Trincheiras e rock’in’roll. Ou uma passagem da vida de Zito



Os raios de sol vazaram as frestas da janela. Os olhos se abriram tentando resistir à luz já forte daquele mês de novembro de 1980. A ordem era ficar de pé às 6h. Disciplina e determinação. Preparo para enfrentar um possível acirramento do Regime Militar. A extrema-direita estava à espreita. O acampamento no distrito de Lamarão, Camaçari, Região Metropolitana de Salvador, contava com dezenas de militantes que preparavam faixas, cartazes e bombas de coquetel molotov para a manifestação de rua que ocorreria nos próximos dias. Militante do movimento Novação, desdobramento estudantil da Ação Popular, aos 17 anos e iniciando o curso de Sociologia na Universidade Federal da Bahia, Zito Filho partira pra luta. Nos anos anteriores fora dirigente do grêmio do Colégio Ipiranga, situado no largo Dois de Julho, bairro histórico e fronteiriço a um dos baixos meretrícios de Salvador. Local de imemoráveis farras nas suas ruelas e botecos, onde litros de cervejas foram consumidos em calorosos debates políticos. Jamais se subjugou à autoridade ideológica de quem quer que fosse. Sua cabeça era livre. Concebia que a revolução tinha que ser total, sem amarras. Lera algumas coisas de Marx e Lukács. Posteriormente, se encantaria com Herbert Marcuse e William Reich. Psicologia de Massas do Fascismo, de Reich, ocuparia sua cabeceira por um bom tempo. Sem vontade e tesão não haveria transformação, assim entendia. 
- Hô, Zito, pega mais garrafas pra gente terminar os coquetéis. Tem muita coisa pra fazer ainda.
Quem chamou atenção foi Joaquim Caravina, dirigente nacional da organização e que viera do Rio de Janeiro para coordenar as ações da AP na Bahia. 
- Você vai dar ordem na puta que o pariu! Passei a tarde toda enchendo garrafa de gasolina e álcool e o bonitão aí discutindo teoria e estratégia. Tá me achando com cara de Mané, porra?
- Calma aí, Zito, precisa esquentar não, a gente chama outro companheiro pra finalizar o serviço.
- É bom mesmo, tô cansado pra caralho!
Entediado, pegou a última garrafa, encheu de gasolina, amarrou a bucha na boca do vidro, lacrou e pôs o artefato junto a outras centenas deles. Fazia o serviço rápido e com maestria. Conhecia como ninguém o preparo de um molotov. O enfrentamento era certeza. A milicada viria para reprimir a manifestação dos estudantes e líderes sindicais. Lutavam pela anistia ampla, geral e irrestrita e pela redemocratização do país. Zito queria mais. Não dissociava a disputa política das questões existenciais. Defendia os “desbundados”, hippies e afins. Para ele, comportamentos legítimos de resistência àquela situação. Chocava-se com os discursos envelopados da esquerda tradicional.
- Vou dar um tempo ali, tomar uma água de côco. Avisou aos companheiros.
Chamou dois deles para fazer companhia, Helena Shaun, estudante de Engenharia da Universidade Federal da Bahia, e Paulo Birilo, seu colega no curso de Sociologia. Distanciaram-se cerca de 40 metros do acampamento. Zito puxou da sacola um pacote, retirou algumas berlotas e passou a dechavá-las até formar um bolinho de mato oleoso. Preencheu uma canoa de papel com as folhas, enrolou e fechou as pontas. Acenderam o baseado.
- Zito, você está ansioso pra essa passeata? Sei não, mas eu acho que os macacos vêm pra cima, não acha? A pergunta de Helena só fez empolgá-lo.
- É bom que venham. Afinal, pra que a gente está há três dias aqui enchendo coquetéis molotov? Se não vierem não tem graça, vamos jogá-los em quem?
A resposta de Zito valeu uma gargalhada a três. E muito mais risadas rolaram naquele fim de tarde. Birilo pegou um aparelho de fita cassete e pôs Paranoid, do Black Sabbath. Descontraíram-se e dançaram ao som precário do pequeno gravador. Revolução.
Bombas, paz e amor
A estratégia foi armada numa pequena assembleia que reuniu lideranças de colégios públicos e particulares. Dois grupos se destacavam: os alunos do Colégio Central e da escola Técnica Federal da Bahia, cujos grêmios eram dominados pela AP e PCdoB, respectivamente. Dois partidos fortes no movimento. Decidiam quase que sozinhos os roteiros das passeatas e manifestações dos secundaristas. Definiram que três grandes aglomerados sairiam de locais diferentes com o propósito de baratinar a repressão. Um partiria do Garcia em direção ao Campo Grande; o segundo, vindo do Canela, seguiria o mesmo destino; e o terceiro iniciaria a marcha a partir da Praça Castro Alves. 19 de novembro de 1980, quarta-feira.
Os universitários também bolaram seus planos. O pessoal da AP, com Zito e outros à frente, ficou encarregado da “retaguarda”. Ou seja, a missão era surpreender a repressão pelas costas atacando com coquetéis molotovs. Sabiam que seriam lançadas bombas de gás e disparados tiros de borracha na estudantada. Não teriam como se defender de imediato, estariam de costas. A ordem era confundi-los.
Às 14hs as concentrações foram iniciadas nos locais combinados. Faixas e cartazes chegaram primeiro. Zito e alguns colegas se deslocaram de carros particulares para armazenar molotovs. Alguns agrupados num espaço escondido próximo à Reitoria da UFBA; outros num prédio em construção no Corredor da Vitória, esconderijo arranjado pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Enquanto isso, o pessoal da agitprop – agitação e propaganda – se encarregava de espalhar folhetos entre a população denunciando as arbitrariedades do regime e divulgando a pauta de reivindicações dos movimentos. Parlamentares de oposição também se apresentariam à manifestação.
Aos poucos, as marchas foram se deslocando. “Abaixo a ditadura, anistia ampla, geral e irrestrita”; “por um governo democrático e popular”; “vai acabar, vai acabar, a ditadura militar”. As palavras de ordem variavam de acordo com a orientação política de cada grupo. Uma miscelânea de orientações de esquerda que se aglutinava com objetivo comum. Até os anarquistas se faziam presentes com seus gritos de guerra: “pão, tesão e liberdade”. Zito simpatizava com eles, ao contrário dos seus companheiros, que os classificava de “alienados”.
Meia hora depois de iniciadas as mobilizações, o barulho das pisadas dos coturnos e das patas dos cavalos ficou mais forte. Caminhões da Polícia Militar e das tropas da Companhia de Guarda do Exército chegavam às dezenas. Clima tenso. A ordem era desmanchar qualquer aglomeração. Soldados desciam dos blindados com escudos, cassetetes e cinturões carregados de bombas de gás. Um primeiro aglomerado de capacetes partiu em direção aos secundaristas que chegavam do Garcia, nas imediações do Teatro Castro Alves.
- Fudeu! Os caras vão imprensar a gente aqui.
Betão, conhecido dirigente do grêmio do colégio Dois de Julho, temeu pelo pior.
Tinha razão.
Em menos de cinco minutos o grupo foi disperso. Correria e perseguição para todos os lados. A repressão atacou com cães pastores. Cercaram os garotos distribuindo fantadas. Uma estudante do Colégio Central foi atingida na cabeça e desmaiou na rua. O sangue lhe encharcou a farda. Um outro colega derrapou na calçada caindo sobre o tacho fervente de uma baiana de acarajé. Queimaduras por todo o corpo. O Campo Grande se transformou numa praça de guerra nublada pelos gases e a poeira levantada.
- Cadê o material, porra? Gritou um jovem na esquina do teatro. Referia-se aos coquetéis molotovs. 
Rapidamente, um grupo de universitários surgiu com sacolas carregadas de garrafas. De forma ágil, Iniciaram a distribuição entre alguns deles. Zito pegou duas, uma em cada mão. E amarrou uma terceira na cintura. Depois escondeu esta última num canto do interior de um bar que funcionava em frente à Reitoria. Correu e juntou-se a mais dois colegas, entre eles Adriana Zhitherman. Judia, cabelos avermelhados, era estudante de Arquitetura. A garota nem mesmo sabia porque estava ali. Sempre se posicionara como pacifista. Aversa a mobilizações violentas, era meio hippie e alternativa.
- Adriana, ajuda aí, pega uma garrafa dessas! Gritou Zito.
- É pra fazer o que com isso? Queimar pessoas? Vai resolver?
- Mas os caras estão baixando o pau na gente, não tá vendo?
- O melhor seria entregar flores a eles.
- Você tá maluca, pirou?
- Zito, violência só vai gerar mais violência, entendeu? Vocês não vão a lugar nenhum assim, querendo fazer guerra.
- Porra, Adriana, mas são eles que estão vindo pra cima da gente.
- O melhor é se estivéssemos todos sentados na praça vestidos de branco, seria mais bonito, mais simbólico e mais forte.
Por um instante Zito parou, olhou para o semblante de Adriana, e pela primeira vez refletiu de forma diferente. Ainda assim, empunhou uma garrafa, acendeu a tocha e arremessou em direção a um grupo de militares que arregaçavam pra cima de uns poucos garotos. O artefato não chegou a atingi-los, caiu próximo. Mas as chamas da explosão e os estilhaços de vidro dispersou-os, dando oportunidade aos estudantes de fugirem do cerco.
- Vumbora daqui, Zito! Pediu Adriana.
Ele ficou parado, pensativo, até que estendeu a mão à garota. Abraçou-a. Resolveram se retirar rapidamente do campo de batalha. Desceram a passos rápidos em direção ao Vale do Canela. Tomaram um táxi rumo ao Porto da Barra.
- Não sei se fiz certo. Deixei os companheiros apanhando daquele monte de gorilas. Eu sou de luta!
- Zito, existem várias formas de luta e a maior delas é contra seus gorilas internos. Se eles cultivam isso e todo mundo resolver cultivar também como se chegará à paz?
- Como podemos ser pacíficos diante desse regime?
- Ghandy venceu os ingleses meditando. Respondeu a garota.
Zito deu uma gargalhada e retrucou. - A Índia hoje é uma miséria total com essa paz toda de Ghandy. Pra que serviu essa luta do seu guru, então?
- Existe a miséria material e a miséria espiritual. Qual o conceito de felicidade pra você, Zito?
- Socialismo, uma sociedade mais justa e com renda melhor distribuída.
- E até hoje onde se construiu isso com violência? Questionou a garota.
- Vocês querem o socialismo, eu acho justo uma sociedade fraterna, mas para isso pretendem usar das mesmas armas daqueles que os oprimem. É um ciclo de ódio, de desamor. Não haverá sistema perfeito se o homem não buscar sua perfeição interior, seu equilíbrio. Continuará o caos, como à essa hora deve estar ocorrendo lá no Campo Grande.
Zito ficou meio perturbado com a conversa. Tentou tergiversar com alguns argumentos, todos prontamente rebatidos por Adriana. Após uma pausa, trocaram alguns olhares e se beijaram. A noite findou com a paz e o amor que Zito não presumiria existir naquele dia. As palavras de Adriana ficaram marcadas. Um primeiro insight. Mas ainda levaria muito tempo para ele repensar seus modos e maneiras de entender a sociedade e seus conflitos. Muitas lutas o acompanhariam ao longo da sua jornada.

Comentários

Anônimo disse…
O pódio do Zito foi o beijo da namorada. Assim como no pódio da vida sempre vence o amor. A gasolina é o instrumento da dor da fúria e as mãos a cera que desliza para um lugar mais do que incomum: o amor, já citado.
Zito uma metralhadora, uma arma calibre doze. Um revolucionário sem tags , sem tecnologia. Adriana a fúria reversa da sabedoria da vida. O ato de pensar, sobreposto, a tirania a vivência voraz e animalesca da luta.
Zito correu, correu, correu na direção contrária ao Sol da liberdade. E o brilho dos raios mudaram na direção da anarquia do coração. Onde estão os arranhões do Zito?
Cadê o rapaz que hoje poderia ser considerado underground? Ele continua um louco. Se ele existir, ele joga com a vida. E sobrevive com mágoas da república, da justiça prostituida, do mundo caduco e filho da puta.
O continua um puteiro, arrecadando mais e mais para os verdadeiros operadores do sistema. E Zito? Zito, se a morte o levou não apagou as cicatrizes que a hipocrisia lhe abriu deixando chagas no coração como as que Cristo tinha nas mãos.
Se Zito não morreu, ele morre de amores pelas mulheres. Mas elas brincam de matar a sede em tua saliva como diria Cazuza. Elas sugam teu corpo, sua alma e o que resta a Zito é a poesia, a prosa e a política.
Zito, deve ser hoje um artista. Um palhaço cotidiano. Será Zito um equilibrista? Será que Zito casará com Adriana a próxima da fila? Ou ele entende que ela é uma figura repetida e que as repetições não completam um álbum.
Zito merece uma bailarina. Ela saberia voar. Eles formariam um par de encanto. Mas se vivo ele teria ao menos 15 ou 20 anos a mais que uma jovem bailarina, que tem a vida difícil e triste.
A bailarina vive de dançar. Pra lá e pra cá até cansar. O seu sonho desfeito já cantado foi. É duro ficar na ponta do pé, doem os calos e a bailarina briga para ser ouvida e sofre a desgraça de um amor.
Mas a bailarina pode voar...
Ela vai limpar o rosto do palhaço que o pinta pra sobreviver. Soltará os cabelos, vai tirar o coque para a beleza sair e fazer o Zito artista sorrir.
É tá aí com a bailarina o Zito iria perder o medo de cair. Será o Zito o primeiro namorado da Bailarina.
Vai passar a vertigem, virá o encanto. Pois a vida é a arte de encantar e de dizer as coisas mais que lindas serve para fazer despertar coisas boas. Isso a bailarina tem.
Zito, o eterno jovem molambo da crítica. O bruto. Derreteu-se pela Adriana. Corre contra o tempo e vê que ele se repete. Um passo pra frente e dois para trás, e a dança da bailarina pode fazer o Zito ao menos girar.
Elidiane Reale disse…

Professor isso que um incentivo a leitura de seus alunos, quem dera um dia eu poder traçar linhas como essas!

Tamires disse…
Quero os outros capítulos!

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