Quem cansou de quem? A hipócrita campanha dos quatrocentões de São Paulo

A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), aquela mesma entidade golpista que pregou a desestabilização da nação nos anos passado e retrasado, agora volta à carga com a campanha “Cansei”. Explica-se o alarido: a popularidade do presidente não foi afetada pelo acidente da TAM, após dez meses do chamado caos aéreo. Pesquisa realizada pelo Datafolha, divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo, aponta que 48% dos brasileiros consideram o governo de Lula ótimo ou bom. O mesmo percentual registrado em março e praticamente igual ao do início de outubro de 2006 (49%), menos de um mês após o acidente da Gol. Ao que parece, os jornalões das famílias Mesquita e Frias, e de resto a aristocracia quatrocentona paulista, que se rebelou em 1932 com saudosismo da República Velha e foi parte ativa do golpe de 1964, não têm encontrado ressonância na sociedade pelo seu “cansaço”, campanha disseminada pelo país com um cínico discurso eivado de hipocrisia. A crise do setor aéreo foi o mote da ação. A partir de uma cobertura que nada tem de técnica e sim política, a Folha de São Paulo e o Estadão, trazendo a reboque outros órgãos da grande imprensa, fazem assessoria para a OBA-SP antecipando as eleições municipais do ano que vem. Para Clovis de Barros Filho, professor de Ética em Comunicação, “existem indícios muito claros de que o episódio de Congonhas está sendo instrumentalizado. Um movimento de deslegitimização do Estado, orquestrado pelo mundo corporativo, através do discurso da ineficácia, que tem como contrapartida a responsabilidade social e outras baboseiras. Tudo o que mostra a ineficácia do Estado interessa a certas políticas, a serviço de quem a mídia costuma estar”. A afirmação do professor foi publicada em entrevista concedida ao site Terra Magazine. Trata-se de uma lógica. Já se fala à boca pequena sobre a privatização de aeroportos como saída, e esse, não tenho dúvida, é o intento e que serve também de clichê eleitoral para 2010. Depois os discursos se voltarão para privatizações de penitenciárias, rodoviárias, universidades, escolas secundárias, hospitais públicos etc. Não há como negar que existe um povo cansado nesse país, um número bem maior do que os 8% da população que utilizam com freqüência os serviços das companhias aéreas. É também fato que existem problemas estruturais a serem resolvidos no setor aéreo, claro. Mas o que justifica e qual o sentido do “cansaço” de setores da elite nacional? O buraco é mais embaixo. A campanha “Cansei” reflete diretrizes de uma estruturada ação que visa desconstruir simbolicamente tudo que remeta a políticas públicas mais à esquerda. Ainda que o projeto político do governo federal esteja longe de se concretizar como um efetivo conjunto de ações de políticas públicas de esquerda, pela própria composição partidária que o sustenta, este é visto como alvo. O governo é uma seara de tensão intra-hegemônica que abarca diversos interesses que se estendem do campo democrático-popular ao mercado financeiro. De forma nenhuma se traduz em um monolito ideológico. Ainda assim, tímidas que sejam, as políticas sociais atuais têm conseguido alguns avanços. Pesquisa divulgada esta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que os programas de transferência de renda com condicionalidades (PTRC), como o Bolsa Família, contribuíram para a queda da desigualdade no Brasil na última década. O estudo aponta que ações como estas geraram a redução de 21% no coeficiente de Gini brasileiro, índice que mede a desigualdade de distribuição de renda em uma sociedade. É o Estado fazendo algo, queiram ou não. Muito mais do que no reinado do príncipe dos sociólogos FHC. É exatamente aí o pomo da discórdia. O aumento da auto-estima do povo pobre do país alerta segmentos dominantes. É como se dissessem: e se esse povo começar a entender que pode fazer história com as próprias mãos? Daí vem o medo de que projetos políticos com mais participação popular possam ser abraçados pela população no futuro, mesmo que não sejam conduzidos pelo PT e aliados. A intenção então é deslegitimar o campo da esquerda como um todo a partir da atual gestão. Note-se que a grande mídia não deu uma manchete sequer sobre a redução das desigualdades no país, fato que se julga extremamente importante. Não há interesse para tal. Por outro lado, são incensadas pela mídia entidades que integram a campanha com representações do que há de mais retrógrado no país, a começar pela Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (ABERT). Também fazem parte do protesto dos ricos a Associação Comercial de São Paulo, Associação Paulista de Imprensa (API), Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Grupo de Jovens da Associação Comercial de São Paulo, Instituto de Estudos Empresariais (IEE), entre outras. A mesma elite que um dia foi escravocrata e que não se cansará enquanto não ver realizado seus intentos golpistas, pois entendem que o povo pobre desse país sempre terá que obedecer aos seus desígnios e ordens. Este é o “cansaço” da direitona tupiniquim.

Comentários

Fabrício Lopes disse…
Eu, realmente, cansei!
Cansei da Globo e de todos os seus telejornais panfleto-publicitários. Cansei da Folha, Estadão, Isto é e Veja. Cansei de ver lobos em pele de cordeiro, como os "Capitães Guapo"* do DEM, PSDB e afins. Cansei de uma parte da elite tupiniquim, que desde que Cabral fincou seus pés aqui no Brasil só pensa em formas para ganhar mais dinheiro.

* Capitão Guapo era um personagem do desenho corrida espacial que tinha um gato branco, chamado Branquinho. Ele corria com este pseudônimo, sem tramóias e maracutais, até ver que não tinha mais chance de ganhar, aí ele se transformava em Falsão e seu gato virava um cachorro chamado Tranbique. Como Falsão, Capitão Guapo fazia o que podia para vencer as provas. Qualquer tipo de trapaça, maracutáia valia.
Filho disse…
Realmente a mídia tem feito um alarido em torno da crise a aéria, como se ela fosse culpa do atual governo e não como um problema que já vem se arrastando a muito tempo. Outra é julgarem que o acidente de Congonhas é o "resultado" claro da mesma. Há sobretudo um sensacionalismo nisso tudo, um oportunismo de tal tamanho que chega a causar repugnância.

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