A Bahia e o ancien régime; o velho ainda não morreu e o novo está apenas nascendo

“O velho está morrendo e o novo apenas acaba de nascer”. A frase de Antonio Gramsci, citada em Memórias do Cárcere, dá a medida certa do atual quadro conjuntural da Bahia. A vitória da coligação encabeçada por Jaques Wagner (PT) rompeu, em termos, com a hegemonia política perpetrada durante 16 anos por um mesmo grupo, cujas raízes estão fincadas na gênese do Regime Militar. A Bahia foi um dos estados em que o autoritarismo e a violência política se prolongou em plena reconstrução do Estado de Direito. O comando do ex-governador e senador Antônio Carlos Magalhães é exemplo indubitável deste raciocínio. E o seu legado remete a um paradoxo histórico: em 2006 a Bahia sustentava o sexto Produto Interno Bruto do país e também o sexto pior Índice de Desenvolvimento Humano entre as unidades da Federação. Um paradoxo que pode ser explicado pelo cientista político Paulo Fábio como resultante de um processo de “modernização conservadora”. Tratava-se de um desenvolvimento excludente e carimbado pelo beneplácito a pequenos grupos de grandes investidores e empresários que dele se favoreciam. E estes, por sua vez, faziam uma espécie de correia de transmissão com os projetos políticos encetados pelo que se convencionou chamar de “poder carlista”, o qual não admitia defecções e operava com sistemas títeres de controle nas esferas do Executivo, Judiciário e Legislativo. O atual governo baiano busca superar esse antagonismo em meio a uma disputa política intrahegemônica. Alguns fatores são pertinentes para entender este quadro. O projeto político derrotado em 2006 se mantém atuante na oposição e articula com setores expressivos da mídia; seus representantes também se articulam no bojo da máquina pública, onde conspiram para a desestabilização do governo; por outro lado, muitos quadros técnicos do Estado, situados no segundo e terceiro escalões, mantêm-se confusos e reticentes ante as demandas reivindicatórias do funcionalismo. São quadros que carecem de pedagogia política para entender estas novas fronteiras de diálogos e negociações envolvendo lideranças sindicais do funcionalismo e Governo, um fato novíssimo na história da Bahia, mas ainda não digerido a contento. A fossilização de um discurso uniforme e conservador herdado dos governos passados tem sido o principal obstáculo à essa compreensão. Esclareça-se que entre as lideranças sindicais, o setor civil da Segurança acena como um ponto fora da curva em relação às demais. Não há consenso entre suas representações, imperando o divisionismo e a desestabilização. No que tange o relacionamento com a sociedade, o governo baiano eiva esforços para integrar os setores organizados às suas políticas públicas em diversas vertentes; ações de Educação, Saúde, Cultura, entre outras, têm sido debatidas à exaustão com representações do coletivo. Todavia, o intento de democratizar a governança esbarra-se nas críticas intermitentes oriundas daqueles que perderam o controle sobre a utilização dos recursos públicos. A cultura é o caso mais emblemático. No parlamento, o Governo sustenta-se, de fato, a partir de um núcleo duro que conta com o apoio rarefeito de uma franja parlamentar periférica, factível de alteração de postura a partir de uma agenda de interesses. De resto, “crises” são construídas ao sabor de manobras políticas em sincronia com a argamassa midiática. No contra-ponto, as pesquisas de opinião aferidas indicam os primeiros sinais da resposta da população à gestão de Wagner. Programas de infra-estrutura atingindo populações menos favorecidas são os principais responsáveis pelo aumento dos índices de aceitação do governo do PT. Menos aparentes e mais essenciais, tais políticas são o inequívoco atesto do vetor certo da governabilidade, fenômeno já registrado na esfera federal. Os passos seguintes dependerão da depuração política que se põe em curso a partir da definição, ou não, da candidatura ao Governo do até então principal partido aliado, o PMDB. É fato que a conquista da hegemonia política na Bahia por parte do campo efetivamente democrático-progressista passa, sobretudo, pela resolução das contradições internas que abarcam não só o interior da máquina do Estado assim como seu aparato de sustentação parlamentar. O mais importante é que este projeto se consolide a partir da principal e necessária aliança que deve ser construída, e esta se dá entre a sociedade organizada e o governo de Jaques Wagner, aliança que também será fundamental na esfera federal à eleição da ministra Dilma Roussef à Presidência da República. A Bahia está buscando sepultar o ancien régime para a edificação de uma nova sociedade balizada na radicalização da democracia nas suas relações sociais, políticas e econômicas. Um parto necessário aos cidadãos e cidadãs desse Estado.

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