sexta-feira, 17 de março de 2017

Ponto de inclinação



O 15 de março de 2017 está se configurando como forte marco na disputa da narrativa política no Brasil. Mais de um milhão de pessoas ocuparam as ruas das capitais e de diversas cidades do país em protesto contra a proposta de Reforma da Previdência. A reboque, outros itens ampliaram a pauta das mobilizações. 
É perceptível o ponto de inflexão. O tema configurou o que chamaria de uma agenda-setting às avessas, que saltou das redes para as ruas. No tema Previdência, a batalha pela opinião pública está sendo perdida pelo jornalismo corporativo. 
Aos fatos.
Minhas análises ainda estão em curso no que confere aos influenciadores nas redes (players individuais e coletivos), mas algumas pistas já se apresentam.
A organização das manifestações de 15/03 não teve espaço na mídia corporativa nas edições da semana que precedeu a mobilização. Pelo contrário, a pauta monocórdia nos principais órgãos da imprensa hegemônica foi na direção contra-narrativa à convocatória.
O depoimento de Lula à Justiça, em Brasília, ganhou fartos oito minutos no Jornal Nacional da terça-feira, 14/03. 
A despeito da ofensiva, ainda assim a Rede Globo e outros players que sustentam a mesma narrativa não conseguiram garantir a desmobilização. 
Já as narrativas pró-mobilização se deram basicamente nas páginas de entidades, de coletivos e em muitos perfis que detêm algum capital simbólico. Sejam nas redes sociais ou nas mídias sociais (sim, há diferenças). Ou mesmo em canais semi-unidirecionais de comunicação, a exemplo do Whatsapp, onde foi registrado forte fenômeno de memes quanto à reforma da previdência (esta análise será alvo de um estudo em separado pela configuração técnica do próprio canal). 
Dados preliminares indicam a potência de comunicação de coletivos como o #MídiaNinja e #JornalistasLivres
Perfis que tiveram papel preponderante, exercendo forte influência em diversos clusters (grupos de mobilização digital organizados por afinidades de opinião) nas redes e mídias sociais, o que possibilitou a ampliação das narrativas pró-mobilização.
Perfis individuais também contribuíram. Destaco dois: o da historiadora e blogueira Conceição Oliveira e o do deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS). No entanto, outros também registraram forte atuação. 
já as hashtags #GreveGeral, #Greve, #QueroMeAposentar e#ReformadaPrevidência ocuparam posições significativas no Twitter, principal rede formadora de opinião.
Todavia, talvez aí se registre uma falha no nivelamento do tagueamento por parte das entidades envolvidas nas mobilizações. Uma # deveria ter sido escolhida estrategicamente como âncora, o que não significaria excluir outras.
Observou-se uma situação na qual a díade rede x rua se apresentou como esforço, de fato, complementar. Ou seja, a pauta prima que envolveu a mobilização conseguiu ser trabalhada e, sobretudo, explicada de forma didática nas redes e mídias sociais. Embora lançando mão de recursos linguísticos e que passam ao largo do tecnicismo (ver adiante). 
Ainda que tardia, foi a pauta melhor comunicada nos últimos dois anos por ativistas - inclusos partidos, movimentos sociais e coletivos - que se posicionam à esquerda do espectro ideológico.
E, neste caso, bom observar, as "brincadeiras" mediante desenhos, imagens e piadas criticando a reforma da previdência geraram um efeito-contágio que resultou em memes com altíssimo teor de aglutinação à causa.
A imagem de uma múmia se referindo a alguém que aguarda o momento da aposentadoria ou o vídeo de uma criança saindo para trabalhar conseguem engajar mais do que o vídeo de um debate reunindo especialistas no assunto. São estratégias.
A percepção das tendências numa economia da atenção diante do redesenho da nova economia política da mídia é determinante para as novas batalhas que se avizinham. O debate ideológico não é o bastante para alcançar engajamentos. É preciso criar.
Ninguém quer morrer trabalhando. Esta conclusão, por si só, propicia N estratégias para explicar uma das mais perversas medidas do neoliberalismo.
Que seja desenhando. 
E neste 15 de março o efeito-contágio dessa variedade de memes se tornou um poderoso canhão comunicacional que fez estragos irreparáveis no casco do navio de Michel Temer.

A conferir.

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