalho de skate e adora se divertir com brinquedos infantis. Bem de vida, atua numa agência em Santiago e está às voltas com uma campanha para lançar um produto inovador, o microndas, sonho de consumo da classe média chinela. É o ano de 1988. O Chile vive sufocante ditadura do general Augusto Pinochet, um dos mais violentos ditadores do planeta e responsável por milhares de assassinatos e torturas desde que assumira o governo, em 11 de Setembro de 1973, quando derrubou o presidente socialista Salvador Allende por intermédio de um sangrento golpe militar.
Pressionado pela comunidade internacional, o governo é coagido a aceitar um plebiscito para que a população decida pela continuidade ou não do regime militar. Filho de exilado político, Saavedra assumi a coordenação da campanha do “NO”, fato histórico relevante transformado em filme com pinta de case propagandístico. Dirigido por Pablo Larraín, 1h55 de duração, a película utiliza tonalidade magenta para recriar a plástica da imagem veiculada na televisão à época. Não como apelo estético, mas como recurso semiótico calibrado à ambientação da mídia televisiva.
Como convencer uma sociedade narcotizada pelo consumo e aboletada no sofá à frente da TV que um país livre e democrático seria melhor às gerações futuras? Era o nó górdio da campanha.
Para os oposicionistas de esquerda, a comunicação deveria seguir o velho clichê dos anos 70, denunciando as arbitrariedades de Pinochet com filmes de propaganda duros e panfletários. Saavedra pensava diferente. Entendia que a população chinela já não era a mesma dos idos de 1973.
Por um lado, uma nova geração crescera ambientanda por códigos e fluxos de comunicação que não mais respondiam aos apelos de um discurso tradicional da esquerda; do outro, uma classe média temerosa de mudanças que pusessem em risco suas parcas conquistas materiais e um proletariado amedrontado e ainda traumatizado. Falar a todos esses segmentos com uma só linguagem constituía tarefa imediata. E difícil.
Cores, humor, brincadeiras e jingle de fácil assimilação. De início, o conceito de comunicação proposto pela equipe do NO é duramente criticado por políticos comunistas e socialistas. Se sentiam ofendidos por tudo que tinham passado. Para eles, um tipo de propaganda despretenciosa. Na verdade, não acreditavam no plebiscito, davam-no como vitória certa do general que controlava os meios de comunicação privados. O importante seria ocupar bem o espaço conquistado, fruto da pressão popular.
Aos poucos a equipe de Saavedra convence-os da possibilidade concreta de vitória. Vence a tese da comunicação política ornada com elementos do cotidiano das pessoas e o apelo à linguagem dos jovens. O NO não deveria remeter à tristeza ou à nostalgia do que quer que fosse e sim olhar o futuro. Votar contra o regime de Pinochet era ter alegria. A vida poderia ser colorida e melhor sem ele.
A ideia foi comprada. E incomodou o regime. Artifícios de sabotagem e repressão foram utilizados para inibir a campanha do NO, que se espalhou como viral na sociedade chilena, resultando na apoteótica vitória que pôs fim à nefasta ditadura de Augusto Pinochet. Para quem não assistiu, vale a pena conferir esse interessante case de propaganda política.




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