À busca da bala de prata



A agenda monotemática dos jornalões e revistas semanais do país nos últimos dias encontra-se, ao que parece, dissociada do Brasil real. Como se fosse um jogral ensaiado, as matérias, chamadas de capa e os comentários da plêiade de colunistas “notáveis” convergem à obsessiva vontade de desequilibrar o jogo eleitoral. A cada semana um “fato novo” surge para ornar os desgastados espaços dos chamados formadores de opinião. Ainda assim, é na díade grande imprensa/colunismo que a oposição partidária, com o auxílio luxuoso da esquadra midiática, está lançando as fichas na esperança de deslocar a eleição presidencial para o segundo turno. Neste mosaico noticioso o agendamento resume-se à quebra do sigilo da filha do candidato José Serra às acusações do suposto tráfego de influência do filho de Eunice Guerra, ministra-chefe da Casa Civil. A partir daí, enquadramentos açodados espraiam-se nas páginas e telas da midiosfera. Na falta de provas, servem ilações e suposições turbinadas por achismos recheados de argumentações. E, sim, nenhuma palavra ou linha que comprometa o projeto natimorto da candidatura abraçada. Sejam os escândalos de espionagem no governo do PSDB de Yeda Crucius, no Rio Grande do Sul, ou o envolvimento de Verônica Serra e outros tucanos na lama da privataria da era FHC. Tudo à margem e sem o outro lado. É jogo para ser jogado com regras previamente combinadas. Entre eles. Quais sejam: Marinho, Civita, Mesquita, Frias e cia. A aposta é que a teoria da pedra no lago ainda funcione. O escândalo político capitaniaria a agenda temática de pessoas capazes de influenciar outras, perfazendo assim ondas de opiniões favoráveis à tese oposicionista, que seria compreendida e assumida pela maioria da população. O tabuleiro eleitoral estaria então virado. Mas falta combinar com o eleitor. Ficam risíveis os esforços empreendidos pela grande mídia. E em particular seus colunistas que escrevem para si e seus patrões. Apenas. Ou algum deles aposta numa comoção popular a partir da sua coluna? Sem chances. Em tempos de redes sociais e comunicação multidirecional, a construção e desconstrução de argumentos se dá em ciclos rápidos. A arquitetura noticiosa está redesenhada. Formar opinião em grande escala se torna tarefa muito mais difícil. Sobretudo quando esse movimento se dá em meio a uma midiosfera contagiada pelo calor de uma disputa eleitoral. Resta então aos “formadores de opinião” um campo limitadíssimo de influência. Agora são muitos lagos com milhares de pedras lançadas de todos os lados. É este o calcanhar de Aquiles que tem prendido os passos da oposição midiática, somando-se, claro, a outros fatores, como o desejo generalizado de continuidade por parte da maioria da população. Ataques virulentos a um projeto político de ampla aceitação – a popularidade do presidente atinge a marca de 81%! – pode resultar em tiros no pé. Acrescente-se o fato de que o candidato oposicionista com melhor projeção nas pesquisas – variando entre 20% e 26% das intenções de voto -, José Serra, chega a estrondosa rejeição de 41,7%. Não existe alquimia discursiva capaz de provocar grandes mudanças. No mais, aguardemos nos próximos dias mais “fatos novos” gestados nos aquários das redações, também encarregados de fornecer capas de revistas e títulos de jornais necessários à campanha oposicionista. É neles onde as “balas de prata” são engatilhadas mirando mudar o curso dos fatos políticos. Logrará êxito? Até o momento as pesquisas têm indicado que não. Três semanas serão suficientes para atestar se o enredo do escândalo político midiático ainda tem alguma força. Até agora, a imprensa corporativa vai se mostrando impotente para conter a militância na blogosfera e mudar a opinião de milhões de brasileiros para os quais ela se dirige e, ao que tudo indica, lhes têm ignorado solenemente.

Comentários

Rodrigo Marques disse…
O poder que a internet exerce realmente está transparecendo. Os factóides são como balões de festas que são inflados, mas que nunca estouram. São esvaziados e novos tomam os seus lugares. Tudo em vão.
A "bala de prata", por incrível que pareça, é tema do comentário de Noblat, hoje. O discurso é confuso, mistura as denúncias com a popularidade de Lula para justificar a vantagem de Dilma nas pesquisas.

Mas, um bom começo, o Noblat assume que a mídia corporativa está fabricando a "bala de prata".

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