Requiém para alguns do DEM




Durante passagem em Campinas-SP no último final de semana, tive a oportunidade de presenciar o típico furor reacionário de alguns segmentos da sociedade brasileira. Em meio a uma rodada de drinks, dois dos presentes, com sangue nos olhos e expressões de cães raivosos, vociferavam indignados contra as políticas de transferência de renda do Governo Federal. Bradavam contra o Programa Bolsa Família com a anuência de alguns convivas e só tinham como contraponto a palavra sensata de uma jovem assistente social, Renata Fernandes. Sai em defesa de Renata e, sobretudo, dos meus princípios. Cabe uma reflexão acerca daquela querela. O que de fato move o ódio daquelas pessoas, representantes fidedignas do pensamento reacionário brasileiro, além da estúpida vizeira que trazem consigo nas faces? A resposta não abre mão de uma sucinta explicação histórica, e quiçá com um adendo psicológico. Trata-se de herança mental de quem um dia, não muito distante, usou botas e chibatas para espancar escravos nas senzalas. E hoje tais pessoas integram a entourage do apartheid social que grassa na sociedade, já que, elas próprias, são perpetradoras e difusoras desta horrenda visão de mundo. Uma mentalidade que não aceita qualquer iniciativa que transfira ou distribua renda. Indignam-se com a violência que permeia a todos – mais de 35 mil assassinatos com armas de fogo por ano no país, baixas maiores do que na guerra do Iraque –, mas a visão disforme que carregam não as permite enxergar a realidade. Preferem o discurso protofascista de mais violência – simbólica, econômica, social - para conter o medo e a insegurança. Optam por não ver, nem entender, as verdadeiras causas desse estado de coisas. Numa sociedade em que apenas 10% da população ficam com 75% da riqueza nacional e 1% dos proprietários rurais ficam com quase 50% das terras agriculturáveis o que esperar de paz? Ainda assim, a trancos e barrancos, os programas sociais do Governo Federal têm conseguido transferir 0,5% do PIB para os mais pobres. Enquanto isso, as altas taxas de juros dos bancos garantem a transferência de 6% a 8% do PIB para as classes mais abastadas, um benefício que atinge apenas 20 mil famílias, das quais as referidas pessoas daquela mesa de bar não fazem parte, mas seguramente se postam como guarda pretoriana dos seus privilégios, a ponto de qualquer propósito distributivo lhes incomodar. Este filme já passou antes, quando, em 1933, mentalidades semelhantes às quais me referi se encarregaram de colocar um homem chamado Adolf Hitler no poder.

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