Eu estava lá



E lá se foram 30 anos. No final da semana passado transcorreu o trigésimo aniversário do Congresso de Reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE). Foi uma festa bonita e emocionante e, por que não dizer, tensa. Milhares de estudantes universitários de todos os locais do país resolveram romper o silêncio e se encontrar nos dias 29 e 30 de maio de 1979 no Centro de Convenções de Salvador, num prédio ainda em construção. Com o ato, puseram fim, de fato, a 13 anos de ilegalidade da UNE e engrossaram as fileiras dos que iniciaram a pressão para derrubar o Regime Militar, que se aboletara no poder desde 01 de abril de 1964. Eu estava lá. Tinha 16 anos e vivi aqueles momentos. Foi meu despertar para a militância política. Era estudante secundarista no Colégio Ypiranga e por meio da influência do meu pai Zé Carlos e do meu tio Paulo Cunha (in memoriam) já engatinhava algumas noções políticas.
Lembro que duas semanas antes do congresso fui contatado por dois colegas que falaram de uma reunião preparatória para soerguer a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES). A estratégia era aproveitar a mobilização dos universitários em torno da UNE e organizar os secundaristas para retomar sua entidade, que fora cassada pelo mesmo ato que extinguiu a UNE. A procura pela minha pessoa deveu-se, presumo, às opiniões políticas que sustentava em sala, principalmente nas aulas de História. Topei participar. Antes, fiz uma discussão no pátio do colégio com alguns colegas das diversas séries. Assumi a condição de delegado-observador entre as lideranças secundaristas de Salvador.
Dirigi-me então ao congresso tendo tio Paulo como parceiro. Emoção e apreensão ao chegar ao Centro de Convenções. A alegria de ver aquele mosaico de bandeiras e centenas de ônibus estacionados que haviam trazido milhares de companheiros confundia-se com o medo de uma inesperada invasão por parte das forças de repressão. Aos poucos o medo foi cedendo lugar à euforia dos gritos e palavras de ordem. “Abaixo a ditadura” e “anistia ampla, geral e irrestrita” eram as mais proferidas.
Naqueles dias comecei a entender que todos gritavam juntos, mas também brigavam muito entre si. As divisões na esquerda me deixavam perplexo. Cada um que se pronunciava defendia a posição de uma tendência, como eram chamados os grupos organizados dentro do movimento estudantil. “Caminhando”, “Liberdade e Luta”, “Refazendo”, “Novo Rumo”, “Centelha” eram alguns desses grupos. Na verdade, cada uma era um partido clandestino aflorado no movimento estudantil.
Enquanto isso nas plenárias as discussões acaloravam-se. Algumas correntes queriam eleger ali mesmo o novo presidente da UNE; outras exigiam um debate maior entre os estudantes. As eleições ocorreram em outubro daquele mesmo ano e o estudante de Jornalismo da UFBA Ruy Cezar foi eleito, o primeiro após a reorganização da entidade.
Depois daquele congresso minha vida não foi mais a mesma, nem a da minha mãe que passou a se preocupar sobremaneira com minhas movimentações. Tinha razão, a repressão, ainda que mais branda, não arrefecera. Em pouco tempo já militava no braço acadêmico da Ação Popular Marxista Leninista (APML). Fui “batizado” à época pelo então estudante de Economia João Carlos, hoje professor de Filosofia da UFBA; e tive como “padrinho” o vestibulando Nelson Pelegrino, posteriormente advogado trabalhista, deputado federal pelo PT e hoje secretário de Justiça do governo Wagner. Foi um tempo bonito.

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